30 junho 2008

A Filosofia do Século XX e sua Repercussão no Brasil

O Brasil, ao longo se sua história, recebeu influência de diversas correntes filosóficas. O presente estudo está concentrado em cinco: neotomismo, neokantismo, neohegelismo, marxismo e positivismo de Comte.

neotomismo é o movimento filosófico que começa no século XIX como "um retorno à doutrina de Tomás de Aquino" ou revalorização do aristotelismo de Tomás de Aquino. No Brasil, o primeiro marco é a fundação da Faculdade de Filosofia S. Bento, em São Paulo, pelos monges beneditinos, em 1908. Durante o período republicano circunscreveu-se a reduzido número de intelectuais, por causa do desprestígio da Igreja. Somente na década 20 do nosso século retomaria o "o surto tomista". Dentre os propagadores dessa filosofia, citamos: Jacques Maritain, Leonardo Van Acker, Alexandre Correia (1890), Maurício Teixeira Leite Penido (1845) e Eduardo Prado de Mendonça.

neokantismo é a tendência de superar o pensamento positivista do século XIX retornando à filosofia crítica de I. Kant. Miguel Reale aponta quatro momentos em que o Kantismo penetrou no Brasil: a) o Kantismo às vésperas de nossa Independência Política; b) Kant exerceu influência em São Paulo através do krausismo, ou seja, além da repercussão filosófica tinha também um cunho político; c) Tobias Barreto difundiu o conceito de Kantismo, na Escola de Recife; d) por último, em nosso século a influência do neokantismo ocorre, sobretudo, no campo da Filosofia do Direito, na teoria do conhecimento, na teoria da História e na redução da Filosofia à uma mera teoria da ciência.

neoidealismo ou neohegelianismo é um movimento de reação contra o positivismo, baseado num idealismo gnoseológico. Enquanto o neokantismo põe limite ao pensamento, o neoidealismo amplia-o ao infinito. Luis Castagnola considera Renato Cirell Czerna, discípulo de Miguel Reale, o cultor do idealismo no Brasil. Além de Renato Cirell, Romano Galeffi, professor de Filosofia da Arte na Universidade Federal da Bahia, e Otto Maria Carpeaux, austríaco exilado no Brasil, contribuíram para o desenvolvimento das ideias hegelianas aqui em nossa terra.

marxismo é a doutrina dos filósofos alemães Marx e Engels, fundada no materialismo dialético, na luta de classes e na relação capital trabalho. É impossível acompanhar todas as traduções de obras de autores marxistas publicadas em nosso país. De acordo com Antonio Paim, em seu livro História das Ideias Filosóficas no Brasil, o marxismo jamais despertou, no Brasil, qualquer movimento teórico de envergadura, nem depois da formação do partido político que pretende encarná-lo. Entre os pensadores marxistas brasileiros, lembramos de Caio Prado Jr. e Leôncio Basbaum.

positivismo é o conjunto de doutrinas de Auguste Comte caracterizado, sobretudo, pelo impulso que deu ao desenvolvimento de uma orientação cientificista ao pensamento filosófico. A influência do Positivismo no Brasil perdura até hoje, principalmente na Religião e na Política. O regime político-militar instaurado em 1964, em sua concepção geral, é de inspiração positivista. Durante o Império e o início da República, o positivismo conseguiu uma expressão maior no Brasil que na própria França. Constituiu-se em verdadeira Religião. Augusto chegou a ser venerado pelos positivistas da mesma maneira como os católicos veneram Jesus Cristo.

Como vemos, as ideias não têm pátria. Pode nascer em um lugar, mas o seu desabrochar depende de tempo e circunstância.

Fonte de Consulta

ZILLES, U. Grandes Tendências na Filosofia do Século XX e sua Influência no Brasil. Caxias do Sul, EDUCS, 1987.

 

O Método

método, em sentido amplo, significa o processo que permite conhecer determinada realidade, produzir certo objeto, ou desempenhar este ou aquele tipo de comportamento. Confundindo-se com a noção de meio para se obter determinado fim, coincide, também, com a noção de técnica, de saber fazer. Quer se refira ao conhecimento do real, à produção de objetos belos ou úteis, ou à disciplina de conduta, o método é sempre o meio ou a técnica que se emprega para alcançar um objetivo previamente estabelecido.

A noção de método acha-se ligada à noção de trabalho. Desde a antiguidade até os nossos dias a humanidade procura técnicas adequadas para a aquisição e a transmissão do conhecimento. O pescador só é pescador porque "sabe", ou seja, domina a técnica de jogar a rede e levar o peixe ao mercado. Da mesma forma é o agricultor que "sabe" arar, semear e colher no momento certo. Observe que no próprio método está implícito a racionalização da técnica, visando, sempre, um aumento de produtividade.

A elaboração do método não pode ser anterior ao descobrimento do objeto. Geralmente, partimos do conhecido para o desconhecido, porque temos antecipadamente uma ideia do que pretendemos descobrir. A invenção do microscópio e do telescópio, por exemplo, só foi possível depois de se estabelecerem as hipóteses da existência de elementos muito pequenos ou muito grandes, e que não podiam ser vistos a olho nu.

As ciências particulares distinguem-se uma das outras em função do objeto analisado e do método empregado. O objeto corresponde ao setor da realidade a cujo estudo se dedicam e o método ao processo, ou conjunto de processos, que empregam na realização desse estudo. Nesse sentido, a física é uma ciência particular porque estuda uma parcela da realidade, ou seja, o conjunto dos fenômenos que não alteram a constituição íntima dos corpos. Distingue-se, ainda, das outras ciências não só pelo objeto, os fenômenos físicos, mas também pelo método, a observação e a experiência.

A filosofia acrescenta ao método e objeto próprios da ciência a noção de totalidade, ou seja, a busca das causas primeiras e dos fins últimos do objeto considerado. Além disso, emprega o método da reflexão, que nada mais é do que uma meditação profunda sobre os postulados que a ciência aceita sem discutir. Dessa forma, o postulado do movimento que a física aceita sem discutir, por ser evidente aos sentidos, é motivo de problematização para a filosofia. Assim, mover-se é estar e não estar ao mesmo tempo no mesmo lugar, o que foi e é, ainda, motivo de contradição para os filósofos.

Sejamos disciplinados em nosso método de trabalho. A constância forma uma segunda natureza que nos põe a salvo nos momentos críticos de nossa existência.

Fonte de Consulta

CORBISIER, R. Enciclopédia Filosófica. 2. ed., Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1987.


Hermenêutica — Interpretação de Texto

O termo hermenêutica significa declarar, anunciar, interpretar ou esclarecer e, por último, traduzir. Esta multiplicidade de acepções coincide num único ponto: mostrar que alguma coisa é "tornada compreensível" ou "levada à compreensão". Assim, a palavra aplica-se, sobretudo, à interpretação daquilo que é simbólico, especialmente a Bíblia (hermenêutica sagrada). Pode-se dizer também que a hermenêutica é a tentativa de esclarecer um enunciado obscuro.

Hermenêutica vem de hermeneuein e hermeneia, o que nos remete a Hermes, o deus-mensageiro-alado que, segundo os gregos, foi o descobridor da linguagem e da escrita, ferramentas que a compreensão humana utiliza para chegar ao significado das coisas. Na sua origem etimológica, a palavra sugere três significados: 1) exprimir em voz alta, ou seja, "dizer"; 2) explicar, como quando se explica uma situação; 3) traduzir, como na tradução de uma língua estrangeira. Os três significados podem ser expressos pelo verbo português "interpretar", mas cada um tem a sua significação própria e relevante.

Observando a sua evolução histórica, percebemos que modernamente a hermenêutica absorve seis definições: 1) uma teoria da exegese bíblica; 2) uma metodologia filológica geral; 3) uma ciência de toda a compreensão linguística; 4) uma base metodológica do Geisteswissenschaften; 5) uma fenomenologia da existência e da compreensão humana; 6) sistemas de interpretação, simultaneamente recolutivos e iconoclásticos, utilizados pelo homem para alcançar o significado subjacente aos mitos e símbolos. Sintetizando: ênfase bíblicafilológicacientíficageisteswissenschaftlicheexistencial e cultural.

O bom ouvinte deve prestar atenção ao que se disse e mais ainda ao que não se disse. Explica-se: centrarmo-nos exclusivamente na positividade daquilo que é explicitamente dito no texto é fazer injustiça à tarefa hermenêutica. A hermenêutica exige que se deve ir além do texto, para encontrar aquilo que o autor não disse, e que talvez não pudesse dizer. Recomendação: além da linha veja a entrelinha; além do texto, o contexto.

Interpretar uma obra significa caminhar para o horizonte interrogativo no qual o texto se move. Mas isso significa também que o leitor se move para um horizonte em que outras respostas são possíveis. Isso mostra que todo o acontecer é singular, como bem enfatizava Bérgson em sua Evolução Criadora, ou seja, a leitura deve nos levar para outras percepções do tema tratado. Nesse sentido, o texto tem que iluminar o horizonte do intérprete; caso contrário, o processo de sua compreensão é um exercício vazio e abstrato.

O comunicador — escritor, professor ou orador — deve sempre estimular a criatividade no modo de pensar de seus ouvintes, a fim de que estes descubram novas formas de interpretar o mesmo tema.

Fonte de Consulta

PALMER, Richard E. Hermenêutica. Tradução de Maria Luisa Ribeiro Ferreira. Rio de Janeiro: Edições 70, 1989 (O Saber da Filosofia)

 

Identidade

Entre os lógicos, a lei de identidade costumava ser expressa desse modo: A é A. Em vista, porém, da ambiguidade que cerca essa cópula, a própria lei se torna ambígua e tautológica. O melhor enunciado é o seguinte: A é A necessariamente, mas só enquanto é A. em outras palavras, enquanto A é A, não pode ser simultaneamente não A.

Juntamente com o princípio de identidade, temos o princípio da contradição e o princípio do terceiro excluído. Enunciado da contradição: impossível é afirmar e negar o mesmo de algo sob o mesmo aspecto, e simultaneamente; ou melhor: o que é não pode ser simultaneamente o que não é, porque é o que é. Enunciado do terceiro excluídoA é B, ou não é B. Neste caso seria falso que A é B como também seria falso que A não é B, o que violaria o princípio de contradição.

A dialética procura identificar a verdade dos fatos. Parte das premissas do seu interlocutor para demonstrar a sua própria tese. As teses opostas dos interlocutores não podem ser, portanto, ambas verdadeiras e se eu puder por outrem em contradição consigo próprio, obrigo a abandonar a sua tese. Por isso, para aprender com êxito, são necessários a discussão e o diálogo socrático. O homem que pensa somente por si parece-se ao caminhante no deserto, que depois de muito andar volta ao ponto de partida, porque o corpo fê-lo andar em circunferência, quando ele imaginava andar em linha reta.

O estigma é uma deterioração da identidade. Não são poucas as pessoas estigmatizadas por si mesmas ou por outrem. Além do mais, não é tarefa fácil saber quem estigmatiza quem na sociedade. É o caso da menina que nasceu sem o nariz. Por mais que ela queira se ajustar à sociedade, não consegue. Não consegue porque ela leva consigo essa marca, ou porque as pessoas a tratam de forma inconveniente? A questão racial está incluída no mesmo processo. Há, também, a influência do marketing televisivo, que não nos deixa ver o fundo da verdade.

Como, então, identificar a verdade de um fato? A auto-aceitação e uma vida isenta de defesas fornecem-nos bom material. Aceitando-nos tais quais somos, capacitamo-nos a olhar o mundo de forma mais sensata e sem ilusão; estando sem defesas, não precisamos criar imagens que nos estigmatizam perante os outros. Estas duas atitudes conduzem-nos à humildade, o fundamento de todas as virtudes. Somente o verdadeiro humilde consegue penetrar no fundo das verdades, porque é somente ele que consegue renunciar à sua própria personalidade.

Tenhamos confiança na Divina Providência. Saibamos sofrer as agruras de nosso destino, sem nos deixarmos sufocar pelos voos débeis de nossa imaginação.

Fonte de Consulta

HEGENBERG, L. Dicionário de Lógica. São Paulo, EPU, 1995

SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. ed., São Paulo, Matese, 1965

THINES, G. e LEMPEREUR, A. Dicionário Geral das Ciências Humanas. Lisboa, Edições Julho/1984.


Filosofia do Espírito

Filosofia do Espírito é uma disciplina filosófica que trata dos fenômenos mentais, ou seja, dos fenômenos que envolvem exclusivamente seres capazes de consciência. A Filosofia do Espírito entrelaça-se com outras áreas da Filosofia. Por exemplo, quando a filosofia das artes trata de experiências estéticas, a da teoria do conhecimento de experiência sensorial, a da religião de experiências místicas, todas encontram-se com a Filosofia do Espírito. A Filosofia do Espírito, que é hoje frequentemente chamada de psicologia filosófica, relaciona-se também com a Psicologia (ciência empírica). Quer dizer, enquanto a primeira trata da análise dos conceitos da consciência e de fenômenos mentais específicos, a segunda procura estudar empiricamente os fenômenos a que se referem tais conceitos de preferência à investigação conceptual de tais conceitos.

A Filosofia do Espírito foge da divisão tripartida, a qual classifica os fenômenos mentais em cognição, afeição e volição. Suas contribuições mais importantes têm dado ênfase à descoberta das diferenças entre os fenômenos que até aqui tem sido considerados como pertencentes à mesma espécie. Observe que o prazer e a dor são frequentemente considerados como extremidades opostas de uma única dimensão de sensação que só se distinguem pela gradação. Já os filósofos contemporâneos, tendo à frente Gilbert Ryle, chamaram a atenção para o fato de que enquanto a palavra "dor" é o nome dado a uma sensação do corpo, o "prazer" já não é o nome de uma sensação. É que a dor é local, enquanto o prazer não o é.

O problema da autoconsciência do homem já vem de longa data. Desde Sócrates com o conhecimento de si mesmo, passando pelos psicólogos com a autoanálise, estamos sempre preocupados com a volta do ser para sobre si mesmo. Se quiséssemos resumir esses dois mil e quinhentos anos, veríamos que todos estudos da consciencização se enquadram nos relatos da 1ª pessoa, que resulta das coisas que se passam conosco e o relato na 3ª pessoa ou coisas que se passam com os outros.

A consciência, como vimos acima, implica estudá-la sob a ótica da 3ª e da 1ª pessoa. Analisando-a na 3ª pessoa, notamos que ela leva em conta o que o outro sente ou diz sentir; na 1ª pessoa, é o próprio ser que a exprime. Assim, quando eu sinto dor, é um estado íntimo, mas quando o outro diz que a sente é um comportamento. Quer dizer, a dor para nós é real, enquanto para o outro é apenas uma impressão daquilo que estamos lhe contando. Por isso, a dificuldade de olharmos os outros pelo nosso prisma pessoal. Será que a dor que ele sente é a mesma que eu estou supondo que ele está sentindo?

A Filosofia do Espírito trata também da ação. Poderíamos perguntar: o que leva uma pessoa a mover uma peça no jogo de xadrez? É substancialmente o conhecimento das regras desse jogo. Então, de acordo com as regras, a minha ação envolve três assertivas: boa, má ou indiferente. Será boa quando contribuir para eu vencer o adversário; má, quando eu permitir que ele me vença; indiferente, quando se move uma peça por mover. Do mesmo modo são os nossos atos com relação ao semelhante. Podemos fazer-lhe o bem, o mal ou sermos indiferentes.

A Filosofia do Espírito é uma filosofia do consciente. Não resta dúvida que para a exercitarmos fielmente, devemos ser cada vez mais conscientes de nós mesmos.

Fonte de Consulta

SHAFFER, J. A. Filosofia do Espírito. Rio de Janeiro, Zahar, 1970.




Filosofia Cristã

Até a vinda de Cristo, a Filosofia, em sentido histórico, seguia o seu curso normal, ou seja, cada novo filósofo acrescentava algo ao anterior. Foi desta maneira que do método socrático, passamos à dialética platônica e desta à lógica aristotélica. Em termos de ideias, Platão e Aristóteles assumem papel relevante, pois os conhecimentos por eles proferidos servem ainda de bálsamo para mitigar o niilismo dos dias atuais.

Cristo não veio à Terra para acrescentar algo à filosofia existente; sua missão consistia em desvendar os mistérios do reino dos céus consoante a revelação divina. A denominação de filosofia cristã, cujo problema central é a conciliação das exigências da razão humana com a revelação divina, nada mais é do que a filosofia que, influenciada pelo cristianismo, predominou no Ocidente, principalmente na Europa, no período que se estende do século I ao século XIV de nossa era. Compreende dois períodos distintos: a filosofia patrística (séc. I ao V) e a filosofia escolástica (séc. XI ao XIV).

filosofia patrística, que vai do século I ao V, foi influenciada por Platão. O apogeu desta filosofia teve o contributo de Santo Agostinho (354-430), o maior filósofo da era patrística, e que marcou mais profundamente a especulação cristã. Santo Agostinho reinterpreta a teoria das ideias de Platão, modificando-a em sentido cristão para explicar a criação do mundo. Deixou formulado - indicando o caminho para a sua solução - o problema das relações entre a Razão e a Fé, que será problema fundamental da escolástica medieval. Ao mesmo tempo demonstra claramente sua vocação filosófica na medida em que, ao lado da fé na revelação, deseja ardentemente penetrar e compreender com a razão o conteúdo da mesma.

filosofia escolástica, que vai do século XI ao XIV, foi influenciada por AristótelesSão Tomás de Aquino (1221-1274) representa o apogeu desta filosofia na medida em que conseguiu estabelecer o perfeito equilíbrio nas relações entre a Fé e a Razão, a teologia e a filosofia, distinguindo-as mas não as separando necessariamente. Ambas, com efeito podem tratar do mesmo objeto: Deus, por exemplo. Contudo, a filosofia utiliza as luzes da razão natural, ao passo que a teologia se vale das luzes da razão divina manifestada na revelação.

As causas da decadência da escolástica são externas e internas. As causas externas são principalmente as condições sociais, políticas e religiosas da época que suscitaram o desenvolvimento do individualismo, do liberalismo e do racionalismo. As causas internas são, sobretudo, a inexistência de espíritos criadores, a paixão pelas sutilezas inúteis, o desprezo pela forma e a hostilidade de alguns filósofos contra as ciências experimentais que, nessa ocasião, começavam a florescer.

A filosofia cristã influenciou o pensamento da humanidade por muitos e muitos anos. Saibamos interpretá-la de modo racional, a fim de que não sejamos tragados pelos silogismos veiculados pelos seus pensadores.

Fonte de Consulta

REZENDE, A. (Org.). Curso de Filosofia: para Professores e Alunos dos Cursos de Segundo Grau e de Graduação. 6. ed., Rio de Janeiro, Zahar, 1996.

SANTOS, T. M. Manual de Filosofia - Introdução à Filosofia Geral - História da Filosofia - Dicionário de Filosofia. 10. ed., São Paulo, Editora Nacional, 1958.

Compilaçãohttps://sites.google.com/view/temas-diversos-compilacao/filosofia-crist%C3%A3-e-espiritisimo



Fé e Esperança

Os gregos da antiguidade falavam de uma tímese parabólica (do gr. timese, apreciação e parabole, comparação), apreciação por comparação. Essa tímese parabólica é a apreciação que o homem faz de alguma coisa, comparando-a com a sua forma perfectiva suprema. Quer dizer, o homem, por sua própria natureza, é um sonhador de formas sempre mais perfeitas e mais belas. Seu principal trabalho consiste em atualizar as virtualidades que existem dentro de si mesmo.

Muitos afirmam que o fator econômico é que determina a ação humana. Será isso verdade? Não são poucos os que confundem Marx com o marxismo, Cristo com o cristianismo, Descartes com o cartesianismo. Porém, como explicar a conduta de um Tolstoi, que empregou toda a sua fortuna para educar crianças pobres, de um Malatesta, doando todos os seus bens em benefício de hospitais para pobres, de um Francisco de Assis optando pela vida de pobreza? Serão todos eles impulsionados pelo fator econômico?

O homem difere do animal. Nele há algo que se chama transcendentalidade, ou seja, o anseio pela emancipação da alma, pela busca do sagrado, do mistério, do chamado "sobrenatural". É, pois, dentro desse ímpeto de atualizar valores mais altos que surge a esperança, a fé e a caridade. A esperança — transcender a imanência de nossa consciência; a  — assentimento firme numa verdade não evidente de per si, sem receio de erro, que em nós desponta sem que nada façamos para tê-la; a caridade — que é o bem amado de nossos semelhantes.

Uma das características fundamentais do ser humano é a sua capacidade de dizer não. E o dizer não pode levar o homem ao "pecado". "Pecado", não por dizer não, mas por dizer não quando deveria dizer sim, ou seja, quando os imperativos da lei natural obrigam-no a agir de acordo com o bem e ele age de acordo com o mal. "Peca", assim, quando prefere o vituperável ao digno, quando escolhe o erro à verdade, quando se nega a cumprir o seu dever.

Optando pelo mal, transgredimos a lei natural, e devemos sofrer as suas consequências. Mas, a fé num Deus Supremo, a expectativa de melhoria interior e a caridade para com o próximo podem abreviar os dias de sofrimento e retornarmos mais rapidamente ao caminho da perfeição. Não percamos tempo em aceitar as injunções de muitos poderosos da terra que opinam sobre tudo, inclusive, sobre as questões da fé, sem a ponderação de uma reflexão mais acurada. Não sejamos semelhantes ao cirurgião francês, que disse não existir o espírito, porque nunca encontrou um na ponta de seu bisturi.

Urge, nos dias que correm, robustecer a nossa fé, emprestando-lhe um caráter racional. Sabemos que a fé e a esperança são inatas no ser humano, mas essas virtudes teologais precisam de ser exercitadas com o apoio da razão.

Fonte de Consulta

SANTOS, M. F. dos. Análise de Temas Sociais. São Paulo, Logos, 1962.


Textos de Filosofia















14 Razões para se Ler os Clássicos, Segundo Ítalo Calvino

Ação Humana
Ação Livre
Acesso ao Conhecimento: do Mito ao Logos
Acessório e o Essencial, O
Advento do Cristianismo, O
Adversidade
Agostinho e o Platonismo
Alcibíades
Alegoria do Novo Mundo
Amor Segundo Alguns Filósofos
Análise Filosófica
Anotações sobre os Números
Ansiedade e Budismo
Antroposofia
Aparência e Realidade
Apetide e Beatitude
Apologia de Sócrates
Aprender a Desaprender
Aristóteles e o Problema da Justiça
Arrependimento
Astúcia Estóica
Atitude
Atividade Fecunda
Ativo ou Reativo?
Auto Ajuda
Autoconhecimento
Autodefesa Intelectual
Auto-Imagem
Autopercebimento
Autoridade em Filosofia, A
Avesso da Liberdade

Banquete de Platão, um Resumo, O
Barbarismo e Destruição do nosso Ciclo Cultural
Barbarismo e Intelectualidade
Beleza e Religião
Beleza Segundo Alguns Filósofos
Bíblia e Filosofia
Blablablá e Pensamento
Blogs e Sites do Autor
Budismo

Cegueira do Real
Cérebro: Fatos e Crenças
Cérebro, Mente e Computador
Cérebro e Pensamento
ChatGPT e o Pensar, O
Ciência
Ciência Cognitiva e Mudança de Mentalidade
Ciência e Filosofia
Ciência, Filosofia e Religião
Como se Deve Viver Segundo Alguns Filósofos
Complexidade e Eventos Extremos
Complexos Têm Cura, Os?
Conceito de Filosofia
Concentração e Barulho Externo
Concepção de Mundo: Os Gregos e o Cristianismo
Conhecimento e Compreensão
Conhecimento e Interpretação
Consciência e Autoconsciência
Consciência e Conhecimento
Consciência da Liberdade
Consenso
Construtor do Destino
Contos e Enigmas Filosóficos
Coragem
Corpo Humano Segundo Alguns Filósofos
Correção do Intelecto
Crenças Primitivas
Criança e o Ensino de Filosofia
Crise
Crise e Mudança Paradigmática
Cruzadas
Cultura da Violência e o Princípio da Não-Violência

Da Consciência Ingênua à Consciência de Si
Da Hominização à Humanização
De Copérnico a Descartes
De Magistro
Definição
Descartes e a Filosofia Moderna
Descartes e o Método
Determinismo e Fatalidade
Deus Segundo Alguns Filósofos
Dialética
Dialética e Quaestio no Mundo Medieval
Diálogo Filosófico: Troca de Argumentos
Discurso e o Discurso
Divindade
Doutrinas sobre a Lei Natural

Educação Física e Educação Intelectual na Atenas Antiga
Educar Através de Perguntas
Educar para o Futuro
Em Busca do Mirandum
Empirismo e seus representantes, O
Empirismo e Racionalismo
Encheirídion
Enciclopedistas, Os
Ensino de Filosofia
Erro Filosófico
Escolástica: Quaestio, Lectio e Disputatio
Escolha e Concisão filosófica
Especulação Filosófica
Esporismo
Essência e Existência: a Interexistência
Estado Segundo Alguns Filósofos
Estoicismo
Estoicos e o Barulho do Vizinho, Os
Estruturalismo
Etapas da Metodologia Filosófica
Eterno Aprendiz, O
Ética, Genealogia
Ética a Nicômaco
Ética e Moral
Ética e Responsabilidade
Ética em Aristóteles
Eu e a Circunstância
Eu Sou, Eu Estou e Sinto-me Culpado
Eudaimonia
Exemplo dos Clássicos
Existência da Verdade Segundo Alguns Filósofos
Existência de Deus Segundo Alguns Filósofos
Existencialismo, Genealogia
Existencialismo Sartreano
Experiência e o Filosofar
Expressão Filosófica

Falibilidade: Controle e Ajustes
Falso Eu e Eu Verdadeiro
Fascínio dos Números
Fato e Juízo
Fé e Esperança
Fé e Razão Segundo Alguns Filósofos
Fédon
Felicidade em Aristóteles
Fenomenologia do Ethos
Filosofia: Algumas Notas
Filosofia Clandestina
Filosofia Clássica e o Helenismo
Filosofia como Esclarecimento
Filosofia Concreta
Filosofia Cristã
Filosofia da Religião
Filosofia do Espírito
Filosofia do Século XX e sua Repercussão no Brasil
Filosofia e Antifilosofia
Filosofia é Amor à Sabedoria?
Filosofia e o Filosofar
Filosofia e o Mundo do Trabalho
Filosofia e seu Ensino
Filosofia Medieval
Filosofia Oriental
Filosofia Política: Resumo de Livro
Filosofia Segundo Alguns Filósofos
Filosofia Transcende o Mundo do Trabalho
Filosofando...
Filósofo e o Verdadeiro Filósofo, O
Filósofos Pré-Socráticos, Os
Fins e os Meios, Os
Fogo
Fragmentação e Visão Holística
Freio Moral
Fronteiras da Consciência
Funcionamento da Mente Segundo Alguns Filósofos

Gênero e Espécie
Gênese do Progresso
Gigantografia e Niilismo
Giordano Bruno e a Heresia
Gnosticismo
Grandes Pensadores do Mundo
Graus da Consciência

Hegel e a Dialética
Hegel e o Idealismo Absoluto
Hegel e Marx
Hermenêutica
Hermenêutica - Interpretação de Texto
História da Filosofia: uma Síntese
História é Progresso Segundo Alguns Filósofos
Homem
Homem Comum e a Filosofia
Homem Segundo Alguns Filósofos
Horizontalidade e Verticalidade da Vida

Idade Média: Metafísica ou Teologia?
Ideia: Matéria-Prima do Filósofo
Identidade
Ideologia
Ideologia e Verdade
Iluminismo, O
Ilusão da Mudança
Imagem e Realidade
Imanência e Transcendência
Inconformismo de Marx
Introspecção
Intuição
Invenção da Imprensa e Conhecimento

Jung e o Ocultismo
Justiça e Igualdade

Koan

Le Bon e a Psicologia das Multidões
Leitura e Compreensão do Texto
Ler e Problematizar
Liberdade, Doutrinas Filosóficas e Religião
Linguagem e Filosofia
Linguagem Segundo Alguns Filósofos
Lógica
Lógica e Argumentação
Lógica e Bom Senso

Mantra
Martinho Lutero e as 95 Teses (Reforma Protestante)
Matéria Segundo Alguns Filósofos
Mecanicismo e Relatividade
Mecanização da Vida
Medo e Motivação
Memória: do Inconsciente ao Consciente
Memória e Repetição
Mentalidade
Mente e Experiência
Mente Criadora
Mente Rígida e Autocrítica
Mentira
Mestre Ignorante
Metafísica
Metafísica e Número
Metáfora do Trilho, A
Método
Método Científico Segundo Alguns Filósofos, O
Método da Filosofia
Método e o Ensino de Filosofia, O
Método Socrático-Agostiniano
Místicos na Idade Média, Os
Mito
Mito da Caverna
Mito e Mística
Mito-Logos, Simbiose
Montaigne: Ensaios
Moral
Moral e Política Segundo Alguns Filósofos

Não-Dualidade e Fim do Sofrimento
Nascimento da Sociedade Segundo Alguns Filósofos...
Necessidade de Conhecer os Outros, A
Nietzsche e sua Crítica da Razão e da Moral
Niilismo
Notas sobre a Autoridade
Novo Cérebro: Mudar Respostas
Novo Pensamento e Movimento do Novo Pensamento
Número: Unidade e Diversidade
Números Dominam o Mundo
Nuvens: Aristófanes, As

Objetivismo e Modo de Vida Correto
Objetivo e Subjetivo
Ócio e o Filosofar, O
Opinião e Conceito
Ordem e Desordem
"Organon" Lógica de Aristóteles
Origem da Filosofia: Do Mito à Razão
Origem das Coisas Segundo Alguns Filósofos
Origem do Conceito de Filosofia
Origem dos Números
Origens da Filosofia
Otimismo e Pessimismo

Paidéia Grega e Formação Cultural
Paradigma
Paradoxo
Parte e o Todo, A
Pascal e sua Obra, os Pensamentos
Patrística
Paz Possível Segundo Alguns Filósofos
Pena de Morte e Bem Comum
Pensamento
Pensamento e Fisiologia do Pensamento
Pensamento e Vontade
Pensamento Helenístico
Pensamento Ocidental e o Taoísmo
Pensamento Positivo — ou Negativo?
Pensamento Precede a Ação
Pensar a Vida
Pensar, como
Pensar Direito
Pensar por nós Mesmos
Pensar por si Mesmo
Pergunta
Platão e Aristóteles
Politeia de Zenão
Política e o Governo Segundo Maquiavel
Poluição Virtual
Posição e Oposição
Positivismo: Comte
Posso Ser Diferente do que Eu Sou?
Possuir de Fato e de Direito
Pré-história
Pré-Socráticos: Quatro Termos
Princípios
Princípios Filosóficos e Científicos
Princípios Gerais
Problema e Filosofia
Problema Está em Nós, O
Problemas Filosóficos
Problemas Filosóficos e Religião
Processo de Sócrates, O
Prudência
Pseudoprofundidade
Psicanálise e Símbolo

Quatro Compromissos
Quatro Conceitos dos Pré-Socráticos
Que é e o Que Deve Ser
Que é Pensar?
Que é um Conceito?
Questionamento e Filosofia
Questões Existenciais Segundo Alguns Filósofos
Química da Felicidade

Racionalidade Filosófica e Racionalidade Científic...
Racionalismo, O
Razão e Sanidade Mental
Razões do Inconsciente
Realidade Segundo Alguns Filósofos
Reconstruir o Conhecimento
Reflexão
Reflexão e Sabedoria
Renascimento, O
Renovação Mental
Retórica Filosófica
Revolução Científico-Tecnológica
Revolução Kantiana do Saber
Rito, O

Salvação Segundo Alguns Filósofos, A
Santo Agostinho e a Potencialidade da Alma
Santo Agostinho e São Tomás de Aquino
Sapere Aude
Sêneca, Lições
Sentimento: uma Forma de Ver
Ser e a Metafísica
Significado de Conhecer Segundo Alguns Filósofos
Significado de Pensar Segundo Alguns Filósofos
Símbolo e Simbologia
Simplificar a Vida: Externa e Interna
Sobre o Pensamento Positivo
Só sei que nada sei (2019)
Só Sei que Nada Sei (2025)
Sociedades Secretas
Sócrates como "Parteira"
Sócrates e a Responsabilidade
Sócrates Foi um Verdadeiro Filósofo
Sócrates: Posições Filosóficas
Sócrates e a Morte
Sócrates e o Processo Pedagógico
Sofistas, Os
Sofistas e os Deuses, Os
Sofística e os Sofistas
Solidão
Sonho, Vigília e Loucura Segundo Alguns Filósofos
Sonhos e os "Demônios" de Sócrates, Os
Substância Segundo Alguns Filósofos
Suicídio e Filosofia

Tédio: Significado e Transgressão
Temos o que Somos
Temperança
Tempo Segundo Alguns Filósofos, O
Tempos de Transição
Teoria
Teoria e Prática
Teosofia
Termos Filosóficos Gregos
Thomas Hobbes e o Leviatã
Trivium e as Artes Liberais, O

Um Curso de Filosofia
Universais, Os
Universo e Visão de Mundo
Uno, o Múltiplo e as Religiões, O
Utilidade e Utilitarismo
Utilitarismo e Felicidade
Utopia

Valor
Valor da Filosofia
Valor e Juízo de Valor
Verdades Eternas
Verdadeiro Filósofo
Vida: Desenvolvimento da Consciência
Vida: Essência e Existência
Vida Segundo Alguns Filósofos
Vingança e Perdão
Violência e Educação
Virtude e as Virtudes, A
Virtude em Aristóteles
Virtudes Cardeais
Viver em Comunidade
Viver sem Defesas
Voltaire: Cândido ou Otimismo

Wittgenstein, Heidegger e Dewey

Zaratustra
Zen-Budismo e o Koan

Fascínio dos Números

Os números sempre exerceram um fascínio muito grande sobre os seres humanos de todos os tempos. De acordo com sua definição, número significa divisão. Esta divisão engloba o zero, o um e o infinito. O relacionamento entre essas três grandezas nos mostra o caráter metafísico e divino do número. A Bíblia nos diz que Deus ordenou todas as coisas "segundo o número, o peso e a medida". Para Pitágoras, "todas as coisas eram números e qualquer número era uma divindade".

A matemática, pela sua exatidão, é aplicada tanto em ciência como em filosofia. Observe que o adequatio rei et intellecto, dos escolásticos, pressupõe a perfeita relação entre a coisa observada e o sujeito observador. Descartes elogia a matemática nos seguintes termos: "Eu não incluo, em minha física, outros princípios que não aqueles que aceito em matemática". Hegel, por sua vez, afirma: "Nada há de real além do racional e nada há de racional além do real". Galileu via no mundo "um livro escrito em linguagem matemática".

A cifra e o número. A palavra cifra é a representação do número, é um grafismo. O número é uma entidade real (ideia). Quando falamos em decifrar, estamos querendo tornar visível uma realidade secreta. Há um simbolismo que quer se mostrar, mas para isso precisamos "quebrar" a cifra, ou seja, decifrar o símbolo, desvendar o mistério. A ciência oculta nada mais é do que a decifração de símbolos, consoante a frase evangélica: "Nada existe de oculto que não deva ser descoberto, nada de secreto que não deva se tornar conhecido".

O número três exprime uma ordem intelectual e espiritual, em Deus, no cosmo ou no homem. Sintetiza a Trinidade do ser vivo. De acordo com os chineses, o três é um número perfeito, a expressão da totalidade, da conclusão: nada lhe pode ser acrescentado. É a conclusão da manifestação: o homem, o filho do Céu e da Terra. Para os cristãos, é a perfeita unidade divina: Deus, filho e Espírito Santo. A trindade egípcia manifestava-se através de Osíris, Íris e Horus. No hinduismo, a manifestação divina é tripla (Trimurti): Brama, Vixenu, Xiva.

Os números estão presentes no som, na palavra, na música. As notas musicais - dó, ré, mi, fá, sol, lá, si – nada mais são do que números. Diz-se, inclusive, que podemos medir as vibrações do Universo. São João disse: "No começo era o Verbo". Quer dizer, no começo era o som, a vibração, o número. Para Raymond Abellio, "toda a meditação sobre a ciência dos números é também meditação sobre a origem da linguagem".

Esperamos que esta pequena reflexão sobre o fascínio dos números possa estimular, em cada um de nós, a justa medida para todas as coisas: ver cada coisa com o peso que lhe é devido.

Fonte de Consulta

CHABOCHE, François-Xavier. Vida e Mistério dos Números. Tradução de Luiz Carlos Teixeira de Freitas. São Paulo: Hemus, s.d.p.

 


29 junho 2008

Expressão Filosófica

expressão filosófica nada mais é do que a comunicação das ideias e pensamentos dos filósofos. Um determinado pensador tem os seus insights: anota o ocorrido, elabora um texto e torna-o público para que outras pessoas possam tomar conhecimento. Não deve fazê-lo nem por orgulho e nem por vaidade, mas sim por um sentimento de solidariedade para com os demais seres humanos. É sobejamente sabido que devemos dar de graça o que de graça recebermos.

Como surgem as ideias? Como se formam os pensamentos? Primeiramente, há uma captação mental. Tem-se a impressão de que as ideias jorram do cosmo, do universo, do alto. Muitas vezes é a resposta a uma dúvida, a um temor ou a uma necessidade vital e peremptória. A dificuldade começa quando essas ideias têm que ser transformadas em palavras, pois o filósofo nem sempre tem à sua frente um termo adequado para exprimi-las. Por essas e outras razões, a linguagem filosófica acaba se tornando abstrusa, confusa.

O filósofo é eminentemente teórico. Por isso a frase homo teoreticus. Ele não está preocupado com a prática. Quer captar, através da contemplação, a verdade dos fatos, tornando-se assim incompreensível aos seus semelhantes. Sobre esta questão, há uma interessante observação de Platão: "Enquanto observava as estrelas, olhando para o alto, Tales caiu em um poço. Presenciando o acontecido, uma espirituosa serva trácia diz-lhe gracejos: ele queria saber o que havia céu, mas permanecia-lhe oculto o que estava diante dele e a seus pés".

As críticas literárias ao discurso filosófico são muitas vezes injustas. O literato escreve com facilidade os seus longos pensamentos a respeito de um determinado assunto. O filósofo, por sua vez, ao se aprofundar num tema de sua predileção, quer ser rigoroso não só nas palavras como também no raciocínio. Como sua função não é contar histórias nem transmitir informações, acaba por tornar o texto de difícil compreensão. Isso, contudo, não invalida a verdade que está perscrutando.

Dialeticamente considerado, o mais abstrato leva ao mais concreto. Por que? Por elevar-se do concreto ao abstrato, acerca-se ainda mais da verdade, com maior profundidade e exatidão, pois reflete a realidade objetiva não já na sua aparência sensível, mas nas suas relações internas, na sua estrutura. Observe que quando estamos exercitando os nossos pensamentos, estamos, na realidade, exercitando as nossas mãos. O pensamento tem intrinsecamente a sua prática.

Expressemo-nos tais quais somos. Por que temer a crítica? Tal como é necessário que uma árvore dê frutos, é necessário que criemos pensamentos. Que nos importa se serão agradáveis ou não?


A Experiência e o Filosofar

problema do ponto de partida do filosofar reveste-se de vários e distintos matizes. Primeiramente, há que se considerar o "assombro", a "surpresa" e o "desespero" que incitam o homem a filosofar. Posteriormente, deve-se estabelecer a prioridade lógica para que se tenha a rigorosidade dos seus conceitos. Alguns filósofos buscam uma verdade absolutamente certa; outros falam de uma primeira realidade que sirva de base para tudo o mais. Porém, sempre que estabelecemos uma origem, indagamos de uma origem anterior, de modo que o perguntar não tem fim. Por isso, uma reflexão sobre a experiência humana facilita a nossa compreensão do filosofar. Empenhemo-nos, pois, em estudá-la.

experiência humana é considerada por alguns filósofos como o principal ponto de partida do verdadeiro filosofar. Ela não deve ser confundida com a experiência científica, em que se estabelecem hipóteses para serem comprovados empiricamente. A experiência humana constitui a realidade, fato básico do qual todos os outros fatos decorrem. Refere-se, primordialmente, à pessoa que tenha vivido muitos, variados e intensos estados psíquicos. Em síntese, ela fundamenta a totalidade do ser.

A experiência humana diz respeito ao "eu", ao "outro", ao "nós" e ao mundo. O eu não pode ser analisado isoladamente, pois sempre está relacionado com o objeto. Observe o erro tanto do idealismo quanto do materialismo ao pretenderem reduzir o ponto de partida do filosofar a uma única realidade. O eu quando se expressa, expressa-se através de um juízo de valor: o pensado ao pensar, o desejado ao desejar, o percebido ao perceber. O cogito pressupõe um cogitatum. É somente pela síntese das concepções idealista, materialista e religiosa que podemos formar uma visão global da realidade que nos absorve.

Experiência pressupõe "resistência". Todo o objeto que quer ser apreendido mostra a sua resistência. Nesse sentido, a "resistência" é proporcional ao impacto que o sujeito exerce sobre o objeto. Por isso, nenhuma ideia nova é aceita com tranquilidade. Ela precisa aclimatar-se nos corações daqueles que estão ligados a essa vivência conjunta. Observe a vida dos grandes homens: tiveram que rasgar horizontes através de toda a sorte de dificuldades. Assim, ao sermos incompreendidos, mesmo com a melhor de nossas intenções, não nos desanimemos, porque está ampliando-se a nossa visão de mundo.

A experiência deve ser concebida no tempo. O que fazemos nesse instante é consequência do que fizemos no passado e daquilo que intencionamos fazer no futuro. A calma nos grandes momentos de dificuldade e de tribulação é o resultado dos pequenos esforços feitos no passado. O acaso não existe: cada um é construtor do seu próprio destino. O importante é aprendermos a nos limitar dentro das circunstâncias que estamos inseridos.

Recebamos com naturalidade tanto a crítica como o elogio. A diversidade dos pareceres alheios não pode desviar-nos dos projetos existenciais que, conscientemente, traçamos para nós mesmos.

Fonte de Consulta

FRONDIZI, R. El Punto de Partida del Filosofar. Buenos Aires, Editorial Losada, 1945.