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28 fevereiro 2026

Sócrates: Posições Filosóficas

Sócrates (470 a 401 a.C.) afirmava que o conhecimento é a chave de todos os demais problemas. Interessou-se especialmente por descobrir um método para alcançar o verdadeiro conhecimento, distinto de simples opiniões. O método que desenvolveu consistia em eliminar, primeiramente, as noções falsas e depois proceder a minuciosas observações e desenvolver pensamentos, a fim de atingir o juízo universal. Em meio à diversidade de pensamentos, Sócrates procurou descobrir aquilo que era comum a todos, uma base que não admitisse contestação. 

O bem e o mal. Sócrates pensava que deveria haver um princípio básico do bem e do mal, uma medida que transcendia a toda e qualquer crença do indivíduo. Para ele, o maior bem da humanidade é o conhecimento. Acreditava também que “Nenhum homem é voluntariamente mau”; se souber que uma coisa é boa, preferirá fazê-la. A sua crença era tão intensa que passou a vida toda procurando auxiliar os homens a descobrir o que representa o bem. Daí a frase “Uma vida sem exame não merece ser vivida”. 

O destino e livre escolha. Com conhecimento o homem age de maneira acertada; sem conhecimento, corre o risco de agir com desacerto. Pelo conhecimento, o homem pode ter certa influência sobre o destino e a vida futura. De acordo com sua escolha, o homem pode exercer influência sobre a sorte que o espera. É o começo da crença na liberdade de escolha. No pensamento de Sócrates, muitas pessoas escolhem erroneamente e, em consequência disso, sofrem. Por isso, insistia em transmitir o verdadeiro conhecimento aos seus adeptos. 

O cidadão e o Estado. Sócrates não se cansava de perguntar a todos os que encontrava: “Que é Estado? Que é estadista? Que é governante dos homens? Que é um caráter soberano?” Embora não respondesse às perguntas, explicava que o conhecimento deve ser a preocupação de todo ser humano. O bom cidadão é aquele que, constantemente, está em busca do verdadeiro conhecimento e está sempre indagando. Quando o homem descobre o verdadeiro conhecimento – argumentava – age de acordo com ele e conduz-se com acerto em todas as relações com seus semelhantes. 

O homem e a educação. Sócrates, embora discordasse dos sofistas em muitos aspectos, participava da crença geral de que a educação torna o homem melhor cidadão e, com isso, mais feliz. Mas, ao passo que os sofistas se preocupavam mais com o homem como indivíduo, Sócrates o considerava como membro do grupo. Doutrinava que a coisa mais valiosa que o homem pode possuir é o saber, que se obtém eliminando as diferenças entre os indivíduos e descobrindo os elementos essenciais com os quais todos eles estejam de acordo. 

Para Sócrates, o princípio único, do qual tudo o mais decorre chama-se conhecimento. Esforcemo-nos, pois, na busca incessante do verdadeiro conhecimento.

 

13 fevereiro 2025

Sócrates e a Responsabilidade

As grandes ideias — que perfazem mais de 2500 anos — têm fracassado na penetração do coração humano. Os ideais da tradição judaico-cristã e do cristianismo, rememorados por milhões de pessoas, não têm sido suficientes para impedir as atrocidades de uma guerra global, holocaustos e assassinatos em massa. Cristo, Moisés e Platão têm permanecido apenas como ideias. Mas as ideias não transformam o ser humano?

A filosofia do mundo ocidental nasceu da percepção de impotência da mente. Para Sócrates, tanto a religião como a ciência de seu tempo não estavam orientando o homem à virtude. É bom esclarecer o sentido específico da virtude: Sócrates dizia que a virtude consistia no objetivo da vida humana. O termo “autodomínio” não possui esta tonalidade precisa do significado, isto é, que o único objetivo digno de um ser humano é a criação de um canal de responsabilidade e relacionamento entre a verdade, ideias e mente, de um lado e as estruturas inconsistentes da natureza humana, de outro.

Sócrates não focou especificamente na ciência, na religião, na arte, na política. Ele apenas questionava e interrogava. Mas, em que consistia o questionamento socrático? Consistia em rasgar continuamente o mundo das aparências. Fica a seguinte dúvida: se a virtude era o objetivo de Sócrates, por que era perseguida por intermédio de questionamentos ao invés da exposição de doutrinas, de análises conceituais, sínteses de grandes ideias?

Penetrar além do mundo das aparências significa pôr em xeque nossas crenças, opiniões e certezas, não apenas com respeito aos objetos, mas a nós mesmos. Para Sócrates, o canal da virtude, o poder da verdadeira filosofia, reside no poder de auto indagação. Podemos amar a grandeza da verdade; contudo isso, por si, não nos modifica, não nos transforma.

Tudo o que sabemos de Sócrates veio por intermédio de Platão. Platão apresenta Sócrates como um homem que nada sabe, cuja “sabedoria” consiste no fato de que apenas ele, dentre todos os atenienses, se dá conta da própria ignorância. Aí está a raiz da “ironia” socrática. 

Fonte de Consulta

NEEDLEMAN, Jacob. O Coração da Filosofia. Tradução de Júlio Fischer. São Paulo: Palas Athena, 1991.

08 janeiro 2025

Filosofia como Esclarecimento

 A verdadeira filosofia consiste em reaprender a ver o mundo. (Maurice Merleau-Ponty)

Maneiras de se entender a filosofia como um processo de esclarecimento: autoconhecimento e reflexão crítica; busca pela verdade; análise do mundo e da realidade; desafiar o status quo e a autoridade; pensamento sistêmico e profundo; liberação de preconceitos e ignorância.

Filosofia. Proveniente do grego, significa amor à sabedoria. A atividade filosófica busca respostas para o conhecimento, a existência, a razão, Deus... Esclarecimento. Este termo possui diversas acepções, mas em seu sentido mais amplo, refere-se ao ato de iluminar, de tornar claro e compreensível algo que antes era obscuro ou desconhecido. Na filosofia, o esclarecimento está ligado à busca pela razão, à libertação do pensamento e à construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

Tratar a filosofia como esclarecimento envolve abordá-la como uma ferramenta que visa promover o entendimento profundo, a reflexão crítica e o questionamento sobre os aspectos fundamentais da vida, do conhecimento, da ética, da política, da verdade e da existência. O esclarecimento filosófico busca expandir a mente humana, levando à reflexão e ao entendimento mais apurado das questões que cercam o mundo e nossa vivência nele.

Em termos históricos, devemos nos reportar à Grécia Antiga, quando alguns pensadores começaram a questionar mito para, em seguida, analisar tudo sob o guante da razão, da racionalidade.

Eis alguns desses pensadores:

Sócrates: Ele acreditava que o processo de questionar, investigar e refletir constantemente era essencial para atingir um nível mais elevado de compreensão e sabedoria.

Immanuel KantO filósofo tradicionalmente desafia as normas estabelecidas e questiona a autoridade. Isso está ligado ao conceito de esclarecimento que Immanuel Kant desenvolveu em seu famoso ensaio "Resposta à Pergunta: O que é o Esclarecimento?". Ele disse que o esclarecimento é a capacidade de sair da menoridade, ou seja, do estado de dependência das ideias de outros, buscando a autonomia intelectual. A filosofia, assim, age como um meio de libertação mental, permitindo que os indivíduos pensem por si mesmos.

Friedrich Nietzsche: Ele via a filosofia como uma maneira de questionar as normas sociais e os valores estabelecidos, incentivando o indivíduo a criar seus próprios valores e buscar um entendimento mais profundo de si mesmo.

Entendamos, assim, que a filosofia não é apenas um conjunto e teorias abstratas, mas uma prática de vida que aspira ao desenvolvimento da razão, e à construção de uma visão crítica do mundo e de nós mesmos.



02 dezembro 2021

Fédon

Observação: este diálogo não pertence à “fase socrática” de Platão. Platão usava a imagem do mestre para divulgar as suas próprias ideias. Exemplo: “aprender nada mais é que recordar", referindo à sua Teoria das Ideias. 

Fédon ou Fedão é um dos grandes diálogos de Platão de seu período médio, juntamente com a A República e O Banquete. Fédon é o quarto e último diálogo de Platão: retrata a morte de Sócrates e detalha os últimos dias do filósofo depois da obras Eutífron, Apologia de Sócrates e Críton. Diz respeito à imortalidade da alma.

Este diálogo, contendo 66 itens, inicia-se da seguinte forma: Equécrates pede notícias a Fédon sobre os últimos dias de Sócrates. Fédon explica que um atraso ocorreu entre o julgamento e a morte, e descreve a cena em uma prisão em Atenas no final do dia, nomeando os presentes.

Sócrates fora preso e condenado à morte por não acreditar nos deuses do Estado e de supostamente corromper a juventude. Neste diálogo, Sócrates discute a natureza da vida após a morte em seu último dia antes de beber cicuta.

Fédon de Elis, um dos alunos de Sócrates, que esteve presente no leito de morte de Sócrates, relata o diálogo para Equécrates, um filósofo de Pitágoras. Sócrates fala para um grupo de amigos, entre eles os tebanos Cebes e Símias. Na ocasião, Sócrates explora os vários argumentos a favor da imortalidade da alma.

Mensagem principal de Sócrates: que a morte é uma escolha, já em vida, de quem é filósofo: "o exercício próprio dos filósofos não é precisamente libertar a alma e afastá-la do corpo?".

 

01 janeiro 2019

Mosca Socrática

"Uma existência sem análise é adequada para o gado, mas não para os seres humanos." (Sócrates)

Sócrates, há cerca de 2.400 anos, em Atenas, foi pintado por Platão como uma "mosca". A mosca é vista como um inseto incômodo, nojento e perturbador. Observe quando uma delas fica rodeando os alimentos de nossa refeição diária. Mas, por que motivo Sócrates era considerado uma mosca? Por causa de suas perguntas embaraçosas.

As perguntas socráticas têm um duplo caráter: ironia e maiêutica. Na ironia, confunde o conhecimento sensível e dogmático. Na maiêutica, dá à luz um novo conhecimento, um aprofundamento, sem, contudo, chegar ao conhecimento absoluto. Há diversos exemplos dos diálogos socráticos em que confunde vários interlocutores. Na conversa dele com Eutidemo, Sócrates perguntou-lhe se ser enganador correspondia a ser imoral. A resposta foi afirmativa. Com um contra-exemplo, Sócrates mostrou-lhe que o comentário geral de que ser enganador é imoral não se aplica a todas as situações.

Quanto à coragem. Sócrates, querendo apreender o conceito de coragem, dirigia-se ao um general, e perguntava-lhe: — você que é general, poderia me dizer o que é a coragem? O general respondia-lhe: — coragem é atacar o inimigo, nunca recuar. Porém, Sócrates contradizia: — às vezes temos que recuar para melhor contra atacar. E a partir daí continuava o debate ampliando o conceito.

Observe a sua postura quanto ao enigma do Oráculo de Delfos relatado por Querefonte. "Existe alguém mais sábio que Sócrates?", perguntou Querefonte. "Não", foi a resposta. "Ninguém é mais sábio que Sócrates." Primeiramente, não acreditou no que Querefonte lhe disse; depois, refletiu e deu razão ao Oráculo. Segundo o seu modo de ver, várias pessoas eram capazes em sua área de atuação, mas ninguém era mais sábio que ele porque a maioria não sabia do que estava falando. Para Sócrates, a sabedoria é procurar entender a natureza da nossa existência e até onde podemos ir com o próprio saber.

A sua dedicação à arte de perguntar diz respeito ao seu modo de ser, ou seja, conversar e não escrever. Ele dizia que as palavras escritas não podem replicar; não podem nos explicar nada quando não as entendemos. No diálogo, podemos contradizer mais de uma vez e chegarmos a um acordo de ideias.

Todo o filósofo deveria se esforçar por ser uma mosca, ou seja, propor, por meio de perguntas embaraçosas, uma nova maneira de ver a mesma coisa.

Fonte de Consulta

WARBURTON, Nigel. Uma Breve História da Filosofia. Tradução de Rogério Bettoni. Porto Alegre, RS: L&PM, 2012. (Coleção L&PM POCKET)

09 setembro 2011

Sócrates como "Parteira"

Como Sócrates, sendo um sofista, combateu os sofistas?

O termo “sofista” não é uma corrente de pensamento; designa, antes, uma atividade profissional: os professores. Os sofistas ganhavam muito dinheiro vendendo saberes; Sócrates afirma nada saber. Nesse caso, não tem nada para vender.

A concepção de conhecimento, em Sócrates, dá-se pela maiêutica. Na maiêutica, Sócrates apresenta-se como uma parteira (ofício de sua mãe), mas no sentido metafórico, ou seja, faz os homens parirem conhecimento.

Em certa passagem do Teeteto, ele diz: “Deus me força a fazer os outros darem à luz, mas me proíbe de parir”. Sócrates faz os discípulos fazerem incríveis progressos sem nada lhes ensinar. Este era o grande segredo de Sócrates: as pessoas ficavam engravidadas de conhecimento somente pela frequentação do seu mestre.

DUHOT, Jean-Joël. Sócrates ou o Despertar da Consciência. Tradução de Paulo Menezes. São Paulo: Loyola, 2004, segunda parte, cap. 3.

 

26 agosto 2011

Os Sonhos e os "Demônios" de Sócrates

Para Sócrates, os sonhos podem ser advertências divinas. No Críton, foi advertido em sonho do dia em que sua execução ia ocorrer. Na Apologia, afirma-se investido de uma missão divina revelada em sonhos.

Diotima, no Banquete, define o daimon: intermediário entre os deuses e os homens, transmite aos homens mensagens divinas, quer de dia, quer de noite, através dos sonhos, ou por intermédio dos oráculos.

Na Antiguidade, um daimon é ao mesmo tempo um mediador e um mensageiro (anjo). Na realidade, o famoso “demônio”, de Sócrates não é um demônio. Não emprega o nome daimon, mas seu adjetivo, daimonios — demônico.

Sócrates relata que o demônico começou desde a sua infância. Dizia: “Uma voz que só se produz para me afastar do que vou fazer, mas não me impele nunca a agir”. Trata-se, pois, de uma voz que só transmite proibições divinas.

DUHOT, Jean-Joël. Sócrates ou o Despertar da Consciência. Tradução de Paulo Menezes. São Paulo: Loyola, 2004, p. 94 a 96.

 


24 agosto 2011

O Processo de Sócrates

Em 399, Sócrates foi objeto de uma acusação apresentada por três homens, Anitos Meletos e Licon. É mais um processo religioso do que político.

As três acusações são

1) Não reconhecer os deuses da cidade

2) Introduzir novos seres divinos

3) Corromper a juventude.

De acordo com Jean-Joël Duhot, em Sócrates ou o Despertar da Consciência, o desenrolar do processo sofreu um deslize: “Os juízes deviam pronunciar duas vezes. Na primeira vez, tratava-se de determinar se o acusado era culpado, o que foi feito no caso de Sócrates, mas com uma fraca maioria. A segunda vez decidia a pena. Os acusadores pediam a morte e o acusado devia propor uma nova pena, mas a decisão cabia ao tribunal. O processo se decidiu nesse momento: Sócrates começou dizendo que merecia ser sustentado no Pritaneu, honra insigne, pelo bem que fizera à cidade, e propôs como pena uma multa ridícula. Seus amigos intervieram em seguida propondo uma soma muito mais importante, mas era tarde demais, e o tribunal teve o sentimento se que Sócrates zombava dele. Votou a morte com uma maioria mais forte do que tinha votado a culpabilidade”.

Sabe-se, também, que os seus discípulos haviam programado uma evasão, cuja concretização dependia da aprovação de Sócrates. Como defendia a obediência à lei, recusou tal proposta.

Defender ideias filosóficas, até o constrangimento no momento da morte anunciada, corrobora o estatuto de mártir e a grandeza de seu pensamento.

Ler O Processo, capítulo 3, de Sócrates ou o Despertar da Consciência, por Jean-Joël Duhot. Tradução de Paulo Menezes. São Paulo: Loyola, 2004.

 

 

18 junho 2011

Sócrates e a Morte

“Condenável não é a sentença, mas a vontade perversa que a inspira.”

Por desrespeitar os deuses gregos e incitar os jovens à desobediência, Sócrates fora preso e condenado a beber cicuta. Os amigos poderiam libertá-lo. Não o quis. Por quê? Quis dar o exemplo de obediência ao seu daimon, o seu deus interior

Para Sócrates, o filósofo deseja morrer. A sua tesea morte é um bem. Sócrates supunha duas alternativas para a morte: o nada e a transmigração da alma. Sendo nada, uma espécie de sono profundo, ela é preferível à vida. Se a morte, porém, é a passagem da alma para o além-túmulo, é uma grande oportunidade para encontrar homens ilustres, e continuar aprendendo com eles

Afirma que a tranquilidade interior do homem honesto é superior à morte. Acha que cada acontecimento, inclusive a condenação à morte, tem uma razão de ser. Ele diz que mesmo o que aconteceu com ele não aconteceu por acaso, achando que morrer naquela circunstância era livrar-se de todas as suas fadigas. Como não recebeu nenhum sinal divino que o detivesse, a morte era o maior dos bens

“Mas é chegada a hora de partir: eu para a morte e vós para a vida. Quem de nós se encontra para o melhor destino, todos nós ignoramos, exceto o deus”. Somente Deus conhece a verdade

Fonte de consulta

NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Margherita De Luca. São Paulo: Globo, 2005.

04 agosto 2010

Sócrates Foi um Verdadeiro Filósofo

De acordo com Platão, Sócrates era um mágico, um feiticeiro, um xamã. Mênon, Alcibíades e Aristófanes relataram que ficavam drogadosextasiados diante do mestre. As palavras de Sócrates enfeitiçavam-nos de tal modo que todos eles temiam perdê-lo, pois estava se aproximando a hora de sua partida, notadamente com a ingestão da cicuta.

Sócrates dizia-se guiado pelo seu demônio, seu guia protetor. Ele não lhe pedia autorização para fazer isso ou aquilo, mas recebia avisos deste quando fosse desviar-se do verdadeiro caminho, do caminho da verdade. Descartes, o autor do discurso do método, defensor do racionalismo, teve como ponto de partida três sonhos premonitórios, que lhe alertaram para o seu trabalho lógico.

Sócrates foi um filósofo, um verdadeiro filósofo, pois não tinha receio de contrariar os seus pares. Além do mais não cobrava pelas suas elucidações. E sabia diferenciar as questões de ciência das questões de filosofia. A ciência tenta explicar os meios; a filosofia, os fins. A ciência faz hipóteses, observa e conclui através dos objetos sensíveis, especialmente pela experimentação; a filosofia não, a filosofia está preocupada com o fim, com os valores, principalmente os valores do bem, do belo e do justo.

Se levarmos em conta os seus ensinamentos, somente os filósofos são verdadeiramente livres, porque nada fazem para tirar proveito próprio. Os políticos, os cientistas e os demais seres humanos, ao contrário, almejam poder para tirar alguma vantagem. Nesse caso, eles não podem ser considerados totalmente livres.

Sócrates foi um filósofo autêntico, pois vivia de acordo com o que pensava e influenciou muito mais pelo exemplo do que pelos seus discursos.

04 agosto 2009

Paidéia Grega e Formação Cultural

Paidéia – do grego paidos (criança) significava inicialmente “criação de meninos”. É por isso que Werner Jaeger, grande estudioso da cultura grega, diz-nos: "Não se pode utilizar a história da palavra paideia como fio condutor para estudar a origem da educação grega, porque esta palavra só aparece no século V". Dessa forma, a palavra paidéia tomou outro rumo, ou seja, formação geral que tem por tarefa construir o homem como homem e como cidadão.

paidéia grega ou a humanitas latina dizem respeito à formação da pessoa humana individual, a qual se fundamentava nas “boas artes”, ou seja, na poesia, na eloquência, na filosofia etc. A República de Platão é a expressão máxima da estreita ligação que os gregos estabeleciam entre a formação dos indivíduos e a vida da comunidade. A afirmação de Aristóteles de que o homem é um animal político, devendo viver em sociedade, tem o mesmo significado.

A filosofia socrática do gnôthi se autón, “conhece-te a ti mesmo”, vai ser o elo propulsor da paidéia. Para os gregos, que davam muita importância à educação, o que interessava era a introspecção e a contemplação, características essenciais do filosofar. O filosofar levava-nos à aristocracia, governo dos melhores, e no caso, os melhores eram os filósofos. Aristóteles, com a sua dinâmica social, em que as pessoas deviam viver na pólis, complementa esse pensamento. Daí, o termo aristocracia social.

A Idade Média, dominada pelas verdades reveladas pela religião, modificou a função original da filosofia. Na Antiguidade, a filosofia era a busca do conhecimento, tanto externo quanto interno. Na Idade Média, a filosofia servia mais para os religiosos se defenderem da heresia e das crenças alheias. O caráter aristocrático e contemplativo, típico do ideal clássico, ainda permaneceu na Idade Média, mas com objetivos completamente diferentes e até antagônicos.

A filosofia moderna fundamenta-se no bildung (formação). Utiliza os mesmos quadros conceituais da paideia antiga, ou seja, conhecimento de si mesmo, introspecção e contemplação, mas caminha em outra direção, toma outro rumo. Não é o encontro com o eu, mas um afastamento dele, pois procura desconstruir a tradição, o clássico. Observe a filosofia de Descartes: começa como se fosse uma tabula rasa, no sentido de passar uma borracha no passado, na tradição.

Observemos os fatos e extraímos deles a nossa própria interpretação. Como já se disse, “o que é clássico tem o condão de nunca se tornar obsoleto”. O mundo está cheio de novidades. Selecionemos aquelas que nos são úteis e descartamos as demais.

 

23 janeiro 2009

O Acessório e o Essencial

Sócrates e Platão, na Antigüidade, enalteceram a morte e nos trouxeram a certeza da imortalidade. Segundo eles, “o verdadeiro filósofo vê na morte a meta e a realização de sua própria vida, pois só quando a alma fica livre do corpo ele alcança o conhecimento do verdadeiro ser, das Ideias”. Acrescentam que a “morte é a completude da vida, mas não para todas as pessoas, apenas para o filósofo”. Para Sócrates, “o medo da morte é um sinal de que um ser humano não ama a sabedoria, mas o corpo”.

Em vista do exposto, podemos questionar o modus operandi de nossa vida, notadamente aquilo que costuma visitar os nossos pensamentos. Será que não estamos perdendo tempo em coisas acessórias e deixando de lado aquelas que poderiam auxiliar a iluminação de nossa alma imortal?

À noite, por exemplo, ficamos horas e horas diante da televisão assistindo a novelas, filmes e telejornais. É necessário ficarmos tantas horas diante dela? Qual o limite entre o lazer, a necessidade de informação e a robustez do nosso espírito? Do mesmo modo, é a navegação na Internet. É realmente necessário o tempo gasto com jogos, conversas on-line e verificação de e-mails? Quantas dessas atividades poderiam ser eliminadas, sem nada prejudicarem o nosso desempenho vital e peremptório?

Sonhos, devaneios, imaginação. Quantas dessas situações estão tomando mais tempo do que o necessário? Dada a urgência de fazermos isso e aquilo, deixamos muitas coisas começadas e pouco acabadas. Lembremo-nos, contudo, do provérbio: “something tempted something done” (algo tentado, algo terminado). Os grandes pensadores, principalmente os clássicos, advertem-nos para estarmos inteiros no que estivermos fazendo, ou seja, concentrados na edificação de nossa própria alma.

As orientações dos clássicos devem ser ouvidas, pois elas nunca ficam obsoletas. Eles nos incentivam a cultivar as coisas essenciais da vida, aquelas ligadas à nossa evolução moral, intelectual e espiritual. Quando não lhe damos ouvidos, podemos seguir diversos caminhos que nada ajudam essa tal evolução. É o caso de nos perguntarmos sobre a morte e o morrer: se os bons deuses quisessem nos levar esta noite, como seríamos recebidos no mundo dos imortais?

Reflitamos sempre sobre os pressupostos clássicos. É possível que, sem o percebermos, estejamos nos desviando do caminho reto. Recordando os seus exemplos, podemos nos emendar e voltar a trilhar o caminho do bem.

02 julho 2008

Sócrates

"A vida sem reflexão não vale a pena ser vivida." (Citado por Platão, em Apologia de Sócrates

Sócrates (470/399 a. C.), filho de Sofronisco (escultor) e de Fenarete (parteira), foi um dos maiores filósofos de toda a história da humanidade. À semelhança de Jesus Cristo, não nos deixou nada escrito. Tudo o que sabemos de Sócrates é através do seu discípulo, Platão. Este, por sua vez, apresentou todas as suas idéias sob a forma de diálogos, pela boca de Sócrates, de sorte que, até hoje, não sabemos exatamente onde acaba o pensamento de Sócrates e onde começa o de Platão.

A vida de Sócrates foi inteiramente dedicada à educação. Era paciente, simples e tinha um perfeito domínio sobre si mesmo. Levantava-se cedo e encaminhava-se à praça pública (Ágora) para iniciar os seus debates esclarecedores. Dissera que tinha abandonado a profissão de escultor, porque, enquanto a sua mãe dava luz à criança, ele daria luz às ideias. Na vida política, participou de três campanhas militares. É considerado o criador do método em Filosofia

Sócrates procura o conceito. Este é alcançado através de perguntas. As perguntas têm um duplo caráter: ironia e maiêutica. Na ironia, confunde o conhecimento sensível e dogmático. Na maiêutica, dá à luz um novo conhecimento, um aprofundamento, sem, contudo, chegar ao conhecimento absoluto. Por exemplo, querendo apreender o conceito de coragem, dirigia-se ao um general, e perguntava-lhe: — você que é general, poderia me dizer o que é a coragem? O general respondia-lhe: — coragem é atacar o inimigo, nunca recuar. Porém, Sócrates contradizia: — às vezes temos que recuar para melhor contra atacar. E a partir daí continuava o debate ampliando o conceito.

As contestações de Sócrates eram sempre inesperadas. Um amigo de Sócrates perguntou ao oráculo de Delfos quem era o homem mais sábio de Atenas. O oráculo respondeu-lhe que era Sócrates. Seu amigo tratou de confundi-lo com a observação do oráculo e repetiu-o diante de muita gente. Sócrates comentou: o oráculo escolheu-me como o mais sábio dos atenienses porque o oráculo sabe que eu sou o único que sabe que não sabe nada.

Sócrates foi condenado à morte por duas razões: não crer nos deuses e corromper a juventude. Os jovens de Atenas seguiam Sócrates e escutavam-no, porque Sócrates ensinava-lhes a pensar por si mesmos, e por este caminho fazia-os chegar a conclusões que poderiam parecer subversivas. Na prisão, discutia a imortalidade da alma, ou seja, a possibilidade de existência de outra vida além desta.

A fama de Sócrates é tal que, passados vinte e cinco séculos, ainda estamos por resolver o problema do conhecimento de nós mesmos.

Fonte de Consulta

COLLINSON, D. Fifty Major Philosophers - A Reference Guide. London and New York, Routledge, 1989

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A pouca informação que temos sobre Sócrates vem de três fontes bem diferentes: o autor de comédias Aristófanes, o comandante militar Xenofonte e o grande filósofo Platão, que foi discípulo de Sócrates. Em sua peça As nuvens, Aristófanes o retrata como um bufão, ao passo que, para Xenofonte, ele era um soldado e um homem de ação. Graças a Platão é que temos conhecimento sobre as ideias filosóficas de Sócrates. Acredita-se que Apologia a Sócrates (discurso de defesa no julgamento de Sócrates), Críton e Fédon sejam as obras que melhor refletem os ensinamentos socráticos.

Para Sócrates, o segredo era levar uma vida virtuosa. Isso incluía resistir às aspirações de fama e de fortuna e nunca, sob nenhuma hipótese, retribuir o mal com o mal.

A infelicidade, para Sócrates, foi que suas provocações constantes em relação às crenças arraigadas acabaram por colocá-lo em conflito com o Estado.

Foi-lhe dada a opção de pagar uma multa em vez de encarar a sentença de morte, mas ele recusou; depois, ofereçam-lhe a chance de escapar da prisão por meio de suborno, o que ele não aceitou. Seu raciocínio era o seguinte: independentemente das consequências, os cidadãos deveriam sempre obedecer às leis do estado. (LEVENE, Lesley. Filosofia para Ocupados: dos Pré-Socráticos aos Tempos Modernos. Tradução de Débora Fleck. Rio de Janeiro: LeYa, 2019)

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O poder socrático consiste em rasgar continuamente o mundo das aparências; tanto das aparências emocionais quanto o das perceptivas — ou seja, o mundo que me agrada ou me desagrada, e ao qual estou atrelado meio das minhas emoções: o mundo de minhas emoções. Penetrar além do mundo das aparências significa pôr em xeque minhas crenças, opiniões e certezas, não apenas com respeito aos objetos, mas a mim mesmo. O que se revelará por trás dessas aparências? Nada, exceto uma nova qualidade mental que, devido às condições presentes, se mantém em estreita relação momentaneamente, com as regiões inconscientes da natureza humana. (O Coração da Filosofia, de Jacob Needleman)


Sócrates e o Processo Pedagógico

Sócrates (470-399 a.C.) foi o fundador do método em Filosofia. Os filósofos que o antecederam tinham como objetivo principal a busca da substância primeira, da substância que dava origem a tudo o mais. Uns propunham que esse elemento original fosse a água, outros o ar, outros a terra e outros ainda o fogo. Daí surgir a teoria dos quatro elementos, proposta por Empédocles, e aceita mais tarde por Aristóteles. Sócrates mudou este fio condutor da filosofia. Para ele, a filosofia deveria se preocupar essencialmente com a ética e a estética, com a interioridade do ser humano, com o espírito voltar-se para dentro de si.

O método socrático é baseado em perguntas e respostas. Esse método não era original, pois Zenão de Eléia já o utilizava. O que é novo é o enfoque de Sócrates. O método de Sócrates assentava-se em dois momentos distintos: a ironia e a maiêutica. Na ironia, procurava confundir o interlocutor sobre um determinado assunto que este julgava conhecer. Na maiêutica, dava as explicações necessárias para a uma melhor compreensão do tema. À semelhança de sua mãe, que era parteira, ele paria as ideias.

Sócrates viveu entre os sofistas, mas não se considerava um deles. Os sofistas eram os profissionais da palavra, que vendiam os seus ensinamentos. Eles surgiram num momento em que a democracia grega se desenvolvia a todo o vapor. Naquela época não havia o advogado para defender os interesses dos cidadãos. Cada um tinha que se representar perante os juízes. Os sofistas preparavam essas pessoas para fazerem a sua própria defesa. Para tal, ensinavam e praticavam a argumentação, a controvérsia e a persuasão. As suas aulas eram um verdadeiro treino de retórica.

Hoje, fala-se muito do método socrático na relação ensino-aprendizagem. Os seus idealizadores esquecem-se de que Sócrates não se dirigia às crianças, mas a moços e homens de espírito já formado, preparados para seguir um raciocínio complicado ou um interrogatório hábil. As pessoas que conviviam com Sócrates já tinham um estoque de conhecimento inicial. Eles não precisavam começar do zero, como acontece com as crianças, que têm muito que absorver ao longo de sua vida.

Conta-se que um discípulo de Pestalozzi, perante o seu mestre, sustentava as vantagens do processo pedagógico que procede pela interrogação, citando Sócrates. Pestalozzi retorquiu: " Sócrates interrogava gente que tinha abundantemente o que responder", acrescentando: "Já viste a águia tirar passarinhos de um ninho onde a ave ainda não tenha posto os ovos?". A didática adotada hoje nas escolas aproxima-se da maiêutica socrática. Eles procuram que as perguntas acrescentem algo ao que o aluno já tenha sedimentado anteriormente, principalmente em se referindo às crianças de tenra idade.

Tenhamos em mente que qualquer método, em filosofia, é sempre um meio; o fim é a busca a verdade. A verdade, porém, não precisa de método para se manifestar. Ela pode surgir das mais inesperadas situações.

 


01 julho 2008

O Método Socrático-Agostiniano

Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona, escreveu diversas obras. Confissões (400) e A Cidade de Deus (426) são as mais citadas. O livro Sobre a Potencialidade da Alma (De Quantitate Animae) foi escrito em 388, na cidade de Roma. Trata-se de um diálogo entre o professor Agostinho e o aluno Evódio, ambos batizados quase ao mesmo tempo por Santo Ambrósio. A conversa entre os dois mostra a confiança que Santo Agostinho depositou em seu aluno Evódio que, na época, era ainda incipiente na arte de argumentar.

Sobre a Potencialidade da Alma é uma tentativa de Santo Agostinho responder às cinco perguntas formuladas por Evódio: De onde se origina a alma? O que ela é (qualis sit)? Como ela é (quanta sit)? Como se une ao corpo? Como procede unida ao corpo, e quando separada dele? Ao longo das perguntas e respostas, Santo Agostinho vai paulatinamente construindo um vasto conhecimento sobre a relação entre a alma e a matéria. No momento, interessa-nos muito mais o método adotado por Santo Agostinho do que os ensinamentos veiculados acerca da alma e da matéria.

O método utilizado por Santo Agostinho é o mesmo de Sócrates, ou seja, de perguntas e respostas. Sua intenção é desenvolver a capacidade intelectual de Evódio. Em uma dessas conversas, Santo Agostinho diz a Evódio: "Não seja escravo da autoridade alheia, principalmente a minha que não vale nada. Oriente-se pela racionalidade, jamais pelo medo". Para exemplificar o conteúdo doutrinal dessa frase, ele cita o poeta Horácio, que diz: "Atreva-se a saber". Em outras palavras, ele incentiva o aluno a não ficar preso à autoridade alheia, mas à autoridade da razão.

É um verdadeiro treino retórico, chamado por Santo Agostinho de circuitum nostrum (círculos concêntricos), uma série de perguntas e respostas acerca de um determinado tema. Há a tese, a antítese, o jogo de oposições ou de contrários e o uso de figuras geométricas. Quer com isso levar o aluno a utilizar a indução e a dedução, cujo fim último é a busca da verdade. Para ele, o melhor método é aquele que faz o aluno pensar, que o obriga a andar com os próprios pés e que o incentiva a usar o raciocínio lógico. Para atingir tal objetivo, ele exige a total atenção do seu discípulo.

O livro se desenvolve neste emaranhado de perguntas e respostas. No final, contudo, mostra-se o grande pensador que é, concluindo-o de forma magistral, em que não há nem aluno e nem professor, mas um discurso profundo sobre os vários graus da ascese da alma humana. Isso foi bastante produtivo porque Evódio, mais tarde, faria parte da comunidade monacal fundada por Agostinho em Tagaste, sendo, também, nomeado e ordenado bispo de Uzala, na Numídia, em 396.

Aproveitemos o momento presente para acrescentarmos novos conhecimentos ao nosso passivo espiritual. Não os deixemos para amanhã, pois o tempo perdido não se recuperará jamais.

Fonte de Consulta

AGOSTINHO, Santo. Sobre a Potencialidade da Alma (De Quantitate Animae). Tradução de Aloysio Jansen de Faria. 2.ed., Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2005.