Mostrando postagens com marcador Friedrich Wilhelm Nietzsche. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Friedrich Wilhelm Nietzsche. Mostrar todas as postagens

16 fevereiro 2020

Nietzsche

"O filósofo, como o entendo, é um explosivo terrível diante do qual tudo corre perigo." Ecce Homo

Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900), ilustre filósofo alemão, nascido em Rocken, nas proximidades de Leipzig. Foi professor de Filosofia clássica, em Basileia. Filho de um pastor luterano que morreu louco quatro anos depois. Viveu sua infância com a mãe, a irmã, a avó e duas tias solteiras. Em 1858 entrou para um internato e, apesar de sua saúde frágil, continuou a estudar teologia e filologia clássica na Universidade de Bonn, mudando-se depois para Leipzig, onde foi influenciado por Kant, Schopenhauer e pelo compositor Richard Wagner. 

O cristianismo diz que tudo neste mundo é menos importante do que o que está no mundo após a morte. ==> Diz também que devemos nos afastar do que parece importante nesta vida e tentar transcendê-la. ==> Mas, ao fazer isso, nós nos afastamos da própria vida. ==> A ideia de "homem" do cristianismo nos enfraquece. ==> E, além do mais, Deus está morto! ==> Devemos superar essa ideia limitadora. (1)

28 março 2014

Niilismo

Niilismo – do latim nihil, nada, é o pensamento obcecado pelo nada, a doutrina da morte de Deus. Pode-se, também, dizer que é “a absolutização do nada”. No espírito do vulgo, o niilismo andou associado às ideias de assassínio e de revolução, pois os niilistas procuravam derrubar as instituições por meio da força. 

Górgias é apontado como o primeiro niilista da história ocidental. Dele vem a frase: “Nada existe; se alguma coisa existisse, não a poderíamos conhecer; e, se a conhecêssemos, não seria comunicável”. Além dele, podemos apontar outros pensadores: Fridegísio de Tours procurou provar que o nada possui algum ser – alguma substancialidade; Mestre Eckhart declara que Deus e o nada, “o anjo, a mosca e a alma” são a mesma coisa; Charles de Bovelles defende a “negação originária das criaturas e da matéria” que é o nada; Leonardo da Vinci anotou: “Entre as grandes coisas que estão abaixo de nós, o ser do nada é imensamente grande”? (1)

No século XIX, por volta de 1860-1870, o niilismo constitui uma corrente de pensamento professada pelos russos Dobroliubov, Tchernychewski e Pisarev. Esta corrente é caracterizada pelo pessimismo metafísico do prolongamento do positivismo de Comte, e, pelo ceticismo com relação aos valores tradicionais: morais, teológicos e estéticos. O princípio fundamental era o individualismo absoluto, a negação dos deveres impostos pela família, pelo Estado e pela religião. (1)

Nietzsche foi o expoente máximo do niilismo. Num fragmento redigido em seus últimos anos de lucidez, ele diz: Niilismo: falta-lhe a finalidade. Carece de resposta à pergunta “para quê?” Que significa o niilismo? Que os valores supremos se depreciaram (VIII, II, 12). Deduz-se que o niilismo é a falta de referências tradicionais, dos valores ideais para as respostas aos porquês da vida. A desvalorização dos valores supremos levaria o ser humano à perda dos seguintes princípios: a) Deus; b) fim último; c) ser; d) bem; e) verdade. Nessa linha de pensamento, lembremo-nos das obras 1984, de Orwell, O Mundo Novo, de Huxley e O Declínio do Homem, de Konrad Lorenz: todas elas mostram-nos a perda da liberdade humana, que se poderia sintetizar na seguinte frase: “Na convicção de lhe dar tudo, essa sociedade reduz o homem a nada e o atira ao abismo do niilismo”. (2)

Passemos do niilismo filosófico ao niilismo religioso. De acordo com as teses materialistas, o nada nos aguarda depois de nossa passagem por este mundo. O Espiritismo, porém, nos apresenta outra versão. De acordo com os seus postulados, percebemos que o Espírito é imortal e viveremos no além-túmulo, sujeitos à Lei do Progresso. O estado de felicidade ou de infelicidade dependerá do que fizemos de bom ou de ruim nesta vida. 

Reflitamos sobre o conteúdo filosófico do niilismo. Entretanto, não nos esqueçamos de analisá-lo sob a ótica do Espiritismo. 

(1) VOLPI, Franco. O Niilismo. Tradução de Rido Vannucchi. São Paulo: Loyola, 1999.

(2) REALE, Giovanni. O Saber dos Antigos: Terapia para os Dias Atuais. Tradução de Silvana Cobucci Leite. São Paulo: Loyola, 1999.

Áudio da Exposição "Niilismo e Espiritismo" em 12/04/2014

14 março 2012

Ressentimento: Nietzsche e Scheler

Ressentimento. Ato ou efeito de ressentir-se. Diz respeito ao sujeito que está magoado, aquele que se melindra com facilidade ou que sofreu os efeitos de abalo, dano ou moléstia. Em espanhol a palavra correspondente é remordimiento e define-se como a amarga e arraigada lembrança de uma injúria particular, da qual se deseja tirar satisfações. Pode-se dizer que seu sinônimo é a palavra rancor, palavra esta que vem do latim e que quer dizer queixa, querela, demanda. Já em francês, ressentiment traz em sua etimologia a repetição de uma vivência cuja qualidade da emoção é hostil.

Nietzsche e Scheler dizem que o ressentimento é o principal obstáculo ao amar ao próximo como a si mesmo. Embora haja problemas da tradução do alemão para o português, percebemos que esta palavra assume vários significados, tais como, rancor, repugnância, acrimônia, má vontade, contrariedade, despeito e nocividade. Embora usem o mesmo termo, referem-se a tipos diferentes de hostilidade.

Para Nietzsche, ressentimento é aquilo que o abatido, o desprovido e o pobre sentem pelos seus “superiores”, os ricos. Pode-se dizer que a causa mais profunda está na “dissonância cognitiva”, em que as pessoas buscam uma sensação de equilíbrio entre suas crenças, atitudes e comportamentos. Exemplificando: reconhecer os direitos de seus “superiores” seria equivalente a aceitar a sua própria inferioridade. O ressentimento é uma mistura de genuflexão e acrimônia, mas também de inveja e despeito.

Max Scheler, ao contrário de Nietzsche, acha que o ressentimento surge entre os iguais. Nietzsche interpreta o ressentimento como uma luta contra a desigualdade e uma pressão para se nivelarem por baixo as hierarquias existentes; Scheler, por seu turno, acha que as pessoas lutam para chegar ao topo e atirar os outros para baixo. As pessoas partem do seguinte princípio: “Minha liberdade é limitar a liberdade dos outros que desejam chegar ao mesmo ponto”. Scheller conclui que ressentimento resulta em competição, numa luta contínua pela redistribuição de poder e prestígio, reverência social e dignidade socialmente reconhecida.

Saibamos sacrificar tudo, inclusive o sentimento do ressentimento, pois ele é um grande empecilho para a nossa evolução moral e intelectual.

Fonte de Consulta

BAUMAN, Zygmunt. A Ética é Possível num Mundo de Consumidores? Tradução de Alexandre Werneck. Rio de Janeiro: Zahar, 2011, capítulo 1.

 

04 julho 2008

Zaratustra

Zoroastro (660-580 a.C.) é o suposto autor do Zend-Avesta, livro sagrado do mazdeísmo, cujo dogma essencial é o dualismo de dois deuses em luta: o da luz e o das trevas. O Zaratustra (ou Zoroastro) de Nietzsche é a antítese do Zoroastro histórico, pois as suas teses têm uma mensagem não-dualista. De posse desse princípio, adquirido em seus 10 anos de reclusão no topo de uma montanha, critica todo o tipo de ideia — religiosa, científica e filosófica —, que se fundamenta numa acepção dualista.

No prólogo de Assim Falou Zaratustra, critica Jesus e Platão. Aos 30 anos Zaratustra deixa a sua terra natal e vai meditar no topo da montanha. É uma contraposição a Jesus que, aos 30 anos, saiu para pregar a sua doutrina. Zaratustra convida o sol a entrar na caverna para iluminá-la. É uma tese oposta a Platão que, na sua teoria das ideias, expõe que um dos escravos, que ele chamou filósofo, deixa a caverna e vai ter com o sol (conhecimento). O livro todo versará sobre essa percepção dualista do ser humano.

A ideia central do livro é a morte de Deus. De acordo com Nietzsche, a morte de Deus pode ser vista: a) para o Homem, a morte de Jesus Cristo expiando na cruz os pecados dos homens; b) o Fato do desaparecimento de Deus de nossa cultura; c) para o Último Homem, supressão de um senhor demasiado exigente; d) para o Homem Superior, um desaparecimento que ele se recusa a levar em conta; f) para o Criador, uma etapa na criação do super-homem, etapa destruidora, necessária, com a qual ele se alegra, e cuja realização acelera, mas apenas uma etapa, à qual sucede uma etapa de reconstrução.

A meta a atingir é o super-homem. O super-homem é a linha de chegada do último homem, completamente reconstruído, em que a razão e a crença no além-túmulo estão superadas. É um homem que vive o "aqui e o agora", não se importando com o que há de vir, porque a conquista da sua felicidade se resume em aproveitar o dia que passa. Pode-se dizer que o super-homem já superou todas as etapas que o crescimento espiritual requer. Enfim, ele soube vencer toda a sorte de preconceitos e ideias dualistas que lhe foram passadas ao longo do tempo.

Para que o homem se torne um super-homem, ele necessita da vontade de potência. A vontade de potência é intenção profunda de um sair de uma potência; o que esse ser ou essa potência quer; é a vontade de superar a si mesmo; transcender. Nesse sentido, todo ser humano é vontade de potência, pois está sempre querendo ou negando alguma coisa.

A potência, a realidade mais profunda de todos os seres deve, em última análise, vencer o niilismo, que é a desvalorização do mundo em nome de um além-mundo ou, ainda, a depreciação do além-mundo e deste. A sua ênfase no aqui e no agora mostra que ser humano deverá envidar muitos esforços para se libertar dos apelos religiosos da recompensa futura. Ele terá que se esforçar para viver o presente, com bastante coragem para agir e sofrer em benefício da verdade.

Assim Falou Zaratustra é um bom exercício para a edificação do nosso pensamento. Sopesemos cada uma de suas afirmações, procurando separar o joio do trigo, no sentido de uma construção racional de uma nova moral.

Fonte de Consulta

HÉBER-SUFFRIN, Pierre. O "Zaratustra" de Nietzsche. Tradução de Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

01 julho 2008

Nietzsche e sua Crítica da Razão e da Moral

Friedrich Wilhelm Nietzsche nasceu em 1844, no vilarejo de Röecken, na Alemanha. A educação religiosa, recebida nos primeiros anos de sua vida, marcou sua filosofia. Em 1864 ingressa na faculdade de Bonn, onde é orientado para a filologia, matéria que trata de textos antigos, especialmente os gregos e os latinos. Tinha a incumbência de interpretá-los, editá-los e compreendê-los a ponto de conseguir analisar e comparar o desenvolvimento das línguas e das gramáticas. Pouco valorizado em vida, ele previu que o tempo para a sua filosofia ainda estava por chegar. Hoje, é um dos filósofos mais citados, tanto em obras literárias quanto em sala de aula. Foi influenciado pelo pensamento de Schopenhauer e pela amizade do compositor Wagner. Em 1869, torna-se professor de Filologia na Universidade de Basiléia, onde ficou até 1879. Posteriormente, passa a ser um filósofo errante, vivendo em diversos países. Em 1899, depois de ver um homem bater num cavalo, sofreu um colapso e perdeu o equilíbrio mental até a sua morte em 1900.

As publicações de Nietzsche, grande parte em forma de aforismos, são inúmeras: O Nascimento da Tragédia (1872); Considerações Extemporâneas (1873-1876); Humano, Demasiado Humano (1878-1879); Aurora (1881); A Gaia Ciência (1882-1886); Assim Falou Zaratustra (1882-1885); Para Além do Bem e do Mal (1886); Para a Genealogia da Moral (1887); O Caso Wagner, O Crepúsculo dos Ídolos, O Antricristo, Ecce Homo (1888).

A ideia fundamental de Nietzsche é a reconstrução da história da filosofia, não pela simples reconstrução, mas para extrair dela os elementos necessários para a sua análise filosófica. O que ele realmente quer é combater Platão ou o platonismo. As suas conclusões não são nada animadoras: acha que o mundo caminha para o niilismo - descrença no valor de todos os valores, de todas as crenças e da própria existência humana - em que se chega a um verdadeiro tédio. A sua intenção é derrotar este status quo.

Para ele, a teoria das formas de Platão, o racionalismo de Descartes e o pessimismo de Schopenhaeur são os elementos de sua história. Quer derrotá-los, quer repensar a harmonia dos helenos, que viveram antes de Sócrates, e cultuar o otimismo. Na harmonia dos helenos, há a contraposição de duas forças: 1) apolínea (formas); 2) dionisíaca (volição). A força apolínea diz respeito à razão; a dionisíaca, à arte, ao sentimento. Sua intenção é derrotar o mundo dominado pela razão, pois esta nos tornou tediosos.

Hoje, fala-se da legalização do aborto e do uso de células-tronco para pesquisa de terapias de doenças. A religião é contra; a ciência, a favor. Quem está certo e quem está errado? Esta é a questão formulada por Nietzsche, uma questão estritamente moral. Daí, também, perguntar o que é moral? Que é ciência? A ciência tem razão? Nietzsche percebeu que por trás dessas disputas está a compreensão do vocábulo, da linguagem. Acrescenta que, antes de buscarmos o conceito do termo proposto, devemos investigar as causas que o tornaram o centro dos debates.

Em suas análises filosóficas, critica a deusa razão, enaltecida pelos seus antecessores, especialmente Descartes com o seu "penso, logo existo". Para ele, a razão tem a sua utilidade, pois precisamos calcular, prever, fazer contas e nos relacionarmos em sociedade. A comunicação do pensamento exige uma linguagem, de preferência lógica e bem estruturada. Assim, a razão é apenas um processo, uma "faculdade" do homem, uma hipóstase: o que era mero instrumento transforma-se, com o auxílio da linguagem, em critério.

Para justificar um conceito, há sempre uma postura moral vinculada à linguagem, diz Nietzsche. Estes preceitos morais podem advir tanto da filosofia como da religião. Condena, assim, a negação do que vivemos, apregoada pela ideia cristã do "paraíso" e pela ideia platônica do "topus uranus". O conteúdo das suas críticas à moral pode ser encontrado no livro Para a Genealogia da Moral, em que procura distinguir a moral do escravo e a moral do nobre. A moral do nobre é a moral ativa; a do escravo, reativa, reage ao que os nobres determinam.

A crítica da razão e da moral, feita por Nietzsche, mostra-nos que esses temas são sempre atuais, pois deles sempre podemos extrair um novo aprendizado.

Fonte de Consulta

BRANDÃO, Eduardo. Nietzsche e a Crítica da Civilização. In: FIGUEIREDO, Vinicius (org.). Filósofos na Sala de Aula. São Paulo: Berlendis & Vertecchia, 2007, vol. 2.