03 setembro 2008

Pseudoprofundidade

A filosofia, fornecendo-nos subsídios para a verdadeira argumentação, faz-nos artífices do raciocínio correto. Com isso, desvia-nos dos sofismas e de tudo o que possa tisnar a verdade dos fatos. A pseudoprofundidade, não resta dúvida, é um desses desvios. Reflitamos um pouco sobre este assunto.

A pseudoprofundidade é a utilização de técnicas – nem sempre naturais e sinceras – capazes de dominar o público. Geralmente é exercida por um guru, indivíduo cheio de insigths, que tem grande influência sobre um determinado grupo social. O setor de marketing abriga uma gama enorme deles. Depois de se tornar mundialmente famoso, passa a divulgar as suas teorias, entrelaçadas com seus próprios jargões.

Falar o “óbvio”, mas de forma pausada, palavra por palavra, é um procedimento muito utilizado por esses profissionais. Dinheiro, morte e amor são os seus temas preferidos. Exemplo: “o dinheiro serve para compras coisas”; “todos desejamos amar e ser amado”; “a morte é fim de tudo”. Ninguém contesta essas palavras, pois elas soam como verdadeiras. Quem poderá dizer que a morte não é o fim, se, depois dela, essa pessoa não existe mais? Contudo, trata-se de um slogan, uma palavra-força usada para captar a atenção e a simpatia dos ouvintes.

Nessa mesma linha de pensamento, esses gurus usam frases longas e complicadas em vez de curtas. Pense nas palavras feliz e triste. Para exprimir que uma pessoa está feliz ou triste, eles usam a seguinte frase: “orientações atitudinais positivas e negativas”. Caso esse bem-estar ou mal-estar possa ser passado para outra pessoa, eles diriam: “Orientações atitudinais positivas e negativas são altamente transferíveis de uma pessoa para outra”. Dependendo ainda do tom de voz, o impacto sobre a platéia pode ser muito maior.

Além das palavras longas e complicadas, usam também os termos “energias” e “equilíbrios”, que fornecem ao interlocutor a ilusão de profundidade. Eles podem dizer: “Antes de sair para as suas atividades diárias, aplique “energias” curadoras em volta de si mesmo”; “o seu equilíbrio depende de sua atitude mental”; ”pense grande e será grande”; “querer é poder”. Quer dizer, há sempre uma técnica oratória para fisgar o ouvinte. De certa forma, assemelha-se ao reflexo condicionado de Pavlov, aplicado à propaganda, ou seja, usa a intensidade e repetição para melhor atrair.

Saibamos acatar a autoridade da verdade, esteja ela onde estiver. A busca do conhecimento tem este preço.

Nenhum comentário: