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29 setembro 2020

Dialética e Quaestio no Mundo Medieval

mundo medieval surge após o enfraquecimento do Império Romano. Em meio às invasões de povos bárbaros, como os visigodos, vândalos, hunos e ostrogodos, e suas consequências, aparece Boécio (480-524) como o último dos romanos e o primeiro dos pensadores medievais. 

A obra de Boécio pode ser dividida em duas partes: 1) como tradutor e comentador; 2) próprios escritos. Como tradutor, seu objetivo foi a de verter para o latim as obras de Platão e Aristóteles. A divisão da filosofia em três partes, a física, a matemática e teologia, que Aristóteles defende em sua Metafísica, tem grande influência no pensamento de Boécio.  

Boécio, citando Aristóteles, tenta obter certa hierarquia entre as ciências. As ciências físicas, que tratam da matéria, são menos abstratas do que a matemática. A teologia, por sua vez, trata de algo ainda mais abstrato, sendo uma disciplina mais elevada dentre as teóricas. Lançando mão das técnicas de argumentação antigas, Boécio contribuiu não somente quanto ao conteúdo, mas principalmente com o método para alicerçar as bases da cultura latina medieval. 

Agostinho de Hipona (354-430), famoso pelas Confissões, livro autobiográfico que descreve as fraquezas do ser humano, foi outro pensador que marcou o mundo medieval. A grande contribuição de Santo Agostinho foi a de conceber a fé não como uma fé dogmática, mas também puramente racional. Daí, a célebre máxima: "Compreendas para crer, creias para compreender".

Agostinho aceita a palavra divina das Sagradas Escrituras. Porém, como a palavra foi transmitida pelos homens, ela pode conter erros. Há necessidade, assim, de verificar a fiabilidade do texto, a história e a geografia. Alcançada a compreensão, o passo seguinte é transmitir a mensagem aos outros. Para isso, o cristão deve receber orientações quanto à retórica e à dialética. No tratado A doutrina cristã, expõe as regras para interpretar e transmitir as Sagradas Escrituras.

A dialética que, segundo Aristóteles, é a arte de bem argumentar, mas argumentar por meio de inferências válidas e necessárias que, por meio dos prós e contras, chega a uma opinião, teve grande sucesso durante a Idade Média. Boécio contribuiu muito para sua difusão. É de Boécio a divisão das artes: o quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música) e o trivium (gramática, retórica e dialética). Este modelo contribuiu muito para a difusão da dialética. 

O principal modo de expressão da Idade Média é conhecido como quaestio. Pedro Abelardo foi seu defensor. De acordo com Abelardo, uma questão tem por objetivo obter a solução de um problema, cuja origem é a contradição entre as opiniões de duas ou mais autoridades. Quer dizer, a dúvida acerca de uma tese pode provir de opiniões opostas, e que teremos de escolher aquela que julgarmos verdadeira.

Esse método é fruto da leitura de textos consagrados pela tradição e da constatação de conflitos entre várias passagens.

Assim, os teólogos medievais cristãos não foram pensadores dogmáticos. Conhecendo a fraqueza das autoridades da época, enalteciam a razão humana para chegar à verdade.

Fonte de Consulta

STORCK, Alfredo. Filosofia Medieval. Rio de Janeiro: Zahar, item "Da Roma Antiga ao Mundo Medieval"




 


12 julho 2017

Hegel e a Dialética

Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) foi um filósofo alemão. O pano de fundo de sua filosofia é o idealismo absoluto, que já fora ventilado por outros filósofos, entre eles Schelling, mas somente com Hegel atinge a sua maturidade. No pensar absoluto, há uma identidade entre sujeito e objeto: "O absoluto é sujeito". 

Dialética. Na filosofia antiga e medieval é um sinônimo da lógica ou da arte de argumentação. Pode-se dizer que é a arte de discutir, a arte do diálogo. Como, porém, não discutimos só com os outros, mas também conosco próprios, ela acaba sendo considerada o método filosófico por excelência. Entre os gregos, chamava-se ainda dialética à arte de separar, distinguir as coisas em gêneros e espécies, classificar ideias para poder discuti-las melhor. 

A dialética platônica diferencia-se da dialética hegeliana. A dialética platônica encontra-se no mito da caverna: há homens voltados para o fundo da caverna, que só veem sombras. Um deles se vira (o filósofo) e busca a luz, ou seja, o conhecimento. Hegel, por sua vez, entende a dialética da seguinte forma: 1) cada coisa seria a união de opostos; 2) cada mudança origina-se em oposição (ou "contradição"); 3) qualidade e quantidade mudam uma na outra. 

Hegel parte da Tese — Ser, indeterminado, absoluto, pura potencialidade, o qual deve se manifestar na realidade através da Antítese — Não-Ser. Na contradição entre tese e antítese surge a Síntese — Vir-a-Ser. Esse raciocínio é aplicado tanto à aquisição de conhecimento quanto à explicação dos processos históricos e políticos. Para ele, a verdadeira ciência do pensamento coincide com a ciência do ser.

Bunge, em seu Dicionário de Filosofia, critica a dialética hegeliana:

  • "As partículas elementais são os contra-exemplos da primeira "lei". Cada caso de cooperação na natureza ou na sociedade arruína a segunda. A terceira "lei" é ininteligível na forma como se apresenta";
  • "A única lei dialética: em cada processo qualitativo, ocorrem (podem ocorrer) mudanças e, uma vez realizadas, novos modos de crescimento ou declínio começam. Ela não envolve o conceito de contradição, que é marca registrada da dialética".

Comparemos a dialética da ideia de Hegel à evolução do princípio espiritual através da matéria, em Kardec. De acordo com Hegel, o espírito evolui, passando por sucessivas sínteses, tal qual o desenvolvimento de uma planta: semente, botão, fruto, novamente semente, ... De acordo com Kardec, os Espíritos são criados simples e ignorantes e, em cada reino da natureza, vão potencializando virtudes, até atingirem o estado de Espíritos puros, quando, então, não terão necessidade de reencarnar novamente.

Fonte de Consulta

BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo: Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

TEMÁTICA BARSA - FILOSOFIA. Rio de Janeiro, Barsa Planeta, 2005.




19 agosto 2011

Dialética

SUMÁRIO1. Introdução. 2. Conceito. 3. Histórico. 4. Platão e Hegel: 4.1. A Dialética Platônica; 4.2. A Dialética Hegeliana; 4.3. Platão Versus Hegel. 5. A Elaboração do Pensamento: 5.1. As Perguntas do Filósofo; 5.2. Explicar É Desdobrar; 5.3. Postura Científica. 6. O Diálogo: 6.1. Crítica e Oposição; 6.2. A verdadeira Dialética Inclui a Tolerância; 6.3. Uns Complementam os Outros. 7. Conclusão. 8. Bibliografia Consultada.

1. INTRODUÇÃO

O objetivo deste estudo é refletir sobre a arte de discutir no sentido de melhorar a nossa compreensão do mundo e de nós mesmos.

2. CONCEITO

A dialética é, propriamente falando, a arte de discutir. A arte do diálogo. Como, porém, não discutimos só com os outros, mas também conosco próprios, ela acaba sendo considerada o método filosófico por excelência. Entre os gregos, chamava-se ainda dialética à arte de separar, distinguir as coisas em gêneros e espécies, classificar idéias para poder discuti-las melhor (cf. Platão, Sofística, 253c)

Com o passar do tempo o termo evolui para um sentido mais preciso, designando "uma discussão de algum modo institucionalizada, organizando-se habitualmente em presença de um público que acompanha o debate – como uma espécie de concurso entre dois interlocutores que defendem duas teses contraditórias. A dialética eleva-se, então, ao nível de uma arte, arte de triunfar sobre o adversário, de refutar as suas afirmações ou de o convencer" (Blanché, 1985).

30 junho 2008

Identidade

Entre os lógicos, a lei de identidade costumava ser expressa desse modo: A é A. Em vista, porém, da ambiguidade que cerca essa cópula, a própria lei se torna ambígua e tautológica. O melhor enunciado é o seguinte: A é A necessariamente, mas só enquanto é A. em outras palavras, enquanto A é A, não pode ser simultaneamente não A.

Juntamente com o princípio de identidade, temos o princípio da contradição e o princípio do terceiro excluído. Enunciado da contradição: impossível é afirmar e negar o mesmo de algo sob o mesmo aspecto, e simultaneamente; ou melhor: o que é não pode ser simultaneamente o que não é, porque é o que é. Enunciado do terceiro excluídoA é B, ou não é B. Neste caso seria falso que A é B como também seria falso que A não é B, o que violaria o princípio de contradição.

A dialética procura identificar a verdade dos fatos. Parte das premissas do seu interlocutor para demonstrar a sua própria tese. As teses opostas dos interlocutores não podem ser, portanto, ambas verdadeiras e se eu puder por outrem em contradição consigo próprio, obrigo a abandonar a sua tese. Por isso, para aprender com êxito, são necessários a discussão e o diálogo socrático. O homem que pensa somente por si parece-se ao caminhante no deserto, que depois de muito andar volta ao ponto de partida, porque o corpo fê-lo andar em circunferência, quando ele imaginava andar em linha reta.

O estigma é uma deterioração da identidade. Não são poucas as pessoas estigmatizadas por si mesmas ou por outrem. Além do mais, não é tarefa fácil saber quem estigmatiza quem na sociedade. É o caso da menina que nasceu sem o nariz. Por mais que ela queira se ajustar à sociedade, não consegue. Não consegue porque ela leva consigo essa marca, ou porque as pessoas a tratam de forma inconveniente? A questão racial está incluída no mesmo processo. Há, também, a influência do marketing televisivo, que não nos deixa ver o fundo da verdade.

Como, então, identificar a verdade de um fato? A auto-aceitação e uma vida isenta de defesas fornecem-nos bom material. Aceitando-nos tais quais somos, capacitamo-nos a olhar o mundo de forma mais sensata e sem ilusão; estando sem defesas, não precisamos criar imagens que nos estigmatizam perante os outros. Estas duas atitudes conduzem-nos à humildade, o fundamento de todas as virtudes. Somente o verdadeiro humilde consegue penetrar no fundo das verdades, porque é somente ele que consegue renunciar à sua própria personalidade.

Tenhamos confiança na Divina Providência. Saibamos sofrer as agruras de nosso destino, sem nos deixarmos sufocar pelos voos débeis de nossa imaginação.

Fonte de Consulta

HEGENBERG, L. Dicionário de Lógica. São Paulo, EPU, 1995

SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. ed., São Paulo, Matese, 1965

THINES, G. e LEMPEREUR, A. Dicionário Geral das Ciências Humanas. Lisboa, Edições Julho/1984.