SUMÁRIO: 1.
Introdução. 2. Conceito. 3. Histórico. 4. Platão e Hegel: 4.1. A Dialética
Platônica; 4.2. A Dialética Hegeliana; 4.3. Platão Versus Hegel. 5. A
Elaboração do Pensamento: 5.1. As Perguntas do Filósofo; 5.2. Explicar É
Desdobrar; 5.3. Postura Científica. 6. O Diálogo: 6.1. Crítica e Oposição; 6.2.
A verdadeira Dialética Inclui a Tolerância; 6.3. Uns Complementam os Outros. 7.
Conclusão. 8. Bibliografia Consultada.
1.
INTRODUÇÃO
O
objetivo deste estudo é refletir sobre a arte de discutir no sentido de
melhorar a nossa compreensão do mundo e de nós mesmos.
2.
CONCEITO
A
dialética é, propriamente falando, a arte de discutir. A arte do diálogo. Como,
porém, não discutimos só com os outros, mas também conosco próprios, ela acaba
sendo considerada o método filosófico por excelência. Entre os gregos,
chamava-se ainda dialética à arte de separar, distinguir as coisas em gêneros e
espécies, classificar idéias para poder discuti-las melhor (cf. Platão, Sofística,
253c)
Com o passar do tempo o termo evolui para um sentido mais preciso, designando "uma discussão de algum modo institucionalizada, organizando-se habitualmente em presença de um público que acompanha o debate – como uma espécie de concurso entre dois interlocutores que defendem duas teses contraditórias. A dialética eleva-se, então, ao nível de uma arte, arte de triunfar sobre o adversário, de refutar as suas afirmações ou de o convencer" (Blanché, 1985).
3.
HISTÓRICO
O
primeiro sentido da dialética pode ser encontrado em Zeno de Eléia, com os
argumentos dialogados, para afirmar a doutrina parmediciana da mobilidade do
Ser e das idéias, contra a doutrina do movimento e das experiências sensíveis,
assinalada desde os jônios.
Sócrates
inaugura uma nova dialética, que compreende duas partes: a ironia e
a maiêutica. Na ironia ou refutação da pseudociência, Sócrates
procurava confundir o interlocutor acerca do conhecimento que este tinha das
coisas. Posteriormente, fazia-o penetrar em novas idéias. Dizia que seu método
consistia em parir idéias, à semelhança de sua mãe, que paria crianças.
Para
Platão, a dialética é o movimento do espírito que marcha para a verdade,
movimento cujo símbolo ele deu na célebre alegoria da caverna.
Na
classificação de Aristóteles, "a dialética pertence às ciências poéticas e
não à lógica".
Para os
estóicos, faz parte da lógica: "ciência do verdadeiro e do falso ou nem de
um nem de outro".
Na Idade
Média, a dialética constitui com a gramática e a retórica, o Trivium.
O
Renascimento depreciou a dialética.
O sentido
depreciativo permanece em Kant: lógica das aparências, reguladora das idéias
que não podem ser explanadas por via científica.
Foi
primeiro com Hegel, depois com Marx e Engels, que a dialética apareceu com
função essencial na teoria do conhecimento.
Para o
marxismo, a filosofia consiste em reconstruir, com a dialética da razão, a
dialética da realidade. (Soares, 1952)
4. PLATÃO
E HEGEL
Em termos
filosóficos, a comparação desses dois grandes pensadores da humanidade dá-nos a
dimensão do seja a dialética.
4.1. A
DIALÉTICA PLATÔNICA
Platão,
discípulo de Sócrates, desenvolve as suas idéias através do mito. O mito da
caverna ou da reminiscência das idéias dá embasamento à sua dialética. Nesta
alegoria, Platão coloca alguns homens voltados para o fundo da caverna, de modo
que só vêem suas próprias sombras. Depois, aponta para um deles (chamando-o de
filósofo), que se vira e vai ao encontro da luz, que é o símbolo do
conhecimento, da idéia. Esta simbologia mostra que o indivíduo deve resistir à
sugestão do sensível, para buscar as puras relações inteligíveis (leis ou
idéias) que se mantêm invariáveis através da variabilidade do sensível. É essa
a dialética ascendente. A dialética descendente consiste em descer dos
princípios, ou idéias, encontradas pela dialética ascendente, para a intelecção
dos fenômenos particulares. (Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira)
4.2. A
DIALÉTICA HEGELIANA
O ponto
central da filosofia de Hegel (1770-1831) encontra-se na dialética da idéia.
Herda, para a construção de sua teoria, os pensamentos de Heráclito,
Aristóteles, Descartes, Kant, Espinosa, Fichte e Schelling. Parte da Tese - Ser,
pura potencialidade, o qual deve se manifestar na realidade através da Antítese - Não-Ser.
Na contradição entre tese e antítese surge
a Síntese - Vir-a-Ser. Esse raciocínio é aplicado
tanto à aquisição de conhecimento quanto à explicação dos processos históricos
e políticos. Para ele, a verdadeira ciência do pensamento coincide com a
ciência do ser.
4.3.
PLATÃO VERSUS HEGEL
Enquanto
Platão nos fazia desviar os olhos do mundo das sombras para concentrá-los na
contemplação do invisível, Hegel nos ensinava a suportar a morte, a separação.
Dizia: "o espírito só conquista a sua verdade encontrando a si próprio e
na dilaceração absoluta". "Para Platão, quando o homem compreende que
o mundo das sombras não é ou é falso, procura desviar-se deste mundo e
colocar-se na via certa, orientar seus olhos para a visão da idéia; ao passo
que em Hegel não se trata simplesmente de substituir um desvio pela via certa,
e sim de suportar o desvio, porque só então se alcança aquele ‘certo’ em toda a
sua plenitude". (Bornheim, 1977)
5. A
ELABORAÇÃO DO PENSAMENTO
5.1. AS
PERGUNTAS DO FILÓSOFO
O
filósofo, para se dizer filósofo, tem que se valer da pergunta. Toda pergunta
exige uma resposta. E a própria resposta dá origem a uma nova pergunta. Mas a
pergunta do filósofo não é qualquer pergunta. É uma pergunta que visa à
descoberta da verdade. Por isso, não se contenta com os pré-conceitos. Ele
busca o conceito, retirando o verniz que esconde a realidade das coisas. Se
perder este ímpeto, esta condição ou esta postura deixará de ser filósofo, para
se apassivar aos acontecimentos. Nesse sentido, ele não deve querer saber
muito, estar a par de tudo o que acontece, mas adquirir o poder de se concentrar
num dado problema e tirar dele todo o conhecimento que for possível.
5.2.
EXPLICAR É DESDOBRAR
Plica em
latim significa dobra. Ex-plicare significa desdobrar,
ou seja, abrir as dobras. Toda explicação nada mais é do que o desdobramento de
alguma coisa; é o encadeamento das idéias no discurso falado ou escrito. A
árvore veio da semente; muitos animais vieram do ovo. Disto resulta que na
semente ou no ovo está contido todo o desenvolver daquela espécie de árvore ou
de animal. Dar uma explicação das coisas é reconstituir todo esse processo de
desdobramento. Nesse mister, uma explicação mais profunda, denominada
filosófica, exige uma explicação desde o começo: explicatio ab
ovo (explicação desde o primeiro ovo). (Cirne-Lima, 1997)
5.3.
POSTURA CIENTÍFICA
O
cientista, acostumado a elaborar o seu pensamento através de hipóteses, provas
e conclusões, está sempre fortalecendo o argumento fraco, a fim de
descobrir e formular uma nova teoria em sua ciência particular. Utiliza-se da
contra-indução, que é o processo de rejeitar aquilo que já foi provado. Nesse
sentido, destaca aqueles pontos em que não houve adequação exata entre a
realidade e a teoria. Estuda-os com o devido cuidado, a fim de chegar ao
verdadeiro conhecimento que os fatos revelam.
A defesa das causas
perdidas é outra postura que auxilia o poder de argumentação do
cientista. Empenhando-se denodadamente na perquirição dos fatos adversos, ele consegue
penetrar no âmago da pureza científica.
6. O
DIÁLOGO
Toda
a vida do homem é um diálogo ininterrupto.
Organicamente, somos frutos do diálogo biológico dos nossos pais
terrestres. Ninguém consegue aprender sem o diálogo com os outros.
E, mesmo calados, estamos dialogando conosco mesmos.
6.1.
CRÍTICA E OPOSIÇÃO
O
verdadeiro diálogo inclui crítica e oposição. São os elementos diversos e
contraditórios que deverão convergir para uma síntese. Note-se o diálogo numa
reunião, em que as pessoas pensam de forma diferente. A função do
coordenador é ouvir atentamente cada uma delas, para depois tomar a sua
decisão. Esta decisão engloba uma síntese do discutido e do
não discutido, ou seja, daquilo que ficou dito nas entrelinhas dos
discursos.
6.2. A
VERDADEIRA DIALÉTICA INCLUI A TOLERÂNCIA
A
dialética tem um pressuposto fundamental: a tolerância. É por ela
que nos exercitamos a ouvir a fala do nosso próximo. Somos tão limitados, que
sempre julgamos ter razão. Esforçando-nos em ouvir o outro, vamos educando os
nossos ouvidos para a contradição, pois sempre que há uma dicção,
há, em contrapartida, a contradição. Lembremo-nos da famosa frase
de Voltaire: "Não concordo com nada do que você diz, mas defenderei o seu
direito de dizê-lo até o fim".
6.3. UNS
COMPLEMENTAM OS OUTROS
Ninguém é
uma ilha. A civilização obriga-nos a nos relacionarmos uns com os outros. Por
isso, a Lei de Sociedade prescreve que cada indivíduo deve complementar o seu
próximo: ao forte cabe o amparo do fraco; ao inteligente, a instrução do
ignorante; ao rico, o auxílio do pobre. Todos viemos a este mundo para
desempenhar uma missão, grande ou pequena, mas que pesa na soma geral. O
desprezo que os grandes sentem para com os pequenos é muito mais um reflexo do
orgulho e da ignorância, pois estão sempre os utilizando para os serviços
grosseiros, no sentido de manter a ordem da vida social.
7.
CONCLUSÃO
Estejamos
abertos ao debate, seja de que tipo for. Se soubermos tirar proveito das
discussões, não haverá um único momento em que não possamos acrescentar valores
morais ao nosso patrimônio espiritual, enriquecendo-o ainda mais.
8.
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
BLANCHÉ,
R. História da Lógica de Aristóteles a Bertrand Russel. Lisboa:
Edições 70, 1985)
CIRNE-LIMA,
C. Dialética para Principiantes. 2.ed., Porto Alegre: Edipucrs, 1979
GRANDE
ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Lisboa/Rio de Janeiro: Editorial
Enciclopédia, [s.d. p.]
SOARES,
Órris. Dicionário de Filosofia. Rio de Janeiro: Ministério da
Educação e Saúde, INL, 1952.
São
Paulo, junho de 2004
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