15 março 2011

Ler e Problematizar

Filosoficamente considerado, há dois tipos de conhecimento: 1) histórico (cognitio ex-datis); 2) racional (cognitio ex-principiis). O conhecimento histórico diz respeito à razão alheia. São os dados, aqueles gerados ao longo do tempo, principalmente pelos grandes pensadores da humanidade, tais como, Sócrates, Platão, Aristóteles, Descartes e outros. O conhecimento racional, por sua vez, fundamenta-se nos princípios da razão e não exclusivamente nos dados alheios.  

Há necessidade de consultarmos os grandes pensadores do passado? Por quê? É que os sistemas filosóficos representam a história do uso da razão. Consultando-os, podemos extrair deles uma grande quantidade de conhecimentos, pois não teríamos tempo suficiente para apreendê-los somente por nós mesmos. Descartes, por exemplo, achava que a leitura desses filósofos era uma conversa entre os melhores espíritos de épocas passadas. Nesse sentido, diz-se que os clássicos nunca ficam obsoletos, isto é, são sempre atuais.

Filosofar quer dizer problematizar e, mais especificamente, formular problemas. O problema filosófico não deve ser confundido com um outro problema qualquer, como o matemático, em que se procura construir teoremas. Na filosofia, ele se assemelha ao questionamento que Sócrates fazia em sua época, quando indagava o seu interlocutor através da ironia e da maiêutica. Assim, é preciso interrogar, duvidar, hesitar, examinar, ou seja, pensar.

A leitura dos clássicos, e sua problematização, leva-nos a pensar o que eles pensaram, mas com o intuito de tornar nossos os seus pensamentos, desde que haja consentimento da nossa razão. Não podemos ser como “os macacos e os papagaios”, que simplesmente repetem o que os outros disseram. Precisamos ultrapassar o que foi escrito pelos outros, pois o que importa é a nossa maneira de ser, o nosso modo de pensar. Em síntese: temos que adquirir certa autonomia no pensar.

Filosofar não é tarefa fácil, porque induz-nos a enfrentar os nossos preconceitos e as nossas idiossincrasias. Isso, porém, gera sofrimento. Como largar um hábito inveterado de uma hora para outra? Como destruir um preconceito que nos acompanha desde longa data? De qualquer forma, é sempre útil pensar sobre o pensamento, no sentido de tirarmos conclusões que nos levem a ampliar a interpretação da realidade.

Leiamos, interpretemos e problematizemos e nos aproximemos da verdade. A ilusão pode nos oferecer horas de prazer, mas no longo prazo o que importa é o desenvolvimento integral de nosso ser.

Mais informações em:

RAFFIN, Françoise. Pequena Introdução à Filosofia. Tradução de Constância Morel e Ana Flaksman. Rio de Janeiro: FGV, 2009. (Coleção FGV de bolso. Série Filosofia)

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