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14 fevereiro 2012

Moral e Política Segundo Alguns Filósofos

Para Maquiavel, há vícios benéficos e virtudes perniciosas. A moral, na política, não deve vir de fora, mas ser autonormativa. “Isso não significa que o príncipe (o chefe político) deva ser imoral ou indiferente ao bem e ao mal, mas que às vezes o que para um indivíduo é ruim (por exemplo, a crueldade) torna-se necessário ao governo do Estado”.

Para Voltaire, a discórdia é a peste, e a tolerância, o remédio. Defende que o respeito às opiniões alheias deveria provir do bom senso, ou seja, da nossa ignorância sobre qualquer problema de uma dada relevância. Isso se aplica à religião, à ciência e, principalmente, à política.

Para Rousseau, o homem, nascido livre, está acorrentado. No seu Contrato Social, evoca a necessidade de cada pessoa renunciar a sua liberdade em prol da sociedade. “Somente um homem não mais educado na escola do egoísmo e da propriedade privada poderá fazer escolhas políticas com base não nos seus interesses particulares, mas tendo em vista o bem-estar do conjunto da sociedade, segundo o princípio da vontade geral”.

Para Fichte, a sustentação da linguagem original confere ao povo alemão a sua supremacia sobre os demais. “Isso os torna os únicos depositários, no mundo moderno, da antiga sabedoria original e confere a eles o dever de civilizar o resto da humanidade”.

Para Nietzsche, devemos ressaltar a moral dos vencedores e a dos perdedores. Na Grécia antiga a saúde, a juventude, a sexualidade, o orgulho da própria força eram considerados virtudes. O Cristianismo trouxe-nos a moral dos perdedores, pois “Os novos valores que se impuseram são ainda os mesmos pelos quais somos educados: o pudor do corpo, a vergonha da sexualidade, a humildade, o amor pela pobreza, a renúncia a viver em plenitude, o desejo da morte”.

Fonte de Consulta

NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Margherita De Luca. São Paulo: Globo, 2005.

 

02 julho 2008

Politeia de Zenão

Zenão é um estrangeiro, um barbarós, nascido por volta de 330 a.C. Chega na Grécia, em 316, ainda muito jovem. Como todos os estrangeiros, é visto como pouco civilizado, pois a raça grega é considerada superior às demais. Ao procurar o oráculo grego — para saber do que deveria se ocupar —, recebe a seguinte mensagem: "... torna-te... da cor dos mortos..." Interpreta-a como a necessidade de conhecer toda a cultura grega, desde Homero. No final de sua vida recebe todas as honras de cidadão grego, sem nunca ter pretendido tal condição.

Politéia
 – de polis, cidade, é a constituição de uma cidade, seu perímetro e suas leis. A politéia de Zenão é proveniente dos ensinamentos recebidos do estoico Crates, o cínico. A base desses ensinamentos está na formação do novo homem – integralmente interior – que, seguindo a nova physis, tornar-se-á o novo cidadão. Para tal finalidade, contudo, é necessária uma nova psyché. Para Zenão, ser homem é anterior a ser grego, jônico ou espartano. O importante é ser cosmopolita, cidadão do mundo, o que significa transcender os limites geopolíticos traçados pela historicidade.

A estrutura se sua politéia apresenta-se na união entre lei e natureza. Diz: "devemos considerar todos os homens como ‘démotas’ e cidadãos, e que o modo de vida segue uno e a ordem una, como um rebanho que numa pastagem se nutre em conjunto, segundo uma mesma lei". Além disso, afirma que: "não se devem construir templos aos deuses, mas possuir a divindade só no pensamento"; "não devemos construir a cidade com monumentos, mas com a virtude dos cidadãos"; "o mundo é uma verdadeira cidade por oposição às cidades presentes, estas não o sendo senão no nome".

Em sua Cosmópolis, o diligente é o virtuoso, é o sábio. A descrição do diligente é extensa: tem superioridade de comando, é disciplinado, tem vontade férrea, não se abate, tem pensamento correto, é ativo, tem convicção, é amigo, é fraterno. Zenão, neste particular, difere substancialmente das ideias de Platão. Para Zenão, todos os cosmopolitas são amigos, parentes, portanto, não há escravos. Platão, por sua vez, idealizou uma República em que os sábios governavam, os soldados a defendiam e os escravos a sustentavam com o trabalho braçal.

O novo homem, a nova physis e um novo conceito político pressupõem uma nova psyché, que se acomode às novas estruturas teóricas. Para isso, há que se unificar o físico, o psíquico e o político em função do par nomos/physis. O ideal monárquico ancora-se, assim, no comando de um aristós. Este, longe de pertencer a uma família aristocrática ou ter riquezas deve ser provido do que os deuses proporcionam a alguns seres humanos, isto é, certas disposições naturais para o comando.

Como vimos, a virtude do aristós já estava presente na mente e nos ensinamentos dos filósofos estóicos. Seria bastante útil se, presentemente, os homens de Estado pudessem se inspirar nesses grandes pensadores da Antiguidade.

Fonte de Consulta

GAZOLLA, Rachel. O Ofício do Filosofo Estóico: O Duplo Registro do Discurso da Stoa. São Paulo: Loyola, 1999.


01 julho 2008

A Política e o Governo Segundo Maquiavel

Antes de Maquiavel, o governante de um país era comparado ao piloto de um navio. São Tomás de Aquino (1227-1274), por exemplo, no seu tratado De Regno (Do Reino), dizia que ao piloto de um navio cabem duas funções: a) preservar o navio para que não se afunde e sofra avarias; b) conduzir o navio ao porto. Do mesmo modo é o governante de uma República, ou seja, deve conduzir o povo, no sentido de não haver dispersão e, ao mesmo tempo, encaminhá-lo para a prática da virtude.

Maquiavel (Nicolò machiavelli, 1469-1527), em O Príncipe, pensa o governo de forma inédita: aceita a primeira função, que é a de preservar o governo das avarias, porém faz silêncio sobre a condução do povo à virtude. Cabe ao governante deixar a República intacta, não resta dúvida; quanto ao realizar a justiça, tem suas dúvidas. O Príncipe retrata o descontentamento do seu autor por ter sido banido da vida pública. O que está por detrás do livro é a aparência do bom e do virtuoso que o condutor do povo deve ter. Não importa se o ser humano é virtuoso, mais vale parecer virtuoso.

Até a vinda de Maquiavel, os manuais de política procuravam dizer ao príncipe o que ele deveria fazer para bem conduzir o seu povo. Para Maquiavel, o governante tem que saber resolver conflitos. A experiência mostra, segundo ele, que a vida social é constituída por um conflito fundamental entre dois grupos sociais – os grandes e o povo. O desejo dos grandes é governar e oprimir o povo; o desejo do povo é não ser oprimido pelos grandes. No capítulo IX de O Príncipe, escreve: "Em todas as cidades se encontram estas duas tendências diversas".

O livro de Maquiavel pode ser dividido em duas grandes partes: do capítulo 1.º ao 15.º, trata dos diversos tipos de principados e de como administrá-los. Nesses capítulos exalta-se que a força é um elemento constitutivo de poder político. Além disso, essa força deve ser uma mediadora de conflitos, porque não se pode agradar a todos em todos os momentos. Na segunda parte, trata de como o príncipe pode parecer bom aos outros. Hoje, esse trabalho é feito pelos marqueteiros.

De um lado, diz que o príncipe deve cuidar para ser bem visto para poder governar. Do outro lado, diz que o príncipe deve aprender a não ser bom. Como conciliar essa duas afirmações? Eis a questão proposta por Maquiavel. O príncipe precisa às vezes frustrar as expectativas que se depositam sobre ele. O que está em jogo é que a melhor ação nem sempre é aquela que é vista e avaliada como boa, nem a pior ação é aquela que é vista e avaliada como má. O cenário político é um jogo em que os mais argutos (chamados sofistas na Antiguidade) acabam vencendo os mais justos.

Embora tenha escrito este livro como uma resposta ao seu banimento da vida pública, O Príncipe de Maquiavel é um clássico e, muitas das suas ideias, estão presentes em nossa vida política atual.

Fonte de Consulta

LIMONGI, Maria Isabel. Ética e Política n’O Príncipe de Maquiavel. In FIGUEIREDO, Vinicius de (Org.). Seis Filósofos em Sala de Aula. São Paulo: Berlendis & Vertechia, 2006.