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28 fevereiro 2026

Felicidade em Aristóteles

As obras de Aristóteles — Ética a Nicômaco, Ética a Eudemo e Magna Moralia — são ainda hoje a referência mais importante para quem queira estudar e escrever sobre ética. Tanto na Ética a Nicômaco como na Ética a Eudemo, Aristóteles procura definir e caracterizar o bem. Em ambas surge a noção de que "o bem do homem consiste no bom exercício da atividade humana". E qual é essa atividade? É atividade da alma racional, da razão, atividade esta que é disposta de acordo com a virtude. 

Antes de penetrarmos no tema felicidade, entendamos o significado de virtude: será ela uma paixão? Uma faculdade? Ou uma disposição? Paixão não é, pois o medo e o ódio nunca podem ser considerados virtudes. Faculdade, também não, pois uma faculdade tanto pode ser posta ao serviço do bem quanto do mal. É, na realidade, o resultante duma disposição voluntária. Assim, para Aristóteles, a virtude é um extremo na excelência, mas é uma posição média entre dois vícios, um por excesso e outro por falta.

A felicidade seria o prazer, a diversão, a honra? O que é que caracteriza o bem ou a felicidade? Para Aristóteles, a felicidade é o maior bem do homem e identifica-se com o viver bem e o fazer o bem. Não é prazer, nem diversão e nem mesmo honra. A felicidade estaria centrada no estudo teórico. Somente este tem o condão de proporcionar a felicidade, pois a pessoa que empreende o estudo teórico, empreende-o por conta própria, sem outro móvel que não seja o de estudar e o de continuar a estudar.

Vida feliz pressupõe tempo livre. As pessoas que estão voltadas essencialmente para o sustento físico não podem ser felizes, porque lhes falta o tempo livre e necessário para cuidarem de suas almas e disporem suas ações para os objetivos superiores da existência humana. Às vezes, a sorte ajuda no processo da felicidade, mas a felicidade em si não depende da sorte. A felicidade é um sentimento intrínseco da ação realizada. Não é a influência externa; é o bem que se fundamenta em si mesmo.

De nada adianta buscarmos coisas que estão fora de nós mesmos. Podemos, muitas vezes, agradar aos outros, mas desagradarmos a nós mesmos. Isso deve ser evitado. Observe que no livro Política, Aristóteles disse que a virtude ou as boas ações poderiam ser tanto particulares quanto sociais. Definindo o homem como um animal político, quis dizer que todos os homens devem ser solidários uns com os outros. A solidariedade se realiza na cidade. Para tanto, o interesse social deve vir antes do interesse particular. Surge a questão: podemos ensinar a virtude? Ela é passível de ser aprendida?

A virtude é ensinada pela educação, tornando-se com o tempo um hábito, uma segunda natureza. Essa segunda natureza é uma forma especial de fazer as coisas. E, uma vez adquirido, não se perde jamais. Observe que quando estivermos exercitados numa dada virtude, nada nos fará mudar de atitude. Alguém nos pede para fazermos algo que contrarie a nossa razão e a nossa ética. De imediato, recusamos o pedido. Para os outros pode ser uma ação banal, mas para o exercício da virtude é uma tarefa hercúlea que exige muito esforço da vontade, no sentido de continuarmos sendo o que somos, independentemente da avaliação alheia.

Estudemos os grandes pensadores da humanidade. Sempre poderemos acrescentar algo ao nosso passivo intelectual e moral.

Fonte de Consulta 

MARQUES, Ramiro. O Livro das Virtudes de Sempre: Ética para os Professores. Portugal: Landy, 2001.

 

Aristóteles

Aristóteles (384-322 a.C.) nasceu em Estagira, colônia greco-jônia, na península macedônica da Calcídia. Filho de Nicômaco, médico. Ainda criança, ficou órfão de pai e mãe. Quando contava 18 anos (367 a.C.) mudou-se para Atenas, o centro intelectual por excelência, e aí estudou 20 anos sob a orientação de Platão. Aos 50 anos de idade, abriu uma escola denominada de liceu, pela proximidade do tempo de Apolo Liceio. Foi tutor de Alexandre, o Grande. Anos depois, assim como Sócrates, foi acusado e condenado, mas fugiu para não permitir que Atenas pecasse duas vezes por causa da Filosofia. Os seus alunos chamavam-se Peripatéticos, quer porque tinham o costume de passear pelo jardim enquanto estudavam, quer porque o local fosse conhecido por Passeio (Peripatos).

A enciclopédia aristotélica distingue-se em quatro grupos: 1.º, os escritos e as doutrinas lógicas que servem de introdução geral a todo o sistema; 2.º, Filosofia especulativa, cujo fim é o verdadeiro supremo; 3.º, a Filosofia prática, cujo fim é a ação; a Filosofia criativa ou poética, cujo objeto é o produto artístico. A Filosofia especulativa compreende a Filosofia primeira, a Matemática e a Física; a Filosofia pratica distingue-se em Ética econômica e política; a Filosofia poética considera a arte e as formas específicas da Poesia e da Retórica.

O ponto básico da filosofia de Aristóteles é a sua divergência com relação à "Teoria das Ideias" de Platão. Ambos são realistas, mas Platão vê o seu realismo na "Teoria da Ideias", no mundo perfeito e imutável, no mundo das formas. Para Platão, o conceito já existe. O que temos que fazer é rememorá-lo. Aristóteles acha que o real é o sensível e que o conceito se forma pela abstração. Uma pessoa tem a forma de uma cadeira, outra pessoa tem outra forma de cadeira e uma terceira pessoa tem uma terceira forma de cadeira. Aristóteles pega todas as formas de cadeira, retira as diferenças e mantém o que é igual, formando o conceito cadeira, através de uma operação mental.

Platão estabeleceu os princípios da filosofia idealista, em que havia uma superioridade da razão. Com Aristóteles, o foco da atenção transfere-se para a experiência. Embora aluno de Platão, deste discordava fundamentalmente, chegando a ponto de dizer que ele era amigo de Platão, mas muito mais da verdade. O gênio de Aristóteles é, acima de tudo, ordenador, lógico. Uma de suas grandes ideias é a de classificação que permite agrupar os seres de acordo com suas semelhanças ou diferenças. Também se deve a ele a criação da lógica como disciplina própria.

O realismo aristotélico pode ser agrupado nos seguintes itens: crítica a Platão, a origem da filosofia, o princípio de identidade, as causas do ser, o ser como substância, o acidente, o movimento, Deus e sua natureza, a ordem e eternidade dos movimentos naturais, o homem como animal político e a virtude como justa medida. Este realismo dominou absolutamente a Idade Média, principalmente no período da Escolástica, e mais precisamente com Santo Agostinho. O uso exagerado do silogismo é uma prova cabal desse predomínio.

De acordo com Ramiro Marques, em O Livro das Virtudes de Sempre: Ética para Professores, Aristóteles constitui ainda hoje a referência mais importante para quem queira estudar e escrever sobre ética. Esses ensinamentos estão catalogados em suas três grandes obras: Ética a Nicômaco,Ética a Eutidemo e Magna Moralia. Magna Moralia, também conhecida por Grande Moral ou Grandes Livros de Ética, embora pouco editada e pouco conhecida, é uma obra de grande qualidade, pois complementa e aprofunda o que Aristóteles escreveu nas outras éticas.

Na ética de Aristóteles, a virtude está no meio. Você não deve estar mais à esquerda ou mais à direita. Literalmente, a frase está correta. A sua interpretação, porém, deixa a desejar. Devemos vê-la como o termo médio de uma polêmica e não simplesmente a virtude está no meio. A virtude deve ser construída conforme a discussão for tomando corpo, isto é, passando de um extremo ao outro. Esta noção de ética dá direção à sua política. Diferente de Sócrates e Platão, que é da polis, de Atenas, Aristóteles é o filósofo do Império, do Império de Alexandre, o Grande. 

Somos o arcabouço de toda a história da humanidade. Às vezes parecemo-nos originais, mas uma acurada pesquisa mostra que a essência do que sabemos já fora veiculado pelos grandes pensadores da humanidade.

 

29 junho 2008

Genealogia da Ética

Desde que o homem teve de viver em conjunto com outros homens, as normas de comportamento moral têm sido necessárias para o bem estar do grupo. Muitas destas normas eram extraídas das religiões existentes, que cheias de dogmas e tabus impunham uma dose de irracionalidade ao valor moral. Mesmo entre os chineses, que não possuíam uma religião organizada, havia muitas normas esotéricas de comportamento ético.

A especulação exotérica começa somente com o pensamento grego. Sócrates, Platão e Aristóteles são os seus principais representantes. Sócrates dizia que a virtude é conhecimento; e o vício, é o resultado da ignorância. Então, de acordo com Sócrates, somente a educação pode tornar o homem moralizado. Platão estabelece que a vida ética é gradativamente mais elevada pela adequação desta às ideias (eide) superiores, análogas à forma do bem. Aristóteles deu à ética bases seguras. Dizia que o fim do homem é a felicidade temporal da vida de conformidade com a razão, e que a virtude é o caminho dessa felicidade, e esta implica, fundamentalmente, a liberdade.

Na Idade Média, os valores éticos são condicionados pela religião cristã, especificamente o Catolicismo. A Patrística e a Escolástica são os seus representantes. Nesse período, dá-se ênfase à revelação dos livros sagrados. O Pai, o Filho e o Espírito Santo determinam as normas de conduta. Jesus, que é filho e Deus ao mesmo tempo, torna-se o grande arauto de uma nova ética, a ética do amor ao próximo. Porém, essa ética é conspurcada pelos juízos de valores de seus representantes, que distorcem a pureza do cristianismo primitivo.

As exortações católicas mantiveram-se por longos anos. Contudo, no século XVI começou a sofrer a pressão do Protestantismo, ou seja, a reação de algumas Igrejas às determinações da Igreja de Roma. Para os protestantes, a ética não é baseada na revelação, mas nos valores éticos, examinados e procurados de per si. A revelação religiosa pertence à religião. O filósofo ético deve procurar os fundamentos ontológicos dessa disciplina, tão longe quanto lhe seja possível alcançar.

Kant, o quebra tudo, surge nesse contexto. Para Kant a Ética é autônoma e não heterônoma, isto é, a lei é ditada pela própria consciência moral e não por qualquer instância alheia ao Eu. Como vemos, Kant dá prosseguimento à construção da própria moral. Não espera algo de fora. Aquilo que o homem procura está dentro dele mesmo. Muitos são os filósofos que seguiram Kant. Depois destes, surgem Scheller (1874-1928), Müller, Ortega y Gasset etc., que penetram na ética axiológica, ou seja, estuda a ética do ângulo dos valores.

A Ética é especulação dos valores. Não resta dúvida que esse escorço histórico muito nos auxiliará numa melhor compreensão da moral e dos sentidos nela incorporados.

Fonte de Consulta

SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. ed., São Paulo, Matese, 1965.

 

Ética em Aristóteles

Aristóteles, um dos grandes filósofos da Antiguidade, não surgiu do nada. Ele situa-se no contexto histórico como discípulo de seus predecessores, especialmente Sócrates e Platão, dos quais recebeu muitos ensinamentos. Em sua teoria sobre a bondade, instrui-nos sobre o valor da virtude, tanto na prática pessoal com em sociedade. É o que veremos nas linhas que se seguem.

Para Aristóteles, a virtude é a habilidade de escolher o grau correto ou a intensidade da ação dentro da escala de possibilidades. Em outras palavras, ser virtuoso é saber escolher o caminho do meio. Obviamente, não podemos dizer que um homem tímido é corajoso: mas estritamente falando, nem que ele é um colérico negligente. Coragem, então, é a medida que vem do medo - que pode perfeitamente ser calculada face ao risco. Similarmente, generosidade consiste em dar a própria quantia - nem mais nem menos - de ajuda, de dinheiro, de bens.

Usando esta noção de virtude, Aristóteles descreve o que é a "grande alma" ou a "magnanimidade". É a pessoa que consegue unir em si mesma todas as virtudes morais. Nesse sentido, o homem que se avalia corretamente não se engrandecerá e nem se rebaixará, pois tanto uma situação quanto a outra é considerada um vício. Não falará nem muito alto e nem muito baixo. Seu comportamento não será nem arrogante e nem servil. Não procurará o perigo e nem fugirá dele arbitrariamente.

A virtude moral consiste em fazer as coisas corretas. Aristóteles pensa que tais coisas devem ser feitas de acordo com regras apropriadas. Essas regras podem ser descobertas pelo exercício da virtude intelectual, ou seja, a faculdade racional que existe em cada um de nós. A razão é o elemento básico que pode definir o perfeito entrelaçamento entre o meio e o fim. Embora ressalte a auto-suficiência do ser humano, não deixou de salientar a validade do convívio social, especificamente ao definir o homem como um animal social.

Nos seus estudos sobre a ética Aristóteles, não muito longe dos primeiros filósofos, pensa empiricamente, isto é, ele considera o que os homens realmente fazem e dizem, e as distinções éticas que comumente surgem. Assim, foi o precursor do pensamento moral naturalista, pois começou com os fatos antes mesmo dos princípios. De qualquer forma, sua teoria sobre a ética dá ensejo à sua teoria metafísica, e revela o esforço que concede à razão.

Esse estudo sobre Aristóteles mostra-nos a importância dos valores éticos e da sua aplicação no dia-a-dia. Não nos deixemos levar pelos que não põem em prática tais conceitos.

Fonte de Consulta

HUXLEY, SIR J. e OUTROS. Growth of Ideas: Knowledge, Thought, Imagination. New York, Doubleday & Company Inc., 1966.




Ética e Responsabilidade

Ética. Do grego ethos cuja significação originária é morada, seja o habitat dos animais, seja o abrigo do homem. O segundo sentido, proveniente deste, é costume, modo ou estilo habitual de ser. A morada, vista metaforicamente, indica justamente que, a partir do ethos, o espaço do mundo torna-se habitável para o homem. Assim, o espaço do ethos enquanto espaço humano, não é dado ao homem, mas por ele construído ou incessantemente reconstruído.

A ação humana, embora restrita à responsabilidade pessoal, tem como objetivo o interesse público. A vivência, semelhante à do eremita no deserto, é uma exceção. A questão ética diz respeito ao auxílio que cada um possa exercer na transcendência do outro. Em realidade, é a criação de condições para que o outro realize plenamente o seu projeto de vida ao qual foi destinado.

O princípio da autodeterminação moral é a base do comportamento ético adulto. Deixar-se guiar-se pelas máximas alheias é perder o eu em si mesmo. Segundo Sócrates, o ethos verdadeiro é agir de acordo com a razão, que se eleva acima do consenso da opinião da multidão, para atingir o nível da objetividade própria do saber demonstrativo. A autonomia, assim, não se realiza na solidão, mas se consolida pelo contato entre os seres humanos.

A lei é o farol da ética. Sua origem etimológica encontra-se no termo nomos de que o vocábulo lei (lex) é a tradução latina. Nomos vem do verbo nemo que significa dividir, repartir com outro, sugerindo a idéia de justiça. Dessa forma, as ações individuais no cumprimento dos deveres, devem salvaguardar a liberdade própria e a do outro. Por isso, Voltaire afirma com veemência: "Não concordo com o que você diz, mas defenderei o direito de você dizê-lo até o fim".

A reflexão sobre o ethos leva-nos à prática do amor. O verdadeiro exercício do amor longe está das proibições e interdições de que a moral propõe. É uma autodeterminação que envolve a autonomia da vontade na busca da atualização do ser. Assim, não é agir de qualquer jeito, mas de forma ordenada, generosa, que promova a pessoa e os direitos do outro, sobretudo quando esses direitos são espezinhados.

O cumprimento de nossos deveres, agradando ou não, marca indelevelmente a nossa presença no seio da sociedade. Cuidemos para que os nossos atos sejam dignos de apreciação.

Fonte de Consulta

NOGUEIRA, J. C. Ética e Responsabilidade Pessoal. In MORAIS, R. de. Filosofia, Educação e Sociedade (Ensaios Filosóficos). Campinas, SP, Papirus, 1989.

 

Ética e Moral

Ética — do grego ethos significa comportamento; Moral — do latim mores, costumes. Embora utilizamos os dois termos para expressarmos as noções do bem e do mal, convém fazermos uma distinção: a Moral é normativa, enquanto a Ética é especulativa. A Moral, referindo-se aos costumes dos povos nas diversas épocas, é mais abrangente; a Ética, procurando o nexo entre os meios e os fins dos referidos costumes, é mais específica. Pode-se dizer, que a Ética é a ciência da Moral.

Ética e Moral distinguem-se, essencialmente, pela especulação da Lei. A Ética, refere-se à norma invariante; a Moral, à variante. Contudo, há uma relação entre ambas, pois a sistematização da segunda tem íntima relação com a primeira. Nesse sentido, a Filosofia e a Religião contribuem para a fundamentação da tal norma. A raiz da Ética deve e terá de ser encontrada na Ontologia. A Axiologia é apenas uma disciplina desta. O valor é ainda ser e não nada.

O caráter invariante da Lei possibilita-nos questionar: de onde veio? Quem a ditou? Por que? Com que fim? A resposta dos transcendentalistas é que ela é heterônoma, isto é, veio de fora do "eu". Deus seria o autor da norma. Liga-se, assim, Filosofia e Religião. Para os cristãos, as normas éticas estão centradas nos Dez Mandamentos; a resposta dos imanentistas é que ela é autônoma, isto é, surge das tensões das circunstâncias.

Deus é o autor da Lei. Mas, que é Deus? Como surgiu? Por que? Eis algumas perguntas cujas respostas nos deixam embaraçados. A dificuldade de defini-lo não significa sua inexistência, pois, sentimo-lo dentro de nós mesmos, através das suas leis, que estão gravadas em nossa consciência. Ética e Moral são objetivas, pois fazem parte da constância e invariância da eternidade de Deus. Cabe-nos, abrir a nossa mente, para captá-las com mais precisão.

Ética e Moral determinam a perfeição do ser. Acostumados a confundir os meios com os fins, não conseguimos visualizar claramente o fim último da existência humana. Por isso, o erro crasso de conceber a Moral como um mero e fastidioso catálogo de proibições. O fim do homem é, pois, o de realizar, pelo exercício de sua liberdade, a perfeição de sua natureza. Implica, muitas vezes, a obediência à vontade de Deus, contrariando a própria, se assim delimitar, o dever, imposto pela sua consciência.

Os valores éticos e morais devem ser procurados na Lei Natural, a única que nos abre o caminho para a libertação de nosso espírito imortal.

Ética a Nicômaco

Aristóteles, o maior sistematizador da Filosofia grega, escreveu mais de quatrocentas obras, das quais restam quarenta e sete, algumas certamente autênticas e outras de autenticidade duvidosa. Destas quarenta e sete somente uma pertence à classe das chamadas exotéricas, isto é, obras de divulgação, para "gente fora da escola". Dentre tais obras, as dedicadas à Ética são: a Ética a Nicômacos, a Ética a Êudemos e a Ética Maior (ou Magna Moralia).

O caráter estritamente esotérico de suas obras deve ser ressaltado. Aristóteles não escrevia para o público em geral, mas para o uso interno na sua academia. Em todas as suas obras sobre a Ética há características de notas de aula, tomadas pelos alunos, e transformadas em apostilas, para que o material fosse aproveitado na escola e não se perdesse no tempo. A Ética a Nicômacos, por exemplo, teria sido a edição das notas de aula tomadas pelo seu filho Nicômacos.

A Ética a Nicômacos compõe-se de dez livros. No livro I Aristóteles tenta determinar quais as coisas que são boas para o homem, inclusive qual é o bem supremo. Nos livros II, III e IV descreve as várias formas de excelência moral. Nos livros V, VI e VII examina com mais cuidado as excelências morais e as deficiências morais. Nos livros VIII e IX, destoando do escopo de sua obra, analisa a amizade. No livro X, concluindo, especula sobre a amizade e introduz o leitor à sua nova obra, ou seja, a Política.

A Ética a Nicômacos difere profundamente de um livro moderno de filosofia. No seu conteúdo, nota-se repetidas vezes, o sentido de coleção de notas de aula, elaborada com mais ou menos cuidado. Quer dizer, falta-lhe unidade e coerência, requisitos de um livro moderno de filosofia. O bem supremo, ou a felicidade, por exemplo, é objeto de discussões separadas nos livros I e X (o primeiro e o último da obra). Deixa muito espaço para a amizade e discute pouco a excelência intelectual.

O conteúdo da Ética a Nicômacos é determinar qual é a finalidade e o bem supremo da criatura humana, a fim de que ela possa fruir a felicidade de maneira mais elevada. Para Aristóteles, a ética é parte da ciência política, porque descreve o homem como um animal social que deve participar de sua polis. Este homem, como governante, deve proporcionar não só a felicidade de seus familiares e amigos com também de seus concidadãos. Para isso deve conhecer a formas de governo e de como governar, assunto de sua obra Política.

A ética é uma especulação sobre o bem e o mal, a justiça e a injustiça, a felicidade e a desgraça etc. Saibamos colocá-la em prática nos deveres mais ínfimos ou mais elevados de nossa vivência.

Fonte de Consulta

ARISTÓTELES, A Ética a Nicômacos. Trad. de Mário da Gama Kury. Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1985.

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Rosely de Fátima Silva, mestre e bacharel em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, escreveu o prefácio deste livro, em 2015, editado pela Martin Claret. Do exposto, transcrevemos algumas notas:

Até a nossa noção de felicidade pode ser considerada como influenciada pelo pensamento ético-aristotélico.

Entende-se, assim, que o bem da polis deriva e é consequência das ações dos indivíduos, dos cidadãos virtuosos, unidos em philia (amizade), que assim alcançam a perfeita virtude, o fim último de suas ações, ou seja, o bem. A virtude, enquanto bem e fim último das ações e deliberações de todos os homens a se alcançar, é denominada eudaimonia, palavra grega que se traduz, usualmente, por felicidade ou bem-estar, mas que não representa um estado, mas sim uma atividade humana, constante e contínua de bem deliberar sobre os meios para alcançá-la. Florescimento é outra palavra que traduz a eudaimonia.

Observemos a divisão, em 10 capítulos, de Ética a Nicômaco — lembremos que os livros antigos não possuíam tal divisão — e atentemos para os temas discutidos por Aristóteles:

I — Objeto e método do estudo, crítica da doutrina platônica do bem, definição da felicidade, introdução às definições das virtudes morais e intelectuais

II — Definição de virtude moral e noção de mediedade

III — Estudo do ato voluntário e da escolha deliberada

IV — Definições das virtudes morais

V — Definição da justiça

VI — Uma virtude intelectual unida à práxis: a prudência

VII — Acrasia, intemperança e bestialidade; primeiro tratado do prazer

VIII — A amizade

IX — A amizade (continuação)

X — Segundo tratado do prazer; felicidade; ética e política

O que a obra discute? 

Primeiramente, uma teoria do bem e da felicidade — eudaimonia — que se distancia das concepções platônicas sobre o bem, de cunho idealista, pois, como vimos, a eudaimonia é, para Aristóteles, uma atividade. Aristóteles fará uma distinção, crucial para o seu argumento ético, entre virtudes morais e intelectuais: basicamente, podemos dizer que as primeiras originam-se de nossas ações, enquanto as segundas podem ser aprendidas ou ensinadas.

Para Aristóteles, o conceito de justiça, explicitado no capítulo V da obra, é a virtude mais perfeita, porque é o uso da virtude completa. Ela é completa porque aquele que a possui é capaz também de fazer uso da virtude ao outro, e não somente a si próprio.

Sobre o justo, discutirá o justo natural e o justo legal. O justo legal é fácil de definir: o que os homens, por meio das leis, convencionam. O justo natural sofre poucas variações, enquanto o justo legal, dada às miríades de particularidades que abarca, sofre inúmeras variações. Em um contexto de homens virtuosos, o justo natural se apresenta como um reflexo de suas virtudes.

Concluindo, na Ética a Nicômaco, Aristóteles apresenta-nos uma teoria da ação humana, através do estudo dos atos humanos, do modo como a razão humana permeia e interfere em suas paixões e desejos, e quão voluntários e involuntários podem ser esses atos. Práxis e responsabilidade são inseparáveis.