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04 julho 2008

Viver sem Defesas

O que é que nos inquieta e nos dá uma sensação de impotência? É a preocupação de que devemos ser alguma coisa na vida e, com isso, ser respeitado, ter um nome, estar inscrito no livro da fama. Mas, será esta a atividade essencial do ser humano? Será que esta atitude não nos leva à superficialidade da vida? Este seria o verdadeiro caminho para atingir a perfeição do Espírito? Por que nos violentamos para ter mais bens, para sermos mais isso ou mais aquilo?

O grande problema do ser humano é a fragmentação em que a sociedade o colocou. E a própria ciência tem contribuído para isso, principalmente ao formar seres cada vez mais especializados, aqueles que conhecem "quase tudo do quase nada". O que se espera de um homem de ação que, nos seus quarenta anos de exercício de uma profissão, ficou sempre repetindo os mesmos atos? Não resta dúvida que se tornou mais eficaz em sua especialidade. Mas, como se relaciona com o todo da vida? Como irá enfrentar, por exemplo, o problema da morte?

A vida é muito mais do que o exercício de uma profissão. Ela envolve o cultivo do "eu interior", subjacente à essência divina. Deixando de viver a plenitude da vida, adiamos peremptoriamente a potencialização do nosso ser espiritual. Quando não o fazemos por nós, saímos à cata de quem possa nos ensinar, aumentado assim, o número de gurus, aos quais transferimos o ônus de nossa salvação. Contudo, a escolha deve ser pessoal, porque pressupõe esforço próprio. Ninguém, além de nós mesmos, poderá salvar a nossa alma enfermiça.

Lutamos para ter status, para ser alguma coisa na vida. E quando a sociedade nos nega tal oportunidade? Devemos nos rebelar, usar de violência para conseguir aquilo que achamos ser o nosso direito natural? Não temos o hábito de enfrentar os problemas, tais quais são na realidade. Contudo, não há separação entre o observador e a coisa observada. Nós somos o que observamos. Estar atento ao que estiver acontecendo, aqui e agora, tem mais eficácia do que os muitos rodeios de nosso espírito, que teima em fugir da situação apresentada.

Como nos tornarmos um novo homem, se vivemos condicionados ao homem velho? Enfrentarmo-nos, tais quais somos, sem repreensões, sem censura, sem acharmos que poderia ser bem diferente não é tarefa fácil. Olhamos para o nosso corpo e dizemos: estou gordo; preciso emagrecer. Submetemo-nos aos regimes; passado algum tempo, voltamos a engordar. É possível que tomando consciência de que estamos gordos, sem recriminar, sem censurar, podemos ter melhores resultados do que fazendo violência para emagrecer.

O desejo de perfeição é natural no ser humano. O que nos cabe é facilitar 
esse processo. Para tanto, façamos uma analogia com a árvore: plantando-a e desplantando-a, para verificar como está indo o seu crescimento, com certeza a mataremos. Revolvendo a terra, tirando as ervas daninhas e aguando-a convenientemente, os efeitos serão outros. Façamos o mesmo no reino do Espírito: tomemos consciência de nossos defeitos, de nossas rusgas, mas sem impor uma falsa moral, no sentido de eliminá-los definitivamente de nossas ações.

Estejamos sempre prontos a aceitar as coisas como elas são, sem defesas de espécie alguma. Tenhamos a certeza que, o pouco que fazemos no reino do Espírito, é o muito no que tange à nossa mudança comportamental autêntica.

Fonte de Consulta

KRISHNAMURTI, J. O Mistério da Compreensão. Trad. de H. Veloso. 2. ed., São Paulo: Cultrix, 1972.

02 julho 2008

Temos o que Somos

Somos o que temos ou temos o que somos? Eis a questão.

As atitudes e os comportamentos do ser humano determinam o "tipo de posse" que ele deseja para si. Krishnamurti, filósofo indiano, já nos alertava que o mundo é violento porque cada um de nós o é. Se assim não fosse, o mundo não o seria, pois o mundo nada mais é do que a soma do que cada um é. Nesse sentido, o egoísta, que pensa exclusivamente em seu benefício pessoal, quer tudo para si; o altruísta, que pensa mais no seu próximo, quer tudo para os outros.

Devido aos insistentes apelos da mídia televisiva, parece que temos necessidade de uma infinidade de bens. Será que eles realmente fazem parte do nosso projeto de vida? Como avaliar corretamente o que devemos ou não possuir? Se o Senhor da vida quisesse nos chamar neste exato momento, do que precisaríamos para a nossa ida ao mundo dos Espíritos? Em outras palavras, qual é a verdadeira propriedade? O que realmente levaremos deste mundo? Nada do que é da matéria (dinheiro, títulos honoríficos, imóveis); tudo o que é do Espírito (virtude, conhecimento, desprendimento dos bens materiais).

Parece-nos que, na relação entre o ter e o ser, faz-se necessário averiguar o nosso interior, sem outro motivo que não o de perscrutar a nossa consciência sobre o que realmente é útil para o nosso progresso espiritual. Os Espíritos superiores estão sempre nos advertindo acerca de nossos desejos terrenos. Nem sempre vemos o lado mau daquilo que desejamos obter. Deus, que sabe o que é melhor para nós, pode impedir a sua realização.

Vejamos um exemplo prático. Queremos, a qualquer custo, obter um lugar de destaque, um posto político ou uma função administrativa em alguma organização governamental. Com isso, os nossos problemas financeiros estariam resolvidos. Há lógica no ensejo. Contudo, se as circunstâncias nos distanciarem de tal intento, não devemos nos rebelar contra Deus. É possível que estejamos sendo preparados para coisas mais substanciais. Além disso, se galgássemos esses postos, o desempenho da função consumiria totalmente o nosso tempo, que quase nada sobraria para as obrigações genuinamente espirituais.

Reflitamos sobre a lei de causa e efeito. Se hoje estamos nos esforçando por ser humilde, simples de coração e submisso à vontade de Deus, deduz-se, por esta lei universal, que no amanhã colheremos o que tivermos plantado. Ninguém colhe o que não plantou. Tenhamos sempre em mente este dístico do conhecimento superior.

Cada um de nós está sempre no devido lugar. Não nos coloquemos como vítimas, mas esforcemo-nos para receber tudo com a devida humildade: tanto o êxito, quanto o malogro; tanto a saúde, quanto a doença.

 


Renovação Mental

Somos o resultado de todas as nossas ações do passado. Alguns psicólogos identificam este resultado como sendo o inconsciente; outros falam de um inconsciente coletivo. As religiões dogmáticas classificam-no como pecado original. Concomitantemente, a cada dia que passa vamos acrescentando experiência ao nosso passivo espiritual. Assim, a mente atual nada mais é do que a soma de tudo o que fizemos ao longo de todo esse tempo. Pergunta-se: é possível uma transformação radical da mente, mesmo estando presa aos paradigmas do passado?

O inconsciente é o nome que damos à soma das experiências. Porém, a inconsciência não existe, mas sim a consciência. Por quê? Porque tudo está na consciência, embora tenhamos percepção limitada da mesma. De acordo com a Doutrina Espírita, poder-se-ia dizer que o nosso cérebro físico, sendo limitado ao corpo físico, não é capaz de absorver todas as informações registradas em nosso cérebro espiritual. Há muitas informações que ficam apenas no corpo espiritual.

A renovação mental exige experiência. Observe que precisamos de ação para dar respaldo àquilo julgamos ser. A salvação da alma, para muitas religiões, está atrelada ao bem que se faz ao próximo. Contudo, se fizermos o bem com o intuito de receber uma recompensa, a salvação já estará comprometida. A virtude, por exemplo, não conta com nenhuma autoridade. Krishnamurti diz: "A mente que segue uma fórmula, disciplinando-se para alcançar a virtude, cria para si própria os problemas de imoralidade".

Como surgem os problemas? Por que eles perduram ao longo do tempo? Problema pode ser definido como um desafio não resolvido. Por isso, tudo o que nos chegar deve imediatamente ser resolvido, para que deixe livre o nosso estado mental. A mente aberta é aquela que dá uma resposta imediata ao que lhe foi solicitado. O hábito de adiar os nossos compromissos cria para nós um desânimo mental que pode ser nefasto para o resto de nossa existência.

O apego ao passado dificulta sobremaneira a nossa renovação mental. Estamos ainda excessivamente presos às tradições, à autoridade e às crenças religiosas. Para nos libertar do passado, temos que nos libertar dos paradigmas que o construíram. Muitos dizem que dever haver um choque externo, pois olhando as coisas com os mesmos olhos, não saímos do lugar, ou seja, voltamos a ponto de partida. Nesse sentido, a virtude não deve ser cultivada, mas fazer parte do próprio ser.

Estejamos abertos aos apelos do alto. Reflitamos sobre tudo o que se nos apresenta. Nada de preguiça, quando o assunto é a nossa renovação espiritual.

Fonte de Consulta

KRISHNAMURTI, Jidu. A Importância da Transformação. Tradução de Hugo Veloso. São Paulo: Cultrix, 1972.

 

27 junho 2008

Autopercebimento

Ao nos movimentarmos na vida estabelecemos relações conosco mesmos e com o nosso próximo. Ao nos relacionarmos conosco mesmos e com os outros criamos problemas. Os problemas, de seu lado, nada mais são do que perturbações em nosso bem-estar. Eles podem originar-se de uma doença, de um sofrimento psicológico, de um desejo insatisfeito, do ódio, da injúria, do elogio etc. É sobre essa perturbação momentânea que iremos refletir nas próximas linhas.

É válido querer saber a causa do sofrimento? Não seria isso fugir dele? Quando queremos saber o porquê, isto é, se foi por causa de nossa incúria, ou de uma encarnação passada, o que estamos tentando fazer é aquietar o pensamento, dando-lhe um consolo. A atitude correta seria tomar consciência do sofrimento, tentando entrelaçar observador e coisa observada, pois se o sofrimento for analisado como se estivesse fora de nós, dá-se a impressão de que ele não nos pertence, o que dificulta a percepção.

A mente gosta de embalar-se na ilusão. Por que? Observe: geralmente atribuímos autodecepção aos nossos projetos de vida. A decepção aparece porque estabelecemos um hiato entre o que é e o que deve ser. Como todos nós queremos ser alguma coisa, porque o nada nos aborrece e nos dá um sentimento de inutilidade, acabamos projetando um devir acima do que é. Esta é a ilusão pela qual a maioria dos seres humanos é vítima. Como não bastasse, acabamos transmitindo aos nossos descendentes.

Devemos atender à vontade de Deus ou nos submetermos ao que é? Quando damos importância exagerada à vontade de Deus, deixamo-nos guiar por uma ideia, que é alheia a nós. Refletir sobre o que é é mais difícil. Temos que partir do nada, da nossa insignificância e, através do pensamento, ir construindo um modo peculiar de entender a realidade nua e crua. Lembremo-nos de que não existe nem o erro nem a verdade; falsos ou verdadeiros são sempre os nossos juízos com relação à realidade.

Qual a palavra mágica para a resolução do problema? De acordo com Krishnamurti, a solução do problema está no autopercebimento. O raciocínio é simples, mas de difícil aplicação. Temos de tomar como se fosse nosso aquilo que se nos apresenta. Quer dizer, não devemos fugir das admoestações, dos caminhos que temos de percorrer e das perturbações que temos de passar. É refletindo sobre o que vem à mente, sem censura ou outro subterfúgio, que conseguiremos aquietar o nosso cérebro para a real percepção do problema e sua consequente solução.

Tenhamos coragem de olharmos para dentro de nós mesmos. Somos o que somos. De nada adianta fazermos uma imagem que não corresponda ao que é.

Fonte de Consulta

KRISHNAMURTI, J. A Primeira e a Última Liberdade. Tradução por Hugo Veloso. São Paulo, Cultrix, 1960.