18 março 2011

O Ócio e o Filosofar

“Para filosofar, a mente deve estar ociosa”.

Arthur Schopenhauer (1788-1860) anota duas exigências para se filosofar: 1) que se tenha coragem de não guardar no coração nenhuma pergunta sem resposta; 2) que se traga à clara consciência aquilo que se entende por si mesmo para considerá-lo como problema. Por fim, para se filosofar propriamente, a mente deve estar ociosa. Quer dizer, deve procurar desinteressadamente o conhecimento que o mundo intuitivo lhe oferece.

Depreende-se que o verdadeiro filósofo não é aquele que tem uma finalidade, um objetivo, uma vontade, mas aquele que renuncia a si mesmo e, deixando o particular, procura absorver-se no universal. É preciso ver o universal nas coisas particulares. Por isso, a filosofia, o anelo pela verdade nua e crua. Nesse sentido, os professores de filosofia podem dispor de inúmeros conceitos e muitas abstrações e, mesmo assim, não serem verdadeiramente filósofos.

Schopenhauer diz: “Somente se o conhecimento for dirigido ao universal é que pode permanecer isento de vontade; já o objeto do querer, pelo contrário, está nas coisas particulares”. Ainda: “Para o intelecto a serviço da vontade só há coisas particulares; o gênio, ao contrário, desconsidera e negligencia o individual”.

A verdadeira filosofia não pode ficar apenas nos conceitos abstratos, que muitas vezes deturpam o próprio conhecimento. Já não vemos mais árvores, animais e pedras, pois são meros produtos de nossa abstração. O mesmo podemos dizer das palavras verdade e beleza, que se tornaram mágicas a ponto de nos infundir o dualismo maniqueísta, entre o verdadeiro e o falso, o bem e o mal, o belo e o feio. Seria mais produtivo fundamentá-la na observação e experiência, interior e exterior.

O ócio pode livrar-nos dos vereditos da razão, expressão usada para aquele que toma o conhecimento falso por verdadeiro, pois acreditou numa verdade sem exame. É sobre este fato que devemos direcionar o nosso pensamento. Nesse caso, “rejeitar nove verdades a aceitar uma como erro” é uma frase lapidar que deveríamos pôr em prática em nossas lucubrações filosóficas.

Fonte de Consulta

Schopenhauer, A. Sobre a Filosofia e seu Método. Organização e tradução de Flamarion Caldeira Ramos. São Paulo: Hedra, 2010.

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