24 abril 2018

Pré-Socráticos: Quatro Termos

Folheando o livro Filósofos Pré-Socráticos, de Jonathan Barnes, pela editora Martins Fontes, deparamo-nos com quatro termos (kosmos, physis, arche e logos). Façamos algumas anotações.

Kosmos. É o universo ou o próprio mundo. Daí, a cosmologia. Os gregos, daquela época, tinham necessidade de criar um termo que representasse o universo e o mundo todo. O substantivo kosmos deriva de um verbo cujo significado é "ordenar", "arranjar", "comandar". Um kosmos é um arranjo ordenado e, além disso, dotado de beleza. Deduziam que, sendo ordenado e belo, deveria ser também, em princípio, explicável. Curiosidade: cosmético (termo moderno) deriva de kosmos.

Physis, ou "natureza". O termo deriva de um verbo cujo significado é "crescer". Ao aludirmos ao physis, estamos querendo distinguir o mundo natural (physis) do mundo artificial (techne). Carroça é artificial; árvore, natural. Essa distinção não esgota o significado do conceito "natureza". Em determinado sentido, "natureza" designa a soma de objetos naturais e eventos naturais. Physis se presta, também, a denotar algo existente em cada objeto natural.

Arché. A noção de princípio ou origem das coisas leva-nos ao arché que, pode significar "começar", "iniciar", como também "reger", "dirigir". Arché é uma origem que tem uma regra ou princípio. Quais são os princípios do desenvolvimento, a origem dos fenômenos naturais? Qual é a origem do kosmos? Para Tales de Mileto, o arché do cosmos é a água. Quer dizer, tudo no universo tem por base a água.

Logos. Sua tradução é problemática. É cognato do verbo legein, que normalmente significa "enunciar" ou "afirmar". Meu logos é aquilo que quero afirmar. Apresentar um logos ou um relato de algo é explicá-lo, o que se deduz que logos é uma razão. Quando afirmamos que um homem inteligente é capaz de apresentar um logos das coisas, estamos querendo dizer que ele é capaz não só de descrever as coisas como explicá-las, ou apresentar a razão das coisas.

Os pré-socráticos, embora rudimentarmente, já faziam uso do método experimental, dando muita ênfase ao uso da razão, do racional, da argumentação.

Os Estoicos e o Barulho do Vizinho

Quem nunca teve um vizinho que liga o som ao meio dia e vai até altas horas da noite? Os estoicos sugerem, no sentido de manter a tranquilidade de espírito, simplesmente ignorar o barulho.

O que se entende por estoicismo? É uma corrente filosófica (300 a.C. a 200 d.C.) que apregoava a vida contemplativa acima das ocupações, das preocupações e das emoções da vida comum. É uma espécie de ataraxia, ou seja, a paz da alma. Sobreviveu na cultura ocidental até os nossos dias. Para os estoicos, a felicidade reside na independência com relação a qualquer circunstância exterior.

Para encontrar a paz da alma, o indivíduo deve viver em harmonia com a razão (natureza), afastando-se de tudo que poderia prejudicá-la, principalmente as paixões. A verdade, que se assenta na ausência das paixões, exige um domínio da vontade, devendo este aceitar o destino e mostrar-se desapegado em relação às coisas em geral. Temas extraídos do estoicismo inspiraram Montaigne, Corneille, Descartes, Kant, entre outros. O estoicismo teve influência, também, na ética cristã.

Voltemos aos vizinhos barulhentos. Mesmo nos sentindo zangados, oprimidos, os estoicos argumentariam: será que as causas dessas emoções negativas provocadas internamente são mesmo negativas em si mesmas? O som dos vizinhos não deveria ser motivo de raiva. Achar que é falta de compaixão, nem pensar. Os estoicos pensam que o que nos causa dissabor são as convicções e opiniões que temos de uma situação além do nosso controle direto.

Em se tratando do barulho, poderíamos requerer uma ordem judicial, poderíamos confrontá-los com ameças de violência física. De qualquer maneira, essas ações seriam desastrosas, pois alterariam a tranquilidade dentro da ordem natural do universo e nos causariam uma perturbação mental e emocional ainda maior.

Fonte de Consulta

STEPHEN, Alain. Filosofia sem as Partes Chatas: da Grécia Antiga ao Pensamento Moderno: as Grandes Questões Explicadas de Forma Clara e Objetiva. Tradução Carlos Augusto Leuba Salum, Ana Lúcia da Rocha Franco. São Paulo: Cultrix, 2017.

17 abril 2018

Filosofia Oriental

"Para admitir uma realidade além dos fenômenos objetivos, necessita o ocidental de um grande esforço de vontade que o leve às alturas da fé." (Huberto Rohden)

Para entendermos a filosofia oriental, temos que nos debruçar sobre o sentido amplo e o sentido restrito do termo. No sentido amplo, diz-se do "pensamento" (e não propriamente da filosofia), antigo e moderno, de todos os países do Oriente. Ou seja, do pensamento elaborado nas regiões da Ásia Menor, da Síria, da Fenícia, da Índia, da China e do Japão. No sentido restrito, há que se direcionar o estudo para as culturas específicas: Índia, China e Japão.

Para uma boa compreensão da filosofia oriental, pensemos no tipo de saber que esses países buscam. Para eles, o que realmente interessa é resolver o problema da salvação. Os saberes culto e técnico existem em função deste principal. Na Índia, entende-se a salvação como a integração do indivíduo em um todo cósmico; na China, em um todo social. O intelectualismo da filosofia ocidental existe, mas é reduzido ao mínimo dentro da filosofia oriental.

Qual seria a diferença entre a filosofia indiana e a filosofia chinesa? A filosofia chinesa tem um propósito prático-ética e prático-social; a filosofia indiana, a especulação das ideias. Qual o elemento comum? É o "sábio" (não o raciocinador, o intelectualista, o filósofo stricto sensu). Baseando nesse elemento comum, qual a relação com a filosofia ocidental? A filosofia ocidental trabalha com a razão raciocinante, no afã da objetividade; a filosofia oriental, por seu turno, procura reintegrar-se naquilo que chama de Realidade verdadeira.

Há discussões acerca de haver ou não uma relação entre a filosofia oriental e a filosofia ocidental. Alguns acham que a presumida falta de relação entre elas é devido ao ponto de vista de cada filosofia, pois os orientais fundamentam as suas teses na tradição religiosa, na concepção de mundo, nos problemas de comportamento social; não na pura razão teórica da Grécia antiga. Contudo, alguns pensadores (Schopenhauer, por exemplo) acham que somente a filosofia oriental pode ser considerada a verdadeira filosofia.

Huberto Rohden, em O Espírito da Filosofia Oriental, enfatiza o caráter predominantemente intuitivo, sobretudo na Índia, em oposição à lucubração intelectiva da filosofia ocidental. Nesse sentido, para compreender a filosofia oriental, o homem ocidental deve mudar o seu foco de atenção e ver pelo lado do oriental. O ocidental identifica a Realidade com os fatos. Para os orientais, os fatos são apenas reflexos secundários desta. Esta é a questão de fundo de toda a comparação entre a filosofia ocidental e a filosofia oriental.

Fonte de Consulta

MORA, J. Ferrater. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Loyola, 2004.

11 abril 2018

Teologia

Teologia. Vem  de Θεός” palavra grega que significa "Deus", e “λόγος”, logia (estudo de). Significa o estudo sistemático e racional da religião e suas influências. Diz-se, também, Ciência da religião, das coisas divinas. Esta palavra passou, por simples transposição, do grego e do latim para as línguas modernas. A partir do século XII, ela se fixou, nas escolas católicas, com o sentido atual: disciplina em que se encontram interpretadas, elaboradas e ordenadas num corpo de conhecimentos, a partir da Revelação e à sua luz, as verdades da religião cristã.

Na Grécia antiga, o termo "teologia" assumiu três significados: 1) mitológico (discurso entre o mito e o logos); 2) filosófico-cosmológico (a partir de Aristóteles, a teologia seria a “filosofia primeira” ou metafísica); cultual público (o que se diz dos deuses no culto oficial).

Em termos cristãos, Agostinho de Hipona (354-430) foi o primeiro teólogo latino a estudar o assunto. Seus escritos sobre o livre-arbítrio e o pecado original tiveram grande influência na cristandade ocidental. Para ele, o equivalente latino, teologia, é o "raciocínio ou discussão a respeito da Divindade". Alberto Magno (1193/1206-1280), padroeiro dos teólogos católicos romanos, exerceu grande influência, pois afirma que há uma interconexão de saberes filosóficos, etnográficos, históricos, espirituais etc., para ajudar a compreender qualquer tema religioso. S. Tomás também teve a sua participação. Para ele, a teologia é uma consideração das verdades, feita de modo racional e científico, tendente a proporcionar ao espírito do homem crente certa inteligência dessas verdades.

Na alta Idade Média, predominava o lema philosophia ancilla theologiae, ou seja, a filosofia era tratada como serva da teologia. Sendo a teologia a "Rainha das Ciências", todas as outras ciências, tais como, a psicologia e a filosofia, existiam apenas para ajudar o pensamento teológico. Observe os debates intermináveis na época da Escolástica.

Presentemente, a teologia abrange a dogmática (que define e demonstra as verdades a crer), a ascética (que descreve as paixões, os vícios e as virtude que se coadunam com os preceitos evangélicos), a mística (que expõe o modo como a alma se une a Deus), a positiva (que se consagra ao testemunho direto das Escrituras dos Padres e dos concílios), a escolástica (que se reduz ao sistema científico da fé, aplicando-lhes a razão filosófica); a litúrgica (que explica as fórmulas de orações e as cerimônias do culto) e a paranética (que se ocupa das prédicas).

Na filosofia, temos: 1) teologia filosófica, ou seja, a teologia racional ou natural, Ciência de Deus à luz natural da razão. Parte da metafísica que estuda a existência e os atributos de Deus na sua qualidade de ser Absoluto e Infinito. 2) Bunge, em seu Dicionário de Filosofia, acha que por não haver outros materiais além dos da compatibilidade com as escrituras canônicas, e como qualquer texto não científico pode ser interpretado de maneiras alternativas, há mais teologias do que religiões.

Teologia e espiritualidade. Antes, os santos costumavam ser teólogos e os teólogos costumavam ser santos. A teologia sem espiritualidade é vazia, espiritualidade sem teologia é cega. Nas palavras de Albert Einstein: “A religião sem a ciência é cega, e a ciência sem religião é manca.”
Fonte de Consulta
Dicionários e Enciclopédias