31 maio 2024

Caixa de Ferramentas Mentais para uma Boa Vida

Rolf Dobelli, no livro Como pensar e viver melhor: ferramentas mentais para a vida e os negócios, descortina-nos novas concepções acerca de uma boa vida. Acha que pensamos como na Idade da Pedra. A evolução ainda não conseguiu que o cérebro se adequasse ao desenvolvimento da civilização. Por isso, precisamos de uma caixa de ferramentas mentais para não sucumbirmos à velocidade das inovações.

Como tem dificuldade de definir o significado de uma boa vida, usa a abordagem da teologia negativa da Idade Média. À pergunta “quem ou o que é Deus” os teólogos respondem não se pode dizer exatamente o que é Deus, só se pode dizer o que não é Deus. O mesmo deveríamos fazer com a boa vida. Só deveríamos nos preocupar com aquilo que não é uma boa vida.

De onde vem as 52 ferramentas mentais expostas no livro? Poder-se-ia falar de três grandes fontes. A primeira é a investigação da psicologia nos últimos quarenta anos, que se desdobraria em psicologia mental, psicologia social e algumas abordagens da psicologia clínica. A segunda fonte vem do estoicismo. Os estoicos davam grande importância a exercícios práticos. A terceira fonte é a longa tradição da literatura de investimento financeiro, principalmente de Charlie Munger e Warren Buffett.

Eis alguns de seus capítulos: o princípio da caixa preta; contraprodutividade, a ilusão da introspecção, o “não” em cinco segundos, a ilusão do foco, a armadilha da atenção, ler menos, mas em dobro, a ilusão de mudar o mundo, a crença no mundo justo, a lei de Sturgeon, subtração mental...

Destaquemos, a título de exemplo, a contraprodutivadede:

Contraprodutividade designa que muitas tecnologias que, à primeira vista, poupam tempo e dinheiro, mas que essa economia se dissipa no momento em que se faz um conta total.

E-mail. Avaliado de forma isolada, é genial: escrevem-se em enviam mensagens de forma rápida e de graça. Vejamos o tempo que se perde filtrando mensagens, lendo coisas que não tem interesse...

Apresentações. Antigamente, uma palestra para direção de empresas consistiam em veiculação de argumentos lógicos. Em 1990, chegou o programa PowerPoint. Os executivos começaram a investir milhões de horas: aprender, sofisticar, letras... lucro líquido, zero.

Câmeras digitais. Que libertação? Hoje você está sentado em uma montanha de fotos e vídeos dos quais 99% são desnecessários.  

Cuide-se de não cair na armadilha da contraprodutividade. Ela só é visível à segunda vista. 

Conclusão: anunciada com tantas promessas, a tecnologia muitas vezes tem efeito contraproducente para a qualidade de vida.

DOBELLI, Rolf.  Como Pensar e Viver Melhor: Ferramentas Mentais para a Vida e os Negócios. Tradução de Kristina Michahelles e Silvana Gollnick. Rio de janeiro: objetiva, 2019.


10 abril 2024

Exercícios Filosóficos do Estoicismo

Lembre-se da dicotomia do controle. Algumas coisas dependem de nós, outras não. Dedique sua atenção ao que você pode controlar, como o desenvolvimento do caráter bom, e não em elementos do acaso ou da Fortuna, que escapam ao seu controle.

Lembre-se do papel do juízo. As coisas em si não nos irritam. São o juízos ou opiniões sobre elas que causam sofrimento.

Contemplação do sábio. Imagine que uma pessoa sábia como Sócrates está observando suas ações. Ao enfrentar uma situação difícil, pergunte-se como essa pessoa sábia reagiria.

Diário filosófico. Crie seu próprio caderno de meditações e ensinamentos estoicos, como Marco Aurélio fez, com lembretes para si mesmo. Pegue as ideias filosóficas centrais e as reformule com suas próprias palavras, ou detalhe em seu diário como você pode fazer uso delas.

Reavaliação diária. Ao fim de cada dia, reflita sobre suas ações. Faça a si mesmo as seguintes perguntas: O que eu fiz bem? O que fiz mal? Como posso melhorar? O que deixei de fazer?

Transforme a adversidade em algo melhor. Quando você encontrar a adversidade, transforme-a em algo melhor. É possível criar o bem em qualquer situação, se reagirmos com virtude.

Premeditação da adversidade. Imagine brevemente quaisquer adversidades que você poderá enfrentar no futuro. Depois, deixe os pensamentos se dispersarem. Ao contemplar as adversidades antecipadamente, você tira o poder delas, caso venham mesmo a acontecer.

Cláusula de reserva estoica. Quando você iniciar um projeto, viajar, fizer um planejamento, diga a si mesmo: "Aceito o destino." Tenha em mente que, apesar de suas intenções serem as melhores, algo fora do seu controle pode interferir nos seus planos.

Contemplação do todo. Perceba que você é apenas uma parte minúscula de um universo inteiro, mas, ainda assim, parte do universo. Por um momento, abra sua mente para abarcar todo o cosmos e vivencie sua conexão com o todo.

Visão do alto. Imagine que você está muito acima da Terra, no espaço, olhando-a do alto. Então lembre-se de como seus problemas pessoais são pequenos no grande esquema das coisas.

Contemplação da mudança. Medite sobre como todas as coisas na natureza estão em constante mudança, e como tudo passa por uma transformação contínua por períodos curtos ou longos.

Contemplação da impermanência. Perceba que tudo que você possui lhe foi dado por empréstimo. Lembre-se de que é certo apreciar os dons da Fortuna enquanto eles estão conosco, emprestados, mas que um dia teremos de devolvê-los.

Memento mori. Reflita sobre sua própria condição mortal, a condição das pessoas que você ama como seres mortais, e sobre a morte como sendo apenas o estágio final e natural de estar vivo. Agradeça pelo tempo que você tem pela frente e se esforce para usá-lo com sabedoria.

Viva com gratidão. Perceba, a cada dia, que tudo que você tem é um presente do universo. No fim da vida, olhe para tudo que viveu como uma dádiva, com o sentimento de gratidão.

Viva no momento presente. Não permita que sua mente se antecipe ou se preocupe com o futuro, pois isso é fonte de ansiedade. Em vez disso, planeje o futuro de forma racional e lembre-se de que o momento presente é tudo que temos. Caso comece a sentir ansiedade, tenha consciência disso e volte sua atenção para o presente. Lembre-se de que, quando o futuro chegar, você enfrentará os acontecimentos com a mesma racionalidade que enfrenta hoje.

Aja pelo bem comum. Lembre-se de que você é parte da comunidade humana e de que nascemos para ajudar uns aos outros. Lembre-se de agir pelo bem das outras pessoas.

Analise suas impressões com cautela. Não aceite as coisas por seu valor aparente nem faça juízos precipitados. Recue um passo e tenha cautela ao analisar as evidências antes de formar uma opinião. Se as evidências não forem firmes o suficiente, interrompa totalmente qualquer juízo.

FIDELER, David. Um Café com Sêneca: Um Guia Estoico para a Arte de Viver. Tradução de Heci Regina Candiani. Rio de Janeiro: Sextante, 2022

 

20 fevereiro 2024

Feuerbach, Ludwig

Ludwig Andreas Feuerbach (1804-1872), desde a juventude, teve sua vida marcada pelas questões religiosas. Quarto filho do célebre jurista Paul Anselm Feuerbach, ele nasceu na cidade bávara de Landshut, em 1804, onde cresceu em um ambiente da alta burguesia e cedo desenvolveu interesses intelectuais. Sua vida melhorou, em 1837, depois que se casou com Berha Löw, filha de um rico industrial.

Hegel afirmava que a filosofia e a teologia tratam do mesmo tema: a realidade representa uma ordenação regular, permeada pela razão, descrita metaforicamente na religião cristã revelada e totalmente acessível a um conhecimento racional. Feuerbach teve conhecimento dessa filosofia. Além disso, Daub, em sintonia com a tese hegeliana, ensinava que todos os milagres bíblicos e os dogmas eclesiásticos podiam ser racionalmente justificados. Tudo isso o desencorajou da aspiração profissional de se tornar pastor.

Com sua obra A essência do cristianismo, Ludwig Feuerbach explica porque a religião é humana e Deus não é o criador dos homens, mas, em vez disso, os homens são seus criadores. No último capítulo de seu livro escreve: “Demonstramos que o conteúdo e o objeto da religião são totalmente humanos, que o mistério da teologia é a antropologia e o do ser divino, o ser humano”.

Em A essência do cristianismo, demonstra o seu propósito terapêutico de libertar os homens das projeções do além e das ilusões, bem como de fixar a religião naquele que, segundo sua opinião, é o seu lugar: o coração e o ânimo do homem. Foi a partir do estudo de Hegel que Feuerbach desenvolveu a rejeição à existência do além e a convicção de que Deus e o mundo formam uma unidade.

Em se tratando da imortalidade, dizia que esta poderia existir apenas para o espírito humano como um todo, portanto, para o gênero, mas não para o indivíduo.

Para Feuerbach, toda a religião é uma antropologia invertida. Segundo ele, as qualificações de Deus nada mais são do que as ideias tipicamente humanas. Deus é onisciência, porque conhecer e saber são valores imensamente apreciados pelo gênero humano; é amor, porque todos nós amamos e gostaríamos de amar mais; é justiça, porque essa é a virtude de que mais sentimos falta.

Fonte de Consulta

ZIMMER, Robert. O Portal da filosofia: Uma Breve Leitura de Obras Fundamentais da Filosofia Volume 2. Tradução Rita de Cassia Machado e Karina Jannini. São Paulo: Martins Fontes, 2014.



07 fevereiro 2024

Platão e a Religião

Platão (428-348 a.C.), filósofo grego da antiguidade, trouxe-nos os ensinamentos sobre as Formas, os Modelos, a Cidade ideal etc. Ele discorria sobre as Formas perfeitas, que estão no além que, para nós, poderia ser denominado de "mundo espiritual", ou "mundo inteligível". Na base de seu raciocínio encontra-se a dialética, regida pela razão.

As notas abaixo foram extraídas do livro de Victor Goldschmidt

A dialética pode ser entendida como a arte de descobrir as semelhanças e as diferenças entre as Formas. Para Sócrates, dialética é uma pesquisa em comum. Impossível discuti-la se um dos interlocutores pretende deter a verdade e recusa, de vez, ser refutado. A razão adere à verdade, enquanto a paixão se atém à sua verdade. Não tendo com quem discutir, a pessoa poderá dialogar consigo mesma. Única coerção permitida: obrigar seu parceiro à pesquisa e à sinceridade.

Toda religião tende ao conhecimento do Ser que nos ultrapassa e em relação ao qual experimentamos um sentimento de “dependência absoluta”. Em Platão, a religião confunde-se inteiramente com a dialética. O artesão divino modela o Universo à semelhança do Modelo. O Modelo existe em si, ele é Ser que se basta, como o Bem se basta. A inteligência que conhece o Bem, que conhece o Modelo, se basta, no seu conhecimento.

Poder-se-ia perguntar: por que Sócrates prefere a morte à evasão? Porque é impossível conhecer a Forma do Bem sem imitá-la. Nesse sentido, não devemos atribuir a “submissão ao julgamento”, pelo qual qual foi condenado, à alta moralidade de Sócrates. Porém em relação ao Bem, ela é sujeição absoluta e exclui toda escolha.

O problema do Mal. O Universo é ora governado, ora abandonado por Deus. “Tudo o que nasce está sujeito à corrupção”, a Cidade ideal, as plantas, os animais. Tampouco a matéria é “má”. Ela é “ausência de Deus” e é ignorância de Deus. A ignorância no homem torna-se esquecimento. É pelo esquecimento que se altera a Cidade ideal, que as almas se condenam à Encarnação, que o Universo do mito se encaminha para o “oceano de diferença”.

Platão recusa-se a considerar a nossa atual existência como um mal. A única questão que preocupa Platão é a justiça. A felicidade vem por acréscimo. Fazendo o mal, a alma faz mal a si própria. Os tiranos que se reencarnam em corpos de lobos, têm a infelicidade de ver atendido seu desejo do mal.

A alma encarnada que hauriu sua felicidade unicamente na prática da filosofia e da justiça é digna de uma única recompensa: a visão permanente das realidades eternas. O culpado será confrontado com suas faltas; a alma purificada será posta em presença das realidades às quais ela se tornou semelhante.

Na tradição dos tempos, recuados ou na fonte, sempre a jorrar, do oráculo de Delfos, a Divindade revela-nos os processos pelos quais a Razão persuade a Necessidade e lhe impõe uma ordem estável. Entre as tradições, as mais veneráveis concernem a Religião. Já a República, entretanto construída unicamente segundo as exigências do Bem, fez o estabelecimento da religião depender, não da dialética, mas da tradição e do oráculo de Delfos.  

A aceitação da tradição, tão pouco conforme ao espírito dialético, que rejeita toda a autoridade, tem um lugar importante na “religião de Platão". É em favor da religião que se opera aqui a transmutação dos Valores que a dialética produz na alma humana.

O culto oficial, a educação cívica e a vida política inteira concorrem assim para livrar os cidadãos de sua falsa individualidade e para libertar neles essa parte que se não reconhece senão em face de Deus. A religião das Leis realiza, para cada um dos cidadãos, uma obra exatamente análoga àquela que a dialética opera na alma dos filósofos.  

De fato, por sua inversão de valores, a dialética proclama que somente a ciência de Deus, não as ciências do homem, merece "preocupar-nos". A supremacia da razão é afirmada contra a inspiração e contra o iluminismo sob todas as suas formas; mas, no entanto, a razão acolhe o mito.

Fonte de Consulta

GOLDSCHMIDT, Victor. A Religião de Platão. Tradução de Ieda e Oswaldo Porchat Pereira. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1970.

 


29 janeiro 2024

Mente e Experiência

F. A. Hayek disse que “a mente nunca pode prever o seu próprio avanço”. A razão é simples: o crescimento de nossa mente está ligado ao “progresso da civilização”.  Observou, também, que nossa capacidade de raciocinar não é “independente da experiência”.

Em se tratando da mente humana, muito podemos aprender com o estoico Marco Aurélio que, em seu livro Meditações, anotações de suas próprias experiências, deixou-nos uma infinidade de frases, pensamentos e sugestões úteis para o nosso bom relacionamento em sociedade

Assim, diante de um problema, de uma contradição, de um dificuldade, a nossa primeira reação, salvo raras exceções, é querer controlar o ocorrido.

Vejamos, porém, como Marco Aurélio diria:

“No início do dia, diga a si mesmo: encontrarei pessoas que são intrometidas, ingratas, abusivas, traiçoeiras, maliciosas e egoístas. Em todos os casos, elas ficaram assim por causa de sua ignorância sobre o que é bom e o que é mau”. Mesmo que o operador do transporte público e o caixa do banco sejam maliciosos, a nossa experiência do mundo pode ser enriquecida, pois ela não é determinada por esses protagonistas. 

Este alerta não é para ignorarmos o mau comportamento dos outros, mas para colocarmos lentes mais amplas nele. Isto faz-nos ver a maldade e a bondade como elas realmente são; daí, sabermos o que é moralmente bom ou moralmente mau.

Platão, na antiguidade, já nos falava do Verdadeiro, do Bem e do Belo. Quando nos predispomos a refletir sobre esses valores, percebemos que o seu contrário é transitório e quando o pensamento percebe o que é certo acaba naturalmente combatendo o erro.

 

 


11 dezembro 2023

Pensamento e Vontade

Pensamento. Do latim pensare, pensar, refletir.  Atividade da mente através da qual esta tematiza objetos ou toma decisões sobre a realização de uma ação. Palavra fácil de ser intuída, mas difícil de ser explicada com palavras. Vontade. É a faculdade de perseguir o bem conhecido pela razão. Disciplina. Submissão da vontade e da inteligência a normas de pensamento, da ação, de conduta, sob os vários aspectos que apresenta a vida humana.

Dificuldade de descrever o pensamento. A cultura grega deu ênfase à razão. A razão fazia o indivíduo raciocinar e aplicar-se ao conhecimento das virtudes. Acontece que o pensamento dos pré-socráticos e dos orientais não são interrogativos, mas poéticos-noemáticos, em que o racional é deixado em segundo plano. Mesmo assim, esses pensamentos poéticos-noemáticos não são superficiais, mas essenciais à própria elaboração do pensável.

Conceito de vontade no curso da história. Na história da filosofia, foi tratado da seguinte forma: 1) Psicologicamente (ou antropologicamente), falou-se da vontade como de uma certa faculdade humana, como expressão de um certo tipo de atos; 2) moralmente, tratou-se da vontade em relação com os problemas da intenção e com as questões concernentes às condições requeridas para alcançar o Bem; 3) teologicamente, o conceito de vontade foi usado para caracterizar um aspecto fundamental e, segundo alguns autores, o aspecto básico da realidade, ou personalidade, divina; 4) metafisicamente, considerou-se às vezes a vontade como um princípio das realidades e como motor de todas as mudanças. Das quatro abordagens a que mais predominou foi a psicológica. (1)

Relação entre pensamento e vontade. Dizemos com razão que um homem de força de vontade é aquele que persegue com firmeza alguma coisa. É a vontade que nos leva à ação. Os atos dependem da vontade e a vontade da ideia. Para que o ato seja moral, o indivíduo precisa distinguir entre o bem e o mal. A pessoa que rouba parte de uma ideia, ou seja, que ele consegue com mais facilidade aquilo que deseja. (2)

Relação entre ideia e ação. Observe a frase de Karl Marx: "Até hoje, os filósofos só fizeram interpretar o mundo; devemos, agora, transformá-lo". Não são poucos os que creem firmemente nessa ideia tendo, como consequência, um total desprezo pela teoria. Muitos preconizam a excelência da ação, como a única solução a ser procurada, a única verdadeiramente eficaz. A ideia assemelha-se a uma semente. Passa por diversos tratamentos até dar o fruto esperado. (2)

A vontade pode ser fortalecida no indivíduo através da educação esclarecedora e, principalmente, através do combate ao capricho e à obediência passiva, bem como pela formação do hábito de propor a si mesmo tarefas difíceis e de trabalhar até conseguir alcançar o objetivo.

(1) MORA, J. Ferrater. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Loyola, 2004.

(2) MENDONÇA, Eduardo Prado de. O Mundo Precisa de FilosofiaRio de Janeiro: Agir, 1988.


 

05 outubro 2023

Filosofia Concreta

Filosofia Concreta, é o título de um livro de Mário Ferreira dos Santos, e diz respeito ao volume X da sua “Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais”. Sua primeira edição é de 1957. Seus capítulos são: “O ponto arquimédico”, “Refutação do atomismo adinâmico”, “Teses dialéticas”, “O ser infinito”, “Os possíveis e o ser”, “Da criação”, “Comentários aos postulados”, “Da matéria”.

Este livro contém 258 teses. Eis três delas:

Tese 1 — Alguma coisa há, e o nada absoluto não há...

Tese 256 — A ciência busca o “como” e o como do “porque” próximo das coisas, mas a filosofia é um afainar-se pelo “porque” do “como” e pelos últimos “porquês” dos “porquês”.

Tese 257 — Se a filosofia tem vários métodos para alcançar a sua meta, uns são indubitavelmente mais hábeis que outros, e um há de haver que será o mais hábil para ser usado pelo homem.

Normalmente, o concreto é entendido como a representação de um ser real, captado pela intuição sensível. Contudo, podemos vê-lo sob outro ponto de vista, bastando fazer uso de sua etimologia. Concreto vem de concretum, particípio passado do verbo crescior, com o aumentativo cum, que lhe dá o significado simples do que cresce junto, do que cresce com outros.

Nesse sentido, a filosofia concreta, para Mário Ferreira dos Santos, é "uma filosofia que dê uma visão unitiva, não só das ideias como também dos fatos, não só do que pertence ao campo propriamente filosófico como também do que pertence ao campo da Ciência, deve ela ter capacidade de penetrar nos temas transcendentais. Deve demonstrar as suas teses e postulados com o rigor da Matemática, e deve justificar os seus princípios com a analogia dos fatos experimentais”.

Eis a última tese do livro, a tese 258 — Filosofar é ação.

"Filosofar é a ação que consiste em conexionar, de certo modo, um fato ou fatos à totalidade do universo, e transcendê-los ou não, ao refletir sobre eles, e sobre os diversos nexos hierárquicos que têm com os outros fatos e entidades antecedentes e consequentes, inclusive transcendentais, a fim de alcançar uma visão humana da Verdade.

A Filosofia é ação; é o afainar-se para alcançar a Mathesis Suprema.

Se essa é ou não alcançável pelo homem, este, como um viandante (homo viator), deve buscá-la sempre, até quando lhe paire a dúvida, de certo modo bem fundada, de que ela não lhe está totalmente ao alcance.

Esse afainar-se acompanhará sempre o homem, e estabelecido um ponto sólido de esteio, devemos esperar por melhores frutos".

Observação do autor: Em todos os tempos se considerou que o ponto de partida deve ser um ponto arquimédico, apodítico, de validez universal. Assim sendo propôs um que é de validez universal ("alguma coisa há"), sobre o qual não se pode pairar nenhuma dúvida.

 


11 setembro 2023

Krishnamurti, Jiddu

Jiddu Krishnamurti (1895-1986) foi um filósofo e orador indiano que discorria sobre autoconhecimento, disciplina e espiritualidade. A partir dos treze anos de idade passou a ser educado pela Sociedade Teosófica, que o considerava o veículo para o “Instrutor do Mundo”. Já, nessa idade, viajava pelo mundo para participar de debates filosóficos. Discutiu sobre desapego e autodisciplina mais do que quaisquer outros temas.  

Repudiando a imagem messiânica que lhe queriam impor, em 1929 dissolveu a grande e rica organização que havia sido criada à sua volta, e declarou ser a verdade “uma terra sem caminhos”, à qual nenhuma religião formalizada, filosofia ou seita daria acesso. A partir de então, por quase sessenta anos até sua morte em 17 de fevereiro de 1986, viajou pelo mundo conversando com grandes audiências e indivíduos sobre a necessidade de uma mudança radical na humanidade.

Krishnamurti não expôs nenhuma filosofia ou religião, mas tratou dos diversos problemas que nos afetam, ou seja, violência, corrupção, segurança, felicidade. Realçava sempre a necessidade de a humanidade se libertar dos fardos internos do medo, raiva, mágoa e tristeza. Em suas palestras, afirmava que organização religiosa, seita ou país são fatores que dividem os seres humanos, pois provocam conflitos e guerras. Não falava como um guru, mas como um amigo.

Krishnamurti deixou um grande corpo de literatura na forma de palestras públicas, escritos, discussões com professores e alunos, com cientistas e figuras religiosas, conversas com indivíduos, entrevistas de rádio e televisão e cartas. Muitos deles foram publicados como livros e gravações de áudio e vídeo.

Frases

“A forma mais elevada de inteligência humana é dirigir a atenção desprovida de julgamento.”

The truth is a pathless land. (“A verdade é uma terra sem caminhos”)

“A curiosidade não é o caminho da compreensão. O entendimento vem com o autoconhecimento.”

“É somente quando o processo de pensamento cessa que pode haver amor.”

“Não há professor, não há aluno, não há líder, não há guru, não há mestre, não há salvador. Você mesmo é o professor, o aluno, o mestre, o guru, o líder, você é tudo.”

“Não há caminho para a verdade: ela que deve vir até nós.”

Alguns títulos de seus livros

A Mente Imensurável

A Primeira e a Última Liberdade

Liberte-se do Passado

Nossa Luz Interior: o Verdadeiro significado da Meditação

O Livro da Vida

Seu Universo Interior: Você é a História da Humanidade

Fonte de Consulta

https://laparola.com.br/jiddu-krishnamurti

https://krishnamurti.org.br/wp/biografia/


Fragmentação e suas Consequências

"Os que creem na verdade afirmam que as coisas de valor mais elevado não são afetadas pela passagem do tempo."

O grande problema do ser humano é a fragmentação em que a sociedade o colocou. E a própria ciência tem contribuído para isso, principalmente ao formar seres cada vez mais especializados, aqueles que conhecem "quase tudo do quase nada". O que se espera de um homem de ação que, nos seus quarenta anos de exercício de uma profissão, ficou sempre repetindo os mesmos atos? Não resta dúvida que se tornou mais eficaz em sua especialidade. Mas, como se relaciona com o todo da vida? Como irá enfrentar, por exemplo, o problema da morte?

A fragmentação pode ser entendida de várias formas, conforme o contexto em que for colocada. Refere-se à quebra de algo em partes menores. Em se tratando da filosofia, há os valores universais e os valores particulares. Quando damos muita ênfase ao particular, relegamos o geral, que deveria ser o mais importante para nós, porque dizem respeito aos princípios. 

Platão, em sua época, descortinou-nos o mundo das ideias, dando ênfase ao transcendental, ao centro. Com o passar do tempo, fomos nos afastando desse centro em direção à sua periferia. Foi a partir da Idade Média que este movimento em direção ao particular começou a tomar força, pois o surgimento da ciência enveredou-nos para a especialização. Platão, porém, nos lembra que em qualquer fase de uma pesquisa é importante saber se estamos nos aproximando ou nos distanciando dos princípios.

De acordo com Weaver, em seu livro As Ideias têm Consequências, o ponto de reverso dessa atitude filosófica foi a aparecimento do nominalismo de Guilherme de Ockham, que nega a existência real dos universais. Nesse sentido, o cientista, o técnico e o acadêmico, que trocaram o Um pelo Muito são tipos cheios de vaidade. Ainda: a obsessão pelos meios pode deixar alguém cego para a realidade.

Com a fragmentação, começamos a dar valor ao superficial, ao entendimento sem o mínimo de esforço, tal como nos adestram as mídias jornalísticas e televisivas. Em geral, oferecem-nos ideias estereotipadas, cujas respostas exigem apenas um sim e um não. O homem moderno não tem mais tempo de se aprofundar no conhecimento, não busca o seu anelo com o transcendental, visto que o apelo material oblitera todas as suas pretensões.

O espírito em evolução necessita de fazer esforços hercúleos para vencer as atrações do mundo, pois tudo gira em torno do egoísmo, da vaidade, da posse, do "tornar-se". Contudo, os objetivos reais de nossa existência é "ser". 

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A Faculdade de Teologia em Sorbonne podia ser consultada em assuntos relativos a operações financeiras, algo que em nossa época de fragmentação seria considerado competência exclusiva do banqueiro. (Capítulo 3 — "Fragmentação e Obsessão" de As Ideias têm Consequências, de Richard M. Weaver)


 

 

 

10 setembro 2023

Ideias têm Consequências, As (Livro)

As Ideias têm Consequências é o título do livro de Richard M. Weaver (1910-1963), traduzido por Guilherme Araújo Ferreira, copyright 1984. Weaver — historiador, intelectual e filósofo conservador do século XX  analisa a causa e o efeito do declínio da crença em regras e valores. Este declínio se dá pelo abandono do transcendental, dos universais, e a ênfase no particular. 

Richard M. Weaver considera Guilherme de Ockham o principal representante dessa mudança, pois este propôs a doutrina do nominalismo, que nega a existência real dos universais. O resultado prático da filosofia nominalista é o banimento da realidade percebida pelo intelecto e o postular como realidade aquilo que é percebido pelos sentidos. E a negação de tudo quanto transcenda a experiência significa a negação da verdade.

Aos poucos a humanidade foi perdendo os esforços hercúleos que os pensadores da Idade Média, os escolásticos, fizeram com o objetivo de preservar uma visão de mundo universal. Os escolásticos compreenderam que o debate universalia ante rem (universal antes do fato) versus universalia post rem (universal depois do fato) livrava-nos do péssimo recurso à justificação pragmática. Aí se encontra o princípio do autocontrole, que é uma vitória da transcendência.

Ao longo do livro vai situando alguns problemas triviais que, analisados com profundidade deixam-nos cada vez mais distantes das verdades universais, pois o homem pragmático está preocupado com o egoísmo, o poder, os prazeres fáceis. Não havendo limite da filosofia nem da religião, tudo lhe é permitido.

O capítulo que trata da Grande Lanterna Mágica, cuja função é projetar imagens selecionadas da vida, na esperança de que aquilo que é visto possa ser imitado, é muito valioso, pois faz uma crítica da imprensa, cinema e rádio, destacando o modo como fazem cabeça dos menos avisados: quanto mais uma expressão é estereotipada, mais digna de crédito ela é. Há, inclusive, a estereotipagem de frases inteiras para que não estimulem a reflexão, mas a evocação de respostas prontas do sim ou do não.

Algumas frases extraídas capítulo que trata da Grande Lanterna Mágica:

“Os operadores da Grande Lanterna Mágica têm especial interesse em manter as pessoas afastadas das realidades mais profundas”.

“Confirmam assim a observação de Sócrates de que a sociedade não se preocupa com a presença de um sábio, mas se mostra inquieta quando ele começa a transmitir sua sabedoria a outros”.

“Grande Lanterna Mágica impede que o cidadão comum perceba a “o caráter fútil de sua contabilidade e a vacuidade de sua felicidade doméstica””.

“Grande Lanterna Mágica é a versão contemporânea da célebre imagem da caverna platônica”.

Conclui o seu livro da seguinte forma:

“Pode ser que estejamos aguardando uma grande mudança; pode ser que os pecados de nossos pais recaiam ainda sobre as gerações futuras até que nos apercebamos novamente da realidade do mal e então sobrevenha uma reação impetuosa como aquela que floresceu no cavalheirismo e na espiritualidade da Idade Média. Se isso é o que de melhor podemos esperar, precisamos, pois, preparar tal renascimento com reflexões e atos volitivos nesse ocaso do Ocidente”.

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Pensamentos Extraídos do Livro

"Pois se todas as coisas tivessem surgido de modo automático, em vez de resultarem do intelecto, todas elas seriam uniformes e sem distinção." (Santo Atanásio)

“O conforto se torna um fim quando as distinções de posição são abolidas e os privilégios, destruídos.” (Tocqueville)

"Todas as ideias estão em Deus e, na medida em que se referem a Deus, são verdadeiras e adequadas. Portanto, nenhuma ideia é inadequada ou confusa, salvo quando se referem ao pensamento individual de alguém." (Spinoza)

“Na verdade, o excessivo amor de si é em cada homem a fonte de todas as ofensas; pois o amante fica cego em relação ao amado, de modo que julga erroneamente o justo, o bem e o honrável e crê que deve sempre preferir seu próprio interesse à verdade." (Platão)

“Os assuntos que têm perturbado o país são a autoridade da magistratura e a liberdade do povo. Vós nos escolhestes para esse cargo; mas, depois de escolhidos, nossa autoridade passa a vir de Deus. É um mandado de Deus e tem Sua imagem impressa nele; e o desprezo por essa autoridade, Deus já o vingou com terríveis manifestações de Sua ira.” (Declaração de John Winthrop dada na assembleia legislativa de Massachusetts em 1645)

“Eu sou diferente de todos os homens que já vi. Se não sou melhor, ao menos sou diferente.” (Rousseau, quando escreveu no início de suas Confissões, estava expressando sem rodeios a marca da sensibilidade egoísta)

"Enfermos estão sempre; vomitam sua bile e a chamam de periódico." (Nietzsche)

Certa vez, Jefferson afirmou que seria preferível ter jornais e prescindir do governo a ter um governo e viver sem jornais. Mas quando tinha setenta anos escreveu a John Adams: “Troquei os jornais por Tácito e Tucídides, por Newton e Euclides, e agora sou muito mais feliz”. 

"Santos e beberrões nunca são progressistas." (Yeats)

Algumas Frases Latinas do Livro 

Homo sapiens (Um homem sábio).

Homo faber (Um homem é um carpinteiro).

Ultima ratio (Pensamento final).

Abeste profani (Abstenha-se do profano).

Universalia ante rem versus universalia post rem (Universais antes da coisa versus universais depois da coisa).

Hortus siccus (Jardim seco).

Ad hoc (Para isso).

Ab extra (De fora).

 

08 junho 2023

Intuição

Garcia Morente, no capítulo terceiro do livro “Fundamentos da Filosofia”, faz um estudo detalhado sobre a intuição como método da filosofia. Eis um pequeno resumo.

A intuição é um meio de se chegar ao conhecimento de algo, e se contrapõe ao conhecimento discursivo. Num único ato do espírito, lança-se sobre o objeto, apreende-o, fixa-o, determina-o. Quanto ao método discursivo, podemos dizer que discorrer e discurso dão a ideia de uma série de atos, de uma série de esforços sucessivos para captar a essência ou realidade do objeto.

Esclarece-nos que não há apenas uma intuição, mas intuições, as quais denomina de intuição sensível, espiritual, intuição real, intuição intelectual, intuição emotiva, intuição volitiva. Posteriormente, enumera os filósofos defensores de cada uma dessas intuições. Estudemos cada uma dessas intuições.

Intuição sensível é a intuição que todos praticamos a cada momento. Quando com um só olhar percebemos um objeto, um copo, uma árvore, uma mesa. Esta intuição sensível não é a mesma de que fala os filósofos. As razões: 1) O filósofo precisa de tomar como termo do seu esforço objetos não sensíveis; 2) Os dados sensíveis não oferecem conhecimento. Precisa de um dado universal.

Situemos a intuição espiritual. Suponhamos a seguinte afirmação: “Uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo.” O princípio de contradição, como o chamam os lógicos, é, pois, intuído por uma visão direta do espírito, é uma intuição.

Útil se nos torna diferenciar intuição formal da intuição real. A intuição formal descreve o objeto. A intuição real penetra no fundo da coisa, que chega a captar sua essência, sua existência, sua consistência.

Continuando nosso estudo. A intuição intelectual é um esforço para captar diretamente, mediante um ato direto do espírito, a essência, ou seja, aquilo que o objeto é. A intuição emotiva mostra-nos não a essência do objeto, mas o valor do objeto, aquilo que o objeto vale. Intuição volitiva. Não se refere nem à essência, como a intuição intelectual, nem ao valor, como a intuição emotiva. Refere-se à existência, à realidade existencial do objeto.

Os representantes dessas intuições. A intuição intelectual pura encontramo-la na Antiguidade, em Platão; na época moderna, em Descartes e nos filósofos idealistas alemães, sobretudo em Schelling e Schopenhauer. A intuição emotiva encontramo-la em Plotino, Santo Agostinho, São Tomadas de Aquino, Spinoza (Sentimus experimur que nos esse aeternos.” Que quer dizer: “Nós sentimos e experimentamos que somos eternos.”). A intuição volitiva está em Fichte que faz depender a realidade do universo e a própria realidade do eu de uma afirmação voluntária do eu. O eu voluntariamente se afirma a si mesmo; cria-se, por assim dizer, a si mesmo

É preciso considerar que estas três classes de intuição que repartem em grandes linhas o campo metódico filosófico contemporâneo têm, cada uma delas, sua justificação num lugar do conjunto do ser. O erro consiste em querer aplicar uniformemente uma só delas a todos os planos e a todas as camadas do ser.

Fonte de Consulta

GARCIA MORENTE, M. Fundamentos de Filosofia - Lições Preliminares. 4. ed. São Paulo: Mestre Jou, 1970. [Lição III — A intuição como método da filosofia]

Compilaçãohttps://sites.google.com/view/temas-diversos-compilacao/intui%C3%A7%C3%A3o

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Intuição e Inteligência Artificial

A inteligência artificial pode ser entendida como um enorme banco de dados que, por meio de associações e análises combinatórias, oferece informações sobre os dados que possui. Não é uma inteligência propriamente dita, pois a raiz da palavra inteligência pressupõe uma escolha do indivíduo. A inteligência artificial não tem essa capacidade de escolha, limita-se a oferecer o que já tem guardado em sua memória virtual.  

A intuição, tanto quanto a imaginação e outras representações simbólicas, pressupõe uma relação vertical com o mundo das ideias, como nos ensinou Platão no Mito da Caverna, com um plano espiritual, um plano mental. No caso da inteligência artificial, a relação é horizontal. Mostra apenas o que tem, não cria algo. Observe a diferença entre o símbolo e o logotipo. No símbolo, há um relação vertical, que une dois planos: o material e o espiritual. No logotipo, há somente o plano material, que é a relação da empresa com os seus consumidores. 

A ciência valoriza muito a razão, mas utiliza sobremaneira a intuição.

Fonte: "Visão Simbólica X Inteligência Artificial" — Professora Lúcia Helena Galvão [Nova Acrópole].

Link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=HW0xqoTDEw8&t=2364s