16 julho 2020

Paradigma

Paradigma. Do grego paradeigma significa modelo ou exemplo. Platão usou o termo "paradigma" como modelo: o mundo das ideias, o mundo dos seres eternos do qual o mundo sensível é imagem. Aristóteles, por sua vez, usou-o como "exemplo": indução de um enunciado particular para o enunciado geral. A polissemia do paradigma abrange: "modelo a ser imitado", "abordagem padrão", "orientação teórica", "estilo de pensamento" e outras coisas mais.

O norte-americano Thomas Samuel Kuhn (1922-1996), físico e filósofo da ciência, em seu livro A Estrutura das Revoluções Científicas, define paradigma como “realizações científicas que geram modelos que, por período mais ou menos longo e de modo mais ou menos explícito, orientam o desenvolvimento posterior das pesquisas exclusivamente na busca da solução para os problemas por elas suscitados.”

Podemos enumerar alguns tipos de paradigmas; educacional, cartesiano, programação, trabalhista, complexidade, entre outros. Em se tratando da educação, necessitamos de paradigmas inovadores que se baseiem na aprendizagem crítica, aquela que faz o aluno pensar por si mesmo. O uso do paradigma cartesiano é bastante útil, pois seu método faz-nos dividir o problema em partes para que possamos melhor entender o todo. (1)

Cosmovisão, paradigma e crise. A cosmovisão é uma visão de mundo, uma maneira de interpretar a realidade. Na base da interpretação há um modelo, um paradigma. Para que haja mudança nesse status quo, há necessidade de uma crise, que leva a outro paradigma. Como este surge? Pela consciência da anomalia, ou seja, pela observação de uma falha na natureza responder satisfatoriamente às expectativas paradigmáticas vigentes.

Roberto Crema, em seu livro Introdução à Visão Holística, estuda a crise pelo qual o planeta está passando, cuja solução encontra-se no paradigma holístico, uma ponte sobre todas as fronteiras. Chama-nos a atenção sobre o salto quântico da física moderna que abalou o paradigma cartesiano-newtoniano. No centro dessa discussão está o princípio da incerteza, introduzido por Werner Heisenberg, ganhador do Nobel da Física e diretor do Instituto Max Planck.

Princípio de incerteza. É uma lei científica que postula a impossibilidade de saber, ao mesmo tempo com a absoluta precisão, a posição e a velocidade das partículas. "Quanto mais enfatizamos um aspecto em nossa descrição, mais o outro se torna incerto, e a relação precisa entre dois é dada pelo princípio da incerteza".

Como vimos, há muitos paradigmas disponíveis. Saibamos escolher aqueles que nos ajudem a pensar corretamente sobre o eu, o outro e a nossa relação com o demais integrantes da sociedade.

(1) https://www.significados.com.br/paradigma/

08 abril 2020

Pensamento

Pensamento. Do latim pensare, pensar, refletir. Atividade intelectual através da qual o espírito humano forma conceitos e formula juízos. 

Os pensamentos estão em tudo, mas o ato de pensar é que os capta. Por isso, precisamos distinguir pensamento, quando é aspecto, relação, dos fatos, e pensamento quando é ato de pensar. O primeiro é sempre o mesmo; mas o ato de pensar pode ser diferente. Nesse caso, há razões para dizer: "Você teve o mesmo pensamento que eu". O pensamento era o mesmo, mas o ato de pensar era diferente.

Observação: a distinção entre esses dois tipos de pensamento nos ajudaria a compreender melhor as coisas, e muitas dificuldades desapareceriam.

Nós mentamos pensamentos. Mente vem de man radical indo-germânico, que significa medir, pesar, daí man (homem em inglês). Mente, menção, mentar e comentar são palavras derivadas. A palavra pensamento vem daí, e indica o que é medido, pesado, valorado. Tudo o que pode ser medido, pesado, valorado pela mente, órgão que mede, é pensamento.

"A natureza está cheia de pensamentos que o homem pode mentar, por isso a Filosofia, sob o seu aspecto dinâmico, é esse invadir a Natureza na cata dos pensamentos que estão nela, buscando-lhe os porquês, os nexos, as relações". (1)

(1) SANTOS, M. F. dos. Convite à Filosofia e à História da Filosofia. 6. Ed., São Paulo: Logos., item "Definição". 



Definição

Definição. Do latim "definitione" que significa uma exposição com precisão. Uma explicação clara e concisa de alguma coisa, é o significado.  

Ao construirmos um juízo, esse juízo aponta para o conteúdo ao qual se refere. Daí, temos uma verdade de fato [adequação do juízo com o fato] e uma verdade lógica [adequação do juízo da pessoa com o fato ao qual se refere].

Observemos a definição do dicionário para a palavra "copo": "vaso para beber, comumente sem asa, e de forma cilíndrica ou alargada para as bordas". Genericamente, copo é um vaso, porém não é qualquer vaso, mas somente o vaso que serve para beber. Vaso para beber é o que diferencia copo de outros vasos.

"A definição define de-fine, dá fins, limita, contorna. E nós, para de-finirmos alguma coisa, temos que dizer primeiramente o que é ela, isto é, a que ordem pertence, mas precisamos, depois ver também o que a diferencia. E o gênero mais próximo de copo é vaso, porque fato também é um gênero, porém mais distante. Para darmos contornos mais definidos, procuramos o gênero mais próximo vaso, e a diferença que o especifica: para beber. Os outros aspectos, como ter asa ou não, ser alongado ou não, variam de um copo para outro, mas ser vaso, o servir para beber pertence a todos os copos". (1)

Nem toda palavra pode ser definida. Caso isso ocorresse, teríamos as definições ad infinitum, ou seja, toda a palavra usada para definir outras, teria, também, de ser definida. Quer dizer, o processo de definição deve acabar em alguma dado momento. Daí, surge a dúvida: quando uma palavra precisa ser definida? Uma palavra tem de ser definida se: 1) é usada em sentido técnico e não se pode supor que o público conheça esse sentido; 2) for uma palavra comum usada num sentido não comum. (2)

(1) SANTOS, M. F. dos. Convite à Filosofia e à História da Filosofia. 6. Ed., São Paulo: Logos., item "Definição". 

MARTINICH, A. P. Ensaio Filosófico: o que é, como se faz. Tradução de Adail U. Sobral. São Paulo: Loyola, 2002.

05 abril 2020

Gênero e Espécie

Os nossos sentidos são a base da abstração: eles captam apenas uma parte da realidade: a vista apreende a forma dos objetos; o ouvido, os sons; o olfato, os odores. A razão, por seu turno, não só elabora os conceitos; ela os compara, encaixa-os uns nos outros, dá-lhes uma hierarquia quantitativa, os reduz a conteúdo e continente, classificando-os.

A razão ordena os objetos singulares nas espécies, estas nos gêneros mais vastos, até atingir o gênero supremo, o abstrato mais abstrato de todos os abstratos, que é o conceito lógico do ser. Na classificação, há ordem, clareza, simplicidade e unidade. Daí, a afirmação de que toda classificação é uma redução à unidade. Nota: o conceito lógico do ser não deve ser confundido com o conceito ontológico. Se o primeiro é uma abstração, o segundo tem outra realidade, a máxima realidade.

Em se tratando dos conceitos, os mais vastos contêm os mais singulares. À proporção que subimos dos singulares às espécies, e destas aos gêneros, aumentamos a compreensão, mas diminuímos os conteúdos. Em outros termos, a compreensão é o conjunto de caracteres de um objeto; a extensão, o maior ou menor número de objeto a que o conceito pode ser aplicado. Daí o princípio: quanto maior a compreensão, menor é a extensão, e inversamente. Exemplificando: a compreensão do cão (animal domesticado) deve estar relacionada com a extensão do simples animal.

Razão e visão têm as suas semelhanças: tentando ver mais coisas, perdemos delas os pormenores; do mesmo modo a razão: tentando abranger mais conceitos deixa os pormenores em segundo plano. Estabelecida a hierarquia pela classificação, segue a razão um caminho inverso: do mais geral ao menos geral, e deste ao singular. Temos, então, a definição. (1)

Toda realidade pode ser caracterizada em termos de gêneros e de espécies em virtude de várias diferenças específicas. Eis uma parcela da clássica divisão da realidade, mais conhecida como a Árvore de Porfírio a partir do filósofo neoplatônico Porfírio:



Cada palavra ou expressão em maiúsculas designa um gênero ou espécie. Cada item imediatamente abaixo de outro é uma espécie em relação ao item imediatamente acima de si; e cada item que tem itens imediatamente abaixo de si é um gênero com relação a esses itens. O ser é o mais elevado gênero que existe; ele não é uma espécie de coisa alguma. Os seres humanos [no ramo da extrema esquerda] são uma espécie das mais inferiores; não são gênero de coisa alguma. Logo, os termos gênero e espécie são relativos. Um gênero é sempre uma categoria mais geral com relação às espécies. (2)

(1) SANTOS, M. F. dos. Convite à Filosofia e à História da Filosofia. 6. Ed., São Paulo: Logos., item "Gênero e Espécie". 

(2) MARTINICH, A. P. Ensaio Filosófico: o que é, como se faz. Tradução de Adail U. Sobral. São Paulo: Loyola, 2002.


03 abril 2020

Fato e Juízo

Fato. Do latim factum (feito, ato, coisa ou ação feita, acontecimento). O fato é aquilo que se nos apresenta aqui e agora, num lugar, num momento determinado, que inclui as noções de espaço e tempo. Um homem está estendido no chão. Eis o fato. Deste fato, emergem muitos juízos, muitas explicações, muitas indagações, muitas teorias. Foi assassinado? Caiu do andaime? Desmaiou? Para cada pergunta, a teoria subjacente.

Quando dizemos que este fato é um copo, fizemos um julgamento, pronunciamos uma sentença, realizamos um juízo desse fato. Neste caso, o juízo é afirmativo, porque ajunto ao sujeito o predicado como realmente pertence ao sujeito. Entretanto, se disséssemos que este livro não é um copo, estaríamos proferindo um juízo negativo, ou seja, estaríamos recusando predicado ao sujeito.

Se, por outro lado, disséssemos: todos os corpos são fatos, estaríamos universalizando, ou seja, dando uma versão única a todos os corpos. É um juízo positivo, mas diferente daquele que se expressasse na frase: "alguns homens são corajosos". Aqui não se daria uma versão a todos os homens, mas a alguns. O mesmo raciocínio se aplica aos juízos negativos.

Um conceito pode estar incluído em outro. Um é mais geral, daí o gênero; outro mais especial, daí vem espécie. Quando um conceito está plicado (embrulhado) em outro, temos um conceito implicado em outro. O mesmo poderíamos dizer dos juízos. Um juízo pode estar implicado em outro. Assim, quando digo que "todos os homens são mortais", tenho implicado "alguns homens são mortais", como também este homem é mortal.

De um juízo universal, posso tirar alguns que já estão implicados. Quando deduzo, tiro um juízo do outro. Essa atividade do espírito chama-se dedução, que consiste em tirar de um juízo universal um juízo particular. Se fizermos o inverso, ou seja, de particularidades podemos chegar à generalidade, temos a indução.

A Filosofia é, em geral, dedutiva; a Ciência, mais indutiva. A Ciência parte dos fatos particulares para estabelecer juízos universais, dos quais depois deduz outros particulares: indutivo-dedutivo.

Extraído de: SANTOS, M. F. dos. Convite à Filosofia e à História da Filosofia. 6. Ed., São Paulo: Logos., item "Do Fato ao Juízo". 


02 abril 2020

Valor

O valor das coisas é um tema sumamente importante, pois só no quadriênio de 1927-1930, houve quem nele catalogasse mais de mil e trezentas obras publicadas sobre este tema. Ele pode ser visualizado da seguinte forma: ao observarmos um copo, notamos a sua forma física: redondo, cilíndrico, transparente. Tudo isso está no copo, mas quando o acho belo, isso não está no copo. Se lhe tirar a forma ele deixa de ser o que é. Mas se deixasse de considerá-lo belo, gracioso, o copo não deixaria de ser o que é.

Desta imensa abordagem do tema, surgiu uma nova disciplina filosófica, que se denomina axiologia (de axiós, em grego, o que é preciso, digno de ser estimado). A partir da axiologia, veio a timologia (de timós, valor em sentido extrínseco, valor por exemplo, da economia). O valor não pode ser transformado em conhecimento, pois este envolve o raciocínio, a lógica, a teoria. Pode-se dizer que o valor está mais ligado à intuição, ao sentimento, uma espécie de sexto sentido que os grandes homens da humanidade têm ao se relacionar com um fato qualquer. Eles captam a essência num piscar de olhos.

Mário Ferreira dos Santos, no livro Convite à Filosofia e à História da Filosofia, destaca as três correntes axiológicas: 1) a realista-platônica, em que os valores são entes ideais, que existiriam em si, e que as coisas, por imitá-los, teriam mais ou menos valor.Assim, há um valor do Bem, que é perfeito, e as coisas que o imitam mais ou menos são melhores ou não; 2) a tendência nominalista, onde os valores são apenas nomes que damos às nossas apreciações, que são apenas subjetivas; 3) a posição realista moderada, meio-termo entre a realista-platônica e a nominalista: tanto uma quanto a outra expressam algo de verdadeiro.

Acrescenta que quando o indivíduo perde algo ele pensa mais sobre esse algo. Observe a crença em Deus. Quando todos sentem Deus em seus corações, eles não pensam muito em sua crença. Ao tomar consciência da perda na crença de Deus, começam a pensar sobre Deus. "A vida moderna, os regimes sociais totalitários que temos conhecido, a falta de respeito à dignidade humana, levaram o homem a pensar sobre a dignidade do homem, e natural e consequentemente, teve de pensar no que valia o valor, em que consistia o valor".

Por fim, expõe as principais características do valor: a) são polares  a um  valor corresponde outro valor contrário, que se lhe opõe  Bem versus Mal; b) os valores apresentam gradatividade  um valor pode valer mais ou menos; 3) os valores apresentam hierarquia  um valor, de uma ordem, pode valer mais que o valor de outra ordem.

SANTOS, M. F. dos. Convite à Filosofia e à História da Filosofia. 6. Ed., São Paulo: Logos.

27 fevereiro 2020

Hume, David

"A grande vantagem das ciências matemáticas sobre as ciências morais consiste nisto: as ideias das primeiras, sendo sensíveis, são sempre claras e distintas." Investigação sobre o entendimento humano

David Hume (1711-1776) foi um filósofo, historiador, ensaísta e diplomata escocês. Tornou-se conhecido pela defesa do seu sistema filosófico baseado no empirismo, ceticismo e naturalismo. Considerado um dos mais importantes representantes do empirismo radical. Acusado de herege pela Igreja Católica, suas obras foram relacionadas no “Índice dos Livros Proibidos”.

Resumo de seu pensamentoVejo o sol nascer toda manhã. ==> Adquiro o hábito de esperar o sol nascer toda manhã. ==> Aprimoro isso no julgamento "o sol nasce toda manhã". ==> Esse julgamento não pode ser uma verdade de lógica, pois é concebível que o sol não nasça (ainda que altamente improvável). ==> O julgamento não pode ser empírico porque não posso observar o nascer futuro do sol. ==> Não tenho fundamento racional para minha crença, mas o hábito me diz que ela é provável.==> O hábito é o grande guia da vida. (1)

David Hume, influenciado por Locke, propôs-se a explicar a natureza da humanidade e nosso lugar no universo considerando como adquirimos conhecimento e os limites do que podemos aprender usando a razão. Assim como Locke, ele acreditava que nosso conhecimento vem da observação e da experiência; portanto, estava particularmente interessado em um argumento [que o denominou de "argumento do desígnio"*], para a existência de Deus que começasse com a observação de alguns aspectos do mundo. (2)

Para Hume, o princípio fundamental de todo pensamento científico é o de causa-efeito: a previsão de determinados eventos pode ser deduzida em função das causas que os produziram. Não podemos, porém, levar essa tese às suas últimas consequências. Dá-nos, como exemplo, o choque entre duas bolas de bilhar: “certamente veremos uma continuidade espacial e temporal porque a bola atingida se move logo depois da primeira e começa seu movimento onde a outra se detém”... “Hume está pronto a admitir que é possível relevar também uma constância dos fenômenos, porque encontramos regularidades típicas no movimento dos corpos. Mas isso implica apenas hábito, não necessidade lógica: se nunca tivéssemos visto um choque entre duas bolas de bilhar seriamos incapazes de prever o seu movimento”.

Para Hume, as escolhas morais fundam-se no sentimento. Os comportamentos dos indivíduos estão mais sujeitos ao sentimento do que à razão. “Na realidade, seguimos as regras de moralidade e de justiça não com base em deduções abstratas, mas segundo um sentimento específico da sua utilidade coletiva”. (3)

(1) VÁRIOS COLABORADORES. O Livro da Filosofia. Tradução de Rosemarie Ziegelmaier. São Paulo: Globo, 2011.

(2) WARBURTON, Nigel. Uma Breve História da Filosofia. Tradução de Rogério Bettoni. Porto Alegre, RS: L&PM, 2012. (Coleção L&PM POCKET)

(3) NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Margherita De Luca. São Paulo: Globo, 2005.

* Argumento do desígnio. Argumento segundo o qual o mundo (todo o universo) se assemelha o bastante a uma máquina ou a uma obra de arte ou de arquitetura, para ser razoável supor a existência de um arquiteto cujo intelecto é responsável por sua ordem e complexidade. Este é declaradamente um argumento por analogia: sustenta-se que, já que o universo é semelhante em alguns aspectos a um relógio, por exemplo, então o universo provavelmente também é, tal como o relógio, o produto de um desígnio. (BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Consultoria da edição brasileira, Danilo Marcondes. Tradução de Desidério Murcho ... et al. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.)

26 fevereiro 2020

Erasmo, Desidério

"Em terra de cego, quem tem um olho é rei." (Adágios)

Desidério Erasmo (Erasmo de Roterdã) (1466-1536) foi um teólogo e escritor holandês, o maior vulto do Humanismo cristão. Dedicou toda sua vida à causa da reforma interna da Igreja Católica. Seu sonho era uma Europa espiritual unida, com uma língua comum aproximando todas as pessoas. Em 1500 publica Adágios, uma coleção de citações latinas e provérbios. A obra representou, para a época, o máximo em literatura de divulgação, tornando célebre o nome do autor.

Em 1516 publica suas apreciações "Críticas do Novo Testamento" e “Cartas de São Jerônimo", dedicando-as ao Papa Leão X, obras que consolidam sua fama. Em 1517 tem início a Reforma Protestante. Atendendo aos desejos de Erasmo, uma sentença de Leão X permite-lhe deixar definitivamente o hábito da Ordem dos Agostinianos. Em 1535 vai para a Basileia, na Suíça, para supervisionar a edição de "Eclesisastes", seu último trabalho. (1)

O humanismo, que tem seu berço na Itália, estende-se por toda a Europa do século XVI. O humanismo se converte num movimento cultural que defende a tolerância e a liberdade individual, no padrão de uma síntese renovada entre a Antiguidade clássica e o cristianismo. A figura máxima do humanismo reformista do século XVI é Erasmo de Rotterdam. Sua doutrina, crítica com uma igreja — a romana —, prepara na realidade a Reforma protestante. Mas Erasmo não é um político, e o humanismo, reduzido ao âmbito cultural, acaba sendo deslocado pelo protestantismo de Lutero e pela Contra-Reforma que nasce no concílio de Trento. (2)

Diante dos grandes descobrimento geográficos e os notáveis avanços técnico-científicos, Erasmo exprime, em 1517, o seguinte pensamento: "vejo uma idade de ouro no futuro próximo". Quer dizer, os referidos avanços promoveriam os ideais de tolerância e concórdia entre todos os seres humanos autônomos. Este sonho não se torna real, pois o que se vê são as frequentes guerras entre os adeptos das várias religiões.

Erasmo de Rotterdam tece comentários sobre a loucura de Cristo e dos cristãos. Para ele, as normas sociais nem sempre se coadunam com uma vida autenticamente cristã. Há, assim, dois tipos de loucura: a) dos poderosos, ou seja, daqueles que reduzem o Cristianismo à observância dos ritos; b) dos cientistas, que desafiam o desconhecido pelo amor ao conhecimento. Estes é que são os verdadeiros cristãos, porque abandonam tudo, para imitar a loucura da cruz

Para Erasmo, a responsabilidade ética pressupõe o livre-arbítrio. Acha que o homem pode pecar, porque age com liberdade. Acrescenta, porém, que sem a ajuda divina o homem não pode salvar-se, pois negaria a existência de Deus. Em síntese: a graça divina é a primeira condição para a salvação, seguida pela liberdade do homem e pelas suas obras meritórias. (3)

(1).https://www.ebiografia.com/erasmo_de_roterda/

(2) Temática Barsa Filosofia

(3) NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Margherita De Luca. São Paulo: Globo, 2005.

Anselmo, Santo

"Pois também creio nisto: 'se não acreditar, não compreenderei.'" Proslógio 

Santo Anselmo (1033-1109) foi um filósofo e teólogo medieval, e pode ser considerado o primeiro expoente da escolástica (que se fundamenta no raciocínio dialético para solucionar as questões que surgiam). O objetivo era conciliar razão e fé, pois embora a razão não substituísse a fé, ela ajudaria as pessoas a entenderem melhor o que a sua fé já tinha aceitado. 

Seus dois principais tratados teológicos são o Monologion ("Monólogo) e o Proslógion ("Discurso). O primeiro contém versões do argumento cosmológico da bondade para chegar à existência de um bem supremo. O segundo contém o famoso argumento ontológico a favor da existência de Deus. Escreveu muitos diálogos específicos de lógica e teologia: De veritate ("Da verdade"), De libertate arbitrii ("Do livre-arbítrio").

Anselmo acreditava na capacidade da razão para investigar os mistérios divinos e propunha a prova ontológica da existência de Deus. Se Deus é considerado o absoluto, um ser superior, que não pode ser superado por nenhum outro, então Deus deve existir também na realidade, porque se não fosse assim, seria possível conceber outro ser tão superior quanto ele. (1)

(1) LEVENE, Lesley. Filosofia para Ocupados: dos Pré-Socráticos aos Tempos Modernos. Tradução de Débora Fleck. Rio de Janeiro: LeYa, 2019.



Xenófanes

"É preciso um sábio para reconhecer um sábio." (Xenófanes)

Xenófanes (570-475 a.C.) foi um filósofo, poeta e sábio da Grécia antiga, que escreveu em versos sua oposição às ideias de Tales, Anaximandro e Anaxímenes. Viajou por diversos lugares, onde recitava seus poemas que, além de criticar o antropomorfismo, defendia a sabedoria e os prazeres vividos socialmente. Para Xenófanes, o que torna melhor os homens e as cidades (polis) em que eles vivem é a força da inteligência e da sabedoria. 

"Homero e Hesíodo atribuíram aos deuses tudo aquilo que para os homens é objeto de vergonha e baixeza: roubar, praticar adultério e enganar-se...  os mortais consideram que os deuses nasceram, e que possuem roupas, vozes e corpos como os seus...  os Etíopes acreditam que seus deuses possuem narizes achatados e que são negros; e os Trácios que os seus deuses possuem olhos azuis e cabelo vermelho... mas se os bois, cavalos e leões tivessem mãos e soubessem desenhar... os cavalos desenhariam figuras de deuses semelhantes a cavalos, os bois semelhantes a bois." (1) 

Xenófanes ficou conhecido para a posteridade por suas breves citações. Eis uma delas: "Se os bois, os cavalos e os leões tivessem mãos e as usassem para produzir obras de arte, como fazem os homens, então os cavalos pintariam as formas dos deuses como cavalos, e o bois como bois, e fariam seus corpos à imagem de suas próprias diferentes espécies". É uma crítica a Homero e Hesíodo. Inaugura, também, a doutrina do relativismo: a posição de que a verdade sobre as coisas encontra-se nos olhos do observador. A Bíblia diz que Deus criou o homem à Sua própria imagem, Xenófanes efetivamente nos diz que o homem concebeu Deus à sua própria imagem. (2)

Combatendo o antropomorfismo, o filósofo pregava a ideia de que o verdadeiro deus é único, com poderes absolutos. Possuía características próprias, se diferenciando do homem.  No livro, Metafísica, o filósofo Aristóteles escreveu que Xenófanes foi o primeiro a identificar que o “Um” não é apenas um conceito ou uma matéria, mas está ligado a “Deus”. Como Xenófanes se dedicou a demonstrar a unidade e perfeição de deus, muitos acreditam que ele se aproximava mais de um reformador religioso do que de um filósofo propriamente dito. (3)

(1) http://www.filosofia.com.br/historia_show.php?id=14

(2) RESCHER, Nicholas. Uma Viagem pela Filosofia: em 101 Casos Anedóticos. Tradução André Oídes. São Paulo: Ideias e Letras, 2018.