23 abril 2019

Teoria

"O maior valor da vida depende do poder da contemplação." (Aristóteles)

Teoria é um conjunto de raciocínios que dão nexo, fundados em fatos ou suposições. Diz-se, também, do processo resumido de contemplação e compreensão que pode ser sustentado por evidências. Theoria é um verbo usado para descrever uma ampla variedade de atividades intelectuais. Platão (424-348 a.C.), por exemplo, associou o verbo aos estados do processo intelectual de compreensão.

Theoria. De theos, Deus, o ser que se vê, que em grego quer dizer visão. Os gregos, quando iam às suas festas religiosas, faziam longas filas e podiam ser vistas à distância, ou seja, ter delas uma visão, denominaram-as de theoria. As filas que tinham um nexo, pois tendiam ao templo, significou também o que se vê pelos olhos do espírito. Palavra de uso corrente transformou-se, metaforicamente, em termo para a Filosofia.

Os gregos, de maneira nenhuma opunham, como hoje, teoria e prática.O conhecimento teórico, em toda a antiguidade clássica grega, era entendido como a contemplação da verdade (aletheia) em si mesma. A supremacia do conhecimento teórico sobre o prático ou técnico provém do fato de ele ser útil em si mesmo, independentemente de sua aplicação exterior.

No sentido moderno, uma teoria equivale a um corpo de proposições adequadas à explicação e à interpretação dos fenômenos dentro de determinado campo disciplinar, descobertas por indução e aplicadas por dedução. Nesse sentido, a teoria passou a ser um conjunto de regras ou de normas a que devem obedecer os fenômenos ou a sua interpretação. Por isso, diz-se que o conhecimento tornou-se teórico-experimental. Há uma concepção mental, uma teoria; para que tenha validade, há necessidade de colher dados e prová-la, geralmente com o auxilio de modelos matemáticos.

As teorias estão sujeitas a novas descobertas e podem ser derrubadas por relatos mais adequados. Há muitos exemplos, tais como, a substituição da gravidade newtoniana pela teoria geral da relatividade de Einstein. Mas, a derrubada da teoria geocêntrica de Ptolomeu pela teoria heliocêntrica de Copérnico é considerado o marco mais importante da teoria científica. Nicolau Copérnico (1473-1543), astrônomo de origem polonesa, ao negar ser a Terra o centro do Universo, deu a partida para o Universo infinito e a Nova Ciência.

Fonte de Consulta

ARP, Robert (Editor). 1001 Ideias que Mudaram a Nossa Forma de Pensar. Tradução Andre Fiker, Ivo Korytowski, Bruno Alexander, Paulo Polzonoff Jr e Pedro Jorgensen. Rio de Janeiro: Sextante, 2014.

SANTOS, M. F. dos. Convite à Filosofia e à História da Filosofia. 6. Rd., São Paulo: Logos, s.d.p. 

08 março 2019

Ansiedade e Budismo

"Perguntaram ao Buda: O que você ganhou com a meditação? Ele disse: – Nada, mas deixe-me dizer o que perdi com ela: ansiedade, raiva, depressão, insegurança, medo da velhice e da morte".

Buda revelou-nos os ensinamentos das quatro nobres verdades – a verdade do sofrimento, a verdade da origem do sofrimento, a verdade da libertação do sofrimento e a verdade do caminho da libertação , que são antigos, mas muito úteis nos dias presentes. A didática desses ensinamentos resume-se em nossa escolha: queremos perpetuar o sofrimento ou interrompê-lo em sua origem?

Um dos aspectos relevantes do Budismo é a ansiedade, inerente a todos os viventes neste planeta Terra. Esta ansiedade decorre de nossa insatisfação com as coisas em geral. Quando nos sentimos solitários, procuramos companhia; quando temos pessoas demais ao nosso lado, sentimo-nos claustrofóbicos. Embora algumas demandas sejam atendidas, ainda assim a ansiedade permanece. Daí, a neurose, o desconforto, a depressão. Para corrigir a ansiedade, geramos agressão, paixão e orgulho (kleshas), que desviam o foco de nossa ansiedade básica.

Para alcançarmos um lampejo de liberação, deveríamos reconhecer a existência do sofrimento, que a ansiedade está ocorrendo. Este é o princípio básico do Budismo. "A dor provém da ansiedade e a ansiedade vem da neurose. Uma grande quantidade de abafamento leva-nos à neurose. Os ensinamentos de Buda não nos dizem como nos livrar dessa dor ou como abandoná-la; dizem apenas que temos de entender nosso estado de ser. Algumas vezes nos acostumamos a nosso sofrimento e outras vezes sentimos falta dele, então, deliberadamente pedimos mais sofrimento".

A ansiedade manifesta-se de diversos modos: comer sem quase mastigar, não querer cortar as unhas, fazer tudo tão rapidamente, não esperar o vendedor completar a venda etc. "A única maneira de trabalhar essa ansiedade é por meio da prática da meditação, domar a mente, praticar o shamatha. Isso nada mais é do que domar a si mesmo. É melhor trabalhar com a realidade do que com idealizações".

Há oito tipos de sofrimento: nascimento, velhice, doença, morte, encontrar o que não é desejável, não ser capaz de conservar o que é desejável, não conseguir o que se deseja e ansiedade geral. Poderíamos meditar a respeito de cada um deles e observar as nossas reações. A velhice, por exemplo, tolhe-nos sobremaneira porque restringe os nossos atos, as nossas caminhadas, a nossa locomoção.

Buda, pede-nos para buscar o nirvana, ou seja, transcender a agonia e problemas como o aturdimento, a insatisfação e a ansiedade.

Fonte de Consulta

TRUNGPA, Chôgyam. As 4 Nobres Verdades do Budismo e o Caminho da Libertação. Compilado e organizado por Judith L. Lief. Tradução de Oddone Marsiaj. São Paulo: Cultrix, 2013.

27 fevereiro 2019

Só Sei que Nada Sei

"O resultado da discussão, no que me diz respeito, é que eu nada sei..." [Sócrates, citado, em A República de Platão (360 a.C.)]

Muitas palavras perdem o seu sentido original ao longo do tempo. Buscando a etimologia delas, podemos ter alguma luz sobre as variações ocorridas. Há, também, palavras e frases, retiradas de um contexto, que produzem um significado contestável. Da passagem acima, as pessoas preferiram simplesmente dizer: "só sei que nada sei". Alguns acadêmicos enfatizam a incoerência de Sócrates sobre a frase. Dizem: "Se ele de fato nada sabe, então é falso que ele saiba disso; mas, se ele sabe que nada sabe, então é falso que ele nada sabe".

O contexto da frase pode ser visto: 1) em A República (360 a.C.), Sócrates conclui uma discussão com Trasímaco sobre "justiça" dizendo "o resultado da discussão, no que me diz respeito, é que eu nada sei, pois quando eu não sei o que é justiça dificilmente saberei se é ou não uma forma de virtude, ou se a pessoa a que a tem é feliz ou infeliz"; 2) em Apologia (399 a.C.), Sócrates fala de um político respeitado que "ele não sabe nada e acha que sabe. Eu nem sei nem acho que sei".

Outras considerações sobre "só sei que nada sei".

O “só sei que nada sei” socrático exprime a ignorância filosófica, ou seja, a que permite o acesso ao saber, já que se reconhece como ignorância, abrindo o caminho para o conhecimento. É neste sentido que Sócrates afirmava também que “o conhecimento da ignorância é o início da sabedoria”.

Para Sócrates, a ignorância constitui condição prévia para o saber autêntico. Só quem reconhece a sua ignorância está capacitado ao aprendizado. Por isso, dizia: "sei que nada sei". Para chegar a esse estado prévio do não-saber, Sócrates lança mão de seu método, que é o de perguntar. As perguntas objetivavam descobrir o conceito que se ocultava na superficialidade do conhecimento. Primeiramente, aplicava a ironia, que é a forma negativa do diálogo, em que procurava confundir o interlocutor sobre um conhecimento que acreditava possuir; depois, aplicava a maiêutica, a forma positiva do diálogo que, baseado no ofício de parteira de sua mãe, procurava dar à luz um novo saber. Ele não ensinava, mas criava condições para que o conhecimento brotasse do ouvinte.

"Só sei que nada sei" é uma frase-chave no pensamento filosófico. O aparecimento de Sócrates implica o rompimento com os sofistas, com os políticos que tinham um pensamento muito raso e com os naturalistas, que estavam preocupados com a origem das coisas. Esta frase mostra que só Deus sabe e o sábio é aquele que reconhece que não sabe. A grande contribuição de Sócrates foi mudar a pergunta sobre a origem das coisas para o que é o ser humano. Ao se debruçar sobre essa questão vai se enverando pela politica,pela ética que são elementos da convivência humana.

A ciência é o resultado das hipóteses, enunciados e corolários levantados ao longo do tempo. Por trás, porém, de cada corolário, de cada hipótese e de cada enunciado há uma pergunta. Por isso, diz-se que “o máximo da pergunta científica são os postulados, axiomas e teorias que são formulados por um pensamento prévio interrogador”. A filosofia também é construída por meio de perguntas. E, quanto mais se pergunta, mais se tem o que perguntar, pois o “sei que nada sei” socrático pode se dirigir ao infinito.


01 janeiro 2019

Mosca Socrática

"Uma existência sem análise é adequada para o gado, mas não para os seres humanos." (Sócrates)

Sócrates, há cerca de 2.400 anos, em Atenas, foi pintado por Platão como uma "mosca". A mosca é vista como um inseto incômodo, nojento e perturbador. Observe quando uma delas fica rodeando os alimentos de nossa refeição diária. Mas, por que motivo Sócrates era considerado uma mosca? Por causa de suas perguntas embaraçosas.

As perguntas socráticas têm um duplo caráter: ironia e maiêutica. Na ironia, confunde o conhecimento sensível e dogmático. Na maiêutica, dá à luz um novo conhecimento, um aprofundamento, sem, contudo, chegar ao conhecimento absoluto. Há diversos exemplos dos diálogos socráticos em que confunde vários interlocutores. Na conversa dele com Eutidemo, Sócrates perguntou-lhe se ser enganador correspondia a ser imoral. A resposta foi afirmativa. Com um contra-exemplo, Sócrates mostrou-lhe que o comentário geral de que ser enganador é imoral não se aplica a todas as situações.

Quanto à coragem. Sócrates, querendo apreender o conceito de coragem, dirigia-se ao um general, e perguntava-lhe: — você que é general, poderia me dizer o que é a coragem? O general respondia-lhe: — coragem é atacar o inimigo, nunca recuar. Porém, Sócrates contradizia: — às vezes temos que recuar para melhor contra atacar. E a partir daí continuava o debate ampliando o conceito.

Observe a sua postura quanto ao enigma do Oráculo de Delfos relatado por Querefonte. "Existe alguém mais sábio que Sócrates?", perguntou Querefonte. "Não", foi a resposta. "Ninguém é mais sábio que Sócrates." Primeiramente, não acreditou no que Querefonte lhe disse; depois, refletiu e deu razão ao Oráculo. Segundo o seu modo de ver, várias pessoas eram capazes em sua área de atuação, mas ninguém era mais sábio que ele porque a maioria não sabia do que estava falando. Para Sócrates, a sabedoria é procurar entender a natureza da nossa existência e até onde podemos ir com o próprio saber.

A sua dedicação à arte de perguntar diz respeito ao seu modo de ser, ou seja, conversar e não escrever. Ele dizia que as palavras escritas não podem replicar; não podem nos explicar nada quando não as entendemos. No diálogo, podemos contradizer mais de uma vez e chegarmos a um acordo de ideias.

Todo o filósofo deveria se esforçar por ser uma mosca, ou seja, propor, por meio de perguntas embaraçosas, uma nova maneira de ver a mesma coisa.

Fonte de Consulta

WARBURTON, Nigel. Uma Breve História da Filosofia. Tradução de Rogério Bettoni. Porto Alegre, RS: L&PM, 2012. (Coleção L&PM POCKET)

31 dezembro 2018

Sabedoria e Antiguidade


Documentário Sabedoria e Antiguidade: Gregos, exibido na TV a cabo Discovery Civilization. Dublado em português.


06 dezembro 2018

Livro para Ensinar Filosofia e Ética

John L. Taylor, em 100 Ideias para Ensinar Filosofia e Ética, da editora Vozes, fornece aos professores do ensino médio, algumas instruções práticas para que o aprendizado da filosofia seja prazeroso e produtivo ao mesmo tempo. Para ele, os professores deveriam empreender com os alunos uma jornada de pesquisa. Acha que o trabalho do educador é proporcionar aos alunos ferramentas de que precisam para pensar pela própria cabeça.

O livro está dividido em 8 partes:

1) Pontos de partida (1 a 12)

Os professores deveriam ensinar filosoficamente, isto é, à semelhança de Sócrates, que se valia das perguntas, cujo diálogo se realizava em dois momentos: ironia e maiêutica. As perguntas são feitas para iniciar uma conversa; a conversa é a base da filosofia. Em filosofia, digamos não ao monólogo.

2) Encorajar a pesquisa (13 a 33)

O método da dúvida é o ponto de partida para a descoberta da verdade. Não é porque todos pensam de um certo modo que aquilo se torna uma verdade. Observe Descartes: preferia rejeitar muitas verdades a aceitar um erro. Lembre-se de que os paradoxos estimulam o pensamento filosófico. Conversar sobre sonhos mostra diferença entre como as coisas são e como podem ser.

3) Falando de filosofia (34 a 45)

As melhores aulas são aquelas em que a classe investiga um determinado tema. É preciso lidar com os extremos: uns alunos falam demais, outros não dizem nada. Os jogos cerebrais são um ponto de partida para discussão filosófica. Uma vez que os alunos tiverem reconhecido as ideias filosóficas com quais concordam, o passo seguinte é o debate. A regra de ouro das apresentações verbais é: menos é mais.

4) Leitura e pesquisa (46 a 53)

Antes de avaliar um argumento, procure descobrir qual é o argumento. Lembre-se de que a pesquisa começa sempre com perguntas. Nesse caso, o conceito dos cinco Ws - quem, quê, onde, por que e quando? - é muito útil para iniciar o trabalho. A pesquisa é muito mais fácil quando a gente acha uma boa fonte para começar.

5) Argumento filosófico (54 a 70)

Investigar o significado de uma palavra é uma boa maneira de adentrar a discussão filosófica. Não caia na armadilha de pensar que toda palavra tem apenas um significado. Comparar e contrastar. Trabalhar em colaboração para refinar a definição. Exercitar na trinca de palavras. Exemplo: fé, crença e confiança. Basta apenas um cisne negro para refutar a afirmação de que todos os cisnes são brancos. Cuidado com as falácias.

6) Escrevendo filosofia (71 a 81)

Imagine que você está levando o seu leitor a uma viagem. Use sempre a ACA (Argumento/Contra-Argumento/Avaliação) em seus ensaios. Lembre-se do princípio da caridade: seja tolerante para com os escritos dos outros. O Feal (Formule, explique, aplique, ligue) é muito útil nos parágrafos escritos. Sinalize ao leitor: é bom saber para onde estamos indo; há sempre alguém que irá ler o que escrevemos.

7) Projetos de filosofia (82 a 91)

Eis um tema interessante para um projeto: "Pode a ciência explicar a natureza da felicidade?" É a pergunta que leva o projeto adiante. Procure a pergunta correta e terá meio caminho andado. Escreva enquanto avança no trabalho. A tática da tentativa e erro é muito salutar, pois podemos ir, paulatinamente, mudando aquilo que não condiz com os objetivos do trabalho.

8) Para além da sala de aula de filosofia (92 a 100)

Um clube de filosofia permite que um aluno explore um assunto junto com os outros. Convidar um filósofo para visitar a escola e dar uma palestra é uma boa maneira de estimular os alunos. Um ambiente virtual de aprendizagem (AVA) é uma excelente ferramenta para o alunos desenvolverem suas habilidades de raciocínio e debate.




03 dezembro 2018

Sêneca, Lúcio Aneu

"Quem não souber morrer bem terá vivido mal." (Sobre a tranquilidade do espírito)

Sêneca nasceu em Córdoba, Espanha, em 4 a.C. Morreu em 65 d.C. Levado muito jovem para Roma, teve mestres estoicos, que lhe abriram a mente para a reflexão filosófica e um modo austero de viver. Fez carreira como advogado e político. Para ele, a filosofia só tem valor se for mais prática do que teórica.

Era um escritor assistemático e eclético. Muitas vezes contraditório, aproveitava tudo o que achava verdadeiro de outras doutrinas. Seguindo a linha da tradição cínico-estoica, pensava que a filosofia só tem significado como studium virtutis, ou seja, dá ênfase ao ponto de vista prático. Suplanta o materialismo estoico: "o corpo é cárcere da alma; a alma é o verdadeiro homem que tende a libertar-se do corpo". Acredita que a consciência é uma espécie de conhecimento claro, originário, impossível de eliminar, do bem e do mal.

Em seus livros De Clementia, De Beneficiis, De Otio etc. faz reflexão sobre a liberdade, a justiça, a tirania e participação dos cidadãos na vida pública. A filosofia de Sêneca está expressa em seus Ensaios Morais e nas Epístolas Morais a Lucílio, uma série de dez diálogos e 124 cartas em latim, nos quais oferece conselhos práticos sobre os mais variados assuntos: providência, amizade, brevidade da vida, terrores da morte, medos infundados, ira, virtude, vida feliz, prática do bem, clemência, vida simples, tranquilidade etc.

Em todos os seus textos, o autocontrole tem importância suprema. Para Sêneca, os homens só podem ser considerados grandiosos na medida em que aprendem a controlar a si próprios e a dominar seus desejos. O sofrimento é apenas um teste capaz de fortalecer os indivíduos, ao passo que a raiva, a tristeza e o medo são armadilhas emocionais com o poder de escravizá-los.

Fonte de Consulta

JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
LEVENE, Lesley. Penso, Logo Existo: Tudo o que Você Precisa Saber sobre Filosofia. Tradução de Debora Fleck. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.
LOGOS – ENCICLOPÉDIA LUSO-BRASILEIRA DE FILOSOFIA. Rio de Janeiro: Verbo, 1990.

Notas de livro:

Em Roma, tornou-se conhecido como advogado e ascendeu politicamente, passando a ser membro do Senado romano e, mais tarde, questor. 

Em 41, foi desterrado para a Córsega sob a acusação de adultério. Na Córsega, Sêneca viveu cerca de dez anos com grande privação material. Dedicou-se aos estudos e redigiu vários de seus principais tratados filosóficos, entre os quais os três intitulados Consolationes (Consolos), nos quais expõe os ideais estoicos clássicos de renúncia aos bens materiais e de busca da tranquilidade da alma por meio do conhecimento e da contemplação. 

Em 49, o imperador Cláudio, manda chamar Sêneca para se encarregar da educação de seu filho, Nero, tornando-o, no ano de 50, pretor. Sêneca casou-se com Pompeia Paulina e organizou um poderoso grupo de amigos. Logo após a morte de Cláudio, ocorrida em 54, escreve a obra Apocolocyntosis divi Claudii (Transformação em abóbora do divino Cláudio). Nessa obra, Sêneca critica o autoritarismo do imperador e narra como ele é recusado pelos deuses. 

Quando Nero foi nomeado imperador, Sêneca tornou-se seu principal conselheiro e tentou orientá-lo para uma política de justiça e de humanidade. No começo, conseguiu, mas depois redigiu uma carta ao Senado para justificar a execução de Agripina, esposa de Cláudio, no ano de 59, pelo filho. Nessa ocasião, foi muito criticado por sua postura frente à tirania e à acumulação de riquezas de Nero, incompatíveis com as suas próprias concepções. 

O escritor e filósofo destacou-se por sua ironia. 

Acusado de participar na Conjuração de Pisão, em 65, recebeu de Nero a ordem de suicidar-se, que executou com o mesmo ânimo sereno com que pregava em sua filosofia. 

SÊNECA, Lúcio Aneo. Da vida retirada; Da tranquilidade da alma; Da felicidade. Tradução de Lúcia Sá Rebello e Ellen Itanajara Neves Vranas. Porto Alegre, RS: L&PM, 2018. 




07 novembro 2018

Mente Rígida e Autocrítica

Mente rígidaAs pessoas de mente rígida resistem em mudar seus comportamentos, crenças e opiniões, mesmo que os fatos demonstrem que estão erradas.Mente líquida. As pessoas de mente líquida são apáticas, deixam escapar, tomam a forma do recipiente que a contém. Mente flexível. As pessoas de mente flexível são abertas, aceitam a controvérsia, não se prendem aos modismos e têm opinião própria. Autocrítica. Examinar as próprias crenças e valores e descobrir, se houver, o absurdo na nossa maneira de pensar.

Em se tratando da mente flexível, em que as pessoas não têm medo da controvérsia e costumam duvidar de si mesmas, podemos apontar três princípios básicos: 1.º, exceção à regra. A perseverança não pode se tornar fanatismo; 2.º, caminho do meio. Devemos, nesse caso, fazer uso constante da observação e da autoavaliação; 3.º, pluralismo. O correto, aqui, é acatar a verdade, venha de onde vier.

Neste estudo de alguns aspectos relevantes de nossa mente, não podemos nos esquecer dos ismos que nos levam ao atraso: dogmatismo, fundamentalismo e obscurantismo. No dogmatismo, consideramo-nos o dono da verdade; no fundamentalismo, as nossas verdades não são discutíveis; no obscurantismo, achamos que a difusão da informação é perigosa para os interesses pessoais e grupais.

A mente rígida tem íntima relação com a solenidade: o riso é proibido. Observe algumas conferências sérias que nos levam ao mito da intelectualidade. Dá-se a impressão que é profunda, quando, na realidade, é sobejamente superficial. Piada: "Os dentes da minha mulher são como as pérolas... escassos".

O preconceito é um empecilho para a mente flexível. Eles podem ser comparados a um monstro de três cabeças: 1. Um estereótipo infundado; 2. Um sentimento de medo e hostilidade; 3. Um sentimento descriminatório.

No filme A lista de Schlinder, uma prisioneira do campo de concentração chama a atenção do coronel alemão de plantão sobre um erro que está sendo cometido numa construção. O nazista pergunta como sabe tanto sobre o tema e ela responde que é engenheira. O coronel agradece a ajuda e imediatamente manda matá-la. E acrescenta: "Não podemos deixar que eles tenham razão; é melhor eliminar os inteligentes... Mas façamos o que ela sugeriu".

Frases extraídas do livro consultado:

"Nada pode nascer do nada." (Ex nihilo, nihil fit). [Lucrécio]
"Se a ciência demonstrar de maneira irrefutável a falsidade de alguma doutrina budista, esta deve ser mudada como consequência." [Dalai Lama]
"Não há nada mais perigoso do que uma ideia quando for a única que tivermos." [?]
"Não importa quão alto seja o seu trono; você sempre estará sentado sobre o próprio traseiro." (Michel de Montaigne)
"Quem estiver livre de preconceitos que atire a primeira pedra." [Norberto Bobbio]
"Sapere aude!" (Tenha coragem de usar o próprio entendimento) [Kant]
"A potência intelectual de um homem é medida pela dose de humor que for capaz de utilizar." [Nietzsche]
"A persistência de um costume está ordinariamente em relação direta com o absurdo do mesmo." [Marcel Proust]
"O preconceito é o filho da ignorância." [William Hazlitt]
"Não há maior pecado que o da estupidez." [Oscar Wilde]
"Não tente impor a autoridade quando só se trata de razão." [Voltaire]

Fonte de Consulta

RISO, Walter. A Arte de Ser Flexível: de uma mente rígida a uma mente livre e aberta à mudança. Tradução de Marcelo Barbão. Porto Alegre, RS: L&PM, 2018.

20 setembro 2018

Aristóteles e o Problema da Justiça

O que é justo e o que é injusto? Uma pessoa é convidada ao posto que desejávamos na empresa em que trabalhamos. Uma garota, por ser cadeirante, é expulsa da torcida organizada de um determinado clube. Cada um dos casos pode brotar em nós um sentimento de indignação, e logo dizemos que houve uma injustiça. Daí, poderíamos indagar: quem merece o quê? Lembremo-nos de Aristóteles.

A teoria de justiça de Aristóteles baseia-se no telos (finalidade) e na honra. Para definir os direitos, temos que saber qual é o telos da prática social abordada. E para compreender o telos é preciso discutir as virtudes que ela deve honrar e recompensar.

Para Aristóteles, justiça é dar às pessoas o que elas merecem. O que uma pessoa merece? Para entender o mérito, temos que ter em mente "as coisas e as pessoas a quem elas são destinadas". Segue-se que "pessoas iguais devem receber coisas iguais". Iguais em que sentido? Depende do que está sendo distribuído e das virtudes relevantes para cada caso. Ao distribuirmos flautas, elas devem ficar para os melhores flautistas porque é para isso que elas existem para serem bem tocadas.

Observe o sentido nobre de política em Aristóteles: aprender a viver uma vida boa. "O propósito da política é permitir que as pessoas desenvolvam suas capacidades e virtudes humanas peculiares — para deliberar sobre o bem comum, desenvolver o julgamento prático, participar da autodeterminação do grupo, cuidar do destino da comunidade como um todo. "A finalidade e o propósito de uma pólis é uma vida boa, e as instituições da vida social são meios de atingir essa finalidade.""

"A virtude moral resulta do hábito." "Tornamo-nos justos ao praticar ações justas, comedidos ao praticar ações comedidas, corajosos ao praticar ações corajosas." Aristóteles afirmava também que a virtude moral é um meio entre os extremos.

Seguindo o raciocínio do merecimento, Aristóteles acaba defendendo a escravidão. Como o faz? Desde que não seja por imposição, no caso de um prisioneiro de guerra, a escravidão resulta da natureza daquela pessoa, que está talhada para obedecer.

Fonte de Consulta 

SANDEL, Michael J. Justiça – O que é Fazer a Coisa Certa. Tradução de Heloísa Matias e Maria Alice Máximo. 24. ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.

12 setembro 2018

Utilitarismo e Felicidade

A doutrina utilitarista foi fundada por Jeremy Bentham (1748-1832). Defende que o mais elevado objetivo da moral é maximizar a felicidade. Para tanto, o prazer deve ser superior à dor. Posteriormente, John Stuart Mill (1806-1873) tenta conciliar os direitos do indivíduo com a filosofia utilitarista. Pensa que as pessoas devem ser livres para fazer o que quiserem, contando que não façam mal aos outros.

Críticas à filosofia de Bentham: 1) O utilitarismo não consegue respeitar os direitos do indivíduo; 2) o utilitarismo pesa as preferências sem as julgar, pois sua moralidade é baseada na quantificação, na agregação e no cômputo geral da felicidade.

Moral e felicidade abrangem outros campos de interesse. Kant, por exemplo, defende os direitos humanos universais. Para ele, a moralidade não deve ser baseada apenas em considerações empíricas, ou seja, em interesses e desejos passageiros, pois fazer um homem feliz é muito diferente de fazer um homem bom.

A filosofia de Kant é radicalmente oposta ao utilitarismo. Ele pretende dar um cunho universal às suas ideias. Observe o teor de seus imperativos categóricos. Imperativo categórico 1: Universalize sua máxima. "Aja apenas segundo um determinado princípio que, na sua opinião, deveria constituir uma lei universal." Imperativo categórico 2: Trate as pessoas como fins em si mesmas.

A felicidade, na Doutrina Espírita, tem como pano de fundo a pluralidade das existências: a vida nos foi dada como prova ou expiação. Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec diz: "O homem é, na maioria das vezes, o artífice de sua própria infelicidade. Praticando a lei de Deus ele pode poupar muitos males e gozar de uma felicidade tão grande quanto o comporta a sua existência num plano grosseiro". (Pergunta 921)

De acordo com o Espiritismo, o planeta Terra não é um dos orbes mais evoluídos do Universo. Ele já esteve mais atrasado, pois já ultrapassou o estado primitivo. Na atualidade, estamos vivendo num mundo de provas e expiações em que o mal ainda predomina sobre o bem. Nesse sentido, por mais que busquemos a felicidade, nunca a encontraremos, pois ela não é deste mundo. Ela pertence a um mundo mais evoluído em que as ações voltadas para a fraternidade universal são a regra.

Fonte de Consulta

SANDEL, Michael J. Justiça – O que é Fazer a Coisa Certa. Tradução de Heloísa Matias e Maria Alice Máximo. 24. ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.