24 fevereiro 2020

Parmênides

"O ser é e não pode não ser e o não-ser não é e não pode ser de modo algum." (Parmênides)

Parmênides (510-445 a. C.) foi um filósofo grego da Antiguidade, o primeiro pensador a discutir questões relativas ao “Ser”. Foi um dos três mais importantes filósofos da escola eleática, junto com Xenófanes e Zenão. Tales, Anaximandro e Anaxímenes iniciam o processo de reflexão racional sobre a origem das coisas. Heráclito dá ênfase ao movimento. Parmênides enfatiza o fixo, representando um contraponto a Heráclito.

Parmênides é considerado o mais remoto precursor da lógica ao enunciar o princípio de identidade e de não contradição. Zenão, discípulo de Parmênides, vem em seguida, ao empregar a argumentação erística, ou seja, a arte da disputa ou da discussão. Posteriormente Sócrates, com a maiêutica, e Platão, com a teoria das ideias, completaram a base para o advento da lógica aristotélica.

O diálogo foi descoberto por Parmênides, Sócrates e Platão. O antidiálogo surgiu com os sofistas Protágoras, Górgias e Trasímaco. Os primeiros são os amantes do logos; os segundos, "amantes da opinião" ou filodoxos.

A realidadePara Parmênides, o ser é uma esfera bem redonda. “Os atributos do ser não podem ser encontrados por via experimental ou sensorial, mas deduzidos com coerência lógica do próprio conceito de ser”.

A existência da verdadePara Parmênides e Zenão, a verdade é o resultado de uma viagem. Esta começa nas casas da Noite, bairro da cidade de Eleia, cuja simbologia representa o homem que se deixa levar pelos sentidos, e termina nas portas do tempo, onde Parmênides recebe, diretamente da boca da deusa Necessidade, a doutrina do Ser, ideia básica de sua filosofia. Esta metáfora mostra que a verdade não é alcançável para todos, mas somente para aqueles que fazem esforços.

O pensarPara Parmênides, somente a razão vê o real. Os cinco sentidos testemunham toda a transformação da realidade. “É verdade que a vida cotidiana requer o uso dos órgãos dos sentidos, mas por meio deles não se chega à verdade. A razão, não o olho, vê o real”.

A Linguagem. Para Parmênides, a linguagem consiste na doutrina do ser, sintetizada na célebre fórmula o ser é, o não-ser não é. A sua argumentação baseia-se no seguinte: “Enquanto aquilo-que-é pode ser dito – portanto, pensado –, aquilo-que-não-é afasta-se, por definição, de qualquer formulação linguística e intelectual. É impossível pensar o nada. No cotidiano, usamos o verbo ser de modo impróprio e acabamos por atribuir realidade a condições de ausência, a coisas que não existem: a escuridão e o silêncio, por exemplo, são condições de não-ser da luz e do som, portanto, pela lógica não existem”. (1)

(1) NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Margherita De Luca. São Paulo: Globo, 2005.


Heráclito

"Não podemos entrar duas vezes no mesmo rio." (Heráclito)

Heráclito (535-475 a.C.) foi um filósofo pré-socrático, natural de Éfeso, na atual Turquia, filho de aristocráticos. Contemporâneo de Parmênides, conhecido pela ambiguidade de suas sentenças breves em forma de prosa.

Para Heráclito, o arché está o fogo, que cria e transforma todas as coisas. Heráclito trata o fogo muito mais como uma metáfora do que como um elemento natural específico. Observe a comparação que faz com a moeda: “pela sua capacidade de transformar uma coisa em outra, o fogo pode ser substituído pelo símbolo do dinheiro, que, por sua vez, é capaz de trocar uma mercadoria por qualquer outra”.

Heráclito afirma que não nos banhamos duas vezes no mesmo rio. Explicação: nada existe de estável e definitivo na natureza; tudo muda continuamente. Cada coisa é e não é, ao mesmo tempo. Nós mesmos somos e não somos, porque existir, viver, significa tornar-se, ou seja, mudar a própria condição atual por uma outra.

Sobre o logos. De acordo com Heráclito, todos têm o logos, mas só os despertos o sabem. O logos é o pensamento, a razão, a inteligência, o discurso; é, também, o princípio de tudo, a lei que regula o funcionamento do cosmo. Todos participam do logos universal. “Alguns, os adormecidos, limitam-se às percepções imediatas, vivem como que num sonho e desenvolvem opiniões subjetivas; outros – os filósofos ou os despertos – utilizam o logos de modo consciente e conseguem penetrar profundamente na verdade da natureza”.

Sobre o devirHeráclito acha que a guerra é pai de todas as coisas. O devir se realiza por meio de uma contínua passagem de um contrário ao outro. Daí, parecer que a guerra é o que regula o mundo. Isto é verdade, mas muito superficial, ou seja, sob o antagonismo dominante, pode-se perceber uma lei de harmonia, porque as coisas em oposição, para existir, precisam umas das outras. “Entre os opostos há uma guerra constante, mas também uma secreta harmonia, uma mútua necessidade: não existiria saúde sem doença, saciedade sem fome. Dito de outra forma: não pode existir uma subida que, ao mesmo tempo, de um outro ponto de vista, não seja também uma descida”. (1)

Algumas de suas sentenças: "não podemos entrar duas vezes no mesmo rio"; "a  doença faz da saúde algo agradável e bom: "os que procuram ouro escavam muita terra, mas encontram pouco metal"; "tu não encontrarás os confins da alma, caminhes o quanto caminhares, tão profunda é ela"; "se não esperares, não irás achar o inesperado, porque ele não se pode achar e é inacessível"; "a  luta é a regra do mundo e a guerra é que cria todas as coisas". 

(1) NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Margherita De Luca. São Paulo: Globo, 2005.

23 fevereiro 2020

Kant, Immanuel

"Aja somente de acordo com um princípio que desejaria que fosse ao mesmo tempo uma lei universal." (Fundamentação da metafísica dos costumes)

Immanuel Kant (1724-1804) foi um dos filósofos que mais profundamente influenciou a formação da filosofia contemporânea. Nasceu em Königsburg, antiga Prússia, que hoje se situa na Polônia. Filho de pais pobres, tem sua formação universitária financiada por um teólogo, amigo da família. Em 1740, matricula-se na universidade de Königsburg. Em 1755, torna-se livre docente nesta mesma universidade. A partir de 1770, ano em que se faz professor catedrático, ministra diversos cursos de interesse acadêmico. É nesse período que prepara uma de suas mais importantes obras, a Crítica da Razão Pura, que veio a lume em 1781. A Crítica da Razão Pura (1781) e a Crítica da Razão Prática (1788) sintetizam o pensamento renovador de Kant e a essência da sua filosofia.

Resumo de seu pensamento: Nossa sensibilidade é a capacidade de sentir as coisas no mundo. ==> Nosso entendimento é a capacidade de pensar sobre as coisas. ==> Espaço e tempo não podem ser conhecidos pela experiência; são intuições da mente. ==> Então, uma coisa aparece no espaço e no tempo apenas na medida em que é sentida pela mente. ==> Os conceitos só se aplicam às coisas na medida em que são sentidos pela mente. ==> Uma "coisa em si" (algo considerado exterior à mente) pode não ter nada a ver com espaço, tempo ou qualquer um de nossos conceitos. ==> "Coisas em si" são incognoscíveis. ==> Existem dois mundo: o mundo da experiência sentida por nossos corpos e o mundo das coisas em si. (1)

O horizonte histórico vivenciado por Kant é marcado pela independência americana e a Revolução Francesa. Sua filosofia está na confluência do racionalismo, do empirismo inglês (Hume) e da ciência físico-matemática de Newton. À Hegel, acrescentam-se o idealismo e criticismo kantiano.

A base da filosofia de Kant (1724-1804) está na teoria do conhecimento. Deseja saber, mas sem erro. Para tanto, elabora-a na relação entre os juízos sintéticos "a priori" e os juízos sintéticos "a posteriori". Aos primeiros, chama-os puros, que caberia à matemática desvendá-los; aos segundos, de fenômenos, influenciados pela percepção sensorial. Nesse sentido, o idealismo e o criticismo kantiano nada mais são do que seus próprios esforços para aproximar o fenômeno à "coisa em si".

Para Kant, "Uma ação realizada por dever não tira seu valor do objetivo a ser alcançado por ela, mas da máxima segundo a qual é decidida". O indivíduo age exclusivamente segundo a regra que estabelece, ou seja, "sem levar em conta nenhum dos objetos da faculdade de desejar" e "fazendo-se abstração dos fins que podem ser alcançados por tal ação" (Fundamentos..., I). "Ela não tem a menor necessidade da religião", insiste Kant, nem de um fim ou objetivo qualquer: "ela se basta a si própria" (A religião nos limites da simples razão, Prefácio).

Kant pública três tipos de crítica: a Crítica da razão pura, a Crítica da razão prática e a Crítica da faculdade do juízo. Na Crítica da razão pura, examina a teoria do conhecimento, estabelecendo os limites para a sua apreensão. Na Crítica da razão prática, examina o significado moral da liberdade, da imortalidade da alma e da existência de Deus. Na Crítica da faculdade do juízo, desenvolve a sua teoria acerca do belo, tendo por fundamento o mesmo das duas críticas anteriores, ou seja, o domínio da natureza e o domínio da liberdade/moralidade.

A filosofia de Kant tentava conciliar a autoridade da ciência com a experiência do dia a dia dos indivíduos em um mundo abarrotado de preocupações morais, estéticas, culturais e religiosas.

(1) VÁRIOS COLABORADORES. O Livro da Filosofia. Tradução de Rosemarie Ziegelmaier. São Paulo: Globo, 2011.


Lao-tsé

"As palavras verdadeiras não são agradáveis e as agradáveis não são verdadeiras.” (Lao-Tsé)

Lao-tsé (c. séc. VI a.C.). Lendário fundador do taoísmo, cujos ensinamentos estão contido no Tratado sobre o caminho e o seu poder (Tao Te Ching). Enquanto o confucionismo representa o desenvolvimento social das potencialidades humanas, Lao-tsé representa a unidade com o universo, conseguida por meio de uma vida simples, não sofisticada, com desejos mínimos e uma máxima incorporação à natureza. A vida e a identidade de Lao-tsé são um tanto obscuras, e há alguma controvérsia sobre se ele viveu no século VI ou dois ou três séculos depois. Pensa-se que nasceu em Ch'u, na província de Hunan. (1)

Resumo do seu pensamentoTao (O Caminho)... ==> A fonte de toda existência. ==> A raiz de todas as coisas, visíveis e invisíveis. ==> ... é atingido por meio da... ==> ... wu wei (não ação). ==> agindo ponderadamente e não por impulso. ==> agindo em harmonia com a natureza. ==> tendo uma vida solitária de meditação e reflexão. ==> vivendo com paz, simplicidade e tranquilidade. (2)

O Tao é nome que se dá aos ensinamentos veiculados por Lao-Tsé, há 2.600 anos, na China, no livro o Tao-Te-Ching. De acordo com o seu autor, o Tao não pode ser definido, apenas conhecido, pela mesma razão com que não podemos definir Deus. O livro foi escrito numa única noite, como resposta ao homem da fronteira, que lhe pediu para ensinar tudo o que sabia da vida. Diz-se que quando Lao-Tsé escreveu o livro ele estava mais do que inspirado, ele estava iluminado. Ao longo de todo esse tempo, esse livro foi traduzido para várias línguas, servindo de subsídio para muitas filosofias e religiões.

Toda sua sabedoria ele a transportou para um livro intitulado Tao-te-King. O King significa livro clássico e Tao-te são as duas palavras com as quais começam as duas partes de seu livro que, então, toma o seu nome como os livros do Pentateuco. Os dois títulos unidos significam Livro da virtude e do caminho. Sobre a antiguidade e autenticidade deste livro acham-se de pleno acordo os intelectuais e os Taos-ses, podendo assim lê-lo como verdadeiro. (3)

Frases de Lao-Tsé

“Tenho apenas três coisas a ensinar: simplicidade, paciência, compaixão. Esses três são teus maiores tesouros. Simples nas ações e pensamentos, retornas à fonte do ser. Paciente com amigos e inimigos, estás em harmonia com o modo de ser das coisas. Compassivo contigo mesmo, reconcilias todos os seres do mundo.” (Lao-Tsé)

 "Sem sair a canto algum, conhecer o mundo inteiro. Sem olhar pela janela, descobrir o Céu e a Terra." (Lao-Tsé)

"Conhecer os outros é inteligência; conhecer a si mesmo é a verdadeira sabedoria." (Lao-Tsé)

"O sábio contribui com o desenvolvimento natural de todas as coisas e não se atreve a agir." (Lao-Tsé)

"Se alguém sabe como cessar os pensamentos, então há concentração; concentrando-se se pode ‘chegar à tranqüilidade’; por meio da tranqüilidade, pode-se obter a paz; com a paz se alcança a sabedoria; e com a sabedoria pode-se ter o Tao." (Lao-Tsé)

(1) BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Consultoria da edição brasileira, Danilo Marcondes. Tradução de Desidério Murcho ... et al. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

(2) VÁRIOS COLABORADORES. O Livro da Filosofia. Tradução de Rosemarie Ziegelmaier. São Paulo: Globo, 2011.

(3) Titãs da Religião. Tradução J. Coelho de Carvalho. Rio de Janeiro: Ateneo, s.d.p

Locke, John

"[...] nosso conhecimento nunca pode ir mais longe do que nossas ideias." (Ensaio sobre o entendimento humano)

John Locke (1632-1704). Estudou Filosofia, Ciências Naturais e Medicina em Oxford. Esteve durante muitos anos a serviço do Conde de Shaftesbury, como secretário e preceptor do seu filho e do neto. Seguiu seu protetor, ao ser este exilado para a Holanda, e voltou para a Inglaterra com a ascensão de Guilherme de Orange.

Obras de Locke: An Essay concerning Human Understanding (Ensaio sobre o Entendimento Humano, 1690). No mesmo ano escreveu An Essay concerning Toleration (Ensaio sobre a Tolerância). Em 1693, publicou The Reasonableness of Christianity (A Razoabilidade do Cristianismo). Sua obra é uma reação contra Descartes e sua doutrina das ideias inatas. Escreveu também Two Treatises on Civil Government (Dois Tratados sobre o Governo Civil), do qual An Essay Concerning the True Original, Extent and End of Civil Government (O Ensaio Concernente à Verdadeira Origem, Extensão e Fim do Governo Civil), é a segunda parte. 

Resumo de seu pensamento: Os racionalistas acreditam que nascemos com algumas ideias e conceitos: os que são "inatos". ==> Mas isso não é confirmado pelo fato... ==> ... de que não há verdades encontradas em todos nós no nascimento. ==> ... de que não há ideias universais encontradas em pessoas de todas as culturas, em todos os tempos. ==> Tudo o que sabemos é adquirido a partir da experiência. (1)

Quando John Locke dá início ao empirismo inglês, a filosofia predominante é a cartesiana, cujo problema metafísico é resolvido pela teoria substancialista (três substâncias) de Descartes: res cogitans – a substância pensante – (alma), res extensa – a substância extensa – (o corpo) e Deus, a substância infinita criadora.

Descartes falava de três tipos de ideias: adventíciasfictícias e inatas. As ideias adventistas são as que sobrevêm em nós postas pela presença da realidade externa; as ideias fictícias são aquelas que por nós mesmos formamos em nossa alma; as ideias inatas são as que constituem o acervo próprio do espírito, da mente e da alma. Locke nega a existência de ideias inatas. Para explicar como as ideias se formam na mente, supôs que a alma fosse um papel em branco (tabula rasa) onde tudo o mais deveria ser escrito pelas sensações da experiência. 

Suas ideias sobre o governo civil mostram que cada indivíduo, movido pela lei natural, elabora uma espécie de contrato, dando ao melhor o poder de governá-los. Os que são escolhidos para o cargo de comando podem ser substituídos, caso não ajam de acordo com a vontade da maioria. Locke tornou-se famoso, porque conseguiu influenciar muitos governos, pois foi o primeiro a advogar a concepção moderna de liberdade civil e definir as limitações da propriedade e do poder da república.

(1) VÁRIOS COLABORADORES. O Livro da Filosofia. Tradução de Rosemarie Ziegelmaier. São Paulo: Globo, 2011.

Complemento

Locke, em seu Ensaio sobre o Entendimento Humano, mesmo não sendo uma obra psicológica, inaugurou a psicologia da associação de ideias.


Para Locke, a proteção do cidadão, com relação ao abuso de poder, assenta-se na divisão de poderes. Em se tratando do Estado, elucida, também, os limites da tolerância: “Uma sociedade democrática não pode aceitar qualquer seita secreta e obediente a um país estrangeiro, assim como não pode permitir o ateísmo, sinônimo de imoralidade e falta de responsabilidade”.


Para Locke, a mente não inventa ideias. “A mente limita-se a reelaborar sob forma de abstração crescente dados e observações que recebe do exterior, segundo a fórmula empirista nada existe no intelecto que não tenha antes passado pela percepção”.

Para Locke, o contrato produz a sociedade e o governo, consequentemente o Estado. Para Rousseau, o contrato só constitui a sociedade. Ele acha também que a sociedade e o Estado devem ser uma única coisa; não podem estar separados. Por isso, diz que o único órgão soberano é a assembléia, na qual se expressa a soberania. Nesse caso, a assembléia, representando o povo, pode delegar poderes a algumas pessoas e delas retirar quando as circunstâncias assim o exigirem.



22 fevereiro 2020

Mill, John Stuart

"Para que o mal triunfe, basta que os homens de bem se omitam." (Discurso inaugural na Universidade de St. Andrews, 1867)

John Stuart Mill (1806-1873) foi um filósofo e economista inglês, filho de James Mill, secretário da East India Company. O pai deu-lhe especial educação, que consistiu em muitos estudos sobre Filosofia e Ciência Política. Ele também serviu na East India Company, tendo ingressado, mais tarde, no Parlamento como liberal. Toda a sua vida foi pautada por uma intensa atividade: fundou revistas, círculos de estudos e foi membro do Parlamento.

Seus livros principais são: System of Logic (Sistema de lógica, 1843), Essays on Some Unsettled Questions on Political Economy (Ensaios sobre algumas questões não resolvidas de economia política, 1844), Principles of Political Economy (Princípios de economia política, 1848), Utilitarianism (Utilitarismo, 1863). 

Resumo do seu pensamento: As decisões devem ser tomadas sob o princípio do máximo bem possível para o máximo de pessoas possível. ==> Indivíduos devem ser livres para fazer o que lhes proporcione prazer, ainda que isso posso prejudicá-los... ==> ...mas eles não estão autorizados a fazer coisas que prejudiquem os outros. ==> Os indivíduos podem escolher fazer as coisas que afetam seus próprios corpos, mas não o de outra pessoa. ==> Sobre seu próprio corpo e mente, o indivíduo é soberano. (1)

John Stuart Mill, o mais eminente do grupo de filósofos britânicos do século XIX, propôs e desenvolveu a doutrina do utilitarismo. Ele foi um reformador social, um defensor da liberdade tanto política quanto pessoal e um filósofo e lógico de considerável importância. Seu trabalho On Liberty, publicado em 1859, discute os sistemas legais e governamentais. Na introdução do seu ensaio dizia que a única liberdade que merece o nome de liberdade é aquela em que cada um procurando o seu próprio interesse não prejudica o próximo a conquistar o dele. Acha ele que as pessoas devem ser livres, mas muitas vezes acontece que os governos são constituídos de forma arbitrária. É a partir daí que discute todo o problema envolvido entre a autoridade e a liberdade.

O ponto inicial da sua filosofia foi o trabalho de Jeremy Bentham, reformador radical que primeiro disseminou a ideia "da maior felicidade para o maior número", como um princípio moral. Isto ficou conhecido como o princípio da utilidade. No Utilitarismo Mill desenvolve este princípio como uma teoria moral que provê a direção de como viver virtuosamente. A doutrina da utilidade, disse ele, "assegura que as ações são certas na proporção que elas tendem a promover felicidade, erradas quando elas tendem a promover o inverso da felicidade".


(1) VÁRIOS COLABORADORES. O Livro da Filosofia. Tradução de Rosemarie Ziegelmaier. São Paulo: Globo, 2011.

Complemento

Imagine que você tenha vivido distante de outras crianças durante a maior parte de sua infância. Em vez de passar o tempo brincando, você aprenderia grego e álgebra com um professor particular, ou se envolveria em conversas com adultos extremamente inteligentes. O que você teria se tornado? Isso foi mais ou menos o que aconteceu com John Stuart Mill (1806-1873). Ele foi um experimento educacional. Seu pai, James Mill, amigo de Jeremy Bentham, tinha a mesma visão de Locke de que a mente das crianças era vazia, como um quadro branco. James Mill estava convencido de que, se criasse uma criança da maneira correta, haveria uma boa chance de ela se tornar um gênio. Por isso, James ensinou seu filho John em casa, garantindo que o menino não perdesse tempo brincando ou aprendendo maus hábitos. Contudo, não se tratava apenas de transmitir conteúdos para aprovação em provas, muito menos de uma memorização forçada ou algo desse tipo. James ensinou John a usar o método de questionamento socrático, encorajando o filho a explorar as ideias que aprendia, em vez de simplesmente repeti-las.

Mill aplicava seu pensamento utilitarista a todos os aspectos da vida. Ele pensava que os seres humanos se pareciam um pouco com as árvores. Se não damos à árvore o espaço necessário para ela se desenvolver, ela será fraca e retorcida. Todavia, na posição correta, ela pode realizar todo o seu potencial, atingindo uma altura e uma extensão consideráveis. De maneira semelhante, nas circunstâncias corretas, os seres humanos prosperam, e isso gera boas consequências não só para o indivíduo em questão, mas também para toda a sociedade – a felicidade é maximizada. Em 1859, Mill publicou um livro curto, porém inspirador, defendendo sua visão de que dar às pessoas o espaço que julgam ser conveniente para se desenvolverem era a melhor maneira de organizar a sociedade. Esse livro chama-se Sobre a liberdade e ainda hoje é amplamente lido. (WARBURTON, Nigel. Uma Breve História da Filosofia. Tradução de Rogério Bettoni. Porto Alegre, RS: L&PM, 2012. [Coleção L&PM POCKET])

A transformação da economia em ciência econômica revela-nos um grande ensinamento. Observe que John Stuart Mill (1806-1873) assinala nos seus Essays on Some Unsettled Questions of Political Economy que normalmente a definição de uma ciência não precede, mas sucede a criação dessa mesma ciência. Por quê? Só com o progressivo estabelecimento dos princípios gerais dos diversos problemas que ela pretende resolver, é que a diversidade de definições se vem a realizar. Foi isso que conseguiu Lionel Robbins ao definir a Economia como a ciência que estuda o comportamento humano como uma relação entre fins e meios escassos que possuam usos alternativos.

John Stuart Mill (1806-1873), sendo utilitarista e liberal, adapta o positivismo comtiano ao utilitarismo inglês, porém impregnado de conteúdos éticos e políticos bem específicos. Herdeiro de Jeremy Bentham (1748-1832), que relaciona o bem ao prazer e o mal à dor, Mill estabelece que o bem-estar deva estar disponível ao maior número possível de indivíduos. O positivismo de Mill é essencialmente pragmático.


Abbagnano, Nicola

"A própria razão é falível, e esta falibilidade deve encontrar um lugar em nossa lógica." (Nicola Abbagnano)

Nicola Abbagnano (1901-1990) foi um destacado filósofo existencialista italiano. Nasceu em Salerno, estudou em Nápoles e lecionou em Turim. Sua “filosofia do possível” condena os outros existencialistas quer por negarem as possibilidades humanas (porque todos os nossos esforços são fúteis num universo hostil e sem sentido), quer por as exagerarem, imaginando que podemos fazer coisas que, na verdade, estão além de nossa capacidade. Em 1950 Abbagnano criou com Franco Ferrarotti os Quaderni di filosofia. A partir de 1952, ao lado de Norberto Bobbio, dirigiu a Rivista di filosofia.

No existencialismo, desvinculado das implicações negativas que ele observava tanto em Heidegger e Jaspers, como em Sartre, no pragmatismo deweyano e no neopositivismo, Abbagnano via as manifestações de um novo clima filosófico, a que se referiu em um artigo de 1948 como um "novo iluminismo".

Logo após a 2ª Guerra Mundial foi co-fundador do Centro di studi metodologici de Turim, constituído em 1947 com a finalidade de fomentar pesquisas sobre as relações entre lógica, ciência, técnica e linguagem. Em pouco tempo, o Centro tornou-se o principal núcleo de difusão da epistemologia, particularmente do neopositivismo. Abbagnano definiu a própria filosofia como existencialismo positivo.

Algumas de suas obras: Le sorgenti irrazionali del pensiero (1923); Il problema dell'arte (1925); Il nuovo idealismo inglese e americano (1927); La filosofía di E. Meyerson e la lógica dell'identità (1929); Guglielmo d'Ockham (1931); La nozione del tempo secondo Aristotele (1933); La física nuova (1934); Introduzione all'esistenzialismo (1942); Storia della filosofía, 12 vol. (1946-1950); Dizionario di filosofia (1961). (1)

(1) https://pt.wikipedia.org/wiki/Nicola_Abbagnano

Complemento

A base do existencialismo está na discussão do possível. Para Sartre: "A existência precede a essência". É a tese da impossibilidade do possível. Ele retoma a fórmula de Lequier: "Fazer e, ao fazer, fazer-se". É a expressão metafísica da crença na liberdade absoluta segundo a qual o ser vivo e pensante faz a si mesmo tanto quanto lho permitem certas determinações já tomadas. Além do exposto, Abbagnano acrescenta o grupo da necessidade do possível e o grupo da possibilidade do possível.

De acordo com Abbagnano, o conceito de felicidade é humano e mundano. Em geral, é um estado de satisfação devido à própria situação do mundo. Por essa relação com a situação do mundo, a noção de felicidade difere da de beatitude a qual é o ideal de uma satisfação independente da relação do homem com o mundo e por isso limitada à esfera contemplativa ou religiosa.

O "Dicionário" Abbagnano é uma obra ampla e abrangente, indispensável para estudantes e estudiosos da filosofia. É um dicionário filosófico que busca o significado conceitual de cada termo, relacionando-o com os diferentes contextos e sistemas filosóficos. Cada verbete também apresenta o termo em grego, latim, inglês, francês e alemão.

21 fevereiro 2020

Voltaire

"A dúvida não é uma condição agradável, mas a certeza é absurda." (Carta a Frederico, o Grande, 28 de novembro de 1770)

Voltaire (1694-1778) foi um escritor, poeta e filósofo francês. Voltaire, cujo nome real era François Marie Arouet, é conhecido sobretudo por ter sido o grande promotor da cosmologia newtoniana na França. A partir dos vinte e poucos anos, seus escritos satíricos lhe trouxeram problemas, levando a períodos que acabou expulso de Paris ou até mesmo preso na Bastilha. Foi em uma dessas ocasiões de encarceramento que ele adotou o nome Voltaire.

Resumo do seu pensamento: Todo fato ou teoria na história foi revisto em algum momento. ==> Não nascemos com ideias e conceitos prontos em nossas cabeças. ==> Toda ideia ou teoria pode ser desafiada. ==> A dúvida não é uma condição agradável, mas a certeza é absurda. (1)

Voltaire escreveu o Cândido ou o Otimismo por volta de 1758 e o publicou em 1759. Esse livro se insere na história do problema do mal, cujo início é reportado ao dilema de Epicuro: "Ou Deus quer extirpar o mal deste mundo e não pode, ou pode e não o quer; ou não pode nem quer; ou finalmente quer e pode. Se quer e não o pode, é sinal de impotência, o que é contrário à natureza de Deus; se pode e não o quer, é malvadez, o que não é menos contrário à sua natureza ; se não quer nem pode é simultaneamente malvadez e impotência; se quer e pode (o que de todas as hipóteses é a única que convém a Deus), qual é então a origem do mal sobre a Terra?"

Historicamente, várias correntes de pensamento tentaram encontrar uma solução ao problema apontado por Epicuro. Leibniz, no século XVII, dá também a sua contribuição à história do problema do mal. As suas teses fundamentam-se no otimismo filosófico ou no princípio da razão suficiente. O princípio da razão suficiente é aquele segundo o qual nada existe sem uma razão para ser assim e não de outro modo. De acordo com Leibniz, a única razão de este mundo existir e não outro é que este é o melhor. O fim do todo é bom, aquilo que vemos como mal se deve à limitação de nossa perspectiva parcial, sempre limitada e incompleta.

Voltaire era adepto do otimismo filosófico – crença de que há um funcionamento ordenado do universo e de todos os eventos. Contudo, o terremoto de Lisboa, ocorrido em 1755, dizimando e ferindo muitas pessoas, fê-lo mudar de ideia. A partir daí, opõe-se a esse pensamento. Primeiramente, ataca a religião cristã quanto ao dogma do pecado original. O filósofo se pergunta: se o otimismo está certo, qual é o lugar do pecado original na organização perfeita? Depois, faz diversas comparações entre o mal que vê e aquela ordem que o otimismo apregoa.

Cândido ou o Otimismo é uma crítica ao otimismo filosófico. Voltaire pretende mostrar que a causa – tudo que existe tem uma razão de ser –, apontada pelo otimismo filosófico, não é capaz de se sustentar perante o testemunho do mundo. Defende, em contrapartida, o otimismo prático, aquele se expressa no aqui e no agora. A recusa do otimismo global leva-o a recusar, também, a identificação que era feita pelo otimismo filosófico entre ordem e bondade ou beleza. (2)

(1) VÁRIOS COLABORADORES. O Livro da Filosofia. Tradução de Rosemarie Ziegelmaier. São Paulo: Globo, 2011.

(2) BRANDÃO, Rodrigo. Voltaire e as Ilusões da Metafísica. In. FIGUEIREDO, Vinicius de (Org.). Seis Filósofos em Sala de Aula. São Paulo: Berlendis & Vertechia, 2006.

Complemento

Voltaire usa o tutor de filosofia, Pangloss, para expor uma versão caricaturada da filosofia de Leibniz, da qual zomba o escritor. Tudo o que acontece, seja desastre natural, tortura, guerra, estupro, perseguição religiosa ou escravidão, Pangloss trata como mais uma confirmação de que eles vivem no melhor dos mundos possíveis. Em vez de levá-lo a repensar suas crenças, cada desastre só aumenta sua confiança de que tudo acontece para o melhor e de que as coisas tinham de ser assim para produzir a mais perfeita situação.

Leibniz ensinou-nos que este é o melhor dos mundos possíveis. As negatividades bastante reais do mundo são sobrepujadas — em termos gerais — por passividades compensadoras de peso suficientemente grande.

Cândido, na novela de Voltaire (Cândido), grita: "Mas se este é o melhor dos mundos possíveis, como, em nome dos céus, serão os outros?"

Algo acima e além de uma argumentação sobre o melhor mundo possível seria necessária para abordar esse problema. (RESCHER, Nicholas. Uma Viagem pela Filosofia: em 101 Casos Anedóticos. Tradução André Oídes. São Paulo: Ideias e Letras, 2018.)

O protesto contra a Igreja Católica as 95 teses que Martinho Lutero (1483-1546) pregou na porta da igreja de Todos os Santos em Wittenberg em 1517, continha ataques às doutrinas, aos rituais e à estrutura clerical do catolicismo, dando especial atenção aos clérigos que convenciam as congregações de que, sem a intervenção direta de um padre e o pagamento que inevitavelmente se seguia a tal intervenção, um fiel não seria capaz de se comunicar com Deus e muito menos de entrar no Paraíso. Os argumentos de Lutero alimentaram a obra de filósofos do Iluminismo como Voltaire, que, apesar de não se interessar pela reforma das práticas religiosas, defendia a primazia da razão sobre todo o resto. Pessoas envolvidas com a igreja, portanto, como geralmente não cultivavam o uso da razão, impediam o progresso social.


Wittgenstein, Ludwig

"Sobre aquilo do que não se pode falar, deve-se calar." Tractatus Logico-Philosophicus

Ludwig Wittgenstein (1889-1951) foi um filósofo austríaco. Viveu grande parte de sua vida na Inglaterra. É um dos fundadores da filosofia analítica e sua obra, extremamente idiossincrática e original, teve grande influência no desenvolvimento dessa corrente filosófica. Por seu caráter essencialmente assistemático e fragmentário, o pensamento de Wittgenstein deu margem a um grande número de interpretações, muitas vezes divergentes, e seu caráter mais sugestivo do que teórico ou doutrinário fez com que sua influência desse origem a diferentes desenvolvimentos. (1)

Resumo do seu pensamento: A linguagem é composta de proposições: assertivas sobre coisas que podem ser verdadeiras ou falsas. ==> O mundo é composto de fatos: as coisas são de um certo modo. ==> As proposições são "imagens" de fatos, do mesmo modo que mapas são imagens do mundo. ==> Qualquer proposição que não retrate fatos é sem sentido; por exemplo, "matar é ruim". ==> Minha linguagem é, portanto, limitada a declarações de fatos sobre o mundo. ==> Os limites da minha linguagem significam os limites do mundo. (2)

De 1906 a 1908, Wittgenstein estudou engenharia mecânica em Berlim. Em seguida foi para a Universidade de Manchester, onde ficou fascinado pela matemática; em 1911, mudou-se para Cambridge com o intuito de estudar lógica matemática junto a Bertrand Russell. Dois anos depois, Russell declarou que já havia ensinado a Wittgenstein tudo o que podia. Enquanto o interesse de Russell era desvelar os fundamentos lógicos da matemática, Wittgenstein queria investigar os fundamentos da lógica propriamente dita. No início da Primeira Guerra Mundial, ele ingressou no exército austríaco, mas nos quatro anos seguintes trabalhou no que viria a ser o Tractatus Logico-Philosophicus (1922), único livro publicado enquanto era vivo. (3)

(1) JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

(2) VÁRIOS COLABORADORES. O Livro da Filosofia. Tradução de Rosemarie Ziegelmaier. São Paulo: Globo, 2011.

(3) LEVENE, Lesley. Penso, Logo Existo: Tudo o que Você Precisa Saber sobre Filosofia. Tradução de Debora Fleck. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.

Complemento

Então, voltando à pergunta que Epicuro fez, por que temer a morte? A morte não é algo que acontece a nós. Quando acontece, não estamos lá. Ludwig Wittgenstein, filósofo do século XX, repetiu essa visão quando escreveu em seu Tractatus Logico-Philosophicus que “a morte não é um acontecimento da vida”. A ideia aqui é que os acontecimentos são coisas que experimentamos, mas a morte é a remoção da possibilidade da experiência, e não alguma coisa da qual poderíamos ter ciência, ou algo por que passaríamos de alguma maneira.

Wittgenstein, Heidegger e Dewey. Cada um deles tentou uma nova maneira de tornar a Filosofia "fundamental" — uma nova maneira de formular um contexto último para o pensamento. Wittgenstein procurou construir uma nova teoria da representação que nada teria a ver com o mentalismo. Heidegger tentou construir um novo conjunto de categorias filosóficas que nada teriam a ver com a ciência, a epistemologia, ou a busca cartesiana da certeza, e Dewey tentou constituir uma versão naturalizada da visão hegeliana da história.

Adormecidos com a rotina dos dias iguais, esquecemo-nos do assombro agostiniano perante o mistério do tempo (“Si Nemo a me quaeret, scio, si quaerenti explicare velim, nescio.” Santo Agostinho, Confissões, XX, 14.). Com respeito a esta frase, L. Wittgenstein nas suas Philosophische Untersuchungen, propõe: “Aquilo que sabemos quando ninguém nô-lo pergunta, mas não sabemos quando o pretendemos explicar é algo sobre o qual devemos refletir”.