21 outubro 2017

Filosofia e Antifilosofia

"Quem não filosofa pela filosofia, mas se serve da filosofia como meio, é um sofista". (F. Schlegel, Fragmentos do "Athenaeum")

Platão, em A República, diz que o homem vil e superficial não pode ter nenhuma comunicação com a filosofia. A filosofia não é opinião, mas a busca da arché, o Princípio de todas as coisas. A filosofia deve ser entendida, hoje e sempre, como a busca ou amor da verdade. A filosofia surge como diálogo de pensantes e se comunica pelo logos.


O diálogo foi descoberto por Parmênides, Sócrates e Platão. O antidiálogo surgiu com os sofistas Protágoras, Górgias e Trasímaco. Os primeiros são os amantes do logos; os segundos, "amantes da opinião" ou filodoxos. Há, também, os "clássicos da doxa" ou da antifilosofia: Montaigne, Hume, Kant, Locke e Marx. Estes e outros são tentados a "revolver o logos próprio do homem e o Logos que é Deus fazendo-os ceder à "tentação" ratio-vitalística do mundano e, por isso, da opinião multíplice".


Os sofistas preparavam para a carreira política e para o exercício de cargos públicos. Na época moderna, John Locke foi o começo desse novo período de erros e falácias. De um erro elevado a princípio nascem novos erros. Rosmini diz que o século XVII foi uma das idades "quase consagradas ao erro". Nesse sentido, o verdadeiro pensador deve ter a coragem de libertar a filosofia dos inúteis vínculos com o erro e a mentira.

Um diálogo com concessões recíprocas já tem um vencedor: o erro. Há um só diálogo: o da verdade e com a verdade. De tanto respeitar o espírito humano, tem-se reverência pelo erro. A tolerância se exercita para com pessoas e não para com sistemas. A mente, quando se trata da lógica, da coerência, opõe-se à contradição.


A verdade não se aprende com os sentidos. Este é o nó solfístico que deve ser combatido. Santo Tomás, em Summa contra Gentiles, livro II, c. LXVI, explica a diferença entre sentido e intelecto. Para ele, o sentido se encontra em todos os animais, está limitado às coisas materiais e não consegue conhecer a si mesmo. O intelecto está no homem, vai além das coisas materiais e pode refletir sobre si mesmo. Acrescenta que a metafísica, como ciência das causas primeiras, que os sentidos não podem conhecer.


Saibamos diferenciar a filosofia da antifilosofia, o diálogo do antidiálogo, a verdade do erro. Por isso, a reflexão, o exame e a ponderação do bom senso.

Extraído de


SCIACCA, Michele Federico. Filosofia e Antifilosofia. Tradução de Valdemar A. Munaro. São Paulo: Realizações Editora, 2011. 

O Trivium e as Artes Liberais

"As artes liberais denotam os sete ramos do conhecimento que iniciam o jovem numa vida de aprendizagem." 

O Trivium e o Quadrivium, conhecidos como as Sete Artes Liberais, eram o conjunto de estudos que, na Idade Média, antecedia o ingresso na Universidade. Trivium significa o cruzamento de três ramos ou caminhos e tem a conotação de um "cruzamento de estradas" acessível a todos. Quadrivium significa o cruzamento de quatro caminhos. 


O Trivium (Gramática, Lógica e Retórica) diz respeito às coisas da mente. O Quadrivium (Aritmética, Geometria, Música e Astronomia) diz respeito às coisas da matéria. Para Hugo de São Vítor (1096-1141), no Didascálion, "a gramática é a ciência de falar sem erro. A dialética é a disputa aguda que distingue o verdadeiro do falso. A retórica é a disciplina para persuadir sobre tudo o que for conveniente". 


Um estudo sobre o trivium da Idade Média leva-nos a comparar a educação contemporânea, que se fundamenta em produzir documentos (diplomas) daquela que se baseava nas artes liberais, em que o individuo procurava o conhecimento por sua livre e espontânea vontade. Nos tempos das "trevas", a educação tinha por objetivo retirar o indivíduo de seu comodismo e apresentar-lhe o mundo como ele é. 


No trivium, temos: Lógica é a arte de pensar; Gramática, a arte de inventar e combinar símbolos; Retórica, a arte de comunicar. A retórica assume papel preponderante, pois faz uso da gramática e da lógica, para comunicar os pensamentos e os conhecimentos.


A educação liberal é a mais nobre das artes, pois foca a mente do aprendiz. O aluno não recebe passivamente as informações. Ele é convidado a relacionar os fatos aprendidos com um todo unificado. Não é acumular fatos, informações, mas produzir conhecimento, pensar sobre os dados e tirar suas próprias conclusões. 


Fonte de Consulta


JOSEPH, Miriam. O Trivium: As Artes Liberais da Lógica, da Gramática e da Retórica. Entendendo a Natureza e a Função da Linguagem.  Tradução e Adaptação de Henrique Paul Dmyterko. São Paulo: É Realização, 2008.