16 fevereiro 2011

Da Consciência Ingênua à Consciência de Si

O exercício filosófico por excelência é passar da ilusão da imediatidade à consciência de si.

A imediatidade da realidade leva-nos aos erros de interpretação, pois a realidade é sempre emocional. Isto se dá porque, qualquer fato apresentado à nossa percepção, acaba sendo captado segundo o nosso modo de ver o mundo. Em outras palavras: há sempre um juízo de valor, uma avaliação, que é sempre pessoal. Urge, assim, passarmos dessa mera impressão para algo mais profundo, que á a consciência de si.

Pensar por nós mesmos é o primeiro passo, no sentido de não nos fiarmos apenas no que os outros disseram, procedendo como meros recitadores de frases alheias. O segundo passo é colocarmo-nos diante dos outros, para fugirmos ao preconceito e vermos as nossas ideias submetidas à UNIVERSALIDADE. Para tanto, precisamos abrir os nossos ouvidos ao pensamento dos outros. Por que estamos sempre certos e os outros errados? Não é visão deturpada?

Hegel, por exemplo, no capítulo sobre “A Certeza do Sensível” do seu livro Fenomenologia do Espírito, diz que a experiência pela qual a consciência passa é de desilusão. A dúvida e o desespero apoderam-se da consciência: a coisa sensível foge e desaparece quando pensávamos tê-la apreendido. Por isso, a consciência sensível é o mais baixo nível de consciência que deve se elevar à consciência de si e à razão.

Dispor nossos dados à crítica da universalidade ajuda-nos a vencer alguns preconceitos. O preconceito é uma ideia recebida sem crítica, uma opinião, aceita sem elaboração pessoal. Preconceito são falsas evidencias que se originam da nossa experiência de vida. Observe que os seguidores das religiões adquirem uma série de preconceitos com a facilidade. É que as religiões estão repletas de dogmas, que se transformam em preconceitos, porque não podemos pensar fora dessa linha de ideias.

Não é sem razão que muitos pensadores estimularam o ser humano a ser primeiramente religioso e não a ter uma religião. O religioso está aberto a qualquer tipo de experiência; o que tem uma religião, apenas aos seus dogmas. Pensar – fora dos parâmetros estabelecidos – exige a postura do pensamento que está sempre à procura da verdade, esteja ela onde estiver. A verdade não é monopólio de uma religião, de uma instituição. Ela pertence ao patrimônio comum das inteligências.

Desconfiemos das aparências. Tentemos, em seu lugar, aprofundar a imediatidade da realidade.

Fonte: RAFFIN, Françoise. Pequena Introdução à Filosofia. Tradução de Constância Morel e Ana Flaksman. Rio de Janeiro: FGV, 2009. (Coleção FGV de bolso. Série Filosofia)

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