15 dezembro 2015

Crenças Primitivas

Os povos antigos acreditavam que tudo tinha uma alma: animais, plantas, objetos e forças naturais. Procuravam explicar o mundo fazendo associações entre divindades e fenômenos naturais: o nascer do sol representava a libertação da escuridão da noite; a deusa-mãe deu à luz o mundo.

A crença desses povos pode ser entendida através de alguns detalhes: nossos ancestrais nos guiarão; a maioria cultuava os mortos; todo mundo tem uma alma; devemos ser bons vivendo em harmonia; tudo está conectado, ou seja, há um vínculo permanente com os deuses; sistema de moralidade baseada no apelo a ideias de bondade.

A crença dos povos primitivos baseava-se num plano de realidade separado do mundo físico, um lugar de deuses e figuras míticas. Em algumas religiões, o xamã ou curandeiro é considerado o intermediário entre os espíritos e os homens. Os ritos de passagem, como por exemplo, os associados à mudança das estações, tinham grande peso em suas manifestações religiosas. Ainda: o simbolismo - máscaras, talismãs e amuletos - desempenhou papel importante em muitas regiões.

Exemplifiquemos este assunto com dois esquemas:

1) Animismo nas sociedades primitivas 

Tudo no mundo tem uma alma. ==>
Mesmos os seres humanos são apenas recipientes para a alma. ==>
As almas são imortais. ==>
As almas mais importantes são os deuses. ==>
Cerimônias, músicas e oferendas dão aos deuses status no outro mundo. ==>
Se tratarmos bem os deuses, eles nos darão comida.

2) O Poder do xamã

Em mundos invisíveis, seres sobrenaturais controlam o suprimento de animais de caça e o clima. ==>
Esses outros mundos são cheios de espíritos também, uma vez que a alma dos seres humanos e dos animais é imortal.==>
Alguns indivíduos especiais são capazes de visitar os mundos onde esses espíritos vivem. ==>
Esses indivíduos solicitam a ajuda dos espíritos, pedindo animais de caça, bom tempo ou cura para quem está doente.

O xamanismo é a crença em espíritos que podem ser influenciados por xamãs. Acredita-se que esses xamãs, homens ou mulheres, são "indivíduos especiais", com grande poder e conhecimento. Após entrarem em estado alterado de consciência, eles são capazes de visitar outros mundos e interagir com os espíritos que vivem lá.

Fonte de Consulta

O Livro das Religiões. Tradução de Bruno Alexander. São Paulo: Globo Livros, 2014.
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26 novembro 2015

Budismo

O budismo, fundado por Siddhartha Gautama, o Buda (aquele que despertou), é considerado por muitas pessoas mais como filosofia do que como religião. O motivo: Buda buscava a iluminação e não a revelação. Na época, a Índia era dominada pelas religiões bramânicas e, por essa razão, acreditava-se que a alma estava presa ao ciclo eterno da morte e do renascimento. Para quebrar este ciclo, em vez de se valer de rituais e escrituras, Buda opta pela meditação e reflexão.

Para escapar do ciclo das reencarnações, em que o pano de fundo é o sofrimento, principalmente devido ao apego à matéria, Buda estabeleceu as ""Quatro Nobres Verdades": dukkha (a verdade do sofrimento), samudaya (a verdade da origem do sofrimento), nirodha (a verdade do fim do sofrimento) e magga (a verdade do caminho para o fim do sofrimento). Esta última verdade diz respeito ao "caminho do meio".

Depois de elaborado por Buda, o budismo espalha-se rapidamente na Índia, chegando até a China. Em consequência, surgem diversas tradições, onde as duas principais são: theravada manayana. Mais tarde, ocorreram ramificações opostas, como o zen-budismo que preconiza a prática de silenciar a mente para alcançar a iluminação espontânea, e as diversas formas do budismo tibetano, caracterizado por templos coloridos, muitas imagens e rituais.

"O caminho do meio" é o fundamento do budismo. É uma espécie de meio-termo entre dois extremos: vida de luxo e vida de austeridade. Propõe "uma dose moderada de disciplina em busca de uma vida ética, sem cair na tentação dos prazeres físicos ou na auto mortificação". Este caminho refere-se, também, a dois outros extremos: o eternalismo (crença de que a alma tem um propósito e vive para sempre) e o niilismo (extremo ceticismo em que se nega o valor e o sentido de tudo).

Esquema para se chegar ao caminho do meio. Por mais conforto material que tenhamos na vida, não estamos imunes à dor e ao sofrimento. ==> A total negação do conforto material uma vida de ascetismo também não nos protegem do sofrimento. ==> Cada pessoa precisa encontrar equilíbrio e disciplina, de acordo com as circunstâncias individuais. ==> Precisamos encontrar o caminho do meio

Fonte de Consulta 

O LIVRO DAS RELIGIÕES. Tradução Bruno Alexander. São Paulo: Globo Livros, 2014. 



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23 novembro 2015

O Zen-Budismo e o Koan

"Se você entender a primeira palavra do zen, saberá a última. A última e a primeira: não são uma única palavra." (Mumon)

O Zen constitui-se de duas técnicas principais: a primeira deriva da escola Soto e faz uso da meditação zazen; a segunda, da escola Rinzai e emprega koans, ou diálogos paradoxos compostos de perguntas e respostas. Os koans podem levar a uma iluminação repentina e intuitiva, que ocorre quando a lacuna entre o racional e o irracional é transcendido e o "Buda interior" descoberto.

Vejamos uma sequência de pensamentos. O uso de palavras - seja em rezas ou em conversas - cria confusão mental. ==>  Quando pensamos e lemos em silêncio, mais "palavras" são criadas em nossa cabeça. ==> No momento em que queremos encontrar respostas, nosso desejo turva a mente. ==> Se quisermos descobrir nossa natureza Buda, precisamos esvaziar nossa mente de todas essas coisas. ==> Com a mente vazia, teremos insights e entendimentos além das palavras. 

Em se tratando do zen rinzai, uma característica fundamental, introduzida por Hakuin, é a utilização de koans - perguntas irrespondíveis que desestruturam o pensamento convencional. Um dos koans mais conhecido é: "Qual o som de uma única mão batendo palma?" Os mestres do zen-budismo instruem-nos a não saber a resposta de um koan. E, se soubermos, devemos pensar de novo e abrir mão de todas as ideias preconcebidas.

Na meditação zen, o que vemos não pode ser descrito. O objetivo do zen é esvaziar o conteúdo da mente, que não faz parte dela. O zen não é um estudo, mas um exercício. Num mundo onde as pessoas desejam adquirir coisas, ter conhecimento e insight como bens pessoais, o zen é a frustração máxima. Zen é desapego. Conta-se que quando pediram a Bodhidharma para sintetizar a ideia do budismo, ele respondeu: "Um amplo vazio. Um nada sagrado". 

Exemplo de um koan reunindo vento, bandeira e mente.

Dois monges discutiam a respeito da bandeira do templo, que tremulava ao vento. Um deles disse:
- A bandeira que se move.
O outro disse:
- É o vento que se move.
Trocaram ideias e não conseguiam chegar a um acordo. Então Hui-neng, o sexto patriarca, disse:
- Não é a bandeira que se move. Não é o vento que se move. É a mente dos senhores que se move.
Os dois monges ficaram perplexos.


Fonte de Consulta 

Livro das Religiões da Editora Globo 
PELLEGRINI, Luis. Dicionário do Inexplicado. São Paulo: Edições Planeta.



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13 novembro 2015

"Em Favor da Dúvida": Algumas Notas

Notas extraídas do livro Em Favor da Dúvida: Como Ter Convicções Sem se Tornar Fanático

Começa indagando como é possível ter fé na ausência de certeza. Depois, acrescenta: como a incerteza religiosa coexiste com a certeza moral? 
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06 outubro 2015

Martinho Lutero e as 95 Teses (Reforma Protestante)

Martinho Lutero (1483-1546) é considerado o pai da Reforma Protestante. Tudo começou em 31/10/1517, quando da afixação das 95 teses contra as indulgências (pagamento para obter o perdão dos pecados). Estende-se até 1520, quando queima a bula papal Exsurge Domine, que o condenava à excomunhão, caso não se retratasse.

A Reforma Protestante teve os seus precursores: Agostinho de Hipona (354-430) - escritor prolífico - distingue a cidade de Deus e a cidade do homem; Francesco Petrarca (1304-1374) - devoto cristão - não via conflitos entre a realização do potencial humano e a fé religiosa; Jan Hus (1369-1415) - pensador e reformador religioso - queimado vivo pela propagação das teses antidogmáticas; Girolamo Savonarola (1452-1498) - monge italiano - queimado em praça pública porque atacou a corrupção da Igreja; Erasmo de Roterdã (1466-1536) - escritor holandês - cujas ideias humanistas e progressistas foram fundamentais para os reformadores. 

Martinho Lutero nasceu numa família camponesa. Por pressão familiar, inclinou-se aos estudos jurídicos; depois, aos 22 anos, ingressou na vida monástica, passando por diversas crises a respeito da salvação e qual seria o melhor caminho para amar a Deus. Em 1515, começou a ministrar cursos sobre as epístolas de Paulo, especificamente Romanos, que lhe ensejou profundas reflexões de que a salvação humana não era decorrente das obras, mas sim fruto da suprema piedade de Deus. 

Do ato corriqueiro ao processo de excomunhão. Martinho Lutero era professor. Em 31 de outubro de 1517, ele afixa as "95 Teses" na porta da Igreja do castelo de Wittenberg. Este ato, a princípio, era corriqueiro, ou seja, anunciar uma "disputa" ou "justa teológica" entre os doutos de Wittenberg. Servia para que todos os professores e alunos tomassem consciência do que seria debatido e, se por acaso, não pudessem estar presentes, poderiam enviar material por escrito para ser lido. A Igreja, com o seus espiões, interpretou como rebelião ao status quo do catolicismo. 

Eis as etapas do processo até a ruptura:


  • Em junho de 1518 foi aberto o processo contra Lutero, com base na publicação das suas 95 teses, alegando que ele incorria em heresia. 
  • Em agosto de 1518, o processo foi alterado para heresia notória.
  • Entre 12 e 14 de outubro de 1518, o cardeal Caetano pediu-lhe que revogasse a sua doutrina. Lutero recusou-se a fazê-lo.
  • Em junho de 1520 reapareceu a ameaça no escrito Exsurge Domini.
  • Em janeiro de 1521, a bula Decet Romanum Pontificem excomungou Lutero. Seguiu-se, então, a ameaça oficial do Imperador (Reichsacht).
  • Nos dias 17 e 18 de abril de 1521, Lutero foi ouvido na Dieta de Worms (conferência governativa) e, após ter negado a revogação da sua doutrina, foi publicado o Édito de Worms, banindo Lutero. 

Fonte de Consulta

MENESES, Maurício Melo. Cristianismo Reformado - Uma História Contada por Meio da Filatelia. São Paulo: Mackenzie, 2012.

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11 setembro 2015

Utopia

"Pense bem! A boa realização seguir-se-á ao pensamento." (Alfred Tennyson)

A utopia é todo o projeto de uma sociedade perfeita. Pejorativamente, considera-se esse ideal fantasioso e irrealizável. No sentido positivo, esse ideal contém o germe do progresso e da transformação da sociedade. 
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31 agosto 2015

Imposturas Intelectuais: Notas Extraídas do Livro

Em Imposturas intelectuais, os acadêmicos Alan Sokal e Jean Bricmont se uniram e analisaram uma série de textos que mostram as mistificações físico-matemática criadas por Jacques Lacan, Luce Irigaray, Julia Kristeva, Bruno Latour, Gilles Deleuze, Jean Baudrillard e Paul Virilio.

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07 agosto 2015

Dissonância Cognitiva

FotoAtitude e comportamento permeiam nossas ações. Embora atitude diga respeito à intenção e o comportamento à ação propriamente dita, acabamos usando os dois termos como sinônimos. Pode-se dizer que atitude e comportamento fazem parte dos nossos relacionamentos: conosco mesmos, com o nosso próximo e com Deus.

Muitos dos nossos relacionamentos contêm a dissonância cognitiva. A dissonância é o som ou conjunto de sons sem harmonia. A dissonância cognitiva é a tensão psicológica que surge quando um indivíduo se vê frente a duas cognições conflitantes. Procura dar um equilíbrio ao caos que foi formado. É uma espécie de defesa a tudo aquilo que nos causa um incômodo muito grande, a tudo o que vai de encontro ao nosso modo de ser e de pensar.

Festinger e Carlsmith (1959) pediram para os sujeitos da sua pesquisa fazerem coisas extremamente entediantes e depois dizerem ao próximo que elas eram interessantes. Pagaram 1 ou 20 dólares para que convencessem o outro estudante que a tarefa era divertida. Resultado: quanto menos recebiam mais mentiam para si mesmos. Como se explica? Segundo Festinger, os mentirosos bem-pagos sabiam por que haviam falado de sentimentos que não sentiam: 20 dólares. Os mentirosos mal-pagos haviam experimentado uma dissonância cognitiva, pois haviam enganado outras pessoas sem uma razão para tal.

Um aliado da dissonância cognitiva é o mecanismo de defesa. Mecanismos de defesa são um padrão inconsciente de pensamento ou comportamento que protege o consciente de pensamentos e comportamentos que causam ansiedade ou desconforto. Se alguma proposta de pensamento causa dificuldade, ansiedade, o sujeito procura uma válvula de escape, uma forma de se iludir. Esta fuga vai da negação à sublimação, passando pela racionalização, projeção e deslocamento.

Resultados semelhantes são obtidos pelas pessoas que fazem sacrifícios para alcançar um determinado objetivo. Elas colocam um valor exagerado no objetivo. A dissonância cognitiva fornece-nos a seguinte explicação: a maioria das pessoas considera difícil tolerar muitos anos de trabalho para algo trivial. Em vista deste inconveniente, valorizam o que conquistaram. Isso também explica por que as empresas colocam dificuldades para contratar um empregado. Depois de passar por inúmeros transtornos, o futuro empregado se acha merecedor daquela ocupação.

Não nos iludamos. Nada de medo ou preconceito. Façamos como as crianças que não procuram se defender de nada. 

Fonte de Consulta

GLEITMAN, H., REISBERG, D. e GROSS, J. Psicologia. Tradução de Ronaldo Cataldo Costa. 7. ed., Porto Alegre: Artmed, 2009. 

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05 agosto 2015

Crise e Mudança Paradigmática


FotoCrise é separação, depuração como se faz com o ouro. É o momento do julgamento. Ela decide se uma coisa perdura ou não. No caso extremo da crise, que é escolher entre a vida e a morte, deparamo-nos com a questão hamletiana: ser ou não ser. Paradigma é "modelo a ser imitado", "abordagem padrão", "orientação teórica", "estilo de pensamento".

Crise tem conexão com o conflito, o paradigma e a mudança social entre outros. Observe o conflito. Quando uma crise surge em função do conflito, queremos eliminar o adversário, a pessoa que esteja causando barreiras ao nosso projeto. Conflito difere de competição. Na competição, queremos ultrapassar o adversário; no conflito, eliminá-lo. Uma imagem plástica: uma corrida ilustra a competição; a luta de boxe, o conflito.

Thomas Kuhn, em The Structure of Scientific Revolutions (1962), afirma que o paradigma é um conjunto de crenças científicas e metafísicas usado num determinado período de tempo. Uma crise pode quebrá-lo. Para ele, isso só será possível se o novo paradigma não tiver mais nada a ver com o antigo. Sustentou essa tese por longos anos, mas depois de sofrer críticas de diversos filósofos, que se queixaram de sua teoria - demasiada imprecisa - para realizar a tarefa para a qual ele a previu, voltou atrás. A mudança científica não ocorre por "revoluções", mas por detalhes.

Em se tratando da mudança social, a Revolução Industrial levou muitos teóricos à suposição de que a mudança é "boa". Há, porém, um grande número de outros pensadores que acham a mudança "má", pois a estabilidade é um valor que também se deve defender. Nesse caso, a crise pode ter como consequência a continuidade do status quo ou para a sua suplantação.

Presentemente nos deparamos com o determinismo tecnológico, ou seja, a tecnologia é a causa de todas as mudanças ocorridas na sociedade. Aqui, cabe uma indagação: não estamos repetindo - com a tecnologia - o mesmo erro cometido por Marx (a economia influencia tudo, inclusive a filosofia e a religião)? 




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A Psicologia Explica

FotoNOTAS EXTRAÍDAS DO LIVRO "SÓ FREUD EXPLICA", DE JOEL LEVY

Alucinação. Do grego aluô, significa "devanear" ou "falar sem razão". Uma alucinação é uma percepção que não é acompanhada de estímulos externos. 

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28 julho 2015

Pensamento Precede a Ação

Folheando alguns livros que tratam do poder do pensamento positivo, deparamo-nos com termos, tais como, o poder da mente cósmica, o poder do subconsciente, o universo do poder mental etc. Há muitos ensinamentos úteis que podemos extrair de uma simples leitura verticalizada. Vejamos.

O indivíduo só experimenta aquilo que pensa. Tem, no entanto, o direito de escolher, de pensar por si. Nesse caso, as pessoas que vivem no negativo, vivem-no porque assim escolheram viver. É um hábito como fumar, beber, drogar-se. Quando perguntamos ao outro o que devo fazer, estamos transferindo a responsabilidade daquela ação para um terceiro, que decide por nós. Se der errado, jogamos a culpa nele. 

As atitudes são contagiosas. Se expressarmos alegria, criatividade e jovialidade, os outros receberão essa influência de nós. Se estamos constantemente nos queixando, criticando e sendo maledicentes, é assim mesmo que os outros nos veem. Repórter pergunta à esposa de Winston Churchill se os dois concordavam em todos os assuntos. Ela responde: "meu senhor, se nós pensássemos exatamente do mesmo modo, um de nós seria desnecessário"

A fé nada mais é do que a confiança em alguém ou alguma coisa. A fé é um poder da mente, da mente cósmica. Jesus foi o responsável por efetuar milagres, mas foram os próprios indivíduos que fizeram os milagres acontecer. É um fato: as doenças curam-se mais frequentemente pelos pacientes do que pelos médicos. Quando a cura parece impossível, falamos que foi um milagre. 

Ofereçamos consolo e tranquilidade, mas nunca tenhamos pena dos outros. 



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22 julho 2015

Livros Estragam o Mundo?

Foto"Ideias têm consequências."

"Há livros que estragaram o mundo; livros sem os quais estaríamos melhor. Se as ideias têm consequências, as más ideias tem más consequências." (Benjamin Wiker)

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21 julho 2015

Poderes Psíquicos e Método Científico

Jean Alan Appleman, especialista em Direito Criminal, demonstra o cuidado profissional pelos fatos. Para ele, o ceticismo inteligente ajuda a pesquisa científica, pois a experiência de algo que não nos pode iludir, leva-nos à veracidade da coisa estudada.

Aplica, em seus estudos, o método utilizado como advogado criminalista: pesquisa da verdade e o exame de todas as informações sob todos os ângulos possíveis para descobrir-lhe os "pontos fracos", que são os subsídios para a sua defesa ou confirmação do crime.

Em seu livro, Poderes Psíquicos e Imortalidade, tenta desvendar o cérebro físico buscando informações dos especialistas em cirurgia cerebral, bem como as de clínicas especializadas no tratamento de pessoas portadoras de doenças cerebrais. Acha que, em qualquer área de pesquisas, é importante avaliar todas as informações razoavelmente acessíveis. O livro está recheado de notas sobre os assuntos tratados em cada capítulo.

Foram muitos anos de pesquisa e de cuidada leitura de livros de natureza médica, psicológica e especulativa. Fez muitas viagens e diversas entrevistas com médicos, psicólogos e antropólogos, além do estudo de pessoas comuns e de maníacas.

Eis um exemplo a ser seguido: não quis simplesmente expressar a sua opinião, mas construir o seu conhecimento sobre fatos e estudos científicos. 

Fonte de Consulta

APPLEMAN, John Alan. Poderes Psíquicos e Imortalidade. Tradução de M. P. Moreira Filho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975.



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06 julho 2015

Tyson e a Origem de Tudo

FotoNa revista Veja de 8 de julho de 2015, há a entrevista com o astrofísico americano Neil Degrasse Tyson, o mais ativo divulgador da ciência depois de Carl Sagan.

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27 maio 2015

Filosofia no Brasil

"Cada um com suas armas; a nossa é essa: esclarecer o pensamento e pôr ordem nas ideias." 
Antônio Cândido

Ricardo Timm de Souza, em seu livro O Brasil Filosófico, relata-nos a história e os diversos sentidos que a filosofia assumiu entre 1549 (chegada dos primeiros jesuítas) e 2002 (morte de Gerd Borheim e Lima Vaz).

A preocupação do autor é deixar alguns subsídios para os que virão depois. Ele diz: "Somos não somente herdeiros do século XX, mas temos também a responsabilidade de disponibilizá-lo às novas gerações".

No Brasil-Colônia, a filosofia não era entendida como discussões e debates de ideias (como se entende hoje), mas como transmissão dos modelos escolásticos feita pelos jesuítas, com fins explícitos e exclusivamente catequéticos. 

O século XIX e inícios do século XX constituiu-se de grandes transformações no Brasil, pois a vinda da Corte portuguesa determinou novas formas de compreensão das ideias. Mesmo assim, as dificuldades linguísticas emperraram o entendimento mais amplo das informações vindas da Europa. 

Ao longo do século XIX, o movimento que mais influenciou a filosofia no Brasil foi o Positivismo. Tanto isso é verdade que a bandeira nacional tem o lema de Augusto Comte: "Ordem e Progresso". 

O século XX caracteriza-se, não só no Brasil como em todo o mundo, como época de crise de fundamentos - crises enquanto radical ruptura com as estruturas filosóficas do passado. 

Fonte:

SOUZA, Ricardo Timm. O Brasil Filosófico. São Paulo: Perspectivas, 2003.





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Crise

FotoCrise. Do grego krisis, do mesmo étimo do verbo krino, separar, depurar, como se faz com o ouro. O primeiro sentido da etimologia corresponde à fase decisiva de uma doença. Mais especificamente, um momento de desequilíbrio sensível. O consenso entre os pesquisadores é que a crise leva à ruptura com o estado anterior. O novo rumo pode ser de melhora ou de piora.

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25 fevereiro 2015

Das Leis do Espírito

FotoLuc de Clapliers, marquês de Vauvenargues (1715-1747) no livro Das Leis do Espírito: Florilégio Filosófico, analisa vários aspectos da moralidade. A primeira parte é uma introdução ao conhecimento do espírito humano: do espírito em geral, das paixões e do bem e do mal moral. A segunda parte trata dos ensaios de moral e de filosofia: discurso sobre a glória, sobre os prazeres, sobre os costumes, sobre a liberdade etc. 

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Psicanálise e Símbolo

FotoA psicanálise, método psicoterápico criado por Sigmund Freud no fim do século XIX, tem por base a cura das desordens nervosas, originadas por impulsos reprimidos que estão no subconsciente. Para explorar o que está submerso e trazê-lo ao nível do consciente, usa primeiramente as técnicas de hipnose. Sendo esta pouco eficiente, pois muitos não se deixavam hipnotizar, substitui-a pela "sugestão", que é uma espécie de associação livre de ideais.

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23 fevereiro 2015

Consciência Cósmica

FotoA consciência é comum a todos os seres humanos saudáveis. Embora conhecida e manipulada, continua a ser um mistério para os cientistas, pois sua natureza ainda é inexplicada. Há uma gradação, podendo descer até a completa inconsciência. Exemplo: quando um indivíduo se concentra em algo, pode chegar à inconsciência do que ocorre ao seu redor.

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19 fevereiro 2015

Erudito: Fichte e Rousseau


FotoJohann Gottlieb Fichte (1762-1814) foi professor de filosofia na Alemanha que, em 1810, tornou-se reitor da Academia de Berlin. Fiche desenvolve uma filosofia que exalta a liberdade, cujos pressupostos iniciais encontram-se na filosofia de Kant. Para ele, a liberdade do eu opõe-se à resistência do não eu, que é o exterior e na qual o eu deve lutar para manifestar-se com liberdade. Para tal fim, só o consegue lutando tenazmente contra os obstáculos e as forças exteriores que tentam dilapidar a estrutura interior.

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) foi um filósofo francês que ficou famoso pelas obras "O Contrato Social" e "Emílio ou Da Educação". Em função de sua vida errante, elabora um pensamento que retrocede à vida natural. Simplifica o seu pensamento nos seguintes termos: "o homem é bom, e a sociedade o corrompe". Abomina a razão e flerta com o sentimento. Daí, os desvios do seu pensamento, pois o único critério que aplica se encontra em suas próprias convicções e certezas pessoais.

Fichte, na quinta preleção de "O Destino do Erudito", faz uma crítica ao pensamento de Rousseau, aludindo que este se concentrou apenas no sentimento, deixando a razão em segundo plano. É uma espécie de exemplo aos seus argumentos elaborados nas preleções anteriores, onde discutiu sobre a destinação do homem em si, a destinação do homem na sociedade, a diversidade das categorias na sociedade e a destinação do erudito, o mais apto a aproveitar os avanços da cultura.

Na sua opinião, Rousseau faz um trajeto inverso, ou seja, quer ir da cultura ao estado da natureza. Rousseau procede desta maneira porque confiou demasiadamente no sentimento. O sentimento é bom, mas deve ser domado pela razão. Rousseau esqueceu do princípio fundamental da cultura: dar e receber. Dar o que conseguimos amealhar em conhecimento; receber dos outros o que nos falta. Em o "Emílio ou Da Educação", relega a figura do professor a um segundo plano. Ela não precisa de um mestre para conduzi-la pelo trabalho, pelo esforço, pela disciplina.

Salientemos, aqui, a relação entre liberdade, perfeição e aperfeiçoamento. O fim do ser humano é buscar a potencialização de seu ser. O erudito tem um dever: retribuir ao próximo o que a cultura lhe forneceu. Não o consegue fazer sem a liberdade (em si e em relação aos outros) quando busca a perfeição que é inalcançável, mas pelo aperfeiçoamento que o eleva sempre acima. Este trabalho, segundo Fichte, não pode ser feito voltando ao estado natural. É preciso ir sempre para frente e enfrentar os problemas que o progresso nos reserva.

Partilhemos o que já sabemos; recebamos abertamente o que os outros têm a nos ensinar.

Fonte de Consulta

FICHTE, Johann Gottlieb. O Destino do Erudito. Tradução de Ricardo Barbosa. São Paulo: Hedra, 2014.

Estado natural. Em Filosofia, a fórmula que se opõe a estado civil designa a situação fictícia do homem antes do surgimento da sociedade, e é então utilizada como ferramenta crítica por certos filósofos (Hobbes, Locke, Rousseau), que se apresentam com censores da sociedade moderna.



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18 fevereiro 2015

O Destino do Erudito

5 PRELEÇÕES DE JOHANN GOTTLIEB FICHTE

FotoEnquanto as preleções privadas (parte teórica da doutrina da ciência) eram destinadas a estudantes matriculados, que pagavam por elas, as preleções públicas eram a todos os cidadãos interessados. 

PRIMEIRA PRELEÇÃO: SOBRE A DESTINAÇÃO DO HOMEM EM SI

Começa com as seguintes questões: Qual é a destinação do erudito? Qual é a sua relação com o conjunto da humanidade bem como com as suas categorias particulares? Através de quais meios ele pode alcançar de modo mais seguro sua sublime destinação? 

O erudito só é um erudito na medida em que é contraposto a outros homens que não são; seu conceito surge por comparação, por referência à sociedade. 

A resposta à pergunta: qual é a destinação do erudito?, pressupõe a resposta a uma outra, que é a seguinte: qual é a destinação do homem na sociedade? A resposta a esta pergunta pressupõe, por sua vez, a resposta a uma outra ainda mais elevada: qual é a destinação do homem em si? 

Em se tratando da destinação do homem em si, objeto de sua primeira preleção, pergunta: o que seria o propriamente espiritual no homem, o Eu puro 
— simplesmente em si — isolado — e fora de toda relação com algo exterior a ele? 

Como esta pergunta, segundo Fichte, é irrespondível, parte para algumas conjecturas

Tão certo quanto o homem ter razão é ser ele o seu próprio fim, ou seja, ele não existe porque outra coisa deve existir — e sim existe pura e simplesmente porque ele deve existir. Ele é porque é

Ele não diz apenas: Eu sou, mas ainda acrescenta: eu sou isto ou aquilo. 

Ele não é o que é primeiramente porque ele existe, e sim porque existe algo fora dele. O homem deve ser o que é, pura e simplesmente porque é, ou seja, tudo que ele é deve ser referido ao seu Eu puro, à sua simples egoidade (Ichgeit). 

O homem é o seu próprio fim; ele deve determinar-se a si mesmo e nunca se deixar determinar por algo estranho; ele deve ser o que é porque quer sê-lo e deve querê-lo. 

Submeter a si tudo o que é desprovido de razão, dominá-lo livremente e segundo a sua própria lei: este é o derradeiro e fim último do homem, o qual é inteiramente inalcançável e tem de permanecer eternamente inalcançável, se o homem não deve deixar de ser homem, e se não deve tornar-se Deus. 

A perfeição é meta suprema e inalcançável do homem; mas o aperfeiçoamento ao infinito é a sua destinação. Ele existe para tornar a si mesmo sempre eticamente melhor e para tornar tudo ao seu redor sensivelmente melhor, e se é considerado em sociedade, também eticamente melhor, e assim tornar a si mesmo cada vez mais feliz.

SEGUNDA PRELEÇÃO: SOBRE A DESTINAÇÃO DO HOMEM NA SOCIEDADE

É meu destino, a menos que eu queira ser superficial e tratar futilmente aquilo sobre o que creio saber algo mais fundamental — a menos que queira ocultar e passar em silêncio dificuldades que vejo muito bem — tocar em questões quase ainda intocadas. 

Chamo sociedade à relação dos seres racionais uns com os outros. 

A experiência ensina apenas que a representação de seres racionais fora de nós está contida em nossa consciência empírica; e sobre isso não há disputa e nenhum egoísta ainda o contestou. 

Vejam, meus senhores, como é importante não confundir a sociedade em geral com o tipo particular, empiricamente condicionado, de sociedade, que se chama Estado. 

O fim de todo governo é tornar supérfluo o governo. Agora não é o momento, mas é certo que no decurso do gênero humano traçado a priori se encontra um tal ponto em que todos os vínculos estatais serão supérfluos. É aquele ponto em que, ao invés da força ou da astúcia, a simples razão será reconhecida universalmente como o juiz supremo. 

A ação recíproca pela liberdade é o caráter positivo da sociedade.  

O impulso fundamental era o de encontrar seres racionais iguais a nós, ou homens.  

Nessa luta dos espíritos com os espíritos, vence sempre aquele que é o homem superior e melhor; assim, surge através da sociedade o aperfeiçoamento da espécie, e com isso também descobrimos, ao mesmo tempo, a destinação de toda a sociedade enquanto tal. 

A luz certamente vence ao final — é verdade que não se pode determinar em quanto tempo, mas já é um penhor de vitória, e da vitória próxima, se as trevas são obrigadas a travar uma luta pública. Elas amam a obscuridade; e quando forçadas a vir à luz, já perderam. 

Entre as habilidades que o homem deve aperfeiçoar encontra-se a sociabilidade

A destinação está subordinada à lei suprema da concordância conosco mesmos, ou à lei moral, e tem a seguir de ser determinada pela mesma e colocada sob uma regra sólida. 

O impulso nos leva a encontrar seres racionais livres fora de nós e a entrar em contato com eles. Querer dominá-los o impulso social entra em contradição consigo mesmo. Todo aquele que se considera um senhor dos outros é ele mesmo um escravo. 

A meta última e suprema da sociedade é a unidade e unanimidade plenas de todos os seus membros possíveis. 

Por isso, podemos igualmente dizer: nossa destinação na sociedade é o aperfeiçoamento comum, o aperfeiçoamento de si mesmo pela influência livremente utilizada dos outros sobre nós e o aperfeiçoamento dos outros pela reação sobre eles enquanto seres livres.

TERCEIRA PRELEÇÃO: SOBRE A DIVERSIDADE DAS CATEGORIAS DA SOCIEDADE

O erudito é um erudito apenas na medida em que é considerado na sociedade. Qual é, em particular, a destinação do erudito na sociedade? Mas o erudito não é meramente um membro da sociedade; ele é ao mesmo tempo um membro de uma categoria particular desta. 

Nossa investigação principal — sobre a destinação do erudito — pressupõe, portanto, além das duas já concluídas, ainda uma terceira, a investigação da importante questão: de onde provém em geral a diversidade das categorias entre os homens?, ou ainda, de onde surgiu a desigualdade entre os homens? 

O fundamento de todos os impulsos reside no nosso ser; mas também como nada mais que um fundamento. Todo impulso tem de ser despertado pela experiência, se deve chegar à consciência; e se deve ser desenvolvido por frequentes experiências da mesma espécie, se deve se transformar em inclinação — e sua satisfação em carecimento. Mas a experiência não depende de nós mesmos; portanto, também não o despertar e o desenvolvimento dos nossos impulsos em geral. 

A lei suprema da humanidade implica que todas as disposições dos indivíduos sejam desenvolvidas uniformemente, que todas as capacidades sejam cultivadas à máxima perfeição possível. 

O impulso social compreende dois outros impulsos: impulso para a comunicação, isto é, o impulso para cultivar alguém naqueles aspectos que fomos cultivados; impulso para receber, isto é, o impulso para se deixar cultivar pelo outro, naquilo que ele foi cultivado. 

O impulso social refere-se à liberdade; ele apenas impele, mas não força. Podemos resistir a ele ou reprimi-lo. 

Sob a direção do impulso social, deve-se comunicar o que se tem de bom àquele que dele carece — e receber o que nos falta daquele que o possui. 

Minha categoria é determinada pela aptidão particular a cujo desenvolvimento me dedico por livre escolha.

A lei diz: cultiva todas as tuas disposições integral e uniformemente, tanto quando puderes; mas ela nada determina se devo exercitá-la imediatamente. A lei não proíbe escolher uma categoria particular — mas também não o ordena, justamente porque não o proíbe. 

Nunca estejas em contradição contigo mesmo a propósito de tuas determinações da vontade. 

A escolha de uma categoria é uma escolha através da liberdade. Consequentemente, nenhum homem pode ser forçado a integrar uma categoria qualquer ou ser excluído de uma categoria qualquer. 

Uma categoria determinada foi escolhida, e com isso o cultivo ulterior de um talento determinado para poder restituir à sociedade o que ela fez por nós

Cada um tem o dever de não apenas querer ser útil em geral à sociedade, mas também de dirigir todos os seus esforços, o melhor que o saiba, para o fim último da sociedade, para enobrecer cada vez mais o gênero humano, isto é, torná-lo cada vez mais livre da coerção da natureza, cada vez mais independente e auto-ativo — e assim, através desta nova desigualdade, surge uma nova igualdade: um progresso uniforme da cultura em todos os indivíduos. 


QUARTA PRELEÇÃO: SOBRE A DESTINAÇÃO DO ERUDITO

Cada categoria é necessária. 

O simples conhecimento das disposições e carecimentos do homem, sem a ciência de os desenvolver e satisfazer, não seria apenas um conhecimento extremamente triste e deprimente; ele seria ao mesmo tempo um conhecimento vazio e inteiramente inútil. Aquele que mostra as minhas falhas sem ao mesmo tempo mostrar o meio pelo qual eu possa repará-las, age para comigo de modo muito pouco amistoso. 

Ninguém pode tornar-se perfeito e, menos ainda, ativo e vivo sem o outro. O conhecimento adquirido deve tornar-se útil à sociedade.  

O fim dos conhecimentos é cuidar, por meio deles, para que todas as disposições da humanidade se desenvolvam de modo uniforme, contínuo, mas progressivamente. Disto resulta a verdadeira destinação da categoria dos eruditos: a suprema inspeção do progresso efetivo do gênero humano em geral e a contínua promoção desse progresso

A humanidade pode dispensar tudo; pode-se tirar tudo dela sem ofender sua verdadeira dignidade, mas não a possibilidade do aperfeiçoamento. 

Ele tem o dever de cultivar em si, principalmente e no mais alto grau possível, os talentos sociais: a receptividade e a capacidade de comunicação

Quem é enganado é tratado como um simples meio. 

O fim último de cada homem singular, assim como o de toda a sociedade, e portanto também o de todos os trabalhos do erudito na sociedade, é o enobrecimento moral do homem inteiro. 

Não ensinamos apenas através de palavras; ensinamos também, de modo muito mais penetrante, através do nosso exemplo. 

Se o melhor entre os homens está corrompido, onde ainda se deve buscar o bem moral? Por isso, considerado sob esse último aspecto, o erudito deve ser o homem moralmente melhor de sua época: deve apresentar em si o nível mais alto de formação moral possível até ele. 

QUINTA PRELEÇÃO: EXAME DAS AFIRMAÇÕES DE ROUSSEAU SOBRE A INFLUÊNCIA DAS ARTES E DAS CIÊNCIAS SOBRE O BEM-ESTAR DA HUMANIDADE 

Para a descoberta da verdade, a contestação de erros opostos não é de grande proveito. 

Toda verdade pode ser deduzida apenas de uma única proposição fundamental. Cabe a uma sólida doutrina da ciência mostrar qual é essa proposição para cada problema determinado. 

Situei a destinação da humanidade no progresso constante da cultura e no desenvolvimento uniformemente contínuo de todas as suas disposições e carecimentos; e indiquei um lugar muito honroso na sociedade humana à categoria que deve velar pelo progresso e a uniformidade desse desenvolvimento. 

Ninguém contradisse essa verdade com tanta determinação, com as razões mais aparentes e com eloquência mais enérgica do que Rousseau. Para ele, o avanço da cultura é a única causa de toda corrupção humana. Segundo ele, não há salvação para os homens a não ser no estado de natureza; e — o que se segue de modo totalmente correto de suas proposições fundamentais — aquela categoria que mais promove o progresso da cultura, a categoria dos eruditos, é para ele não só a fonte como o ponto central de toda miséria e corrupção humanas. 

Para ele, retorno é progresso; para ele, aquele estado de natureza abandonado é a meta última a que a humanidade, hoje corrompida e deformada, finalmente tem de chegar. Ele trabalhava, à sua maneira, levar adiante a humanidade. Porém, suas ações estavam em contradição com as suas proposições fundamentais. 

O que Rousseau tem de verdadeiro funda-se imediatamente no seu sentimento; e o seu conhecimento tem por isso a falha de todo conhecimento fundado no mero sentimento não desenvolvido, que é de certa incerto, pois não se pode prestar contas integralmente sobre o seu sentimento; e de em parte mesclar o verdadeiro com o não verdadeiro, pois um juízo fundado sobre um sentimento não desenvolvido sempre estabelece como tendo o mesmo significado, o que, porém, não tem o mesmo significado. A saber, o sentimento nunca erra, mas a faculdade do juízo erra enquanto interpreta incorretamente o sentimento e toma um sentimento misto por um sentimento puro. 

Ora, cheio deste amargo sentimento, Rousseau não era capaz de ver outra coisa senão o objeto que o incitara. 

Poderíamos propor-lhe a questão: o que Rousseau propriamente buscava neste estado de natureza? — Ele mesmo se sentia oprimido e limitado por múltiplos carecimentos. Ele se achava em toda parte oprimido pelos outros, pois impedia a satisfação dos carecimentos deles. 

Assim, inadvertidamente, ele transpunha a si mesmo e a sociedade inteira ao estado natural junto com toda a formação que ela pôde receber apenas através da saída do estado de natureza.

Rousseau queria reintegrar o homem ao estado de natureza, não em vista da formação espiritual, e sim apenas em vista da independência dos carecimentos da sensibilidade. 

Rousseau esquece que a humanidade pode se aproximar e deve se aproximar desse estado apenas mediante cuidado, esforço e trabalho. 

O carecimento não é a fonte do vício; ele é incitação à atividade e à virtude. A preguiça é fonte de todos os vícios. Gozar sempre o mais possível, agir sempre o menos possível  esta é a tarefa da natureza corrompida. 

A dor, que está ligada ao sentimento de carecimento, deve nos estimular para a atividade.

Ele agiu quase sem sem ser autoconsciente de sua auto-atividade. Essa falta de esforço para a auto-atividade domina todo o seu sistema de ideias. 


OBSERVAÇÃO: CÓPIA DE TRECHOS DO LIVRO
FICHTE, Johann Gottlieb. O Destino do Erudito. Tradução de Ricardo Barbosa. São Paulo: Hedra, 2014.


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