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20 fevereiro 2024

Feuerbach, Ludwig

Ludwig Andreas Feuerbach (1804-1872), desde a juventude, teve sua vida marcada pelas questões religiosas. Quarto filho do célebre jurista Paul Anselm Feuerbach, ele nasceu na cidade bávara de Landshut, em 1804, onde cresceu em um ambiente da alta burguesia e cedo desenvolveu interesses intelectuais. Sua vida melhorou, em 1837, depois que se casou com Berha Löw, filha de um rico industrial.

Hegel afirmava que a filosofia e a teologia tratam do mesmo tema: a realidade representa uma ordenação regular, permeada pela razão, descrita metaforicamente na religião cristã revelada e totalmente acessível a um conhecimento racional. Feuerbach teve conhecimento dessa filosofia. Além disso, Daub, em sintonia com a tese hegeliana, ensinava que todos os milagres bíblicos e os dogmas eclesiásticos podiam ser racionalmente justificados. Tudo isso o desencorajou da aspiração profissional de se tornar pastor.

Com sua obra A essência do cristianismo, Ludwig Feuerbach explica porque a religião é humana e Deus não é o criador dos homens, mas, em vez disso, os homens são seus criadores. No último capítulo de seu livro escreve: “Demonstramos que o conteúdo e o objeto da religião são totalmente humanos, que o mistério da teologia é a antropologia e o do ser divino, o ser humano”.

Em A essência do cristianismo, demonstra o seu propósito terapêutico de libertar os homens das projeções do além e das ilusões, bem como de fixar a religião naquele que, segundo sua opinião, é o seu lugar: o coração e o ânimo do homem. Foi a partir do estudo de Hegel que Feuerbach desenvolveu a rejeição à existência do além e a convicção de que Deus e o mundo formam uma unidade.

Em se tratando da imortalidade, dizia que esta poderia existir apenas para o espírito humano como um todo, portanto, para o gênero, mas não para o indivíduo.

Para Feuerbach, toda a religião é uma antropologia invertida. Segundo ele, as qualificações de Deus nada mais são do que as ideias tipicamente humanas. Deus é onisciência, porque conhecer e saber são valores imensamente apreciados pelo gênero humano; é amor, porque todos nós amamos e gostaríamos de amar mais; é justiça, porque essa é a virtude de que mais sentimos falta.

Fonte de Consulta

ZIMMER, Robert. O Portal da filosofia: Uma Breve Leitura de Obras Fundamentais da Filosofia Volume 2. Tradução Rita de Cassia Machado e Karina Jannini. São Paulo: Martins Fontes, 2014.



21 junho 2017

Cruzadas

As Cruzadas (em número de oito) foram expedições militares (1096 a 1271), empreendidas por cristãos da Europa Ocidental, com o objetivo de libertar o Santo Sepulcro, onde Jesus teria sido sepultado, do domínio muçulmano. Extensivamente, diz respeito aos movimentos de sentido idealista, visando à elevação espiritual dos membros de uma comunidade ou à solução de problemas sociais graves, como o do pauperismo e o da educação.

O termo "cruzada" não aparece antes do século XIII e seu correspondente árabe (hurub assalibiyya = a guerra pela cruz) data de 1850. Diante dos orientais, é uma guerra como tantas outras. Como os peregrinos se consideravam "soldados de Cristo" e "marcados pelo sinal da cruz" (crucessignati, em italiano), foi desta última expressão que se formou, por volta da metade do século XIII. (Morrison, 2009, p. 7)

As Cruzadas tiveram dois tipos de causas: a) causa afastada, que se refere às constantes peregrinações individuais a Jerusalém; b) causa próxima ou um pretexto, levar socorro aos cristãos orientais que estavam sendo oprimidos pelos turcos, segundo se acreditava.

As Cruzadas, ao adquirirem características de uma expedição militar, precisava de justificativas jurídicas para o financiamento de tal empreendimento. Nesse caso, pelo "privilégio da cruz", a Igreja concedia indulgência aos cavaleiros que participassem do projeto. Concedia, também, indulgência aos que contribuíssem com legados e doações. Para completar seu financiamento, a Igreja estabeleceu o pagamento do dízimo, isto é, a décima parte dos benefícios ou das colheitas.

Desde a Primeira Cruzada, algumas pessoas consideravam loucos todos os que nelas partiam. No século XIII, após o aparecimento das "cruzadas desviadas" contra os heréticos, carismáticos e inimigos políticos do papado, as críticas de todo o tipo se multiplicavam. Inclusive com relação aos impostos cobrados para o financiamento de todas as cruzadas.

O Espírito Emmanuel, em A Caminho da Luz, diz que as Cruzadas, não obstante o seu caráter anticristão, sob a égide dos mensageiros de Jesus, este movimento propiciou alguns benefícios de ordem econômica e social para todos os povos. Na Europa, enfraqueceu a tirana dos senhores feudais. Intensificou, também, as relações entre Oriente e Ocidente. O contato com um civilização superior à dos ocidentais propiciou o estudo de suas ciências, da sua agricultura e da sua arte, incorporando várias dessas práticas à indústria ocidental.

Embora tenha sido um fracasso do ponto de vista político, permaneceu o ideal específico das cruzadas, ou seja, uma guerra "justa", limitada à libertação do Santo Sepulcro, pelo "Caminho da Cruz".

Fonte de Consulta

EDIPE - ENCICLOPÉDIA DIDÁTICA DE INFORMAÇÃO E PESQUISA EDUCACIONAL. 3. ed. São Paulo: Iracema, 1987.

MORRISSON, Cécile. Cruzadas. Tradução de William Lagos. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009 (L&PM Pocket Encyclopaedia).

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Cruzada é a denominação dada às expedições militares, empreendidas do século 11 ao 13 pelos cristãos do Ocidente, que levavam como insígnia a cruz, com a finalidade de libertar o Santo Sepulcro. O termo cruzada é recente (meados do século 13) e seu correspondente árabe hurub assalibiyya, a guerra pela cruz, data de 1850.

Para os orientais, as cruzadas permaneceram por muito tempo como uma guerra qualquer como tantas outras iniciadas pelos francos, nome pelo qual eram referidos todos os europeus ocidentais. Os francos, por sua vez, eram os peregrinos, que se consideravam como “soldados de Cristo” e “marcados pelo sinal da cruz”. Foi a partir desta última expressão que, no século 13, formou-se o termo “cruzada”.

Em se tratando das origens das cruzadas, podemos arrolar dois tipos de causas: 1) causas afastadas; 2) causa próxima. As causas afastadas compreendem as constantes peregrinações individuais a Jerusalém e a doutrina e a prática da “justiça” das guerras contra os sarracenos; a causa próxima ou um pretexto, amparada pela profunda ignorância do Oriente, de levar socorro aos cristãos orientais que estavam sendo oprimidos pelos turcos, segundo se acreditava.

Nem todas as cruzadas tinham um cunho militar: ao lado das grandes expedições, havia as dos peregrinos, que realizavam isoladamente ou em pequenos grupos os seus votos de cruzados. Observa-se que a realidade das cruzadas é multiforme, tendo-se, por consequência, grande dificuldade de discernir a sua estrutura. Cécile Morrisson, no livro Cruzadas, explica-nos em detalhes o modus operandi: pregação, organização, financiamento, aquisição de provisões e equipamentos, o transporte das tropas e do dinheiro etc. (1)

O número de cruzadas é arbitrário: durante os séculos XII e XIII houve muito mais "passagens" ou "peregrinações" do que as numerações habituais. Eis algumas delas:

PRIMEIRA CRUZADA (1096–1099) não tinha participação de nenhum rei. Formada por cavaleiros da nobreza, em julho de 1099, tomaram Jerusalém.

SEGUNDA CRUZADA (1147–1149) fracassou em razão das discordâncias entre seus líderes Luís VII, da França, e Conrado III, do Sacro Império. Em 1189, Jerusalém foi retomada pelo sultão muçulmano Saladino.

TERCEIRA CRUZADA (1189 – 1192), conhecida como “Cruzada dos Reis”, contou com a participação do rei inglês Ricardo Coração de Leão, do rei francês Filipe Augusto e do rei Frederico Barbarruiva, do Sacro Império. Nessa cruzada foi firmado um acordo de paz entre Ricardo e Saladino, autorizando os cristãos a fazerem peregrinações a Jerusalém.

QUARTA CRUZADA (1202–1204) foi financiada pelos venezianos, interessados nas relações comerciais.

QUINTA CRUZADA (1217–1221), liderada por João de Brienne, fracassou ao ficar isolada pelas enchentes do Rio Nilo, no Egito.

SEXTA CRUZADA (1228–1229) ficou marcada por ter retomado Jerusalém, Belém e Nazaré, cidades invadidas pelos turcos.

SÉTIMA CRUZADA (1248–1250) foi comandada pelo rei francês Luís IX e pretendia, novamente, tomar Jerusalém, mais uma vez retomada pelos turcos.

OITAVA CRUZADA (1270) e última cruzada foi um fracasso total. Os cristãos não criaram raízes entre a população local e sucumbiram. (2)

(1) MORRISSON, Cécile. Cruzadas. Tradução de William Lagos. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009 (L&PM Pocket; v. 764)

(2) http://www.brasilescola.com/historiag/cruzadas.htm, em 22/12/2012





15 dezembro 2015

Crenças Primitivas

Os povos antigos acreditavam que tudo tinha uma alma: animais, plantas, objetos e forças naturais. Procuravam explicar o mundo fazendo associações entre divindades e fenômenos naturais: o nascer do sol representava a libertação da escuridão da noite; a deusa-mãe deu à luz o mundo.

A crença desses povos pode ser entendida através de alguns detalhes: nossos ancestrais nos guiarão; a maioria cultuava os mortos; todo mundo tem uma alma; devemos ser bons vivendo em harmonia; tudo está conectado, ou seja, há um vínculo permanente com os deuses; sistema de moralidade baseada no apelo a ideias de bondade.

A crença dos povos primitivos baseava-se num plano de realidade separado do mundo físico, um lugar de deuses e figuras míticas. Em algumas religiões, o xamã ou curandeiro é considerado o intermediário entre os espíritos e os homens. Os ritos de passagem, como por exemplo, os associados à mudança das estações, tinham grande peso em suas manifestações religiosas. Ainda: o simbolismo - máscaras, talismãs e amuletos - desempenhou papel importante em muitas regiões.

Exemplifiquemos este assunto com dois esquemas:

1) Animismo nas sociedades primitivas 

Tudo no mundo tem uma alma. ==> Mesmos os seres humanos são apenas recipientes para a alma. ==> As almas são imortais. ==> As almas mais importantes são os deuses. ==> Cerimônias, músicas e oferendas dão aos deuses status no outro mundo. ==> Se tratarmos bem os deuses, eles nos darão comida.

2) O Poder do xamã

Em mundos invisíveis, seres sobrenaturais controlam o suprimento de animais de caça e o clima. ==> Esses outros mundos são cheios de espíritos também, uma vez que a alma dos seres humanos e dos animais é imortal. ==> Alguns indivíduos especiais são capazes de visitar os mundos onde esses espíritos vivem. ==> Esses indivíduos solicitam a ajuda dos espíritos, pedindo animais de caça, bom tempo ou cura para quem está doente.

O xamanismo é a crença em espíritos que podem ser influenciados por xamãs. Acredita-se que esses xamãs, homens ou mulheres, são "indivíduos especiais", com grande poder e conhecimento. Após entrarem em estado alterado de consciência, eles são capazes de visitar outros mundos e interagir com os espíritos que vivem lá.

Fonte de Consulta

O Livro das Religiões. Tradução de Bruno Alexander. São Paulo: Globo Livros, 2014.


 

26 novembro 2015

Budismo

— Você é um ser celestial ou um deus?

— Não; não sou um ser celestial nem um deus.

— Bem, então, será que você é algum tipo de mágico ou mago?

— Não sou nem mágico nem mago.

— Você é um homem?

— Também não sou um homem.

— Bem, meu amigo, então, afinal, quem você é?

— Eu sou um Desperto.

Sidarta Gautama, o Buda, indagado na estrada após sua iluminação

O budismo, fundado por Siddhartha Gautama, o Buda (aquele que despertou), é considerado por muitas pessoas mais como filosofia do que como religião. O motivo: Buda buscava a iluminação e não a revelação. Na época, a Índia era dominada pelas religiões bramânicas e, por essa razão, acreditava-se que a alma estava presa ao ciclo eterno da morte e do renascimento. Para quebrar este ciclo, em vez de se valer de rituais e escrituras, Buda opta pela meditação e reflexão.

Para escapar do ciclo das reencarnações, em que o pano de fundo é o sofrimento, principalmente devido ao apego à matéria, Buda estabeleceu as ""Quatro Nobres Verdades": dukkha (a verdade do sofrimento), samudaya (a verdade da origem do sofrimento), nirodha (a verdade do fim do sofrimento) e magga (a verdade do caminho para o fim do sofrimento). Esta última verdade diz respeito ao "caminho do meio".

Depois de elaborado por Buda, o budismo espalha-se rapidamente na Índia, chegando até a China. Em consequência, surgem diversas tradições, onde as duas principais são: theravada e manayana. Mais tarde, ocorreram ramificações opostas, como o zen-budismo que preconiza a prática de silenciar a mente para alcançar a iluminação espontânea, e as diversas formas do budismo tibetano, caracterizado por templos coloridos, muitas imagens e rituais.

"O caminho do meio" é o fundamento do budismo. É uma espécie de meio-termo entre dois extremos: vida de luxo e vida de austeridade. Propõe "uma dose moderada de disciplina em busca de uma vida ética, sem cair na tentação dos prazeres físicos ou na auto mortificação". Este caminho refere-se, também, a dois outros extremos: o eternalismo (crença de que a alma tem um propósito e vive para sempre) e o niilismo (extremo ceticismo em que se nega o valor e o sentido de tudo).

Esquema para se chegar ao caminho do meio. Por mais conforto material que tenhamos na vida, não estamos imunes à dor e ao sofrimento. ==> A total negação do conforto material e uma vida de ascetismo também não nos protegem do sofrimento. ==> Cada pessoa precisa encontrar equilíbrio e disciplina, de acordo com as circunstâncias individuais. ==> Precisamos encontrar o caminho do meio. 

Fonte de Consulta 

O LIVRO DAS RELIGIÕES. Tradução Bruno Alexander. São Paulo: Globo Livros, 2014. 




23 novembro 2015

O Zen-Budismo e o Koan

"Se você entender a primeira palavra do zen, saberá a última. A última e a primeira: não são uma única palavra." (Mumon)

O Zen constitui-se de duas técnicas principais: a primeira deriva da escola Soto e faz uso da meditação zazen; a segunda, da escola Rinzai e emprega koans, ou diálogos paradoxos compostos de perguntas e respostas. Os koans podem levar a uma iluminação repentina e intuitiva, que ocorre quando a lacuna entre o racional e o irracional é transcendido e o "Buda interior" descoberto.

Vejamos uma sequência de pensamentos. O uso de palavras — seja em rezas ou em conversas — cria confusão mental. ==>  Quando pensamos e lemos em silêncio, mais "palavras" são criadas em nossa cabeça. ==> No momento em que queremos encontrar respostas, nosso desejo turva a mente. ==> Se quisermos descobrir nossa natureza Buda, precisamos esvaziar nossa mente de todas essas coisas. ==> Com a mente vazia, teremos insights e entendimentos além das palavras. 

Em se tratando do zen rinzai, uma característica fundamental, introduzida por Hakuin, é a utilização de koans - perguntas irrespondíveis que desestruturam o pensamento convencional. Um dos koans mais conhecido é: "Qual o som de uma única mão batendo palma?" Os mestres do zen-budismo instruem-nos a não saber a resposta de um koan. E, se soubermos, devemos pensar de novo e abrir mão de todas as ideias preconcebidas.

Na meditação zen, o que vemos não pode ser descrito. O objetivo do zen é esvaziar o conteúdo da mente, que não faz parte dela. O zen não é um estudo, mas um exercício. Num mundo onde as pessoas desejam adquirir coisas, ter conhecimento e insight como bens pessoais, o zen é a frustração máxima. Zen é desapego. Conta-se que quando pediram a Bodhidharma para sintetizar a ideia do budismo, ele respondeu: "Um amplo vazio. Um nada sagrado". 

Exemplo de um koan reunindo vento, bandeira e mente.

Dois monges discutiam a respeito da bandeira do templo, que tremulava ao vento. Um deles disse

— A bandeira que se move.

O outro disse:

— É o vento que se move.

Trocaram ideias e não conseguiam chegar a um acordo. Então Hui-neng, o sexto patriarca, disse:

— Não é a bandeira que se move. Não é o vento que se move. É a mente dos senhores que se move.

Os dois monges ficaram perplexos.

Fonte de Consulta 

Livro das Religiões da Editora Globo 

PELLEGRINI, Luis. Dicionário do Inexplicado. São Paulo: Edições Planeta.

 




06 outubro 2015

Martinho Lutero e as 95 Teses (Reforma Protestante)

Martinho Lutero (1483-1546) é considerado o pai da Reforma Protestante. Tudo começou em 31/10/1517, quando da afixação das 95 teses contra as indulgências (pagamento para obter o perdão dos pecados). Estende-se até 1520, quando queima a bula papal Exsurge Domine, que o condenava à excomunhão, caso não se retratasse.

A Reforma Protestante teve os seus precursores: Agostinho de Hipona (354-430) — escritor prolífico — distingue a cidade de Deus e a cidade do homem; Francesco Petrarca (1304-1374) — devoto cristão — não via conflitos entre a realização do potencial humano e a fé religiosa; Jan Hus (1369-1415) — pensador e reformador religioso — queimado vivo pela propagação das teses antidogmáticas; Girolamo Savonarola (1452-1498) — monge italiano — queimado em praça pública porque atacou a corrupção da Igreja; Erasmo de Roterdã (1466-1536) — escritor holandês — cujas ideias humanistas e progressistas foram fundamentais para os reformadores. 

Martinho Lutero nasceu numa família camponesa. Por pressão familiar, inclinou-se aos estudos jurídicos; depois, aos 22 anos, ingressou na vida monástica, passando por diversas crises a respeito da salvação e qual seria o melhor caminho para amar a Deus. Em 1515, começou a ministrar cursos sobre as epístolas de Paulo, especificamente Romanos, que lhe ensejou profundas reflexões de que a salvação humana não era decorrente das obras, mas sim fruto da suprema piedade de Deus. 

Do ato corriqueiro ao processo de excomunhão. Martinho Lutero era professor. Em 31 de outubro de 1517, ele afixa as "95 Teses" na porta da Igreja do castelo de Wittenberg. Este ato, a princípio, era corriqueiro, ou seja, anunciar uma "disputa" ou "justa teológica" entre os doutos de Wittenberg. Servia para que todos os professores e alunos tomassem consciência do que seria debatido e, se por acaso, não pudessem estar presentes, poderiam enviar material por escrito para ser lido. A Igreja, com o seus espiões, interpretou como rebelião ao status quo do catolicismo. 

Eis as etapas do processo até a ruptura:

  • Em junho de 1518 foi aberto o processo contra Lutero, com base na publicação das suas 95 teses, alegando que ele incorria em heresia. 
  • Em agosto de 1518, o processo foi alterado para heresia notória.
  • Entre 12 e 14 de outubro de 1518, o cardeal Caetano pediu-lhe que revogasse a sua doutrina. Lutero recusou-se a fazê-lo.
  • Em junho de 1520 reapareceu a ameaça no escrito Exsurge Domini.
  • Em janeiro de 1521, a bula Decet Romanum Pontificem excomungou Lutero. Seguiu-se, então, a ameaça oficial do Imperador (Reichsacht).
  • Nos dias 17 e 18 de abril de 1521, Lutero foi ouvido na Dieta de Worms (conferência governativa) e, após ter negado a revogação da sua doutrina, foi publicado o Édito de Worms, banindo Lutero. 

Fonte de Consulta

MENESES, Maurício Melo. Cristianismo Reformado - Uma História Contada por Meio da Filatelia. São Paulo: Mackenzie, 2012.

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Resumo das 95 Teses (1517)

As 95 Teses são um documento escrito por Martinho Lutero que questionava práticas da Igreja Católica, especialmente a venda de indulgências. Foram afixadas na porta da igreja do castelo de Wittenberg, na Alemanha, e marcaram o início da Reforma Protestante.

PONTOS PRINCIPAIS:

Crítica à venda de indulgências — Lutero condena a ideia de que o perdão divino possa ser comprado.

Arrependimento verdadeiro — O perdão dos pecados vem do arrependimento sincero, não de pagamentos.

Autoridade da Bíblia — A Palavra de Deus tem mais autoridade que o papa ou a tradição da Igreja.

Limites do papa — O papa não tem poder sobre o purgatório e não pode perdoar pecados por dinheiro.

Engano dos fiéis — Fiéis estão sendo iludidos a crer que podem garantir a salvação por meio de indulgências.

Tesouro da Igreja — O verdadeiro tesouro da Igreja é o Evangelho de Cristo, não as riquezas.

Chamado ao debate — Lutero propõe um debate teológico sobre esses abusos.

Em resumo:

As 95 Teses são uma denúncia contra os abusos da Igreja Católica e uma defesa do arrependimento, da fé e da Bíblia como os verdadeiros caminhos para a salvação. Elas deram início a um grande movimento de reforma religiosa na Europa.

As 4 das teses mais relevantes das 95 Teses de Martinho Lutero, com um breve comentário sobre cada uma:

Tese 1

"Quando nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo disse: 'Arrependei-vos', Ele quis que toda a vida dos fiéis fosse um arrependimento."

Comentário: Lutero abre as teses afirmando que o arrependimento verdadeiro é uma mudança contínua de vida, não algo que pode ser resolvido com um simples pagamento ou ritual.

Tese 21

"Portanto, os pregadores de indulgências estão errados quando dizem que, pela indulgência do papa, o homem é libertado de toda pena e salvo."

Comentário: Aqui, ele contesta diretamente os pregadores que prometiam salvação por meio das indulgências — um ponto central da sua crítica.

Tese 27

"Pregam doutrinas humanas aqueles que dizem que, assim que a moeda tilinta no cofre, a alma salta do purgatório."

Comentário: Lutero critica o famoso slogan usado pelos vendedores de indulgências, mostrando o absurdo da ideia de comprar o perdão com dinheiro.

Tese 62

"O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus."

Comentário: Ele afirma que o bem mais valioso da Igreja não são as indulgências nem as relíquias, mas a mensagem do Evangelho.

Fonte: ChatGPT

 


24 abril 2013

Bíblia e Filosofia

Bíblia vem do grego e significa “os livros”. Para os cristãos, a Bíblia é um livro inspirado por Deus para a santificação dos leitores. Seu objetivo é salvar o ser humano, não apenas um, mas toda a humanidade. Filosofia vem do grego e significa "amor à sabedoria". Na prática, é a busca do conhecimento por intermédio das luzes da razão. A Bíblia não é filosofia, pois não cogita da racionalidade. Em seus relatos literários, podemos encontrar argumentos que se ligam a algum tipo de filosofia. Exemplo: o livro da sabedoria e as cartas paulinas.

Como dar status filosófico a algo que permanece no particular? A filosofia está orientada para o universal, o testemunho bíblico situa-se no terreno do particular. Em filosofia, o universal é um princípio teleológico, que se traduz pelo desejo de pensar e de se comunicar. O testemunho bíblico narra um acontecimento, uma experiência individual. Lembremo-nos de que a revelação não é algo ilógico ou irracional: situa-se em outro nível de conhecimento, aquele obtido pela inspiração.

A inspiração bíblica está centrada na singularidade de uma história, mas voltada para o universal. Nesse sentido, a Bíblia é um precioso testemunho, um presente dado ao pensamento. A filosofia reconheceu que o literário, o simbólico ou o místico não eram sinônimos de irracional, de falacioso ou de primitivo: a racionalidade aí se expressa de outro modo. Observe a pensamento de Averrois (1126-1198), filósofo árabe: aceitamos que o Alcorão é verdadeiro. Mas, algumas partes dele são demonstravelmente equívocas. Daí, o texto é uma verdade poética e deve ser interpretado pelo raciocínio filosófico. Conclusão: Filosofia e Religião não são incompatíveis.

Comparemos Sócrates (filósofo grego) e Jesus (Filho de Deus):

a) “consciência de si”. Sócrates, aquele que sabe que nada sabe, acha que a verdade do “conhece-te a ti mesmo” dever ser buscada no fundo de si. Jesus, consciente de ser o Filho do Pai, orienta o interlocutor para relação filial com o Pai.

b) virtude e felicidade. Os dois interrogam a ordem moral da sociedade. Sócrates situa a felicidade ao termo de um esforço de aperfeiçoamento moral e do domínio de si, que associam a realização da virtude ao conhecimento do bem. Jesus, ao anunciar as bem-aventuranças, dá a moral, que não é uma condição, mas consequência do estar com Jesus.

c) divino. O daimon socrático é um sinal divino submetido à interpretação de sua razão, exortando-o a seguir as suas injunções. O divino com o qual Jesus se revela em estreita relação é propriamente o Pai.

d) amizade. Para Sócrates, essa amizade é fruto do amor de si – philautia – e busca recíproca do bem segundo as regras da justiça. Jesus, ao assumir o “amarás o teu próximo com a ti mesmo” propõe um dom total de si.

Fonte de Consulta

MIES, Françoise (org.). Bíblia e Filosofia: As Luzes da Razão. Tradução de Paula Sílvia Rodrigues Coelho da Silva. São Paulo: Loyola, 2012.



08 fevereiro 2012

Beleza e Religião

A beleza é uma das propriedades fundamentais de todo ser, através da qual se manifestam os sentimentos estéticos no ser humano. A beleza pode dar-se na natureza, que nos exalta os sentimentos; no ser humano, carregada ainda de sentimentos eróticos; nas obras artísticas, em que o ser humano pode projetar mundos maravilhosos.  

De um modo geral, a Bíblia trata sumariamente da beleza, em vista de esta estar no campo do imediato, enquanto a religião busca a transcendência. Embora a Bíblia não tenha se aprofundado na beleza, encontramos diversas passagens que tratam do assunto. Um exemplo: Sara e Rebeca são apresentadas como mulheres de beleza excepcional que cativam os homens onde quer que fossem.

Para a religião, o “demônio da beleza” enfeitiça o ser humano. Pensadores religiosos acham que a beleza feminina é tentação para desviar o homem de sua missão. Exemplos: Sansão é seduzido e traído pela esposa; Betsabeia arrasta David para o adultério e o crime; apesar de sua sabedoria, Salomão incorreu na idolatria, cativado pela beleza de mulheres estrangeiras.

O Novo Testamento, dando muita atenção à conversão interior, deixa pouco espaço para a beleza exterior das coisas. A beleza da alma é preferível à beleza de penteados, vestidos custosos e adornos. A preocupação básica do cristianismo, não resta dúvida, foi a de impedir que um culto sensível à beleza corporal viesse desvirtuar a beleza interior do espírito.

Por esta razão, os grandes pensadores cristãos procuravam, em seus escritos, enaltecer sempre a beleza integral, verdadeiro reflexo da beleza divina.

Fonte de Consulta

IDÍGORAS, J. L. Vocabulário Teológico para a América Latina. São Paulo: Paulinas, 1983.

16 junho 2010

O Uno, o Múltiplo e as Religiões

Ao longo do tempo, os filósofos e os diversos pensadores da humanidade têm feito reiterados esforços para conciliar o uno com o múltiplo. Nesse sentido, pregam que uma abordagem racional da vida exige que o ser humano preste atenção no pluralismo baseado no princípio da contradição. O problema surge quando o Deus de uma religião resiste à aceitação do Deus de outra religião. Quantas não foram as guerras de fundo religioso?

Contrapondo-se às guerras, há os esforços para paz. A segunda Assembleia Mundial de Religiões, realizada em Chicago em 1993, declarou que não pode haver paz entre as nações se não houver paz entre as religiões. Em 24 de janeiro de 2002, ao terminar o Dia de Oração pela Paz no Mundo, os chefes religiosos presentes em Assis, a convite de João Paulo II, proclamaram um compromisso, denominado “Decálogo de Assis para a Paz”, em que se refuta a violência e se enfatiza a concórdia.

O pluralismo religioso é um fato. Não o podemos negar. Observe as religiões mundiais: todas elas são moderadamente fundamentalistas, pois cada uma delas se acha na posse da verdade. Somente por ela, o indivíduo terá condições de se salvar, de ir para o céu. Imaginemos um cristão: quer tenha consciência ou não, o adepto de outra religião também poderá ser salvo, mas somente por meio de Cristo ou através de uma ligação com a Igreja de Cristo.

Michael Amaladoss, em seu livro Promover Harmonia, reporta-se a três exemplos de conflitos das religiões: 1) lenço de cabeça islâmico nas escolas francesas; 2) crucifixo numa sala de aula da Baviera; 3) Uma islamita divorciada abandonada na índia. Todos esses casos geraram discussões sobre os limites da fé religiosa, obrigando o Estado a arbitrar sobre o que é uma questão laica e uma questão religiosa.

O apego à própria religião deve ser combatido. Cada um de nós deveria olhar além do próprio umbigo. O cristão poderia raciocinar da seguinte forma: quantos são os cristãos no mundo? Pelas estatísticas, aproximadamente 2,5 bilhões de pessoas. Se somente Cristo salva, o que acontecerá com os outros 4 bilhões? Irão para o fogo do inferno? Não é uma incoerência?

Somente Deus é absoluto. A revelação divina pode nos ajudar a encontrar Deus, mas não é garantia para a verdade absoluta, pois a verdade não é monopólio de ninguém, mas patrimônio comum das inteligências.

Fonte de Consulta

AMALADOSS, Michael S. J. Promover Harmonia: Vivendo num Mundo Pluralista. Tradução de Nélio Schneider. Rio Grande do Sul, Unisinos, 2006.

21 novembro 2008

Giordano Bruno e a Heresia

Giordano Bruno (1548-1600), filósofo, astrônomo e matemático italiano, ao contrário do que se pensa, não foi queimado na fogueira por defender o heliocentrismo de Copérnico. A cosmologia, segundo a qual o universo seria infinito, povoado por milhares de sistemas solares, e interligado por outros planetas e contendo vida inteligente, foi a heresia apontada pela Inquisição. Bebendo da fonte de Nicolau de Cusa, prenunciou o avanço da ciência com suas teorias do universo infinito e da multiplicidade dos mundos. Rejeitou a astronomia geocêntrica tradicional e foi além da teoria heliocêntrica de Copérnico, que ainda admitia a existência de um universo finito.

A Idade Média, regida pela influência religiosa sobre a filosofia, produziu, sob o tribunal da Inquisição, muitas vítimas da heresia. Além de Giordano Bruno, um dos casos mais conhecidos foi do astrônomo italiano Galileu Galilei, que escapou por pouco da fogueira por afirmar que o planeta Terra girava ao redor do Sol (heliocentrismo). Muitos cientistas também foram perseguidos, censurados e até condenados por defenderem ideias contrárias à doutrina cristã. As mulheres também sofreram nesta época e foram alvos constantes. Os inquisidores consideravam bruxaria todas as práticas que envolviam a cura através de chás ou remédios feitos de ervas ou outras substâncias. As "bruxas medievais" que nada mais eram do que conhecedoras do poder de cura das plantas também receberam um tratamento violento e cruel.

A filosofia clandestina da Idade Média realça que a Igreja legitimava o Estado e este a Igreja. Faltava à sociedade um espírito crítico, capaz de elaborar pensamentos próprios, com liberdade de expressão. Diziam esses filósofos que, quando nos faltam esses elementos, o progresso fica mais difícil e de duração mais longa. Foi somente depois que a ciência se tornou teórico-experimental que pudemos avançar nas descobertas. Da luneta de Galileu atingimos o telescópio de Hubble.

A heresia atribuída a Giordano Bruno chama-nos a atenção para um ponto fundamental: razão e experiência devem andar de mãos dadas. Até então, a razão tinha prevalecido sobre a experiência. A lei de dilatação dos corpos - no caso o metal - ilustra bem este raciocínio. De acordo com esta lei, conforme a temperatura aumenta, o metal deve se dilatar. Se não testarmos essa teoria, podemos chegar à conclusão que o metal sempre se dilatará. Submetido à experiência, verificamos que a partir de um certo grau de temperatura, o metal não se dilata, mas funde-se.

A Igreja, na Idade Média, adotou a teoria de Aristóteles. Aristóteles, por sua vez, desenvolveu racionalmente as suas ideias. Não havia necessidade de experimentar as suas teorias, além do que não tinha os recursos que possuímos hoje, como é o caso dos programas de computador. Aristóteles fundamentou toda a física sobre a lógica e sobre o cálculo racional e nunca sobre a experiência.

Uma reflexão sobre a história sempre nos traz subsídios para uma melhor compreensão da ascendência cultural da sociedade. Um estudo sobre a obra e vida de Giordano Bruno muito contribuirá com isso.

 

02 julho 2008

Problemas Filosóficos e Religião

Tales de Mileto, Anaximandro, Pitágoras e Heráclito — os primeiros pensadores gregos — foram contemporâneos de Lao-tzu, Confúcio, Buda e Zaratustra (o fundador da religião persa), filósofos orientais. Os filósofos gregos queriam tornar racional o conhecimento, fugindo, assim, do mito e das opiniões. Propunham alguns problemas e buscavam respostas baseadas na razão.

Os problemas levantados: a existência de Deus, a ligação de Deus com esse mundo sensível, o problema do mal, a relação entre moral e religião e as relações entre a alma e o corpo. As perguntas decorrentes: se Deus existe, como é Deus? Como demonstrar a sua existência? Deus é imanente ou transcendente? Se Deus é onipotente, por que existe o mal? Será possível uma moral sem religião? Existem princípios morais a todas as religiões? Existe alma? Ela é imortal? Que função desempenha? Como coexiste com o corpo? Depois da morte, ela voltará a se reunir com ele? Todas essas perguntas foram respondidas, de forma diferente, ao longo dos seus 2.600 anos.

Antiguidade: os pré-socráticos não tinham plena convicção de Deus. O agnóstico Protágoras dissera: "Sobre os deuses, não posso saber se existem ou não, pois há dois obstáculos: a obscuridade do problema e a brevidade da vida humana". Platão fala de um artesão divino, o demiurgo, intermediário entre os dois mundos. Aristóteles descreve Deus como o primeiro motor do Universo. Epicuro defendia a ética de origem exclusivamente humana. Os estoicos pregavam que o próprio mundo é o Deus racional, submetido à lógica do seu pensamento.

Idade Média: a filosofia e a teologia caminham juntas, com a primeira reduzida a um instrumento de fé. O problema central era: conciliar as exigências da razão com as perspectivas da fé na revelação. Para Santo Agostinho, por exemplo, "Deus cria as coisas a partir de modelos imutáveis e eternos, que são as ideias divinas. Essas ideias ou razões não existem em um mundo à parte, como afirmava Platão, mas na própria mente ou sabedoria divina, conforme o testemunho da Bíblia".

A revolução científica dos séculos XVI e XVII deu uma nova imagem ao divino: "Deus é o criador de uma máquina perfeita que Ele se limita a vigiar depois de tê-la posta em marcha". Em consequência, o século XVIII foi inundado de posições materialistas e ateias, as quais acabaram negando abertamente a existência de Deus: Hume, por exemplo, fez sérias objeções à possibilidade de se demonstrar a existência de Deus; Marx, por seu turno, via a religião como o ópio do povo: ela somente existiria enquanto existisse "um mundo necessitado de ilusões". Nietzsche, no entanto, foi o filósofo mais contundente: anunciou a morte de Deus na cultura ocidental.

Depois de a revolução científica criar condições para a morte de Deus, as ideias religiosas entram em contato com as teorias psicanalíticas de Freud, que definiu a religião como uma neurose obsessiva da coletividade humana. Freud diz: "seria muito agradável que Deus existisse, e que houvesse criado o mundo, e que sua providência fosse benevolente. Seria excelente que existisse uma ordem moral no universo, e que existisse uma vida futura; mas é muito surpreendente que tudo isso coincida com o que todos nos somos obrigados a desejar que exista".

Por mais que os estudiosos queiram demonstrar a insignificância da religião, ela resiste ao tempo e ao espaço, porque representa o sentimento natural de adoração a um ser superior.

Fonte de Consulta

Temática Barsa – Filosofia


Pena de Morte e Bem Comum

O Estado, em toda a sociedade politicamente organizada, é um órgão de controle e de coordenação revestido de autoridade, destinado a conciliar as inclinações e os propósitos dos indivíduos com as exigências e as solicitações do bem comum. Assim, os homens públicos revestidos de autoridade, devem cercear os interesses privados, quando estes sobrepõem ao interesse público ou coletivo. Em sua essência, o Estado procura oferecer a maior felicidade para um maior número de pessoas.

O Estado e o Direito são duas realidades que se inter-relacionam. O Estado é uma organização destinada a manter, pela aplicação do Direito, as condições universais de ordem social. O Direito é o conjunto das condições existenciais da sociedade, que ao Estado cumpre assegurar. Do Direito temos as normas que, baseadas num consenso de justiça, são catalogadas e obedecidas pela população do referido Estado. Entre tais leis há aquelas referidas ao Direito Penal que, através de "castigos", procuram coibir o erro no sentido de evitar que se cometam novamente o mesmo delito.

Será a pena de morte uma pena justa? Há muita contradição com relação a este tema. Uns acham que ela deve ser usada, pois a sociedade não deve sustentar os facínoras. Há outros que advogam que só Deus pode tirar a vida de um ser humano. De modo que ao longo do tempo a humanidade foi aprendendo a conviver com esse tipo de punição. Mas, será que esse tipo de punição atinge o bem comum, apregoado nos objetivos do Estado? Esta é a grande questão concernente à pena de morte.

O que se entende por bem comum? Quem melhor o definiu foi o Papa João XXIII, nos seguintes dizeres: "O Bem comum consiste no conjunto de todas as condições da vida social que consintam e favoreçam o desenvolvimento integral da personalidade humana". Será que eliminando um ser humano nós estaremos contribuindo para a o desenvolvimento integral de sua personalidade? Do ponto de vista material, resolvemos o problema de custo nas prisões e de nova incidência no mesmo crime. E do ponto de vista da perfectibilidade daquele espírito encarnado?

Concebendo o ser humano numa dimensão trinária — Espírito, perispírito e corpo físico — e, colocando-o no âmbito da interexistência, veremos que a pena de morte apenas elimina o problema sem lhe dar a devida solução. Portanto, ela não atinge o bem comum, pois a sociedade veta-lhe a oportunidade de obter a sua perfeição. O Espírito deve ser reeducado, porque em passando para o mundo dos Espíritos, continuará sendo o mesmo delinquente. Lembremo-nos de que se não tiver uma estrutura psíquica equilibrada, poderá obsedar aqueles que lhe tiraram a vida.

Tenhamos em mente a Sapiência, a Mente Divina, o Logos, o Pensamento Divino. Somente assim estaremos veiculando as nossas ideias com equilíbrio e moderação e, com isso, auxiliando na obtenção do Bem Comum.

 

01 julho 2008

Liberdade, Doutrinas Filosóficas e Religião

O liberalismo, como doutrina político-filosófica, prega a liberdade, identificando-a com a espontaneidade. Segundo os seus postulados, os indivíduos agiriam através de impulsos livres. Nada coibiria as ações humanas, desde que ajustadas à subjetividade de cada consciência. Esta, por sua vez, refletiria apenas o determinismo automático e não o autodeterminismo.

Para o existencialismo, a liberdade identifica-se com a imaginação. Seu conteúdo filosófico é baseado na esquizofrenia, ou seja, caracterizado pela fuga real. Para Sartre, o ser é originalmente existência pura, sem essência. Nesse sentido, o homem, ao nascer, não tem escolha, mas assim mesmo escolhe e é responsabilizado pelos seus atos. Ele é considerado como estranho aos outros homens e por isso os trata hostilmente. Sem perspectivas futuras, a existência é absurda e a vida se transforma em angústia.

Para o marxismo, a liberdade se identifica com a libertação. Esta se realizaria plenamente quando a sociedade tivesse atingido o Comunismo. Para chegar a esta situação, os indivíduos devem renunciar à propriedade privada, subordinando-se ao estado totalitário. Desta forma, a religião, a burguesia e o não lutar contra as estruturas sociais são atitudes alienantes. Porém, a realidade é que esse modo de ver a libertação expressa um conceito alienante de liberdade.

Para a religião, a liberdade identifica-se com o sacrifício. As propostas são de renúncia à própria personalidade, de obediência à vontade de Deus e de arrependimento pelas más ações cometidas. Procedendo desta forma, vivenciaremos plenamente o bem e tornar-nos-emos bem-aventurados no reino dos céus. Lá receberemos as recompensas pelo esquecimento da injúria, pelo perdão concedido aos nossos ofensores e pela quietude do espírito nas situações críticas da existência.

O problema da liberdade tem sido obscurecido por algumas teses filosóficas e por diversos credos religiosos. Contudo, a mente religiosa, tem sido um auxiliar competente. Esta não se prende aos dogmas, aos rituais e às idolatrias. Mantém-se serena através do perfeito relacionamento com o Ser Superior, com o próximo e consigo mesma. Pela autodeterminação, escolhe atos livres que ampliam outros atos livres e não os que os tolham.

Embora as teses existencialistas, marxistas e liberalistas devam ser respeitadas, não podemos negar que a liberdade ultrapassa os limites do sensível para se situar no plano transcendental de nossa vida. Por isso a frase: "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará".

Fonte de Consulta

MENDONÇA, E. P. de. A Construção da Liberdade. São Paulo, Convívio, 1977.

 

 

27 junho 2008

Ciência, Filosofia e Religião

A distinção entre filosofia, ciência e religião é um dos temas que mais dão margem a polêmicas, aparentemente infindáveis. Não conseguimos perceber que os termos estão interligados e, por isso, não somos capazes de analisar qualquer assunto sob estes três ângulos. Pode-se começar por um arroubo da fé; depois, adere-se às lucubrações da filosofia; finalmente, tenta-se provar que aquilo que estamos idealizando tem base sólida. Se uma pessoa se cristaliza num dos vértices deste triângulo, acaba por deformar a sua visão de mundo.

A ciência moderna, como a conhecemos presentemente, tem sua origem nas especulações feitas, em meados do século XVI, pelo cônego polonês Nicolau Copérnico, o qual colocava o Sol no centro do Universo. Um dos pontos culminantes das disputas entre religião — representada pela Igreja Católica — e ciência — representada pelo projeto de física-matemática —, ocorreu com a condenação em 1633 do astrônomo, matemático e filósofo natural Galileu Galilei.

A condenação de Galilei, feita pela Igreja, é compreendida por muitos como um atentado à liberdade de pensamento. O que pouco se comenta é que Galileu era um católico fervoroso, que temia desobedecer às regras da Igreja. Na realidade, ele queria encontrar um elo entre ciência e religião, sem que houvesse perdas para ambas. Seu lema era: "a fé ensina como ir para o céu; a ciência como vai o céu". Talvez tenha sido o fato de nunca ter procurado desobedecer à Igreja Católica que levou Galilei a aceitar — ao menos para o mundo externo — a pena de prisão domiciliar perpétua.

O Iluminismo francês, movimento político-intelectual muito forte e presente em toda a Europa durante a segunda metade do século XVIII, foi um dos responsáveis por essa interpretação da condenação de Galileu. Para defender a tese de que o ser humano é capaz de descobrir as verdades do mundo externo, sem precisar recorrer a Deus, o iluminismo se apoia no episódio de Galileu, no sentido de mostrar que a palavra teologia (ou religião) é sinônima de atraso. A supremacia da razão, em detrimento da fé e da filosofia, inverte os valores humanos. Consequência: o mundo se torna materialista.

Onde está a verdade? Na fé? Na ciência? Na filosofia? A verdade não se encontra em nenhum lugar específico: ela está em toda a parte. Se o homem percebesse que as leis naturais, criadas por ele, nada mais são do que representações do vasto mundo real, ele procuraria conter os seus desmandos intelectuais. Temos necessidade da coexistência entre filosofia, ciência e religião. São as três vertentes essenciais do conhecimento humano. Somente elas poderão nos proporcionar o perfeito equilíbrio de nossas ações.

Por mais que a ciência dê a sua contribuição, ela sozinha será sempre um conhecimento parcial, tal qual um corte na realidade. Para vê-la totalmente, devemos adicionar a intuição trazida pela fé e a lógica trazida pela filosofia.

Fonte de Consulta

STOEGER, William R. As Leis da Natureza: Conhecimento Humano e Ação Divina. Tradução de Bárbara Theoto Lambert. São Paulo: Paulinas, 2002. (Coleção Religião e Cultura).