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03 outubro 2020

Agostinho e o Platonismo

Muitos pensadores, principalmente aqueles ligados à religião, tentaram fazer uma ponte entre a filosofia grega e o cristianismo. Nos capítulos 20 e 21 do livro VII das Confissões, Agostinho desenvolve o seu pensamento a respeito, realçando o mundo abstrato e espiritual, contudo indicando os limites frente à revelação e à fé cristã.

Após a leitura dos livros platônicos, Santo Agostinho foi levado por eles a buscar a verdade incorpórea, e percebeu que “as perfeições invisíveis são visíveis em suas obras” (Epístola de São Paulo aos romanos, 1, 20). Sentiu que as trevas de sua alma impediam-no de contemplar a verdade. Estava certo da existência de Deus, mas não compreendia a sua infinitude. Contudo tinha certeza de que tudo é originado de Deus, mas sentia-se fraco para gozar a presença do Criador.

“Tagarelava e enchia minha boca como um sabichão, mas se não buscasse o caminho para Vós em Cristo Nosso Salvador, seria apenas um perituro e não um perito*. Já então cheio de meu castigo começava a desejar parecer um sábio; não chorava e, além disso, inflava-me com a ciência. Onde se encontrava aquela caridade que se ergue sobre o alicerce de humildade que é Jesus Cristo? Quando é que estes livros me ensinariam esta caridade?

“Por isso lancei-me avidamente sobre as veneráveis escrituras inspiradas por teu Espírito, sobretudo ao do apóstolo Paulo. E desnaveceram em mim aquelas dificuldades nas quais julguei descobrir contradições entre ele e seu texto, em desacordo com os testemunhos da Lei e dos Profetas. Compreendi a unidade daqueles castos escritos, e aprendi a me alegrar com tremor”

Descobre coisas que não estão escritas nos livros platônicos: naquelas páginas não há um sentimento de piedade, o sacrifício da alma abatida, um coração contrito e humilhado. Nos livros platônicos não se encontram os apelos da salvação em Cristo. “Ninguém ali ouviu o convite: Vinde a mim os que sofreis. Desdenham teus ensinamentos, porque és manso e humilde de coração. Porque escondeste estas coisas dos sábios e doutos, e as revelaste aos pequeninos”

*Trata-se de um jogo de palavras: perito significa “sábio”, “especialista”, e perituro, “aquele que perecerá”.

 


29 setembro 2020

Dialética e Quaestio no Mundo Medieval

O mundo medieval surge após o enfraquecimento do Império Romano. Em meio às invasões de povos bárbaros, como os visigodos, vândalos, hunos e ostrogodos, e suas consequências, aparece Boécio (480-524) como o último dos romanos e o primeiro dos pensadores medievais. 

A obra de Boécio pode ser dividida em duas partes: 1) como tradutor e comentador; 2) próprios escritos. Como tradutor, seu objetivo foi a de verter para o latim as obras de Platão e Aristóteles. A divisão da filosofia em três partes, a física, a matemática e teologia, que Aristóteles defende em sua Metafísica, tem grande influência no pensamento de Boécio.  

Boécio, citando Aristóteles, tenta obter certa hierarquia entre as ciências. As ciências físicas, que tratam da matéria, são menos abstratas do que a matemática. A teologia, por sua vez, trata de algo ainda mais abstrato, sendo uma disciplina mais elevada dentre as teóricas. Lançando mão das técnicas de argumentação antigas, Boécio contribuiu não somente quanto ao conteúdo, mas principalmente com o método para alicerçar as bases da cultura latina medieval. 

Agostinho de Hipona (354-430), famoso pelas Confissões, livro autobiográfico que descreve as fraquezas do ser humano, foi outro pensador que marcou o mundo medieval. A grande contribuição de Santo Agostinho foi a de conceber a fé não como uma fé dogmática, mas também puramente racional. Daí, a célebre máxima: "Compreendas para crer, creias para compreender".

Agostinho aceita a palavra divina das Sagradas Escrituras. Porém, como a palavra foi transmitida pelos homens, ela pode conter erros. Há necessidade, assim, de verificar a fiabilidade do texto, a história e a geografia. Alcançada a compreensão, o passo seguinte é transmitir a mensagem aos outros. Para isso, o cristão deve receber orientações quanto à retórica e à dialética. No tratado A doutrina cristã, expõe as regras para interpretar e transmitir as Sagradas Escrituras.

A dialética que, segundo Aristóteles, é a arte de bem argumentar, mas argumentar por meio de inferências válidas e necessárias que, por meio dos prós e contras, chega a uma opinião, teve grande sucesso durante a Idade Média. Boécio contribuiu muito para sua difusão. É de Boécio a divisão das artes: o quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música) e o trivium (gramática, retórica e dialética). Este modelo contribuiu muito para a difusão da dialética. 

O principal modo de expressão da Idade Média é conhecido como quaestio. Pedro Abelardo foi seu defensor. De acordo com Abelardo, uma questão tem por objetivo obter a solução de um problema, cuja origem é a contradição entre as opiniões de duas ou mais autoridades. Quer dizer, a dúvida acerca de uma tese pode provir de opiniões opostas, e que teremos de escolher aquela que julgarmos verdadeira.

Esse método é fruto da leitura de textos consagrados pela tradição e da constatação de conflitos entre várias passagens.

Assim, os teólogos medievais cristãos não foram pensadores dogmáticos. Conhecendo a fraqueza das autoridades da época, enalteciam a razão humana para chegar à verdade.

Fonte de Consulta

STORCK, Alfredo. Filosofia Medieval. Rio de Janeiro: Zahar, item "Da Roma Antiga ao Mundo Medieval"




 


11 fevereiro 2020

Santo Agostinho de Hipona

"Dai-me castidade e continência, mas não agora." (Confissões)

Santo Agostinho de Hipona (354-430) é filho de mãe cristã e de pai pagão. Quando jovem, ensinava retórica em Cartago. Nessa época, teve um filho com a amante e se envolveu com o maniqueísmo, um sistema de crenças religiosas centradas na luta entre o bem e o mal. Posteriormente, aderiu ao ceticismo e ao neoplatonismo. Em 387, em Milão, Agostinho se converteu ao cristianismo. Batizado no ano seguinte, ordenou-se padre em 391, e em 396 tornou-se bispo de Hipona.

Para Agostinho, a filosofia e a teologia eram indissociáveis. Depois de sua conversão ao cristianismo, as suas crenças anteriores deixam de ter relevância. Adepto de Platão, distingue o mundo imperfeito das formas materiais, acessado pelos sentidos, do mundo perfeito e eterno, acessado pelo intelecto. Em seu raciocínio, Deus é a unidade absoluta, donde tudo o mais jorra. Deus, na realidade, é o ponto fixo que unifica tudo dentro de uma hierarquia eterna e racional.

Santo Agostinho, um dos maiores pensadores da Patrística, valeu-se da filosofia de Platão. No século V – principalmente em Alexandria – havia a ideia da eternidade da alma, extraída da "Teoria das Formas ou das Ideias", que aparece no Livro VI de A República, de Platão. E estas, segundo o platonismo, traziam a lembrança de uma vida anterior sem o corpo (isso não concorda com o dado de fé). Mas havia também a dúvida filosófica sobre a preexistência das almas. 

Agostinho foi um escritor prolífico. Confissões (400) e A Cidade de Deus (426) são as mais citadas. O livro Sobre a Potencialidade da Alma (De Quantitate Animae) foi escrito em 388, na cidade de Roma. Trata-se de um diálogo entre o professor Agostinho e o aluno Evódio, ambos batizados quase ao mesmo tempo por Santo Ambrósio. A conversa entre os dois mostra a confiança que Santo Agostinho depositou em seu aluno Evódio que, na época, era ainda incipiente na arte de argumentar.

Sobre a Potencialidade da Alma é uma tentativa de Santo Agostinho responder às cinco perguntas formuladas por Evódio: De onde se origina a alma? O que ela é (qualis sit)? Como ela é (quanta sit)? Como se une ao corpo? Como procede unida ao corpo, e quando separada dele? Ao longo das perguntas e respostas, Santo Agostinho vai paulatinamente construindo um vasto conhecimento sobre a relação entre a alma e a matéria.

O método socrático agostiniano é demorado. Há uma argumentação lenta e detalhada sobre a alma e a sua ligação com o corpo físico. A demora se justificava porque pretendia que o seu aluno Evódio pudesse absorver profundamente o conhecimento veiculado. Para Santo Agostinho, o melhor método é aquele que obriga o aluno a pensar com a própria cabeça. Por isso, o excessivo rigor para com Evódio. Não perdia nenhuma ocasião de repreendê-lo, pois queria que este estivesse sempre compenetrado de si mesmo.

Fonte de Consulta

AGOSTINHO, Santo. Sobre a Potencialidade da Alma (De Quantitate Animae). Tradução de Aloysio Jansen de Faria. 2.ed., Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2005.

LEVENE, Lesley. Filosofia para Ocupados: dos Pré-Socráticos aos Tempos Modernos. Tradução de Débora Fleck. Rio de Janeiro: LeYa, 2019.


13 novembro 2013

Patrística

Patrística é o termo usado para expressar a junção do mundo antigo grego, elaborado pela razão, com o mundo cristão, concebido pela revelação. Na tradição judaica, a salvação é imediata; no cristianismo, não. Não se espera uma redenção imediata do sofrimento e da morte como acontecia no judaísmo. Para manter a esperança da salvação, há necessidade de aprofundar os conteúdos da verdade revelada. Por isso, a “patrística”.

Os antecedentes da patrística remetem-nos a Tertuliano (155) e Orígenes (185). Tertuliano, embora contrário à patrística, e posto à margem pela igreja, foi um dos precursores desse tipo de filosofia, pois criou um cristianismo místico e vivencial, que encontrará sua máxima expressão na síntese agostiniana de razão e fé. Orígenes, por seu turno, é o primeiro grande sistematizador da teologia cristã, ao qual incorpora elementos neoplatônicos e até gnósticos.

Justino, no século II, dá os primeiros passos para conciliar o pensamento platônico e neoplatônico às Sagradas Escrituras. Em seu desenvolvimento posterior, a patrística pode ser considerada, também, como uma doutrina que procura se diferenciar de heresias como o gnosticismo, o arianismo, o maniqueísmo e o monofisismo. 

A criação, a revelação de Deus com o mundo, o mal, a alma, o destino da existência e o sentido da redenção são problemas fundamentais da patrística. Há, também, os problemas teológicos: essência de Deus, trindade das pessoas divinas etc. Por último, os problemas morais: embora utilizando os conceitos helênicos, adota uma postura na graça e na relação do homem com seu Criador, e termina na concepção da salvação, estranha ao pensamento grego.  

A base da patrística está no platonismo. No platonismo, o Demiurgo é a Ideia, o mundo sensível é feito à imagem e semelhança das ideias e a ideia do Bem está topo da hierarquia. Para o cristianismo, a criação leva também a marca das ideias do Criador; o mundo sensível é baseado na contingencia, fator de dependência de seu ser em relação ao Criador; e o fato de o neoplatonismo situar a ideia do bem no topo da hierarquia, abriu espaço para o cristianismo expressar o monoteísmo.

Fonte de Consulta

Temática Barsa — Filosofia 

 

03 julho 2008

Tomás de Aquino

"[...] para o conhecimento de absolutamente qualquer verdade o homem precisa de ajuda divina." (Suma teológica)

Tomás de Aquino (1225-1274) viveu num século em que duas correntes de ideias se opunham: a) um evangelismo radical do movimento de pobreza, ligado à obra de São Francisco, que renova e aprofunda a piedade e "redescobre" a Sagrada Escritura; b) um mundalismo inspirado em Aristóteles, que confere à razão natural e ao mundo material uma importância e uma independência jamais vistas. Tomás aceita, sem tomar partido, essas duas posições antagônicas. Depois, pela reflexão, ultrapassa-as ao desvendar a verdade de cada uma delas.

02 julho 2008

Santo Agostinho e a Potencialidade da Alma

Santo Agostinho (354-430) foi um dos maiores pensadores da Patrística e valeu-se da filosofia de Platão. No século V — principalmente em Alexandria — havia a ideia da eternidade da alma, extraída da "Teoria das Formas ou das Ideias", que aparece no Livro VI de A República, de Platão. E estas, segundo o platonismo, traziam a lembrança de uma vida anterior sem o corpo (isso não concorda com o dado de fé). Mas havia também a dúvida filosófica sobre a preexistência das almas. É sobre este último ponto que Evódio, o aluno de Santo Agostinho, pretende obter algum esclarecimento.

Questionado sobre a natureza da alma, Santo Agostinho trata de elaborar o tema através de um encadeamento de perguntas e repostas. Santo Agostinho afirma que alma foi criada por Deus. Ele não sabe dizer de que substância Deus a criou. Sabe, porém, o que ela não é. Ele diz que ela não é material, não tem extensão, não tem profundidade e nem massa. A alma é a parte imaterial do ser humano que preenche todo o corpo, dando-lhe vida e inteligência. Afirma ser algo real, mas não sabe definir esse algo real.

O método socrático agostiniano é demorado. Há uma argumentação lenta e detalhada sobre a alma e a sua ligação com o corpo físico. A demora se justificava porque pretendia que o seu aluno Evódio pudesse absorver profundamente o conhecimento veiculado. Para Santo Agostinho, o melhor método é aquele que obriga o aluno a pensar com a própria cabeça. Por isso, o excessivo rigor para com Evódio. Não perdia nenhuma ocasião de repreendê-lo, pois queria que este estivesse sempre compenetrado de si mesmo.

O diálogo entre o professor Agostinho e o seu aluno Evódio é bastante produtivo, porque Evódio não é uma criança, não é um ser desprovido de conhecimento. Parece trazer conhecimentos de outras vidas, visto que as suas perguntas, pertinazes ao tema, provaram que possui uma estatura moral e intelectual avantajada. Diz-se, inclusive, que quem sabe perguntar é porque já traz dentro de si o que deseja conhecer. Não é um saber que vem de fora. Ele já faz parte do interior da alma. É como uma necessidade em busca da verdade.

Santo Agostinho parte de Deus e conclui que somente Deus é superior a tudo. Por isso, acreditava que só uma coisa poderia atrapalhar a salvação da alma: o pecado. No que tange à alma, propriamente dita, soube explorá-la filosoficamente, colocando-a como algo real, mas que foge a tudo o que conhecemos como matéria. Teve dificuldade de dar uma explicação mais detalhada sobre a matéria. Soube, contudo, explicitar detalhadamente a verdade formal (a define a essência da coisa).

A verdade não é monopólio de ninguém. Santo Agostinho, em suas reflexões filosóficas e religiosas, soube compreender o sentido da alma humana. Sigamos o exemplo do seu método de ensino e aprendizagem.

Fonte de Consulta

AGOSTINHO, Santo. Sobre a Potencialidade da Alma (De Quantitate Animae). Tradução de Aloysio Jansen de Faria. 2.ed., Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2005.

 


01 julho 2008

O Método Socrático-Agostiniano

Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona, escreveu diversas obras. Confissões (400) e A Cidade de Deus (426) são as mais citadas. O livro Sobre a Potencialidade da Alma (De Quantitate Animae) foi escrito em 388, na cidade de Roma. Trata-se de um diálogo entre o professor Agostinho e o aluno Evódio, ambos batizados quase ao mesmo tempo por Santo Ambrósio. A conversa entre os dois mostra a confiança que Santo Agostinho depositou em seu aluno Evódio que, na época, era ainda incipiente na arte de argumentar.

Sobre a Potencialidade da Alma é uma tentativa de Santo Agostinho responder às cinco perguntas formuladas por Evódio: De onde se origina a alma? O que ela é (qualis sit)? Como ela é (quanta sit)? Como se une ao corpo? Como procede unida ao corpo, e quando separada dele? Ao longo das perguntas e respostas, Santo Agostinho vai paulatinamente construindo um vasto conhecimento sobre a relação entre a alma e a matéria. No momento, interessa-nos muito mais o método adotado por Santo Agostinho do que os ensinamentos veiculados acerca da alma e da matéria.

O método utilizado por Santo Agostinho é o mesmo de Sócrates, ou seja, de perguntas e respostas. Sua intenção é desenvolver a capacidade intelectual de Evódio. Em uma dessas conversas, Santo Agostinho diz a Evódio: "Não seja escravo da autoridade alheia, principalmente a minha que não vale nada. Oriente-se pela racionalidade, jamais pelo medo". Para exemplificar o conteúdo doutrinal dessa frase, ele cita o poeta Horácio, que diz: "Atreva-se a saber". Em outras palavras, ele incentiva o aluno a não ficar preso à autoridade alheia, mas à autoridade da razão.

É um verdadeiro treino retórico, chamado por Santo Agostinho de circuitum nostrum (círculos concêntricos), uma série de perguntas e respostas acerca de um determinado tema. Há a tese, a antítese, o jogo de oposições ou de contrários e o uso de figuras geométricas. Quer com isso levar o aluno a utilizar a indução e a dedução, cujo fim último é a busca da verdade. Para ele, o melhor método é aquele que faz o aluno pensar, que o obriga a andar com os próprios pés e que o incentiva a usar o raciocínio lógico. Para atingir tal objetivo, ele exige a total atenção do seu discípulo.

O livro se desenvolve neste emaranhado de perguntas e respostas. No final, contudo, mostra-se o grande pensador que é, concluindo-o de forma magistral, em que não há nem aluno e nem professor, mas um discurso profundo sobre os vários graus da ascese da alma humana. Isso foi bastante produtivo porque Evódio, mais tarde, faria parte da comunidade monacal fundada por Agostinho em Tagaste, sendo, também, nomeado e ordenado bispo de Uzala, na Numídia, em 396.

Aproveitemos o momento presente para acrescentarmos novos conhecimentos ao nosso passivo espiritual. Não os deixemos para amanhã, pois o tempo perdido não se recuperará jamais.

Fonte de Consulta

AGOSTINHO, Santo. Sobre a Potencialidade da Alma (De Quantitate Animae). Tradução de Aloysio Jansen de Faria. 2.ed., Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2005.

30 junho 2008

Filosofia Cristã

Até a vinda de Cristo, a Filosofia, em sentido histórico, seguia o seu curso normal, ou seja, cada novo filósofo acrescentava algo ao anterior. Foi desta maneira que do método socrático, passamos à dialética platônica e desta à lógica aristotélica. Em termos de ideias, Platão e Aristóteles assumem papel relevante, pois os conhecimentos por eles proferidos servem ainda de bálsamo para mitigar o niilismo dos dias atuais.

Cristo não veio à Terra para acrescentar algo à filosofia existente; sua missão consistia em desvendar os mistérios do reino dos céus consoante a revelação divina. A denominação de filosofia cristã, cujo problema central é a conciliação das exigências da razão humana com a revelação divina, nada mais é do que a filosofia que, influenciada pelo cristianismo, predominou no Ocidente, principalmente na Europa, no período que se estende do século I ao século XIV de nossa era. Compreende dois períodos distintos: a filosofia patrística (séc. I ao V) e a filosofia escolástica (séc. XI ao XIV).

A filosofia patrística, que vai do século I ao V, foi influenciada por Platão. O apogeu desta filosofia teve o contributo de Santo Agostinho (354-430), o maior filósofo da era patrística, e que marcou mais profundamente a especulação cristã. Santo Agostinho reinterpreta a teoria das ideias de Platão, modificando-a em sentido cristão para explicar a criação do mundo. Deixou formulado - indicando o caminho para a sua solução - o problema das relações entre a Razão e a Fé, que será problema fundamental da escolástica medieval. Ao mesmo tempo demonstra claramente sua vocação filosófica na medida em que, ao lado da fé na revelação, deseja ardentemente penetrar e compreender com a razão o conteúdo da mesma.

A filosofia escolástica, que vai do século XI ao XIV, foi influenciada por Aristóteles. São Tomás de Aquino (1221-1274) representa o apogeu desta filosofia na medida em que conseguiu estabelecer o perfeito equilíbrio nas relações entre a Fé e a Razão, a teologia e a filosofia, distinguindo-as mas não as separando necessariamente. Ambas, com efeito podem tratar do mesmo objeto: Deus, por exemplo. Contudo, a filosofia utiliza as luzes da razão natural, ao passo que a teologia se vale das luzes da razão divina manifestada na revelação.

As causas da decadência da escolástica são externas e internas. As causas externas são principalmente as condições sociais, políticas e religiosas da época que suscitaram o desenvolvimento do individualismo, do liberalismo e do racionalismo. As causas internas são, sobretudo, a inexistência de espíritos criadores, a paixão pelas sutilezas inúteis, o desprezo pela forma e a hostilidade de alguns filósofos contra as ciências experimentais que, nessa ocasião, começavam a florescer.

A filosofia cristã influenciou o pensamento da humanidade por muitos e muitos anos. Saibamos interpretá-la de modo racional, a fim de que não sejamos tragados pelos silogismos veiculados pelos seus pensadores.

Fonte de Consulta

REZENDE, A. (Org.). Curso de Filosofia: para Professores e Alunos dos Cursos de Segundo Grau e de Graduação. 6. ed., Rio de Janeiro, Zahar, 1996.

SANTOS, T. M. Manual de Filosofia - Introdução à Filosofia Geral - História da Filosofia - Dicionário de Filosofia. 10. ed., São Paulo, Editora Nacional, 1958.

Compilação: https://sites.google.com/view/temas-diversos-compilacao/filosofia-crist%C3%A3-e-espiritisimo



29 junho 2008

De Magistro

Santo Tomás de Aquino (1227-1274) foi um dos maiores expoentes da Escolástica. Para entendermos o seu pensamento, precisamos nos desvencilhar dos esquemas de interpretação da atualidade e penetrar no âmbito da disputatio da Idade Média. Joseph Pieper vê na quaestio disputata a essência da universidade: era um verdadeiro confronto de ideias, de razões, de argumentações. A vida da universidade agitava-se nesse conflito de ideias, tendo como pano de fundo os debates acirrados acerca da fé e da razão.

O De Magistro de Santo Agostinho (354-430) — memória de um diálogo havido com o filho Adeodato — é o ponto de partida do De Magistro de Tomás de Aquino. Diferentemente das discussões de Santo Agostinho, Tomás de Aquino insere-se nas Quaestiones Disputatae de Veritate, escritas entre 1256 e 1259. O problema fundamental era responder à pergunta quid sit Veritas? Esta questão, de fundo religioso, se amarrava com toda a problemática de Deus, do mundo e do homem. Entrava em jogo a verdade bíblica e a verdade grega, com as mediações trazidas pelos Santos Padres, os pensadores judeus e muçulmanos.

Ensinar é iluminar. A luz é uma metáfora, já nos apresentada por Platão no seu "Mito da Caverna". Esta metáfora chega a S. Tomás por S. Agostinho, para o qual a luz da verdade, partindo de Deus, ilumina diretamente a alma. Para S. Tomás, Deus age ordinariamente pelas causas segundas. No caso do homem, Ele infunde o lumen rationis que leva o intelecto à apreensão certa dos princípios que possibilitam – "iluminam" por sua vez – as conclusões. Tomás diz: "Verdadeiramente pode-se dizer que o homem é verdadeiro mestre, que ensina a verdade e ilumina a mente, não infundindo o lume à razão, mas ajudando o lume da razão para a perfeição da ciência, por meio daquelas coisas que propõe exteriormente".

A transmissão dos sinais. De acordo com S. Tomás, não conhecemos as coisas pelos sinais, mas pelos princípios que nos são propostos pelos sinais. Pelo conhecimento dos princípios conhecemos as conclusões, não os sinais. O docente propõe os sinais das coisas inteligíveis à potência sensitiva do discípulo e dessa potência o intelecto do discípulo recebe as intenções inteligíveis e as passa ao intelecto possível. Não são os sinais sensíveis que causam a certeza da ciência. Essa é causada pela certeza dos princípios, por sua vez causada pela luz da razão (infusa em nós pela ação divina).

Potência e ato. A função do mestre é atualizar a potência que está no aluno. O mestre é aquele que concorre externamente, aquele que estimula o discípulo a "raciocinar", isto é, a passar do estado de virtualidade ao de atualização da inteligência. A atualização das virtualidades, inscritas em cada um de nós, vai depender de tempo, de circunstâncias e da vontade divina à nossa pessoa. Em uns, ela chega de maneira rápida; em outros, demora um pouco mais. Saibamos sempre esperar o nosso tempo.

O De Magistro — tanto de Santo Agostinho como o de Santo Tomás — mostra-nos que o homem pode ensinar a verdade, mas deixa claro que a apreensão da verdade por parte de cada discípulo vai depender essencialmente da providência divina.

Fonte de Consulta

CAMELLO, Mauricio J. O. S. Tomas de Aquino: De Magistro: Sobre o Mestre (Questões Discutidas sobre a Verdade, XI). São Paulo, Lorena: Centro universitário Salesiano, 2000.


 


27 junho 2008

Santo Agostinho e São Tomás de Aquino

Santo Agostinho (354-430) e São Tomás de Aquino (1227-1274) foram, respectivamente, os maiores pensadores da Patrística e da Escolástica. Santo Agostinho valeu-se da filosofia de Platão, enquanto Santo Tomás de Aquino da de Aristóteles. Com isso, cada qual, em sua época, pode influenciar não só a religião católica como muitos pensadores cristãos que lhes sucederam.

Tanto Santo Agostinho como Santo Tomás de Aquino afirmam que Deus, sendo eterno, transcendente, todo bondade e todo sabedoria, criou a matéria do nada e, depois, tudo o que existe no universo. Para Santo Agostinho, as ideias ou formas estavam no Espírito de Deus. Santo Tomás de Aquino acrescenta a noção dos universais em seus raciocínios. Dizia que Deus é a causa da matéria e dos universais. Além disso, Deus está continuamente criando o mundo ao unir universais e matéria para produzir novos objetos.

Nenhum deles colocava em dúvida a imortalidade da alma. Santo Agostinho dizia que alma e corpo são distintos, mas não soube explicar como a alma se liga ao corpo. De acordo com Santo Tomás, a alma humana — princípio imaterial, espiritual e vital do corpo — foi criada por Deus. Acreditava que a alma espiritual é agregada ao corpo por ocasião do nascimento, e continua a existir depois da morte do corpo, formando, pois, por si mesma, um novo corpo, um corpo espiritual, por meio do qual atua por toda a eternidade.

Em suas teorias, reportam ao "desprezo do mundo". Contudo, Santo Agostinho mostra-se incapaz de decidir entre o mundo e desprezo por ele. A despeito dessa dúvida, apega-se firmemente à ideia de que a Igreja, como a encarnação mundana da cidade de Deus, deve ter supremacia sobre o Estado. Santo Tomás de Aquino, da mesma forma que Aristóteles, doutrinava que o homem é naturalmente um ser político e procura estar em sociedade. Este homem deve tributar lealdade à Igreja e a Deus, mas tem, também, que obedecer ao Estado porquanto este, por sua vez, recebeu o seu poder da Igreja.

Fé, Razão e Revelação são os pontos fundamentais de suas teorias. Santo Agostinho demonstra claramente sua vocação filosófica na medida em que, ao lado da fé na revelação, deseja ardentemente penetrar e compreender com a razão o conteúdo da mesma. Santo Tomás consegue, por seu turno, estabelecer o perfeito equilíbrio nas relações entre a Fé e a Razão, a teologia e a filosofia, distinguindo-as mas não as separando necessariamente. Ambas, com efeito, podem tratar do mesmo objeto: Deus, por exemplo. Contudo, a filosofia utiliza as luzes da razão natural, ao passo que a teologia se vale das luzes da razão divina manifestada na revelação.

Fiquemos com o lado bom de seus raciocínios, ou seja, a crença num Deus único, causa primária todas as coisas. Refutemos, porém, a supremacia que deram à Igreja, considerando-a como a monopolizadora da revelação de Deus.

Fonte de Consulta

FROST JR., S. E. Ensinamentos Básicos dos Grandes Filósofos. São Paulo, Cultrix.