01 julho 2008

A Filosofia Transcende o Mundo do Trabalho

O fato de a filosofia transcender o mundo do trabalho significa dizer que ela não lhe dá atenção? Não. Sem o mundo do trabalho o homem nem poderia filosofar. É que a corrida atrás da alimentação, vestuário, habitação, calefação está em primeiro lugar; as necessidades do progresso, tanto material quanto espiritual, além dos os anseios do desenvolvimento e da reconstrução de nossa pátria e do mundo, vêm depois. A função da Filosofia é dar uma direção mais concreta a tudo isso.

Tomás de Aquino disse que "O filósofo se parece com o poeta porque ambos se ocupam com o mirandum (maravilhoso)". Afirmou também que o bem comum só é possível se existir homens que se entreguem à "inútil" vida de contemplação; ao bem comum pertence que se exerça a Filosofia. Contudo, não se pode dizer que contemplação e Filosofia estejam a serviço da "utilidade comum", visto que utilidade comum é sempre meio, enquanto a filosofia tem um fim em si mesma.

Presentemente, a pretensão do mundo de trabalho torna-se cada vez mais total, embargando cada vez mais os passos do homem. Filosofar é discordar desse status quo. A Filosofia aparece, cada vez mais, com o aspecto de algo estranho, de mero luxo intelectual, de algo insuportável e indigno de ser tomado a sério. Assemelha-se à questão filosófica de Heidegger: "Mas, por que, afinal, existem coisas, e não só o nada?" Ora, onde não floresce o aspecto religioso, onde a arte não encontra lugar, onde o abalo da morte e do eros é privado de sua profundidade, aí não poderá florescer a Filosofia.

Filosofar é a forma mais pura de theorein, de speculari, de o simples olhar. Por que teórico? A palavra theos, de onde vem Deus, e quer dizer o ser que vê, nos dá theoria, que em grego quer dizer visão. E como os gregos, quando iam às suas festas religiosas nos templos, faziam longas filas, que vinham do horizonte e podiam ser vistas à distância, isto é, ter delas uma visão, chamaram-nas de theoria. Poder-se-ia, assim, dizer que a Filosofia é visão beatífica da totalidade das coisas que existem.

A admiração, o abalo e o êxtase têm, por natureza, romper os limites do "mundo circundante" e suprimir tanto a acomodação como o enclausuramento. Aquele para quem tudo se torna um mirandum pode muito bem esquecer que é preciso agir e trabalhar. É estranho que, sobretudo na Filosofia moderna, se considere somente este aspecto da admiração, de modo que a sentença dos antigos: "a admiração é o começo de toda Filosofia" foi convertida em: "no começo da Filosofia está a dúvida".

A admiração mostra que o mundo é mais profundo e mais misterioso do que pode parecer ao conhecimento comum. Sendo assim, a essência da admiração não é suscitar a dúvida, mas estimular o reconhecimento de que o ser como ser é inconcebível e misterioso.

São Paulo, 5/2/2006

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