15 novembro 2008

Filosofia Clandestina

A filosofia clandestina é um movimento filosófico-literário que surgiu entre os séculos XVI e XVIII. Tinha por objetivo combater veladamente os desmandos da classe dominante, principalmente aqueles propagados pela Igreja. Os ingleses dão a este período o título sugestivo de The Dark Ages, ou seja, período das trevas, em que a filosofia – enquanto saber – perdeu muito de sua potência crítica e libertadora. Em seu lugar crescia o obscurantismo, acompanhado da superstição.

Os livre-pensadores dessa época expressavam idéias pouco ortodoxas e críticas com relação à autoridade constituinte. Observe que nesse período a Igreja legitimava o Estado e este a Igreja, tendo como pano de fundo a obediência a Deus. Tanto os reis quanto os papas eram emanações da divindade. Com isso, eles determinavam o que era bom ou ruim para o povo. Qualquer idéia contrária, que ferisse a lógica por eles determinada, tinha que ser imediatamente banida. Para isso, instituíram a Inquisição, ou seja, um tribunal para "questionar judicialmente aqueles que, de uma forma ou de outra, se opõem aos preceitos da Igreja Católica".

As idéias básicas acerca da filosofia clandestina giram em torno da crítica bíblica, da contestação do caráter divino da Igreja, da denúncia dos abusos da nobreza e do clero e da defesa de novas idéias e novas concepções de mundo. Esses escritos trazem à luz os absurdos e as incoerências das narrativas sagradas, desafiam a legitimidade do poder constituído, principalmente pelo fato de todos serem determinados por Deus. Em outras palavras, se Deus ordenou, o que nos cabe fazer é obedecer.

Este movimento conseguiu unir livre-pensadores e filósofos numa empreitada pouco amena, porque qualquer idéia nova era passível de fogueira, em que tanto o livro quanto o seu autor poderiam ser queimados. Esse período embotou o pensamento criativo da Idade Média. Mesmo assim, no processo histórico, ele serviu de um marco vigoroso de reflexão, porque não podendo se manifestar ficou em potência, esperando o momento oportuno, como aconteceu com a Renascença, em que emergiu tudo o que estava encubado.

Essas idéias foram divulgadas em forma de tratados, diálogos, novelas e poemas para um público restrito, porque a ortodoxia religiosa e política tinha outro interesse, ou seja, manter o povo submisso ao seu poder. Em se tratando dos livros clandestinos escritores por autores franceses, eles tinham que ser publicados em países estrangeiros e, muitas vezes, sob um nome falso ou pseudônimo, para não acabarem nas fogueiras.

Por mais que se queira combater a verdade, ela não cede, pois no momento que a quisermos contestar seremos por ela contestado.

Fonte de Consulta

DU MARSAIS, César Chesneau. Filosofia Clandestina: Cinco Tratados Franceses do Século XVIII. Seleção, apresentação e tradução de Regina Schöpke e Mauro Baladi. São Paulo: Martins, 2008. (Coleção Tópicos Martins)

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