07 maio 2010

Virtudes Cardeais

Platão, no livro IV da República, descreve as qualidades que uma cidade deve ter para o seu funcionamento racional. Essas qualidades são enumeradas em função de quatro virtudes, chamadas de fundamentais, e que mais tarde denominaram-se virtudes cardeais. Elas são: prudência (sabedoria), fortaleza (coragem), temperança e justiça.

Vale a pena notar que essas virtudes, primeiramente, dizem respeito à cidade, no sentido de termos cidades retas, ou cidadãos que agem segundo a reta razão. Somente depois é que o termo passou a ser aplicado ao próprio cidadão. Isso tem certa razão, pois Platão achava que não havia diferença substancial entre o público e o privado. As coisas devem valer muito mais pelas ideias que lhe são próprias.

Prudência (sabedoria). O que é uma cidade sábia? É a cidade que age segundo certa ciência, a ciência de saber escolher. Nesse caso, escolhe-se o melhor, segundo a natureza de cada coisa, pois Platão entendia a virtude como a potência que cada objeto tem em si mesmo. Por exemplo, a função da planta é produzir frutos Assim, a direção da cidade deveria ser feita pelo rei-filósofo, pois ele, segundo a sua natureza, era o mais sábio para o fazer, porque veio para desempenhar essa função.

A fortaleza (coragem) é um sentimento ou virtude que evoca a força. Observe o guerreiro. Ele não pode ser covarde, pois se assim o for não terá condições de defender a cidade dos inimigos. Daí, dizer que a coragem é a defesa da opinião própria, mesmo quando atacada por todos os lados e por todas as pessoas. A paciência, ligada à fortaleza, é a disposição interior de enfrentar as vicissitudes da vida: dor, morte, desilusão.

A temperança, segundo Sócrates, é uma ordenação e ainda um poder sobre certos prazeres. Assim, a temperança refere-se à contenção dos prazeres sensitivos dentro dos limites estabelecidos pela razão. Diz-se que a moderação é a temperança no comer, a sobriedade é a temperança no beber e a castidade é a temperança no prazer sexual.

No estabelecimento da cidade, Platão disse que “cada um deve ocupar-se de uma função na cidade, aquela para a qual a sua natureza é mais apta por nascimento” (Rep., V, 433 c). Isto equivaleria também à justiça, pois implica “executar a tarefa própria e não fazer a dos outros”. (Rep., IV, 433 a). hodiernamente, poderíamos dizer que a justiça consiste na atribuição, na equidade, no considerar e respeitar o direito e o valor que são devidos a alguém, ou alguma coisa.

Como vemos, temos muito que aprender a respeito das virtudes. O mais importante é não deixarmos que esse termo caia no esquecimento, como sói acontecer nos dias presentes, sendo este o principal empecilho para o nosso desenvolvimento moral e espiritual.

3 comentários:

Itamar Santos disse...

Quando você exemplifica a coragem, refere-se a "defesa da opinião própria, mesmo quando atacada por todos os lados e por todas as pessoas". Não me parece adequado, pois a defesa da própria opinião quando esta opinião é errada é um vício; defender a verdade mesmo que se mude de opinião, uma virtude. Obrigado pelo espaço.

Sérgio Biagi Gregório disse...

Talvez não tenha ficado claro, mas a intenção é mostrar que quando tivermos convicção de uma verdade, não devemos mudá-la porque os outros pensam de forma diferente.

Unknown disse...

Ao mesmo tempo, a expectativa de Platão é a de que o homem, alimentado pela coragem, seja antes e também alimentado pela prudência (sabedoria) e, portanto, poucas possibilidades de pensar fora da reta razão. A virtude é um conceito de ordem integral, devendo o homem ser corajoso, prudente, ser justo e ter temperança, harmonicamente.ter opinião errada é um vício da sabedoria, e como tal deve ser tratado antes de se contemplar a coragem mal dirigida.