01 julho 2008

Fundamento

Fundamento é uma palavra que comporta vários significados: origem, princípio, razão de ser, finalidade etc. Os diferentes sentidos estão consubstanciados em muitas expressões de uso corrente: fundamento da fé, fundamento de uma atitude, fundamento da ciência etc. Cabe-nos verificar se, nessas diferentes expressões, a palavra alude ou não a um conteúdo comum que se poderia determinar como "essência" do fundamento.

Aristóteles, a propósito do fundamento entendido como princípio, ou causa, estabeleceu uma classificação que se tornou clássica na história da filosofia. 1º) causa significa a matéria, imanente, de que uma coisa é feita: o bronze da estátua; a prata da jarra etc. 2º) causa é a forma, o paradigma, a definição da essência: a forma do jarro. 3º) causa significa, também, o primeiro princípio da mudança ou do repouso: o pai do filho; o escultor da estátua etc. 4º) causa como finalidade, razão de ser, telos, em grego: a saúde é a causa final do remédio.

Leibniz, no século XVIII, entende por fundamento o "princípio de razão suficiente", baseando-se na fórmula nihil est sine ratione, nada é sem razão. Para Hegel, o problema do fundamento está implicitamente contido na questão da dialética, cuja categoria primordial é o da totalidade. Quer dizer, todos os seres, com exceção do absoluto, são relativos, isto é, dependentes, pois não têm em si mesmos a razão, o "fundamento" de sua existência. Para Marx, o fundamento não se apresenta em termos metafísicos ou epistemológicos, mas em termos sociais e históricos. Para ele, ser radical é tomar as coisas pela raiz e, para o homem, a raiz, o fundamento é o próprio homem.

O elemento comum a todas essas análises, no sentido restrito da ciência, é que o fundamento como princípio, axioma, postulado, definição deve ser aceito sem discussão e do qual se parte para demonstrar teorias, hipóteses e teoremas. O movimento na Física, por exemplo, é um princípio aceito pelos físicos sem discussão. A crítica compete à filosofia que, por sua natureza, busca as causas primeiras.

Assim, a filosofia, criticando os "fundamentos" das ciências particulares que, à luz de tal crítica não se revelam últimos ou remotos, mas próximos ou imediatos, a filosofia tem procurado o fundamento último da essência, da existência e do conhecimento, o princípio além do qual não seja possível remontar.

Esse pequeno estudo do "fundamento" leva-nos a refletir na quantidade de palavras que escrevemos e pronunciamos diariamente sem alcançar-lhe a profundidade do entendimento. É preciso muito esforço e muita dedicação para obter as luzes do conhecimento verdadeiro.

Fonte de Consulta

CORBISIER, R. Enciclopédia Filosófica. 2. ed., Civilização Brasileira, 1987.

São Paulo, 15/11/1996

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