06 novembro 2005

Como se Faz um Ensaio

Em filosofia, há inúmeros temas para se escrever um ensaio: o problema dos universais, a questão do livre-arbítrio, a relação entre fé e razão, a existência de Deus, a origem do universo entre tantos outros. Para os filósofos iniciantes, que possuem pouco conhecimento sobre a matéria, os temas devem ser gerais. Conforme vão obtendo maiores conhecimentos, os temas podem ser mais específicos, o que mostra um amadurecimento do próprio filosofar. Em outras palavras: o aprofundamento exige conhecimento anterior.

O esboço do tema vem a seguir. Divide-se o trabalho em partes, o que implica na introdução, no desenvolvimento do tema e na conclusão. Primeiramente, o esboço é mental; depois, é necessário colocá-lo no papel, mesmo que de forma imperfeita. Nesse mister, verificamos que o ato de escrever torna consciente aquilo que está como ideia abstrata. Ainda mais: o ato de escrever estimula o pensamento, que fará esforços de procurar outros argumentos, no sentido de dar prosseguimento ao que foi iniciado.

Escrever, sem se preocupar com o sentido da frase, é uma técnica bastante produtiva. Dá-se a isso diversos nomes, entre os quais tempestade de cérebros. Como proceder? Pegamos um tema e procuramos anotar tudo o que nos vem à mente. Adjetivo, pronome, relacionamentos, pessoas etc. É uma forma de forçar o pensamento, que procura em nosso subconsciente tudo o que já temos memorizado sobre o assunto. Com isso, podemos também estimular a associação de idéias, que é construir pensamentos que nunca havíamos tido antes.

A pesquisa bibliográfica deve sempre proceder a anotação das idéias. Por que? Se vier em primeiro lugar ela nos tira o esforço de pensarmos por nós mesmos. Há também o inconveniente de não termos muito que escrever, pois nada nos parece nosso e sim do outro. A pesquisa bibliográfica deve servir para corrigir eventuais erros ou acrescentar idéias que não tínhamos. Mesmo que tenhamos escrito algo indevido, isso não é perdido. Nesse caso, usa-se uma técnica muito salutar, a de colocar aquilo como uma possibilidade e, em seguida, o pensamento do autor consultado.

Um cuidado especial se deve ter para com a correção gramatical e de estilo. A revisão gramatical deveria vir em primeiro lugar. Para isso, há muitos livros de português. Posteriormente, faz-se uma revisão do estilo. A correção do estilo é a melhoria da frase para torná-la mais polida e mais fácil de ser compreendida. Para tanto, devem-se preferir frases curtas e o verbo na voz ativa. Se necessário, a substituição de palavras por um de seus possíveis sinônimos.

A frase "1% de inspiração e 99% de transpiração" tem grande fundamento, ou seja, mostrar-nos que é escrevendo que se aprende a escrever. Não há outro remédio.


Fonte:

MARTINICH, A. P. Ensaio Filosófico: o que é, como se faz. Tradução por Adail U. Sobral. São Paulo, Loyola, 2002.


São Paulo, 1/9/2004
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28 outubro 2005

Pensar com Conceitos

A análise conceitual é uma disciplina que auxilia a melhorar a comunicação entre os seres humanos, uma vez que estimula a reflexão e a crítica antes da expressão em público. Não pretende ser um raciocínio correto, mas esclarecer e dirimir dúvidas quanto aos diversos significados que uma mesma palavra pode ter.

Pensar com conceitos é um incômodo para muitas pessoas que tem os seus pensamentos arrumadinhos. Depois de uma sessão de discussão acerca de conceitos, elas falam: "tantas palavras para nada"; "ninguém chegou a conclusão nenhuma". Esquecem-se de que a conclusão deve ser feita no âmago do Espírito, por cada um de nós.

Quais são os benefícios de se pensar com conceitos? Um melhor uso das palavras e mais clareza dos pensamentos. Buscando os vários significados de cada termo, teremos condições de empregá-los corretamente, dando maior fluidez aos nossos raciocínios. Quando uma pessoa diz: "Este é um bom livro", podemos perguntar-lhe: O que você entende por um bom livro? Queremos que ela explique o entendimento dela acerca de um bom livro e não aquilo que está escrito no dicionário.

Diante da análise de conceitos, haverá sempre algo novo a dizer sobre um tema, pois a nossa mente corre atrás dos seus significados e, com isso, vamos enriquecendo o nosso conhecimento acerca do assunto proposto. Sendo aplicado nesse exercício, eliminamos também o erro crasso de nos acharmos o dono da última palavra sobre o tema. A criatividade implica em ver sempre de forma diferente o mesmo assunto. Desta forma, quando alguém quer mudar tudo, não soube mudar a si mesmo a respeito do tema, pois há sempre uma forma atual de abordá-lo.

O exercício de análise de conceitos deve se basear na distinção entre fato, valor e conceito. O fato é algo que se observa; pode-se quantificar. Por exemplo, O metal funde-se a x graus centígrados. Temos que ir esquentando o metal e, paralelamente, anotando os valores obtidos, a fim de chegarmos ao grau de ebulição do mesmo. O valor é um juízo que fazemos acerca de um fato, no sentido de gostar ou não gostar, de achar bom o ruim. O conceito é algo mais complexo. Temos que colocar em palavras o que concebemos com a mente. Se nos perguntarem, por exemplo, sobre o conceito de Deus, temos alguma dificuldade de dar uma resposta.

É agindo metodicamente que vamos aumentando o nosso dicionário de palavras. Saibamos aguardá-las e aprisioná-las, à semelhança do que fazem os pescadores quando jogam as suas redes no mar. Conforme o tamanho da abertura da rede, tal é o peixe que pegam.



Fonte de Consulta

WILSON, John. Pensar com Conceitos. São Paulo: Martins Fontes, 2001. (Coleção Ferramentas)


São Paulo, 20/10/2003
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23 outubro 2005

Marcha da Verdade

Em filosofia, a verdade é a correspondência entre o observador e a coisa observada. Todas as vezes que a nossa visão microcósmica coincidir com o grande mundo macrocosmo, podemos dizer que estamos de posse da verdade (relativa, é claro).

No transcorrer da vida, somos sempre levados para os caminhos que desejamos percorrer. É uma espécie de determinismo orientando os nossos passos. Por esta razão, diz-se que quem nasceu para ser prego nunca chegará a ser martelo. Como cada um de nós tem um projeto de vida distinto, o que para uns chega rápido para outros pode demorar muito. É que o destino gosta das peripécias da existência, dando-nos o tempo suficiente para nos preparamos para a missão que temos de cumprir.

Quer queiramos ou não, a verdade segue sua marcha firme e segura. Não são poucas as orientações dos grandes mestres da humanidade alertando-nos para tal mister. Observe a exortação de Cristo quando nos diz que não há nada secreto que não venha à luz. Essa advertência leva-nos a pensar que nada do que esteja sendo burilado em nosso interior, tanto para o bem como para o mal, ficará para sempre escondido. Um dia, quando menos esperarmos, estaremos nos beneficiando daquilo que foi preparado hora por hora, dia por dia, mês por mês, ano por ano.

O tempo, essa lima que corrói silenciosamente, mostra, no momento certo, todo o desfecho do bem e do mal. Não é pois por crescer em poder que o falso chegará a ser verdadeiro; muitas vezes, a verdade se esconde no fundo, e são necessários muitos anos para descobri-la. Por isso, todos os que sofrem no caminho que a fé os lançar, não deveriam se lastimar das agruras do destino, mas, ao contrário, pedir forças ao Alto para suportar com galhardia a realização plena dos desígnios de Deus.

Seguir uma determinada rota, apesar das asperezas do dia-a-dia, mostra o quanto uma alma está cônscia de seus deveres. A todo o momento estamos sendo convidados para os vícios e os prazeres sensuais, os quais, se atendidos, levam-nos a estacionar à beira do caminho. Quão apertado é o caminho que nos leva à perfeição, pois para percorrê-lo temos de renunciar aos gozos da matéria, inclusive aos ímpetos do próprio personalismo. Contudo, Jesus Cristo assevera: "Aquele que perseverar até o fim será salvo".

A verdade iniciou a marcha e nada poderá detê-la. Quer dizer, estejamos preparados para aceitá-la sempre que nos bater à porta.

São Paulo, 18/06/2001
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21 outubro 2005

Nova Era



O modo de atuar e de refletir da humanidade segue as linhas do paradigma estabelecido num determinado período de tempo. Assim, para que haja uma mudança no modo de pensar do ser humano, este deve romper com o modelo antigo, caso contrário ficará escravo do passado.

De acordo com a astrologia, o planeta Terra está saindo da era de peixes e entrando na do aquário, considerada como a era da harmonia humana, de compreensão mútua e de desenvolvimento espiritual. Na mesma linha de pensamento, os esotéricos, os ocultistas e os religiosos de um modo geral acham que o ser humano, inserido no terceiro milênio, estará adquirindo o conhecimento das intuições espirituais, da psicologia do eu, da proeminência do bem sobre o mal.

Tomas Kuhn, cientista, historiador e filósofo, em a Estrutura das Revoluções Científicas, 1962, introduz-nos a ideia da mudança de paradigma nos seguintes termos: é uma nova maneira de pensar acerca de novos problemas; pode ser um princípio que estava presente o tempo inteiro sem que fosse de nosso conhecimento; não se pode acolher o novo paradigma a não ser que se abandone o antigo; novos paradigmas são recebidos quase sempre com hostilidade (como o foram, por exemplo, os de Galileu, Copérnico, Pasteur...)

O que significa a palavra paradigma? Para Kuhn, paradigmas (do grego, paradeigma) são realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante um período de tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes da ciência. Paradigma significa um esquema modelar para descrição, explicação e compreensão da realidade. É muito mais que uma teoria, pois implica uma estrutura que gera teorias, produzindo pensamentos e explicações e representado um sistema de aprender a aprender que determina todo o nosso futuro de aprendizagem.

A opção pelo sagrado ou religioso tem lugar de destaque na nova era. A religião não será apenas histórica ou dogmática, mas aquela em que o crente se apresenta como um perscrutador das coisas do espírito. O ser da nova era estará muito mais interessado em ser religioso do que ter uma religião. A opção pelo místico, pelo transcendental fará com que o indivíduo, embora vivendo neste mundo, não o seja daqui, pois estará se aprofundado no mais autêntico clima de vivência religiosa: a integração plena com os preceitos divinos do amor, da justiça e da caridade.

Para que possamos vivenciar plenamente os tempos da nova era, forçoso nos é adquirir as virtudes da paciência, da humildade e da mansuetude. Sem estas poderemos sucumbir ao peso das grandes responsabilidades.

Fonte:

RAEPER, W. e SMITH, L. Introdução ao Estudo das Idéias: Religião e Filosofia no Passado e no Presente. São Paulo, Loyola, 1997.


São Paulo, 28/05/2001
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19 outubro 2005

O que é um Mestre?


O tema tem uma interrogação que requer uma explicação. A pergunta refere-se a "um" mestre e não a "o" mestre (por excelência). Dessa forma, para bem pensar sobre este assunto, devemos buscar os vários sentidos que o termo evoca: sentido empírico, pragmático, profissional (tornar-se mestre de, ser mestre em); sentido político (mestre e dominação); sentido moral (o domínio das paixões, o domínio de si mesmo).

A palavra maître tem, em francês, o duplo sentido de mestre e senhor, dono, amo. Esta ambiguidade faz do termo mestre uma palavra polissêmica. Quer dizer, quando a usamos devemos situá-la dentro de um contexto, de uma circunstância específica, porque tanto é mestre aquele que se especializou numa profissão, como aquele que apresentou uma dissertação de mestrado, como aquele que comanda outrem. Dessa reflexão, surgem algumas questões: o que é um verdadeiro mestre? Podemos pensar o mestre por excelência? É possível diferenciar entre os mestres "de fato", reais e os falsos?

Magister, o mestre verdadeiro, é aquele que ensina; mas, ao ensinar, ele não pode exercer um domínio, uma força, porque invalida a sua própria essência. Nesse mister, pode-se dizer que há mestre e mestre. Quantos o são no verdadeiro sentido da palavra magister? Quantos são os que apequenam para que o outro cresça? Quantos de nós nos assemelhamos a Sócrates e a Jesus, exemplos de mestria? E foram considerados mestres (por excelência) simplesmente porque não se consideravam como tais. É famosa a frase de Jesus, que cognominado de mestre, disse: "Mestre é só Deus".

O mestre dominus, aquele que domina pela força, encontramo-lo aos montes. E por que há o domínio do homem sobre outro homem? Aqui também convém dizer que há dominus e dominus. Sabemos que nas sociedades organizadas temos necessidade de chefes e de subordinados, alguém que ordena e alguém que obedece. A ordem, porém, não significa que quem manda é superior ao que obedece. Contudo, o termo dominus é usado no sentido pejorativo, ou seja, aquele que manda pelo prazer de mandar, domina pelo prazer de dominar.

O mestre de si mesmo é o terceiro sentido que o termo evoca. Enquanto o magister e o dominus referem-se a um relacionamento com terceiros, este diz respeito a um relacionamento da pessoa para com ela mesma, da mesma forma que fazia Sócrates em sua prática da autoconsciência. É, também, o que Santo Agostinho nos convida a fazer, todas as noites, antes de dormir, ou seja, uma ordenação para repassarmos mentalmente o dia no sentido de verificar como fomos em pensamentos, palavras e ações.

Exercitemos a nossa mestria. Não nos deixemos seduzir pelos falsos discursos, pelas facilidades da vida. Antes, porém, envidemos esforços para entrar pela porta estreita, para sermos os verdadeiros mestres de nós mesmos.



Fonte:

FOLSCHEID, Dominique e WUNENBURGER, Jean-Jacques. Metodologia Filosófica. Tradução de Paulo Neves. 2. ed., São Paulo: Martins Fontes, 2002. (Ferramentas)


São Paulo, 15/07/2002
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15 outubro 2005

Aqui e Agora


As circunstâncias nas quais estamos inseridos nem sempre dependem de nossa vontade, pois, quer queiramos ou não, se tivermos de passar por uma dificuldade, ela se apresentará à nossa frente. Podemos assim ser impotentes na escolha de uma situação, mas não na execução dos atos que dali advém. Quer dizer, optar pelo exercício do bem ou do mal depende muito mais da nossa fortaleza moral do que das sugestões que recebemos do meio ambiente.

Um dos princípios básicos para o engrandecimento do espírito é ter a mente aberta. Nesse sentido, todas as vezes que formos a um determinado evento, ou seja, palestra, aula, reunião, diversão, convém irmos isentos de idéias preconcebidas. Por quê? Porque a ideia preconcebida ou preconceito, que é um conceito formado antecipadamente, dificulta a verdadeira captação dos fatos. Observe, por exemplo, quando precisamos tratar com uma pessoa e uma outra nos fornece alguns detalhes de sua personalidade. O que acontece? Muitas vezes, expressamo-nos defensivamente, e criamos barreiras ao bom relacionamento.

As informações da mídia, se não soubermos filtrá-las, causam muito mais mal do que bem ao nosso conhecimento. Por quê? Enchemos o nosso cérebro de nomes, dados estatísticos, fatos extraordinários, ou seja, uma quantidade enorme de notícias fragmentadas, sem a devida explicação, análise e reflexão. Por outro lado, para que possamos aprender profundamente um assunto, há necessidade de nos debruçarmos sobre ele, vendo os prós e contras, o factível e o não factível, no sentido de formar um conceito mais justo e mais de acordo com o verdadeiro significado do tema em questão.

Assemelhar-se às crianças é bastante produtivo quando se trata de obter novos conhecimentos. Observe as suas perguntas e respostas, que muitas vezes deixam o adulto perplexo. Quando ela pergunta, ela quer saber, mas sem segundas intenções; quer saber por saber. Quando responde, dificilmente falta com a verdade, pois para ela é natural dar uma resposta objetiva. Ou seja, enquanto nós, os adultos, geralmente escolhemos o verbo, a palavra, os gestos próprios para dissimular um sentimento, elas agem espontaneamente, naturalmente, sem defesas.

Se nos preocupássemos menos com a nossa representação na sociedade, quem sabe viveríamos mais livres e felizes. Decidirmo-nos por uma vida simples e humilde não é tarefa fácil, pois a imagem da fama, do sucesso, do bem-estar raramente nos abandona. E isso tudo estimulado pela sociedade individualista e consumista dos dias atuais, em que a coisificação do ser humano passa a desempenhar papel de destaque. Cada um de nós não é uma pessoa, mas sim um número estatístico que possui x renda, x propriedades, x diplomas. A simplicidade e pureza de coração causa espanto a nós mesmos: por que ser pacífico num mundo violento?

Estejamos atentos às circunstâncias que nos rodeiam. Estar consciente do aqui e do agora é mais produtivo do que saber de cor todos os versículos da Bíblia.

São Paulo, 07/05/2001
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14 outubro 2005

O Mytho e o Logos


A tese da evolução linear do mito à razão não só é historicamente inexata como também não consegue explicar certos fenômenos culturais complexos. No caso extremo, o mito é rebaixado a uma fábula sem valor. É preciso ponderar sobre a dialética mytho/logos, pois já se afirmou que o homem é um ser mítico. Quer dizer, trazemos jungidos ao nosso psiquismo os condicionamentos das diversas narrativas fantasiosas e dos feitos das divindades do politeísmo.


Platão, na Antigüidade, parte da narrativa mítica para fundamentar o seu logos filosófico. Criava uma situação utópica, principalmente nas suas teses políticas, a fim de explicar uma realidade efetiva. Aristóteles, por outro lado, exclui a narração mitológica, enfatizando que a razão do filósofo, o logos, manifesta-se através das suas próprias estruturas discursivas: a argumentação, o raciocínio, a ordem lógica da demonstração.

A fronteira entre o mytho e o logos não é percebida com facilidade. Nesse sentido, a astrologia e as demais pseudociências do universo acabaram caindo no mito que combatiam. Vindas para desmoronar o sacrifício das religiões oficiais, terminam criando o cosmo como um grande Anthropos, um homem cuja inteligência reside no movimento eterno e harmônico das esferas celestes, cujos olhos correspondem ao Sol e à Lua e a cujos pés jaz a matéria, num jogo sutil de correspondências regido por um único tema que varia até o infinito.

O mytho/logos do cristianismo primitivo apresenta uma novidade: o logos se divinizou e ao mesmo tempo se personalizou a ponto de coincidir com a própria pessoa do fundador. Observe que o mito da Trindade provindo das grandes religiões da Antigüidade - como vemos na trindade egípcia formada por Osíris, Ísis e Horus - deu à Igreja a possibilidade de incluir o Cristo na Mitologia Cristã como a segunda pessoa de Deus, de maneira que a Igreja, fundada pelo Cristo segundo a interpretação católica-romana, podia se apresentar como instituição divina do próprio Deus em pessoa.

A ciência e o mito se degladiam, mas nem sempre com muita razão. A ciência pelo seu próprio objeto, que é baseado nos fatos e nas comprovações estatísticas, acaba desmitificando o mito. Acontece que a ciência elabora apenas com o sensível. Ignora que a narração, o mito, é um instrumento de expressão certamente diferente da argumentação lógica do logos, mas no fim o mito não é menos lógico, não é menos racional, nem está menos ligado a uma exigência e a um projeto de conhecimento.

A ambígua conexão do mito com uma dimensão temporal não pode nos tirar o ensejo de penetrar-lhe na sua profundidade. Vejamo-lo sem preconceitos e poderemos lançar-nos no campo mais vasto de nossa compreensão espiritual.

Fonte: GIL, F. (Editor). Enciclopedia Einaudi. Lisboa, Imprensa Nacional, 1985-1991.


São Paulo, 30/4/1998


Complemento (julho de 2009): Mythologein
No livro, A República, a articulação entre o mythos e o logos é tamanha, que Platão usa o verbo mythologein para expressar essa junção. Há, assim, o mito propriamente dito, como é o caso do mito do anel de Giges, e formulações míticas completamente misturadas com o discurso argumentativo, como é o caso do mito da caverna. Mythologein é verbo intraduzível. Todas as figuras emanadas deste verbo servem para um aprofundamento do pensamento, pois tudo o que aí é dito dirige-se à inteligência no seu nível mais elevado.

O livro I, de A República, desdobra-se na intenção de responder à questão: “o que é justo?”. Tem como objetivo, no meio de toda a mistura do mythos/lógos obter a unidade. Céfalo, o anfitrião da conversa filosófica, sabe perfeitamente o que é justo. Achava-se leve e preparado para a morte. Mas esse sentimento de leveza diante da morte é como se fosse um mito: diante da morte não importa parecer justo, mas sê-lo. Eis o um: ser e não parece ser. Mas o que é o um? O que é o ser? O que é o parecer ser? Depois da confusão, este questionamento requer um esclarecimento, que Platão dará em forma de uma demonstração do bem.

Platão parte de uma analogia entre o bem e o Sol. É a descrição do mito da caverna. Não o faz para facilitar o tema, mas para aprofundá-lo. Há dificuldade de se entender os homens presos no fundo da caverna. Sua compreensão requer uma reconstrução da visão do ser humano: é o próprio ser humano que tem que se ver como homem livre ou como escravo. Contudo, o ser humano deverá fazer um esforço de se deslocar do lugar que está para um nível de mais compreensão, para o Sol.

Para Platão, a transformação da criança em adulto não é tarefa fácil. Por isso, em cada etapa do caminho há a confusão entre o ser e o parecer ser. É por isso que tomamos os sonhos pela realidade. Vemos como crianças, quando deveríamos ver como homens maduros. Mas, para vermos como homens maduros devemos aprender, pois para os gregos o logismós, o discernimento, é o primeiro estado do aprender e é quando e onde começa a vir a ser homem. Suportar a clareza do Sol é que mostra a diferença entre o ser e o parecer ser.
Os gregos tinham a convicção de que só quem aprende é que pode ensinar. Por isso, eles acreditavam que somente os filósofos, que percorreram o rude caminho da aprendizagem até o Sol, eram os seres capacitados a ensinar.

BOCAYUVA, Izabela. Para uma Nova Interpretação do Relacionamento entre Mito e Logos na Origem da Filosofia. In: MEES, Leonardo, PIZZOLANTE, Romulo (Orgs.). O Presente do Filósofo: Homenagem a Gilvan Fogel. Rio de Janeiro: Mauad X, 2008.


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12 outubro 2005

Síntese das Idéias Filosóficas de Descartes


René Descartes (1596-1650), insatisfeito com as informações adquiridas dos mestres e dos livros, faz tábua rasa, e, constrói o seu próprio método de obtenção do conhecimento. O verdadeiro ponto de partida da Filosofia cartesiana é a matemática, visto oferecer evidência e certeza. Os princípios incondicionados desta ciência permitem a Descartes romper com o modelo de pensamento estabelecido pela Escolástica. O rigor matemático de suas análises o influenciam a conceber Deus, Espírito e Matéria, em termos mecanicistas, desprezando a forma, as idéias e os universais.

As suas suposições sobre o Universo, Deus, Espírito, Matéria etc. originavam-se na hipótese da existência de uma substância. A substância, por sua vez, é aquilo que existe por si e independente de qualquer outra coisa. Havia, assim, uma substância absoluta – Deus – e substâncias relativas, provenientes da primeira, que eram o espírito e o corpo. Ao afirmar que a substância espírito era distinta da substância corpo, acabou criando o dualismo, teoria esta contestada por outros pensadores, não só de sua época, como também de tempos posteriores.

A substância espírito – res cogitans - tinha como atributo o pensamento; a substância corpo – res extensa – tinha como atributo a extensão (comprimento, largura e espessura). Sendo um independente do outro, encontrou grande dificuldade para relacioná-los. Perguntava: como se explica, então, que, se uma pessoa desejar andar, anda? O espírito diz-nos ele, é perturbado pela matéria por meio dos processos que se verificam no corpo. O espírito e o corpo fazem contato com a glândula pineal. O corpo ou o espírito move-a. Qualquer que seja o caso, o movimento é transmitido ao outro que, então, também se move: eu quero andar; transmito o movimento à glândula pineal; esta o transmite ao corpo, e eu ando.

Em seu Discurso do Método, o indivíduo deve partir de premissas que não possam ser contestadas. Parece-lhe que a Matemática fornecia tais premissas. Via, nela, o modelo do raciocínio exato, o método de raciocinar com base em verdades evidentes – procurou as verdades evidentes por si mesmo – a única que descobriu foi: Penso, logo existo. Tomando-a, como base, formulou um corpo de idéias que acreditava não pudessem ser contestadas. Tais idéias, para ele, eram claras, distintas e, portanto, verdadeiras e fora de discussão.

Como Descartes chega à prova da existência de Deus? Dizia: "Cogito ergo sum", penso, logo existo. Mas o cogito, ao evidenciar a existência de quem pensa, permite estabelecer o seguinte raciocínio: se eu existo, sei que sou finito. Porém, a idéia do finito implica ao mesmo tempo a do infinito. Para Descartes, o infinito é Deus. Descobre Deus pela sua própria razão e não vindo de fora como o Deus de Platão e dos escolásticos.

Assim, o conhecimento vem ao homem não pela percepção dos sentidos, mas através de cuidadoso raciocínio. Partindo-se de premissas fundamentais, cada ideia só poderá ser aceita depois de ser deduzida logicamente e mostrar-se que é clara e distinta.

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11 outubro 2005

Philosophia

A palavra filosofia, pelo fato de ser usada sob diversos ângulos, acabou perdendo o seu significado original. É preciso, pois, buscar o seu verdadeiro conceito, ou seja, a philosophia dos gregos que, enquanto palavra grega, é um caminho. Nesse sentido, a palavra grega philosophia é um caminho sobre o qual estamos a caminho. Quer dizer, há sempre uma procura renovada do arche, da ratio, do ti estin.

O espanto é o primeiro signo da philosophia grega. Esse espanto, denominado pathos, não está simplesmente no começo da filosofia. O espanto carrega a Filosofia e impera em seu interior. Traduzimos habitualmente a palavra pathos por paixão, turbilhão afetivo. Mas pathos remonta à paschein, sofrer, agüentar, suportar tolerar, deixar-se levar por, deixar-se con-vocar por. É uma dis-posição interior na qual o indivíduo se detém ante a grandeza do universo. Assim sendo, espanto é a dis-posição na qual e para qual o ser do ente se abre.

O espanto deve ter necessariamente uma cor-respondência, ou seja, res-ponder ao que foi perguntado. "Corresponder" significa ser dis-posto. Enquanto dis-posta e con-vocada a correspondência é essencialmente uma dis-posição. Por isso, o nosso comportamento é cada vez dis-posto desta ou daquela maneira. A dis-posição não é um concerto de sentimentos que emergem casualmente, que apenas acompanham a correspondência. A correspondência deve ser essencialmente dinâmica, sempre em vias de ser construída, de ser processada.

A "destruição" deve fazer parte do esforço para apreender o real significado da palavra philosofia. A "destruição" não representa uma ruptura com a história, nem uma negação da história, mas uma apropriação e transformação do que foi transmitido. Assim sendo, destruição não significa ruína, mas desmontar, demolir, por-de-lado. Quer dizer, destruição é abrir os nossos ouvidos, torná-los livres e dóceis à inspiração do ser do ente. Somente assim conseguiremos nos situar na perfeita correspondência com o que a palavra philosophia expressa.

O espanto é, enquanto pathos, a arche da Filosofia. Arche designa aquilo de onde algo surge. Buscar a arche da Philosophia é situar-se dentro do espírito pelo qual os gregos consideravam a Filosofia. Os gregos não o faziam através das emoções, dos sentimentos, mas usavam o logos, a ratio. Em outras palavras, queriam ter certeza de que conheciam o que conheciam. É por esta razão que Sócrates usava a sua famosa maiêutica, ou seja, colocar em dúvida o conhecimento vigente, para aprofundá-lo e descobrir novas verdades.

Lembremo-nos de que é somente através de estudos constantes e reflexões profundas que conseguiremos penetrar no âmago do conhecimento verdadeiro. 

Fonte de Consulta

HEIDEGGER, M. Que É Isto – A Filosofia? Identidade e Diferença. São Paulo, Duas Cidades, 1971.

São Paulo, 12/03/1999
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09 outubro 2005

Panteísmo: Pequeno Escorço Histórico

Panteísmo – Do grego pan "tudo", "todo" e theos Deus é uma doutrina filosófica que identifica Deus e o mundo, o criador e a criação, ou seja, considera Deus como a universidade dos seres ou conjunto de tudo quanto existe. Diz-se também que é sistema filosófico segundo o qual tudo é, não apenas por Deus mas em Deus. Para o estoicismo, o divino não é transcendente (isto é, superior e exterior ao mundo, como no cristianismo), mas imanente (está situado em tudo na natureza).

O termo panteísmo foi criado por John Toland, no início do século XVIII. Contudo, a idéia panteísta já existia há muito tempo. Emerge da teogonia hindu, que concebia o infinito como imanente do espírito universal. Depois passou ao zoroastrismo, à filosofia grega e ao gnosticismo cristão, que, séculos depois, encontrou a sua expressão mais alta nos trabalhos do judeu Baruch Espinosa (1632-1677), filho de pais portugueses.

O panteísmo da Grécia antiga teve os contributos de Sócrates, Platão, Aristóteles e outros. Mas, foi com Zenão de Cicio (340-264), o fundador do estoicismo, que houve uma síntese perfeita de todas as teorias anteriores. Sabe-se que Zenão procurou combinar o "logos" de Heráclito, o "nus", motor do mundo, de Anaxágoras, as "idéias" de Platão e as "enteléquias" de Aristóteles. Para ele, "Deus acha-se no homem e na natureza, natureza e Deus são uma mesma coisa".

Giordano Bruno (1548-1600), considerado o precursor do panteísmo moderno, diz: "Deus é o ser universal em que tudo submete, que se transforma em todas as coisas e com elas constitui uma única realidade". Este pensamento chega a Baruch Espinosa, que empresta ao panteísmo uma forma científica: "A substância é o ente que não depende de causas. E como não pode produzir outra substância, segue-se que uma única existe, que é infinita e dotada de duas propriedades, igualmente infinitas – o pensamento e a extensão".

Fichte, Scheling e Hegel também desenvolvem as suas teorias acerca do panteísmo. Hegel, por exemplo, professa uma doutrina que deve ser considerada o apogeu do panteísmo: "O princípio de tudo não é o sujeito pensante nem o objeto pensado mas a ideia  que é o ente comum em que se resolvem todas as idéias, porque tudo o que é ideal é real e vice-versa". Para ele, Deus ou o absoluto é a ideia.

Como vemos, as discussões panteístas tornam Deus bastante obscuro. A Doutrina Espírita esclarece a questão com uma única frase: "Deus é a inteligência suprema, causa primária de todas as coisas".


Fonte de Consulta

GRANDE ENCICLOPÉDIA PORTUGUESA E BRASILEIRA. Lisboa/Rio de Janeiro: Editorial Enciclopédia, [s.d. p.]

São Paulo, 10/2/2004
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05 outubro 2005

Escrever é Pensar?


O tema vem a calhar, pois sentimo-nos diminuídos diante de um autor que editou mais de cem livros. Perguntamo-nos: como ele consegue fazer tanto e eu nada? Esta seria a pergunta relevante? Não estamos confundindo quantidade com qualidade? Suponhamos que ele componha estórias de amor e outras futilidades. Será que, por ele ter perdido tempo compondo-as, devemos nós perder o nosso para lê-las? É preciso cuidado. O que interessa extrair de um escrito? Algo que nos ajude a pensar melhor.

O que se entende por pensar? Pensar vem do latim sopesar e significa ponderar, avaliar, refletir. A metodologia filosófica lembra-nos de que não devemos conhecer por conhecer, mas conhecer para pensar; sugere-nos que devemos ruminar tudo aquilo que nos passa diante dos olhos, para que possamos construir o nosso próprio raciocínio. Temos a obrigação não só de conhecer os autores que nos precederam, mas também lhes sugar o que melhor produziram. Apropriar-se de um conhecimento alheio não é parafraseá-lo, mas construir solidamente aquele raciocínio como se fosse nosso.

A palavra escrever, em sentido comum, é colocar no papel o que está primeiro no cérebro. Num sentido mais amplo, podemos dizer que é a expressão do discurso do ser humano. Ou seja, nós só podemos colocar no papel aquilo que se encontra dentro de nós próprios. Se componho estórias de amor, é porque elas já existem em potência no meu psiquismo. Em outras palavras, os meus escritos revelam a maneira que eu sou. Se sou despótico, pessimista, violento, terei a tendência de passar isso para o papel; se sou bondoso, amante da verdade e da justiça, farei o contrário.

Os livros, em sua maioria, auxiliam a pensar? Temos dúvida. Muitos trazem informações, outros contam estórias, outros descrevem biografias, outros são pornográficos. Eles, em si mesmos, não dizem muita coisa. Vale mais a maneira que os lemos. Se tivermos um objetivo determinado, tiraremos proveito até do pior dos livros. Contudo, para ajudar a pensar, o autor deve se expressar claramente no sentido de sugerir uma reflexão, uma mudança de comportamento. Nesse mister, Einstein já nos dizia que "quem lê demais e usa o cérebro de menos adquire a preguiça de pensar". Temos de fazer nosso o motivo da reflexão.

Como, porém, tornar um texto apto à reflexão filosófica? Em primeiro lugar a disposição: se o texto não estiver legível e bem distribuído nas páginas, o leitor poderá abandoná-lo tão logo o pegue para ler. Observe quando nos pedem para ler alguma coisa. Os nossos olhos procuram sintetizar e colocar títulos para melhor dispor o próprio pensamento. É isso o que devemos fazer para o leitor. Em segundo lugar, o texto deve enunciar ou sugerir uma mudança de atitude. Por que? Por que na raiz da palavra aprendizagem está a mudança de comportamento.

Estejamos sempre atentos. Para bem viver nós não precisamos de muitas informações e nem de muitas leituras. Basta que elas sejam essenciais ao nosso crescimento moral e espiritual.

São Paulo, 02/08/2002
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04 outubro 2005

Violência

Violência – Da raiz vis significa o uso da força para atingir determinados objetivos. A violência serve muitas vezes para estimular o crescimento das atividades econômicas, pois os indivíduos para se defenderem, começam a produzir mais armas, mais grades de proteção, alarmes etc. Os meios acabam justificando fins, isto é, como há o crime e o assalto, o cidadão precisa defender-se. Observe a guerra dos Estados Unidos contra o Iraque: até hoje não se descobriu as armas químicas, motivo da ocupação norte-americana.

Geralmente, costuma-se fazer comparações entre o comportamento agressivo dos animais e o comportamento do homem. Colocam-se alguns ratos dentro de um labirinto; depois de algum tempo, eles estão brigando um com o outro. Por comparação, diz-se que o homem apinhado nos grandes centros é portador de agressividade. Contudo, não é preciso estudar o animal para explicar a violência no homem. A observação da superpopulação de uma favela, em várias cidades do mundo, é o suficiente.

A communis opinio entende que a violência origina-se do ódio. Pesquisas em Ciências Sociais nos mostram que a violência é mais natural do que se pode imaginar. O ódio não é uma reação automática à miséria e ao sofrimento como tais; ninguém reage com um sentimento de ódio a uma doença incurável. O indivíduo sente ódio quando percebe que um acontecimento está impregnado de algum tipo de injustiça. Quando acha que aquele status quo pode e deve ser mudado, o que pode transformar o ódio em violência.

Registremos também a ocorrência da violência, tanto manifesta como velada. Tomemos, como exemplo, o relato bíblico em que Deus expulsa Adão e Eva do paraíso. A violência não está manifesta, mas velada, pois ninguém bateu em ninguém. Se Deus é todo bondade e todo misericórdia, como Ele poderia, ao mesmo tempo, mostrar o seu contrário, expulsando os seus próprios filhos, simplesmente porque o desobedeceram? O perdão não estaria mais de acordo com sua mansuetude?

A sociedade, influenciada pelas idéias de grandes pensadores, tais como Hobbes, Darwin e outros, acabam ajudando a automatizar a violência em nossas ações. Hobbes fala que "o homem é lobo do próprio homem", Darwin, que estudou a evolução das espécies, empresta à sociedade a "seleção dos mais aptos", em que o homem acaba pisando o seu semelhante para conseguir a sua ascensão ao poder. A lei de cooperação, ensinada por Jesus, é deixada de lado como coisa retrógrada. Contudo, como a verdade não admite contestação, mais dias menos dias, ela refulgirá com todo o seu brilho.

Quer queiramos ou não, o tempo, o grande mestre da humanidade, acaba por colocar todas as coisas no seu devido lugar. E a norma trazida por Jesus será o lema de toda a humanidade, ou seja, "cada um deve fazer aos outros o que gostaria que os outros o fizessem".

São Paulo, 26/11/2003
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03 outubro 2005

O Problema e sua Solução

O problema pode se descrito como uma situação de tensão sentida pela matéria viva, cada vez que um de seus afetos não encontra meio de extinção imediato ou manifesto. Diante deste conceito, os seres inanimados não teriam problema, pois não sentem este tipo de tensão. Na acepção corrente, podemos dizer que o problema é um incômodo, uma contrariedade, um mal-estar, uma oposição ao nosso pensar. Lembremo-nos também de que o problema só é realmente válido quando o sentimos em nossa própria pele. Por isso, ficar imaginando situações ou respostas que vamos dar àqueles que nos perguntarem, é perda de tempo e de energia vital.

Para que um problema se torne real, convém, primeiramente, desestruturá-lo de nós mesmos. Para isso devemos organizar uma ficha do problema, tentando responder algumas perguntas. Quem nos trouxe o problema? Por que a nós? Qual o status hierárquico dessa pessoa? Para qual finalidade? Uma vez recebido o problema, verificar se somos nós mesmos que devemos dar a resposta, se não há outra pessoa, inclusive mais capacitada do que nós. É preciso também ponderar se ele é inerente à alçada de nossa função ou da função de outro membro da empresa ou entidade em que estivermos ligados. Isso tudo se chama mapeamento do problema.

Os psicólogos, os sociólogos e outros profissionais afins desenvolveram teorias sobre o comportamento humano baseando-se nos resultados de suas pesquisas de campo. Eles descobriram que num grupo há sempre atitudes negativas e conformistas. Para eles, o negativo se expressa por uma reação ao novo. As pessoas dizem: isso não vai dar certo; vai muito além de nossa capacidade; não estamos preparados para tal investimento. No que tange ao conformismo, dizem que precisamos de uma boa dose, pois se não houver adesão dos membros de um grupo, nenhum projeto será realizado a contento.

Para a resolução dos problemas, sugere-se a formação dos "grupos problem-solving", em que o número ideal de participantes deveria oscilar entre 6 e 8 pessoas. Em cada grupo, logicamente haverá um líder. Este, desempenhando a função de coordenador, deve ser uma pessoa capaz de saber ouvir e incentivar todos os membros a expressarem as suas opiniões, pois quando alguém se cala por falta de oportunidade, ele acaba por distanciar-se do grupo e nunca mais voltar. É preferível que o líder seja empático ao invés de simpático. O empático sente como, isto é, identifica-se com o próximo; o simpático sente com, ou seja, atribui a outros afetos que lhe são próprios.

Para o bom encaminhamento do problema o sujeito deve ser criativo. Por criativo, entende-se a pessoa que é aberta ao novo, que se coloca como ouvinte, que é perspicaz e que sabe distribuir as tarefas para que todos se sintam como co-produtores da idéia. Ele não se coloca à frente dos outros para mandar, mas para ordenar o trabalho dos indivíduos no sentido de atingir um fim comum, proposto pelo próprio grupo. Se fizer o contrário, se agir exclusivamente de acordo com a sua cabeça, dificultará a livre coesão das pessoas envolvidas no processo.

Enfrentemos os bloqueios que a circunstância nos apresenta. Somente assim caminharemos para a plena execução dos deveres que a divindade nos reservou. Perseveremos e esperemos por dias melhores.

Fonte de Consulta

VIDAL, Florence. Problem-Solving: Metodologia Geral da Criatividade. Tradução de Agnes Cretella. São Paulo: Bestseller, 1977.

São Paulo, 01/11/2002
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02 outubro 2005

Espanto e Filosofia

A Filosofia originou-se em Mileto, no século VI a.C. Pergunta-se: o que existia antes? Como algo pode surgir repentinamente, se as idéias sofrem um processo de evolução? Partindo-se da mitologia, forma-se uma análise mais correta. Na mitologia, encontramos as grandes explicações sobre a origem do universo, do homem e de todas as coisas sobre a face da Terra. O grande mérito da filosofia grega foi o de propor um método para a absorção do real, iniciando pela surpresa, pela admiração.

O espanto (tò thaumázeisé), como dissemos acima, é o princípio da filosofia. Observe que tanto Platão (Teeteto, 155d) quanto Aristóteles (Metafísica, A2, 982d) diziam que a metafísica se originava na admiração. Nesse sentido, os primeiros filósofos foram aqueles que, contemplando o espetáculo, familiar, da abóbada celeste, e sentindo-se colhidos de admiração perante o movimento das estrelas e dos planetas, a si próprios formularam questões a propósito de um espetáculo até então passivamente aceito por todo o mundo. A ironia e a maiêutica socrática propunham, também, uma espécie de curto-circuito, que jogava o interlocutor na rota da abertura intelectual.

A pedagogia do filósofo torna-se, muitas vezes, uma dificuldade para o avanço da filosofia. Sócrates, Platão, Descartes, Hegel e outros começaram pelo espanto, pelo zero, por uma espécie de tábua rasa. Alguns deles, contudo, tão logo se achavam possuidores do conteúdo filosófico, negavam esse direito aos novos filósofos, entendendo que estes deveriam dar continuidade ao que eles haviam descoberto. Quer dizer, a posteridade não precisava mais do espanto e da admiração, características próprias do ato de filosofar.

O questionamento é requisito essencial no ato de filosofar. No âmago da questão está embutida a resposta. O fim e o começo estão unidos de tal forma que, muitas vezes, a racionalidade especulativa não consegue compreender. Por exemplo, como absorver diretamente a verdade e o bem, sem começar pelo erro ou pelo mal? Por que não podemos captar de imediato o bem e a verdade? Os filósofos têm dificuldade de dar uma resposta satisfatória a essas questões. Eles não entendem que a vida humana está acima da filosofia e da ciência. Preocupam-se apenas em especular racionalmente.

O estudo da filosofia não nos isenta da inquietação, ao contrário, aumenta-a. É ela que impulsiona o nosso pensamento para o progresso. Sabemos que, seguindo os caminhos que outros já percorreram, o nosso trabalho se torna mais leve. Mas, como não somos simples repetidores, acabamos sofrendo as agruras que o pensamento inovador acarreta. Muitos, ao se depararem com tal situação, voltam-se desanimados para a sua comodidade. Não deveríamos proceder desta maneira, pois os que souberem sofrer, sofrerão menos no futuro.

O filósofo, à semelhança do cristão, não deve pensar somente em si. Deve, sim, colocar-se como o arauto do pensamento, como uma luz que irá redimir a ignorância de toda a humanidade.

Fonte de Consulta



GUSDORF, Georges. Tratado de Metafísica. Tradução de Antonio Pinto de Carvalho. São Paulo: Nacional, 1960.
São Paulo, 22/10/2004
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01 outubro 2005

Convite à Filosofia

O ser humano, pela condição de ser primeiro homo faber em vez de homo sapiens, acaba emprestando aos bens materiais – dinheiro e propriedades – um valor muito maior do que àquele dado aos bens espirituais. Esse tipo de escolha rouba-lhe o tempo que poderia estar sendo usado para cuidar de sua alma, um bem muito mais precioso. Quando, porém, se predispõe a tal cuidado, é sempre visto com desdém pelos que assim não pensam.

O exercício filosófico não é difícil. Basta apenas que tenhamos tempo e disposição para pensar e repensar todos os assuntos que visitarem as nossas mentes. O importante é não fugirmos de um problema, mesmo que esteja nos causando angústia e inquietação. Observe a biografia dos grandes pensadores: muitos contam que, somente depois de muitos escritos e correções, é que acabam compondo as suas peças literárias. Lembremos também do adágio: "o gênio é um por cento de inspiração e noventa e nove por cento de transpiração".

A palavra filosofia – do grego filo e sofia significa amor à sabedoria, mas não qualquer sabedoria, porém a sabedoria que nos leva à descoberta da verdade. Com relação à descoberta da verdade, René Descartes dá-nos uma contribuição valiosa. Para ele, seria muito mais produtivo descobrir o espírito à captação da verdade do que correr pressurosamente na busca da mesma. Em outras palavras, esforçarmo-nos por purificar o vaso interior deve ter um peso muito maior do que buscar reconforto nos escritos alheios. Repassar mentalmente o dia, como fazia Santo Agostinho, não deixa de ser um excelente exercício de reflexão filosófica.

O espanto, a dúvida e a contradição são requisitos fundamentais para o filosofar. Ao sermos bafejados por um insight, parece-nos que todo o nosso ser sofre um realinhamento comportamental. Assim, o espanto mostra-nos que há outra forma de analisar o mesmo problema; a dúvida, não qualquer dúvida, mas aquela que nos leva ao encontro da verdade, dá-nos novo alento às nossas pesquisas; a contradição, por sua vez, faz-nos confirmar ou negar o conhecimento que pensávamos ter sobre um determinado objeto.

A filosofia é a mãe de todas as ciências, porque foi dela que partiram todos os ramos do conhecimento. Ela está acima das ciências, por que vai ao encontro das causas primeiras e procura colocar tudo em termos globais, holísticos. Comparativamente falando, a ciência procura a parte, o corte da realidade; a filosofia pega essa parte, esse corte e o relaciona com o todo.

O pensamento filosófico clama pelo pensamento ecológico. Os furacões "Tsunami" e "Katrina" são provenientes do aquecimento global a que estamos assistindo. É preciso promover, assim, um desenvolvimento sustentado da economia, para que possamos deixar o Planeta em condições de ser habitado pelos nossos netos. Pensemos em termos cósmicos: o Planeta Terra é, grosso modo, a soma de todas as atividades dos seres humanos: manuais ou mentais. Nesse sentido, qualquer coisa que fizermos, por mais insignificante que seja, terá a sua repercussão no Universo, porque dele fazemos parte.

Os conhecimentos filosóficos devem ser absorvidos de forma natural. Eles se assemelham aos cuidados que devemos ter para com uma planta: aguando-a em demasia pode vir a morrer; não jogando água nenhuma, também. O seu crescimento depende da quantidade de água justa: nem mais, nem menos.

São Paulo, 21/9/2005
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