04 julho 2008

Zaratustra

Zoroastro (660-580 a.C.) é o suposto autor do Zend-Avesta, livro sagrado do mazdeísmo, cujo dogma essencial é o dualismo de dois deuses em luta: o da luz e o das trevas. O Zaratustra (ou Zoroastro) de Nietzsche é a antítese do Zoroastro histórico, pois as suas teses têm uma mensagem não-dualista. De posse desse princípio, adquirido em seus 10 anos de reclusão no topo de uma montanha, critica todo o tipo de ideia — religiosa, científica e filosófica —, que se fundamenta numa acepção dualista.

No prólogo de Assim Falou Zaratustra, critica Jesus e Platão. Aos 30 anos Zaratustra deixa a sua terra natal e vai meditar no topo da montanha. É uma contraposição a Jesus que, aos 30 anos, saiu para pregar a sua doutrina. Zaratustra convida o sol a entrar na caverna para iluminá-la. É uma tese oposta a Platão que, na sua teoria das ideias, expõe que um dos escravos, que ele chamou filósofo, deixa a caverna e vai ter com o sol (conhecimento). O livro todo versará sobre essa percepção dualista do ser humano.

A ideia central do livro é a morte de Deus. De acordo com Nietzsche, a morte de Deus pode ser vista: a) para o Homem, a morte de Jesus Cristo expiando na cruz os pecados dos homens; b) o Fato do desaparecimento de Deus de nossa cultura; c) para o Último Homem, supressão de um senhor demasiado exigente; d) para o Homem Superior, um desaparecimento que ele se recusa a levar em conta; f) para o Criador, uma etapa na criação do super-homem, etapa destruidora, necessária, com a qual ele se alegra, e cuja realização acelera, mas apenas uma etapa, à qual sucede uma etapa de reconstrução.

A meta a atingir é o super-homem. O super-homem é a linha de chegada do último homem, completamente reconstruído, em que a razão e a crença no além-túmulo estão superadas. É um homem que vive o "aqui e o agora", não se importando com o que há de vir, porque a conquista da sua felicidade se resume em aproveitar o dia que passa. Pode-se dizer que o super-homem já superou todas as etapas que o crescimento espiritual requer. Enfim, ele soube vencer toda a sorte de preconceitos e ideias dualistas que lhe foram passadas ao longo do tempo.

Para que o homem se torne um super-homem, ele necessita da vontade de potência. A vontade de potência é intenção profunda de um sair de uma potência; o que esse ser ou essa potência quer; é a vontade de superar a si mesmo; transcender. Nesse sentido, todo ser humano é vontade de potência, pois está sempre querendo ou negando alguma coisa.

A potência, a realidade mais profunda de todos os seres deve, em última análise, vencer o niilismo, que é a desvalorização do mundo em nome de um além-mundo ou, ainda, a depreciação do além-mundo e deste. A sua ênfase no aqui e no agora mostra que ser humano deverá envidar muitos esforços para se libertar dos apelos religiosos da recompensa futura. Ele terá que se esforçar para viver o presente, com bastante coragem para agir e sofrer em benefício da verdade.

Assim Falou Zaratustra é um bom exercício para a edificação do nosso pensamento. Sopesemos cada uma de suas afirmações, procurando separar o joio do trigo, no sentido de uma construção racional de uma nova moral.

Fonte de Consulta

HÉBER-SUFFRIN, Pierre. O "Zaratustra" de Nietzsche. Tradução de Lucy Magalhães. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.

Valor e Juízo de Valor

A palavra valor é polissêmica, ou seja, impregnada de diversos sentidos. Linguisticamente falando, ela vem de valere, que significa ser forte, ter boa saúde. Toma, também, o sentido de qualidade, de coragem, de virtude. Na matemática, fala-se em valor de uma variável, de uma função, de uma grandeza. Em Economia, estabelece-se a distinção entre valor de uso e valor de troca. Em Economia Política, usa o termo valor nominal para designar as distorções quanto ao poder de compra do consumidor. Em Sociologia, o valor social é definido em termos de ideias, normas e conhecimentos técnicos.

O valor, em Filosofia, recebeu o nome de axiologia, de axios, em grego, o que é preciso, digno de ser estimado. Expressa a primazia do querer sobre o inteligir. O valor não pode ser transformado em conhecimento, pois este envolve o raciocínio, a lógica, a teoria. Pode-se dizer que o valor está mais ligado à intuição, ao sentimento, uma espécie de sexto sentido que os grandes homens da humanidade têm ao se relacionar com um fato qualquer. Eles captam a essência num piscar de olhos.

Em termos de construção do conhecimento, a Ciência explica como funciona, o que a coisa é, no sentido de buscar as causas mais próximas. À Filosofia cabe explicar o porquê daquele fato. A ciência é o que é; tem o condão de ser positiva, ou seja, estabelecer hipóteses e testá-las. A Filosofia relaciona-se com o que deve ser, emite um juízo de valor. Isto, contudo, não quer dizer que o cientista não filosofa e nem que o filósofo não faz ciência. Não é porque o cientista fez um corte na realidade, para melhor compreendê-la, que ele não vislumbrou o todo.

A separação entre juízo de realidade e juízo de valor é outra dificuldade. Diz-se que a realidade é o que é e o juízo aquilo que dela se pensa. Acontece, porém, que tanto a ferramenta científica quanto a ferramenta filosófica estão relacionadas com o mesmo fato observado, e nem sempre é fácil separar uma análise da outra. Observe, por exemplo, a seguinte sentença: o copo de leite está quente. Nele há um juízo de realidade e um juízo de valor. Pode-se entender que o leite está quente, e não deve ser tomado, ou que o leite está quente, não frio, factível de ser tomado.

Há diferença entre o observador e a coisa observada? Krishnamurti, filósofo indiano, acha que o observador e a coisa observada é uma e única coisa, pois não podemos separar aquele que olha do objeto visto. Quando reclamamos de nossas ações, dá-se impressão que a ação não foi cometida por nós, mas por um elemento transcendente a nós mesmos. Dentro desse raciocínio, acabamos achando que sempre estamos com a razão e o outro em erro. É ele que nos perturba, e não nós que o aborrecemos. Onde está a verdade?

Como vemos, cada vez mais os valores científicos, filosóficos e religiosos se comprimem no sentido de nos fazer aproximar, o mais possível, à verdadeira realidade, aquela realidade que nos liberta do erro.

Fonte de Consulta

AGATTI, Antonio Paschoal Rodolpho. Os Valores e os Fatos: o Desafio em Ciências Humanas. São Paulo: Ibrasa, 1977. (Biblioteca Psicológica e Educação, 87)




Vida: Essência e Existência

Vida — conjunto dos fenômenos de toda a espécie (particularmente de nutrição e reprodução) que, para os seres que têm um grau elevado de organização, estende-se do nascimento (ou da produção do germe) até a morte. Essência — substância primeira, o indispensável de uma coisa, o "fundo" do ser, metafisicamente considerado. Existência — é o fato de ser. Difere da essência, pois a existência consiste no fato de ser da essência.

A vida é quehacer. Quehacer é estar em atividade. Assim, a primeira característica da vida é a ocupação. Porém, ao ocuparmo-nos com uma coisa, primeiramente, preocupamo-nos com ela. Pensamos em realizar uma determinada ação. O que se passa em nossa mente? Divisamos, projetamos, visualizamos esse ato no tempo e no espaço. O pensar antes é um planejamento e não passa, na realidade, de uma pré-ocupação. Estar pré-ocupado é estar ocupado com o futuro.

Os nossos condicionamentos são os principais obstáculos à realização plena de nossa vida. Para que possamos progredir e ter uma existência profícua, necessitamos de nos libertar das várias camadas de condicionamento de nossa consciência. A libertação dos nossos pensamentos negativos é uma tarefa que dura a vida toda. Não nos deixarmos influenciar excessivamente pelos outros requer firmeza de ânimo e robustez de caráter.

Vocação vigilância devem ser enfatizadas. Por vocação entendemos, não os deveres que as profissões exigem, mas o apelo interior que dá sentido e valor à vida inteira. A vocação representa o encontro do homem com o seu próprio caminho, fazendo-o centrar-se e realizar-se na dimensão mais profunda do ser existencial. A autêntica vocação, integral e plena, dá sentido até mesmo nas ocupações mais humildes e insignificantes. Esse é o móvel que todo o Espírito deve ater-se.

A vida foi nos dada, mas não nos foi dada feita. É preciso muita fibra e muita disposição interior para que estejamos sempre dentro de nós mesmos.

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A vivência plena do espírito requer uma atitude voltada para o bem.

Vivamos plenamente, apesar do barulho dos vizinhos que nos deixa extremamente estressados.

Vida: Desenvolvimento da Consciência

tempo marca a nossa passagem na vida. Quando nos reportamos a alguém, dizemos que ele é um indivíduo com trinta, quarenta ou cinquenta anos de idade. Dificilmente nos lembramos de analisar como eles foram vividos. Nesse sentido, uma pessoa com quarenta anos pode ter vivido mais do que uma de oitenta. É dentro do contexto de uma vivência plena e abundante que a nossa vida deve ser avaliada.

Consciência é uma palavra que tem vários significados: no sentido comum, é a compreensão de alguma coisa; no sentido moral, é representada pela "consciência moral" (voz da consciência), isto é, senso subjetivo do bem e do mal; no sentido psicológico, é a compreensão dos fatos interiores, como a capacidade de perceber as modificações psíquicas; no sentido das doutrinas espiritualistas, a palavra "consciência" adquire um significado muito mais vasto, universal e profundo, até identificá-la com a própria essência do Espírito, que penetra toda manifestação.

Aprofundando-nos no estudo da consciência, percebemos que aquilo que chamamos consciente é o mais inconsciente da consciência. A verdadeira consciência não pode manifestar-se pelo pensamento: ela é um patrimônio do Espírito. Quando a comunicamos através de nossas palavras, estamos simplesmente expressando o nosso universo simbólico, geralmente fruto da tradição e dos costumes.

A busca da autenticidade de nossa existência só pode ser alcançada quando começarmos a tirar as várias camadas que encobrem o nosso "eu" verdadeiro. Temos de extirpar todos os nossos condicionamentos, incluindo os dogmas e preconceitos. É um trabalho árduo que exige muito esforço e dedicação. Toda mudança é difícil, porque exige uma ruptura do comodismo e dos automatismos arraigados no nosso psiquismo.

A procura do eu interior deve ser ardente. Não podemos ser preguiçosos e indolentes. A tão propagada reforma interior não deve ser feita para agradar aos outros, mas sim, para estimular o nosso crescimento espiritual. Metamos mãos à obra: não há mais tempo a perder. Cada dia de nossa existência deve ser um dia de muita luta, de muito esforço e de muita realização no campo do aperfeiçoamento moral.

Desenvolver a consciência é ampliar a nossa concepção de vida. Qualquer vivência que não se preocupa com a sua melhoria interior é uma vivência vazia e destituída dos verdadeiros valores do progresso espiritual.

Fonte de Consulta

BATÀ, A. M. la S. O Desenvolvimento da Consciência (Método Prático com Questionários e Exercícios). São Paulo, Pensamento, 1976.

Pensar a Vida

A vida é uma ocupação com as coisas: comer, beber, dormir, trabalhar e divertir-se. A ocupação é, antes de tudo, uma preocupação. Ocupar-se, fazer algo segue imediatamente ao preocupar-se, ao ocupar-se previamente com o futuro.

Pensar significa refletir sobre o passado e fazer previsões sobre o futuro. Contudo, mesmo adotando essa atitude, é possível que nossas cogitações sejam imprecisas. Em realidade, pensar a vida é uma tomada de consciência do presente liberta dos atos passados e sem receios do futuro.

A vida é a soma do número de dias que se usufrui durante uma existência terrena. Nossa medida de tempo é espacializada, visto tomarmos o Sol e a Terra como pontos de referência. Um dia de vinte e quatro horas é o tempo decorrido pelo movimento de rotação da Terra ao redor do Sol. O que significa trinta, quarenta ou cinquenta anos de vida? Presos aos números, esquecemo-nos de que a vida é realização do "eu espiritual".

A civilização moderna, aumentando nossas necessidades, cria o desejo pelo novo. Não queremos deixar nada quieto. As inovações são positivas, porém, quando mudamos por mudar, causamos um viés em nosso pensamento. Estabelece-se um antagonismo entre o "eu superficial" e o "eu profundo" de Bergson ou entre o "inautêntico" e o "autêntico" de Heidegger. Há que se tomar cuidado para não aceitar o falso pelo verdadeiro.

O "eu superficial sobrevive ao meio de informações vindas pelo rádio, televisão, cinema, jornais. A maioria de nós adota uma posição cômoda, esperando que os outros tracem o nosso destino. Martin Heidegger (1889-1976), filósofo existencialista alemão, esclarece-nos com um exemplo. Diz-nos ele: suponha que você esteja no meio de uma floresta sem estradas e sem caminhos. Essa situação exige que cada um de nós seja obrigado a construir o seu próprio caminho.

Pensar a vida nada mais é do que agir filosoficamente, isto é, sem preconceitos e sem posições já assumidas anteriormente. Temos de enfrentar os nossos problemas livres do espírito de sistema.

Fonte de Consulta

MENDONÇA, E. P. de. O Mundo Precisa de Filosofia. 2. ed., Rio de Janeiro, Agir, 1970.

GARCIA MORENTE, M. Fundamentos de Filosofia - Lições Preliminares. 4. ed., São Paulo, Mestre Jou, 1970.


Mecanização da Vida

Uma ideia surge em nossa mente. Ela assemelha-se a um foco de luz que tem uma determinada irradiação. A princípio, de forma nebulosa; depois, um pouco mais nítida; e, por fim, vem com todo o seu vigor.

O conteúdo energético do nosso pensamento estrutura a nossa personalidade. É a nossa "identidade pessoal". Nesse sentido, aquilo que condiz com o nosso modo de pensar, é facilmente aceito; o contrário, exige esforços adicionais, tanto para sua adaptação quanto para sua rejeição.

De acordo com o nosso modo de pensar, criamos nosso "automatismo" particular. Ele, em si mesmo, não é um bem nem um mal. É bom, quando poupa nossas forças para tarefas repetidas. Exemplo: se, para dirigirmos o automóvel, tivéssemos que reaprender todos os movimentos, perderíamos muito tempo. É negativo, quando mecaniza os atos de nossa existência.

A mecanização dos nossos atos pode ser comparada ao indivíduo que anda sobre uma esteira rolante, ou seja, caminha muito mas não sai do lugar. Quer isto dizer que podemos ficar estacionados em nossa superficialidade. Porém, a lei do progresso, sendo natural, é inexorável e, mais tempo ou menos tempo, teremos que modificar o nosso comportamento. Infelizmente, na maioria da vezes, através da dor.

O senso crítico, que é uma reflexão sobre nós mesmos, o outro e a sociedade em que vivemos, deve ser exercitado. Por ele, criamos condições de atrair as ideias puras que estão disseminadas no universo. Melhorando a recepção, capacitamo-nos para uma boa transmissão. Sendo perseverantes neste propósito, nossa vida se transformará substancialmente e, produziremos mais, com o mínimo de esforços despendidos.

As ideias movem o mundo. Procuremos, em nosso dia-a-dia, ordenar as informações enviadas ao cérebro, a fim de que possamos expressar frases de luz, de entendimento e de esclarecimento para toda a humanidade.

 


Vingança e Perdão

A conotação religiosa do pecado tisnou o significado filosófico do perdão. Urge repatriá-lo sob a ótica filosófica, em que é visto como uma ruptura com o passado, uma parada ao encadeamento da vingança e das retaliações. Quem não perdoa fica preso ao opositor ou à causa que gerou a vingança.

Aquele que perdoa não desconhece o desejo de vingança. Observe que é um erro a apologia do esquecimento. Esquecer é livrar-se do problema. Não devemos fazer como Alexandre Magno, rei da Macedônia que, solicitado a desatar o complicadíssimo nó que prendia o jugo ao timão da carroça de Górdio, rei da Frígia, corta-o com a espada. Ele simplesmente eliminou o problema, não o resolveu. O desejo de vingança está presente em cada um de nós. Esquecê-lo é uma espécie de distração. Devemos, sim, sobrepujá-lo, com garra e firmeza de vontade.

Segundo Vladimir Jankélévitch, "o perdão rompe o último laço que nos mantinha presos ao passado, que nos mantinha na retaguarda, retinha-nos em baixo, permitindo que o futuro chegue e acelerando, com isso, sua vinda. O perdão confirma efetivamente a direção geral e o sentido de um devir que coloca a tônica em seu futuro". A vingança apenas prolonga um ato praticado no passado e que, quantitativamente, já não existe mais. Ele apenas está registrado no campo mental, tanto do ofendido quanto do ofensor. Nesse sentido, somente domando a vingança seremos capazes de preparar um futuro promissor para o nosso espírito imortal.

O perdão situa-se no núcleo da não-violência. Como reclamar da violência do mundo se todos nós ainda somos violentos? O exercício do perdão é um bom começo, pois convida-nos a ver o próximo com as mesmas fraquezas, os mesmos erros que poderiam ser cometidos por nós, caso estivéssemos no lugar deles. Além do mais, como já nos dissera Epiteto, a ofensa está mais na imaginação do que no fato consumado. É por esta razão que Gandhi dissera que nunca havia perdoado. Ele não precisou perdoar porque nunca se sentira ofendido.

Há a vingança pessoal (que corresponde ao perdão pessoal) e a vingança coletiva (que corresponde ao perdão coletivo). O perdão pessoal diz respeito ao relacionamento face a face, à ofensa cometida individualmente. É realizado secretamente, no labirinto da alma de cada um de nós. Na vingança coletiva, o exercício do perdão já é mais difícil. Há que se lidar com os preconceitos e os ódios entre as diversas raças e religiões. Não é por acaso que as guerras que mataram mais pessoas foram as guerras religiosas. O estranho nisso tudo é que o fundamento básico da religião é a salvação da alma humana.

O desejo de vingança estará sempre nos visitando. Saibamos administrá-lo com moderação e bom senso, a fim de prepararmos o nosso espírito para o perdão incondicional, o de "perdoar não sete, mas setenta vezes sete", como nos ensinou Jesus.

Fonte de Consulta

MULLER, Jean-Marie. O Princípio da Não-Violência. Tradução de Inês Polegato. São Paulo: Palas Athena, 2007, p. 147.

 


Violência e Educação

violência caracteriza-se pelo autoritarismo na educação, pelo monopólio do poder nas esferas governamentais, pela corrupção dos homens de Estado, pela posse de coisas ilícitas, pelos esforços de santidade, pelo egoísmo material, pelo consumismo exacerbado, pelo individualismo etc.

autoritarismo na educação, uma das formas de violência apontada, pode ser observado na conduta de alguns educadores que, tendo o dever de intervir em vidas através de um convite ao conhecimento, acabam por invadi-las através de um diálogo doutrinante. Agindo desta forma, nada mais fazem do que estender suas próprias confusões mentais. A verdadeira educação, por outro lado, tem como paradigma central ensinar o educando a pensar com a própria cabeça, inclusive estimulando-o a contradizer sempre que sentir que os outros não estão expressando a verdade dos fatos.

Os meios de comunicação social têm papel relevante na disseminação da violência, uma vez que dá valor ao extraordinário (assalto, brigas, sequestro) em detrimento do cotidiano (trabalhar, divertir-se, estudar). Observe, por exemplo, o estímulo de compra: a imagem veiculada pode ser a sugestão ao consumo de bebida, sexo, divertimento etc. Suponha que o receptor da mensagem veiculada não tenha recursos para usufruir do referido bem. O que ele fará, uma vez que o imaginário tornou-se, depois de veiculado, uma necessidade real? Muitos que não têm força moral elevada acabam por aderir ao crime, à violência.

individualismo e o consumismo são outras formas de violência. É que na atualidade há um processo de reificação (coisificação), em que os indivíduos estão se transformando em coisas, inclusive em coisas descartáveis quando já não mais produzem. Confundimos o ter com o ser; por isso a ênfase que damos à posse, ao status social, à riqueza, ao utilitarismo. Nesse sentido, o efeito demonstração da economia assume papel relevante no destaque dos atos violentos. Pensamos: se o meu vizinho tem por que eu não posso ter? Se ele sobressaiu-se na vida, por que eu também não posso? As coisas estimulam-nos a ter, preterindo o ser, bom, amável, atencioso, prestimoso.

Distingamos razão e emoção. Desde que surgiu Descartes, e com ele o racionalismo, a razão tornou-se um mito, que nos dizeres de Alceu Amoroso Lima, é tomar o absoluto pelo relativo. Foi isso mesmo o que aconteceu com a razão; elevamo-la à condição de deusa, em detrimento da fé, da emoção e do sentimento. O anseio pelo tecnicismo, pela posse, pelo consumo faz-nos esquecer de que o século XXI, que ora se inicia, será um século de luzes espirituais, em que prevalecerão as coisas do espírito e não as da matéria.

A violência apresenta-se tanto de forma ostensiva como de forma sutil. Saibamos detectá-las onde quer que se encontrem, procurando o caminho inverso, ou seja, o caminho da paz, da confraternização e da cooperação mútua. 

Fonte de Consulta

MORAIS, R. Violência e Educação. Campinas, SP, Papirus, 1995. (Coleção Magistério: Formação e Trabalho Pedagógico).

Viver sem Defesas

O que é que nos inquieta e nos dá uma sensação de impotência? É a preocupação de que devemos ser alguma coisa na vida e, com isso, ser respeitado, ter um nome, estar inscrito no livro da fama. Mas, será esta a atividade essencial do ser humano? Será que esta atitude não nos leva à superficialidade da vida? Este seria o verdadeiro caminho para atingir a perfeição do Espírito? Por que nos violentamos para ter mais bens, para sermos mais isso ou mais aquilo?

O grande problema do ser humano é a fragmentação em que a sociedade o colocou. E a própria ciência tem contribuído para isso, principalmente ao formar seres cada vez mais especializados, aqueles que conhecem "quase tudo do quase nada". O que se espera de um homem de ação que, nos seus quarenta anos de exercício de uma profissão, ficou sempre repetindo os mesmos atos? Não resta dúvida que se tornou mais eficaz em sua especialidade. Mas, como se relaciona com o todo da vida? Como irá enfrentar, por exemplo, o problema da morte?

A vida é muito mais do que o exercício de uma profissão. Ela envolve o cultivo do "eu interior", subjacente à essência divina. Deixando de viver a plenitude da vida, adiamos peremptoriamente a potencialização do nosso ser espiritual. Quando não o fazemos por nós, saímos à cata de quem possa nos ensinar, aumentado assim, o número de gurus, aos quais transferimos o ônus de nossa salvação. Contudo, a escolha deve ser pessoal, porque pressupõe esforço próprio. Ninguém, além de nós mesmos, poderá salvar a nossa alma enfermiça.

Lutamos para ter status, para ser alguma coisa na vida. E quando a sociedade nos nega tal oportunidade? Devemos nos rebelar, usar de violência para conseguir aquilo que achamos ser o nosso direito natural? Não temos o hábito de enfrentar os problemas, tais quais são na realidade. Contudo, não há separação entre o observador e a coisa observada. Nós somos o que observamos. Estar atento ao que estiver acontecendo, aqui e agora, tem mais eficácia do que os muitos rodeios de nosso espírito, que teima em fugir da situação apresentada.

Como nos tornarmos um novo homem, se vivemos condicionados ao homem velho? Enfrentarmo-nos, tais quais somos, sem repreensões, sem censura, sem acharmos que poderia ser bem diferente não é tarefa fácil. Olhamos para o nosso corpo e dizemos: estou gordo; preciso emagrecer. Submetemo-nos aos regimes; passado algum tempo, voltamos a engordar. É possível que tomando consciência de que estamos gordos, sem recriminar, sem censurar, podemos ter melhores resultados do que fazendo violência para emagrecer.

O desejo de perfeição é natural no ser humano. O que nos cabe é facilitar 
esse processo. Para tanto, façamos uma analogia com a árvore: plantando-a e desplantando-a, para verificar como está indo o seu crescimento, com certeza a mataremos. Revolvendo a terra, tirando as ervas daninhas e aguando-a convenientemente, os efeitos serão outros. Façamos o mesmo no reino do Espírito: tomemos consciência de nossos defeitos, de nossas rusgas, mas sem impor uma falsa moral, no sentido de eliminá-los definitivamente de nossas ações.

Estejamos sempre prontos a aceitar as coisas como elas são, sem defesas de espécie alguma. Tenhamos a certeza que, o pouco que fazemos no reino do Espírito, é o muito no que tange à nossa mudança comportamental autêntica.

Fonte de Consulta

KRISHNAMURTI, J. O Mistério da Compreensão. Trad. de H. Veloso. 2. ed., São Paulo: Cultrix, 1972.

Universo e Visão de Mundo

O Universo é o conjunto de tudo quanto existe, incluindo-se a Terra, os astros, as galáxias e toda a matéria disseminada no espaço. Diz-nos a Astronomia que o Universo é constituído de estrelas. As estrelas, reunidas em agrupamento de bilhões, formam as galáxias. As galáxias, acessíveis aos nossos telescópios, são em número de 10 bilhões, separadas entre si por distâncias da ordem de 1 milhão de anos-luz. Nosso sistema planetário está localizado numa dessas galáxias, a Via-Láctea, com 80.000 anos-luz de diâmetro e contendo de 150 a 200 bilhões de estrelas.

Durante milênios, em todas as culturas, o homem tentou decifrar os enigmas do Universo. Na antiguidade, os mitos sobrepujaram as explicações racionais. Para os babilônios, a Terra era como uma montanha oca rodeada pelo mar. Os Egípcios conceberam a Terra como se fosse um deus em atitude de repouso. Segundo o mito hindu, a Terra era sustentada por elefantes apoiados sobre uma tartaruga, encarnação de Vichnu que, por sua vez, repousava sobre uma cobra, símbolo da água. Segundo os maias, o mundo assentava-se sobre uma tartaruga nadando no mar.

Os gregos, nos os séculos que antecederam ao nascimento de Cristo, mesmo não possuindo ferramentas apropriadas para a comprovação científica, já imaginavam a Astronomia como uma ciência. Da interpretação mitológica passou-se à busca da regularidade das leis do Universo, chegando-se a admitir que o Sol, a Lua e os planetas moviam-se em círculos perfeitos ou epiciclos, ao redor de um ponto que, por sua vez, girava em órbita circular à volta da Terra.

Em 150 d.C., Ptolomeu deu início, de forma mais concreta, à análise científica do Universo. Ele desenvolve a teoria geocêntrica, ou seja, a Terra como centro do UNIVERSO. Em 1500, Copérnico apresentou um outro modelo, colocando o Sol no centro do Sistema, pois o movimento dos planetas poderia ser explicado mais facilmente. Em 1600, Johanes Kepler acabou por demonstrar que os planetas descrevem órbitas elípticas. Nesse ínterim, Galileu descobre a luneta. Em 1700, Newton formula a sua famosa teoria da gravitação universal. Nesse período surge o telescópio. No século XIX, Einstein descobre a teoria da relatividade.

Da invenção da luneta, segue-se a do telescópio até culminar com o telescópio espacial Hubble, construído em 1925. Este telescópio gigantesco tinha a incumbência de pesquisar a origem do universo e, por conseguinte, a origem da vida. O Brasil também tem um telescópio, o Soar (Southern Astrophisical Research Telescope), construído graças à parceria entre Brasil, Estados Unidos e Chile. Localiza-se em Cerro Pachón, nos Andes chilenos. Detalhe: enquanto o Hubble tem capacidade de observação no ultravioleta, o Soar tem capacidade para o infravermelho.

O aprendizado do Universo tem uma relação íntima com a visão de mundo alcançado pelo homem na Terra. Estando no meio de uma floresta, vê somente a si mesmo. Olhando para o alto, coloca a Terra como o centro do Universo. De posse de aparelhos de melhor precisão, coloca o Sol no centro do Universo, depois a galáxia, para descobrir, posteriormente, que o Universo não tem centro. Isso torna o ser humano mais humilde, induzindo-o, inclusive, a aceitar vida em outros planetas.

Se, em nossas dificuldades cotidianas, pudéssemos entrar em sintonia com as energias dessa harmonia celeste, quanta força não absorveríamos para cumprir com mais bravura os nossos deveres do cotidiano.

Fonte de Consulta

ENCICLOPÉDIA COMBI VISUAL. Barcelona: Ediciones Danae, 1974.

 

03 julho 2008

Verdadeiro Filósofo

O "verdadeiro filósofo", nos primeiros séculos de nossa era, designava aquele que se opunha ao sofista, ou seja, àquele que falava bem, mas não agia de acordo com o que dizia. Seu principal empenho não era especular ou buscar erudição, mas diminuir a distância entre aquilo que dizia e o modo como agia. Procurava também uma perfeita sintonia entre o ser o pensamento. Em outras palavras, pensava como era, falava como pensava e agia como falava.

O "verdadeiro filósofo" dava pouca importância à erudição e à especulação. Eles não estavam preocupados em criar teorias, doutrinas e sistemas filosóficos. Agiam mais como terapeutas, porque as suas prédicas tinham por objetivo a saúde de alma. A erudição e a especulação por si mesmas não visam a uma transformação do homem. Na maioria das vezes, incham-no. O verdadeiro filósofo, por sua vez, não procura transformar os outros nem mundo todo, mas transformar-se a si mesmo, um trabalho muito mais complicado, porque exige a renúncia dos prazeres mundanos.

Os Padres da Igreja são catalogados como verdadeiros filósofos. Mas o que se entende por Padres? O termo Padres, no começo de nossa era, não tinha a mesma conotação que se empresta aos padres de hoje. Eles devem ser entendidos como "Pais" da Igreja. E o pai é uma pessoa que vela pelos seus filhos. Assim, qualquer um que ensina ao outro o caminho para deus, torna-se pai e, o outro, filho. Nesse sentido, todos somos filhos desses padres. E por extensão, todos somos filhos de Jesus, porque Ele é o guia espiritual do Planeta Terra.

Há diversos Padres da Igreja. Façamos um resumo de suas contribuições. Orígenes (185-254) trata o martírio como a "verdadeira filosofia"; Clemente de Alexandria (150-215) escolhe a gnose como a "verdadeira filosofia"; Evágrio Pôntico (345-399) elege praxis e gnosis como elementos da "verdadeira filosofia"; João Crisóstomo (344-407) recomenda a contemplação e a liturgia como "verdadeira filosofia"; João Cassiano (365-435) aborda a vida monástica como refúgio dos "verdadeiros filósofos"; Gregório de Nissa (331-395) indica a "busca" sem fim do "verdadeiro filósofo".

Anotemos alguns ensinamentos desses Padres da Igreja. "O pregador deve ser não só um sábio, mas também um homem de oração" (Orígenes). "A gnose foi transmitida a um pequeno número de pessoas desde os apóstolos, através da sucessão dos mestres e sem escrituras (Clemente de Alexandria). "Bem-aventurado o intelecto que, durante a oração, torna-se imaterial e completamente despojado" (Evágrio Pôntico). "Meu sacerdócio consiste em pregar e anunciar o Evangelho" (João Crisóstomo). "A amizade é um bem tão precioso que deve ser preferido a qualquer coisa de material" (João Cassiano).

Equilibremos a admiração passiva (contemplação) e a admiração ativa (pesquisa, procura, leitura), a fim de que possamos captar totalmente a mensagem dos "verdadeiros filósofos".

Fonte de Consulta

LELOUP, Jean-Yves. Introdução aos "Verdadeiros Filósofos": os Padres Gregos: Um Continente Esquecido do Pensamento Ocidental. Tradução de Guilherme João de Freitas Teixeira. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003.

Tomás de Aquino

"[...] para o conhecimento de absolutamente qualquer verdade o homem precisa de ajuda divina." (Suma teológica)

Tomás de Aquino (1225-1274) viveu num século em que duas correntes de ideias se opunham: a) um evangelismo radical do movimento de pobreza, ligado à obra de São Francisco, que renova e aprofunda a piedade e "redescobre" a Sagrada Escritura; b) um mundalismo inspirado em Aristóteles, que confere à razão natural e ao mundo material uma importância e uma independência jamais vistas. Tomás aceita, sem tomar partido, essas duas posições antagônicas. Depois, pela reflexão, ultrapassa-as ao desvendar a verdade de cada uma delas.

Wittgenstein, Heidegger e Dewey

No século XVII, a noção de uma "teoria do conhecimento" baseada na compreensão dos "processos mentais" é atribuída a Locke; a noção de "mente" como entidade distinta em que ocorrem "processos", a Descartes; a noção da filosofia como tribunal da razão pura, a Kant. No século XIX, a noção de filosofia como uma disciplina fundamental que "funda" as pretensões do conhecimento foi consolidada nos escritos neokantianos. Dessa forma, a Filosofia torna-se, para os intelectuais, um substituto da religião, pois preocupavam-se em mantê-la "rigorosa e científica".

Essa aparente predominância da Filosofia entra em crise devido a dois fatores: 1º), a esta altura era quase completo o triunfo dos laicos sobre as pretensões religiosas; 2º), surge uma nova forma de cultura, que eram os escritores de poemas, romances, novelas e tratados políticos. O discurso laico, que se populariza, desvia-se da lógica racional que os filósofos intentavam com as suas teorias do conhecimento. O espaço cultural fica dividido, e os escritos filosóficos perdem terreno para esses outros gêneros literários.

No início do nosso século, nomeadamente Russell e Husserl, preocupavam-se em retomar a Filosofia como "científica e rigorosa". Mas havia uma nota de desespero em suas vozes, porque a cultura laica monopolizava cada vez mais a atenção dos leitores. Em resultado, quanto mais "científica e rigorosa" se tornava a filosofia, menos ela tinha a ver com o resto da cultura e mais absurdas pareciam as suas pretensões tradicionais.

É de encontro a este fundo que surgiram Wittgenstein, Heidegger e Dewey. Cada um deles tentou uma nova maneira de tornar a Filosofia "fundamental" — uma nova maneira de formular um contexto último para o pensamento. Wittgenstein procurou construir uma nova teoria da representação que nada teria a ver com o mentalismo. Heidegger tentou construir um novo conjunto de categorias filosóficas que nada teriam a ver com a ciência, a epistemologia, ou a busca cartesiana da certeza, e Dewey tentou constuir uma versão naturalizada da visão hegeliana da história.

Todos os três vieram a achar auto-ilusório o seu esforço inicial, uma tentativa de conservar uma certa concepção de filosofia após terem sido abandonadas as noções necessárias para dar corpo a essa concepção (as noções seiscentistas de conhecimento e mente). Todos os três, nas suas últimas obras, se libertaram da concepção kantiana da filosofia como fundamento e dedicaram o seu tempo a prevenir-nos contra aquelas mesmas tentações a que eles próprios haviam sucumbido.

Assim sendo, essas últimas obras são mais terapêuticas do que construtivas, mais edificantes do que sistemáticas, concebidas de modo que o leitor questione o seu próprio motivos para filosofar, em vez de lhe fornecerem um novo programa filosófico.

Fonte de Consulta

RORTY, R. A Filosofia e o Espelho da Natureza. Lisboa, Dom Quixote, 1988.

São Paulo, 12/04/1998

02 julho 2008

Leitura e Compreensão do Texto

O que é um texto? Há duas dimensões a considerar: a da produção; a da leitura. Na produção do texto, passa-se da forma lógica para a literária; na leitura, o processo se inverte e passamos da forma literária para a lógica. Todo o texto, quando é escrito, é escrito num determinado contexto, pois o leitor universal é uma utopia. Assim, um texto filosófico é escrito para os filósofos; um texto matemático, para os matemáticos; um texto histórico, para os historiadores.

Como sabemos se o texto foi entendido? Para tal, é preciso fazer uma análise dele. E na análise, que é a decomposição das partes, não se deve esquecer da gramática. A mesma preocupação se deve ter quando se escreve. Nesse sentido, convém verificar a concordância entre as partes de uma oração, a colocação de pronomes, a conjugação do verbo etc. Depois de escrito, deve-se esperar algum tempo e ler como se fosse uma pessoa estranha, ou seja, fazer de conta que o texto foi escrito por outra pessoa e não nós mesmos.

O entendimento do texto pressupõe a repetição, a paráfrase e a imitação. Contudo, o produto final não deve ser nenhuma dessas operações, mas algo que se mostra novo. Quer dizer, quando apenas parafraseamos, não conseguimos sair da superfície do aprendizado. É preciso focalizar bem a questão, para que se faça concomitantemente um exercício de reconstrução. A filosofia não consiste em saber muitas coisas, mas em saber se aprofundar, focalizar e buscar a essência daquilo que se está estudando.

Para uma boa compreensão da filosofia, convém nos lembrarmos do philosophical way of thinking. O que isto significa? Significa buscar o status quaestionis, ou seja, o estado da questão, que é tudo aquilo que já foi escrito sobre o tema. É buscar a sua bibliografia, mas não qualquer bibliografia e sim aquela que forma uma linha hierárquica dos seus pensadores. Nesse mister, os pensamentos de Platão, Aristóteles, Descartes, Kant, Hegel e outros seriam de inestimável valor.

A leitura eficaz de um texto consiste em procurar a pergunta que o autor fez a si mesmo, pois um texto filosófico não é contar histórias, mas processar o pensamento através dos argumentos, da tese e da questão. Quando soubermos formular boas questões, estaremos bem próximo de desenvolver a capacidade de aprender, pois o conhecimento construído vai depender, não só do interesse pelo assunto, como também pelo tipo de pergunta que se fizer a seu respeito. Lembremo-nos de que o sábio é aquele que tem a capacidade de transformar uma simples pergunta num processo profundo de reflexão.

Estejamos com o nosso pensamento sempre em atividade. Uns ruminam aqui; outros procuram flertar adiante. Quanto a nós, saibamos edificar o pensamento na luz radiosa da verdade.

Fonte de Consulta

PORTA, Mario Ariel Gonzalez. A Filosofia a Partir de seus Problemas. São Paulo: Loyola, 2002.

 

O Pensamento Ocidental e o Taoísmo

O Tao é nome que se dá aos ensinamentos veiculados por Lao-Tsé, há 2.600 anos, na China, no livro o Tao-Te-Ching. De acordo com o seu autor, o Tao não pode ser definido, apenas conhecido, pela mesma razão com que não podemos definir Deus. O livro foi escrito numa única noite, como resposta ao homem da fronteira, que lhe pediu para ensinar tudo o que sabia da vida. Diz-se que quando Lao-Tsé escreveu o livro ele estava mais do que inspirado, ele estava iluminado. Ao longo de todo esse tempo, esse livro foi traduzido para várias línguas, servindo de subsídio para muitas filosofias e religiões.

Os ocidentais têm muita dificuldade de compreender o modo de atuar dos orientais. É que nossa cultura foi formada à beira do mar (Mar Mediterrâneo), em que imperava a racionalidade dos gregos, tais como Sócrates, Platão e Aristóteles. Assim, para os ocidentais a busca da verdade deve passar necessariamente pela argumentação, pela análise e pela dedução. Os chineses não têm essa preocupação; o conhecimento da verdade vem pela intuição, pelo não-atuar, por deixar a realidade se mostrar.

No que tange à arte, o mundo ocidental reteve as partes da eficácia e segue voltado para o valor monetário, ou seja, para a materialização dos arroubos do sentimento. Contudo a arte, na sua acepção mais acurada, é tornar consciente o que está no subconsciente. Nesse sentido, os chineses estão mais perto da verdadeira arte porque não evocam a personalidade e a individualidade como os ocidentais, mas radicalmente a paisagem, que é impessoal e mais próxima da natureza.

A metáfora da água é um dos símbolos mais ventilados no taoísmo. Enquanto nós, ocidentais, estamos à procura da erudição e da eficiência, os chineses se desenvolvem por meio do wu-wei (natureza) e do tzu-jan (espontaneidade). Eles não buscam o saber; isso é algo que emerge da situação, em virtude de uma não-ação, que não quer dizer inação. Por isso, o repouso do sábio assemelha-se à água. Quando a água está límpida e quieta, ela espelha melhor o seu conteúdo. Se estiver turva e agitada, não conseguimos ver mais nada. Do mesmo modo, o sábio precisa de repouso e tranquilidade para espelhar toda a sua sabedoria.

Os chineses não confundem atividade com a agitação. O fato de uma pessoa ficar à beira do lago, sem nada fazer, não significa que esteja inativo. Ele pode simplesmente estar captando ideias, absorvendo forças e energias do cosmo, que lhes poderão ser úteis no momento aprazado. Para eles, basta que tomemos consciência do que se nos acontece aqui e agora, sem qualquer tipo de intervenção. As coisas simplesmente devem acontecer; o nosso trabalho consiste em observar, sem julgamento, e esperar a lei do retorno, pois a dualidade ou a separação não existe. As coisas formam um todo harmônico.

Em vista disso, não devemos nos preocupar com o fracasso e o sucesso. Eles não são dicotômicos; fazem parte da atividade humana. E, se assim pensarmos, iremos a qualquer lugar, sem medo do desconhecido.

Fonte de Consulta

RACIONERO, Luis. Textos de Estetica Taoista. Madrid: Alianza, 1983.

 

 

Temos o que Somos

Somos o que temos ou temos o que somos? Eis a questão.

As atitudes e os comportamentos do ser humano determinam o "tipo de posse" que ele deseja para si. Krishnamurti, filósofo indiano, já nos alertava que o mundo é violento porque cada um de nós o é. Se assim não fosse, o mundo não o seria, pois o mundo nada mais é do que a soma do que cada um é. Nesse sentido, o egoísta, que pensa exclusivamente em seu benefício pessoal, quer tudo para si; o altruísta, que pensa mais no seu próximo, quer tudo para os outros.

Devido aos insistentes apelos da mídia televisiva, parece que temos necessidade de uma infinidade de bens. Será que eles realmente fazem parte do nosso projeto de vida? Como avaliar corretamente o que devemos ou não possuir? Se o Senhor da vida quisesse nos chamar neste exato momento, do que precisaríamos para a nossa ida ao mundo dos Espíritos? Em outras palavras, qual é a verdadeira propriedade? O que realmente levaremos deste mundo? Nada do que é da matéria (dinheiro, títulos honoríficos, imóveis); tudo o que é do Espírito (virtude, conhecimento, desprendimento dos bens materiais).

Parece-nos que, na relação entre o ter e o ser, faz-se necessário averiguar o nosso interior, sem outro motivo que não o de perscrutar a nossa consciência sobre o que realmente é útil para o nosso progresso espiritual. Os Espíritos superiores estão sempre nos advertindo acerca de nossos desejos terrenos. Nem sempre vemos o lado mau daquilo que desejamos obter. Deus, que sabe o que é melhor para nós, pode impedir a sua realização.

Vejamos um exemplo prático. Queremos, a qualquer custo, obter um lugar de destaque, um posto político ou uma função administrativa em alguma organização governamental. Com isso, os nossos problemas financeiros estariam resolvidos. Há lógica no ensejo. Contudo, se as circunstâncias nos distanciarem de tal intento, não devemos nos rebelar contra Deus. É possível que estejamos sendo preparados para coisas mais substanciais. Além disso, se galgássemos esses postos, o desempenho da função consumiria totalmente o nosso tempo, que quase nada sobraria para as obrigações genuinamente espirituais.

Reflitamos sobre a lei de causa e efeito. Se hoje estamos nos esforçando por ser humilde, simples de coração e submisso à vontade de Deus, deduz-se, por esta lei universal, que no amanhã colheremos o que tivermos plantado. Ninguém colhe o que não plantou. Tenhamos sempre em mente este dístico do conhecimento superior.

Cada um de nós está sempre no devido lugar. Não nos coloquemos como vítimas, mas esforcemo-nos para receber tudo com a devida humildade: tanto o êxito, quanto o malogro; tanto a saúde, quanto a doença.

 


Teoria e Prática

O termo teoria — do grego therein — é usado em várias acepções segundo os dicionaristas. Na Origem, designava o ato de ver e de ser visto em locais abertos a todos, tais como o templo, o circo, a ágora e em espetáculos e cerimônias públicas. Pode ser também a ação de contemplar ou pessoas que marcham para um determinado local. Modernamente, o conjunto de princípios fundamentais de uma arte ou ciência.

O conhecimento teórico, em toda a antiguidade clássica grega, era entendido como a contemplação da verdade (aletheia) em si mesma. É o conhecimento que confere plena realização e domínio completo tanto em relação ao conhecimento da práxis (conhecimento com utilidade exterior) como ao conhecimento da techne (com utilidade para o próprio sujeito do conhecimento). A supremacia do conhecimento teórico sobre o prático ou técnico provém do fato de ele ser útil em si mesmo, independentemente de sua aplicação exterior.

No sentido moderno, uma teoria equivale a um corpo de proposições adequadas à explicação e à interpretação dos fenômenos dentro de determinado campo disciplinar, descobertas por indução e aplicadas por dedução. Nesse sentido, a teoria passou a ser um conjunto de regras ou de normas a que devem obedecer os fenômenos ou a sua interpretação. Por isso, diz-se que o conhecimento tornou-se teórico-experimental. Há uma concepção mental, uma teoria; para que tenha validade, há necessidade de colher dados e prová-la, geralmente com o auxílio de modelos matemáticos.

O vocábulo teoria é usado, as mais das vezes, como oposição a prática, a ponto de muitas pessoas dizerem que "a teoria na prática é outra". Com isso, não são poucos os pensadores que acabam dando mais importância à prática do que à teoria. Os homens práticos, ou seja, aqueles que estão à frente de atividades empresariais e governamentais ganham cada vez mais notoriedade, principalmente pelas suas aparições nos veículos de comunicação de massa. Eles falam de realizações, de feitos, de planos para o futuro etc. Desconfiemos, contudo, das aparências.

A prática não pode viver sem a teoria. E a teoria deve sempre vir antes, porque é dela que as ideias emergem e se estabelecem os princípios de uma doutrina, de uma ciência ou de um sistema filosófico. O cientista, por exemplo, não vai direto às provas; primeiro, estabelece as hipóteses. Observe que na França, a maioria dos cursos universitários, não exige pesquisas práticas como aqui no Brasil. Entendem eles que, para muitos estudantes, basta apenas ter o arcabouço teórico, e que isso já é o suficiente para resolver muitos problemas no seio da sociedade.

Estejamos aptos a captar ideias. Não nos importemos com a aplicação prática. No seu devido tempo e lugar elas nos servirão de guia para auxiliar o progresso da humanidade.

Fonte de Consulta

POLIS - ENCICLOPÉDIA VERBO DA SOCIEDADE E DO ESTADO. São Paulo: Verbo, 1986.

A Sofística e os Sofistas

Na história da filosofia, a sofística sempre entrou como parte da retórica ou da literatura, mas não da filosofia. Presentemente, há uma retomada das pesquisas sobre esse tema. Na Europa, do século XX, cunharam o termo "logologia" (por oposição à ontologia), que é uma reflexão sobre o logos. Em linhas gerais, trata-se do modo como construímos o nosso modo de falar. Nos Estados Unidos, alguns autores falam da "neo-sofística", movimento que revaloriza a retórica, principalmente o papel das emoções e das circunstâncias na construção das falas.

A ideia que fazemos dos sofistas foi nos transmitida por Platão. Até então havia muita confusão sobre o que é ser sábio, sofista e filósofo. Para Platão, os sofistas são os personagens que dialogam com Sócrates, servindo de contraponto para que este defina o que é o filósofo. Platão dizia que os sofistas eram "imitadores de sábios", pois apenas aparentavam sabedoria. Eles, além de cobrarem pela educação, preocupavam-se apenas em ensinar a manipulação das palavras como forma de persuadir e ganhar um debate, seja de que forma fosse.

Estudos recentes sobre os pré-socráticos e a publicação do Dicionário dos Filósofos Antigos, que está sendo elaborado por diversos estudiosos europeus e publicada aos poucos (o quarto volume, publicado em 2005, vai até a letra O) podem mudar o status quo platônico sobre os sofistas. Nesses estudos pré-socráticos, cita-se As Nuvens, comédia escrita por Aristófanes em que Sócrates é caricaturado como intelectual. Para Aristófanes, Sócrates é ao mesmo tempo um pesquisador da natureza e um manipulador de discursos, pois tinha como objetivo principal o êxito nos seus negócios

A força da antilogia na compreensão da sofistica. Antilogia quer dizer contraposição de argumentos, um discurso formulado contra outro. Os discursos duplos exploram a indeterminação relativa das circunstâncias. Diógenes de Laércio nos diz que Protágoras foi o primeiro filósofo a levantar a questão de que tudo pode ser sempre visto sob dois aspectos opostos. Conforme a circunstância, o justo pode ser injusto; o injusto, justo. É justo mentir tanto ao inimigo quanto ao amigo. Suponha que um familiar precise tomar um remédio e não o queira. É justo colocá-lo na comida, sem que ele o saiba? Sim. Nesse caso, evitou-se um mal maior, ou seja, a sua morte.

A sofística ocupa-se da antropologia. Os sofistas querem pensar as coisas humanas como um conjunto de relações, a partir de exigências sociais e políticas, para além das teorias sobre o ser ou sobre a natureza. Os costumes, os hábitos e as leis de uma comunidade são os seus temas principais. Questionam o modo como os governos estão fazendo as leis, como estão se inserindo numa guerra ou mesmo numa ação de solidariedade para com as pessoas de sua comunidade.

retórica é um de seus pontos centrais. A retórica pode ser entendida tanto como uma técnica do discurso como uma reflexão sobre o mesmo. A invenção da política, na antiguidade, muito contribui para a sua propagação, pois as pessoas tinham que usar a sua palavra para persuadir e convencer os seus oponentes. Acontece que a arte da persuasão não se reteve apenas à política. Ela se popularizou e era necessária em qualquer circunstância em que fosse necessário o uso da palavra, inclusive em discussões triviais que as pessoas tivessem que defender uma opinião ou mesmo um ponto de vista.

Justo e injusto são a mesma coisa. Depende tanto da circunstância quanto da visão do observador. Este é o aprendizado que extraímos desse estudo sobre a sofística e os sofistas.

Fonte de Consulta

MARQUES, Marcelo P. Os Sofistas: o Saber em Questão. In: FIGUEIREDO, Vinicius (org.). Filósofos na Sala de Aula. São Paulo: Berlendis & Vertecchia, 2007, vol. 2.

 

Solidão

solidão, segundo o dicionário, significa pessoa que vive só; isolamento. Daí surge a questão: a solidão é isolamento? Em realidade, a solidão não é fuga da sociedade; ela é uma forma de meditação e reflexão para que o ser humano possa alcançar uma nova visão de mundo. Para muitos, ela incomoda; contudo, somente ela é capaz de nos dar subsídios para uma boa convivência com os demais seres humanos.

O filósofo precisa de solidão? Sim. Segundo Novalis, "A filosofia significa, em sentido próprio, nostalgia do lar, impulso a estar, por toda parte, em casa". E, de acordo com Buzzi, "Quem deseja aprender a filosofar vai para a solidão. Solidão é tarefa e esforço de conviver com as coisas na escuta do obscuro de seu estar-aí. Um conviver desarmado, um confrontar-se com a experiência sem os recursos de qualquer conhecimento, um encontrar-se corpo a corpo. Feliz quem pode com essa solidão. Dela nascerá um novo mundo, um respeito diferente às coisas que nos cercam".

Para bem filosofar, devemos ir ao deserto e esvaziar o pensamento dos preconceitos, inclusive da própria ciência. Por que o deserto? No deserto não há muitos atrativos como os encontramos nos grandes centros urbanos. Lá não há o desejo consumista de alimentos, roupas e diversões várias. Somos, por força da natureza, obrigados a voltarmo-nos para dentro de nós mesmos. Sem a influência de qualquer pessoa, somos abandonados ao nosso próprio pensamento. Em contato com o nosso centro, refletimos mais detalhadamente sobre os nossos pontos fracos e os nossos pontos fortes. Enfim, exercitamos o preceito áureo deixado por Sócrates: "Uma vida sem exame não merece ser vivida".

A solidão propicia-nos vislumbrar um mundo totalmente diferente daquele que se nos apresenta os meios de comunicação. Entrando num estado de meditação profunda, podemos elevar os nossos pensamentos a Deus e receber Dele, ou dos Espíritos superiores, inspirações sobre a profundeza da vida, instruções sobre a conduta em sociedade e noções mais detalhadas sobre a lei do amor, da justiça e da caridade. Nesse êxtase, esquecemo-nos de nós mesmos e o nosso "eu espiritual" desprende-se momentaneamente do corpo físico e vai visitar outros mundos em que reina a paz e harmonia universal.

Nietzsche dizia que onde cessa a solidão, aí começa a feira. A feira representa o alarido dos grandes comediantes e o zunido das moscas. Filosoficamente considerada, é o estado da superficialidade do homem, que vive somente para o seu ganha-pão, útil para o sustento físico, mas que não acrescenta muito ao "eu" mais profundo. Na solidão, entretanto, o homem vai buscar a lenta experiência de todos os poços profundos. É longe da feira e da fama que se constroem os novos e verdadeiros valores morais.

Não temamos a solidão. O que, a princípio parece pesadelo, com o tempo, torna-se um refúgio para a percepção das grandes verdades, as quais serão muito úteis para o nosso desenvolvimento moral e espiritual.


Sócrates

"A vida sem reflexão não vale a pena ser vivida." (Citado por Platão, em Apologia de Sócrates

Sócrates (470/399 a. C.), filho de Sofronisco (escultor) e de Fenarete (parteira), foi um dos maiores filósofos de toda a história da humanidade. À semelhança de Jesus Cristo, não nos deixou nada escrito. Tudo o que sabemos de Sócrates é através do seu discípulo, Platão. Este, por sua vez, apresentou todas as suas idéias sob a forma de diálogos, pela boca de Sócrates, de sorte que, até hoje, não sabemos exatamente onde acaba o pensamento de Sócrates e onde começa o de Platão.

A vida de Sócrates foi inteiramente dedicada à educação. Era paciente, simples e tinha um perfeito domínio sobre si mesmo. Levantava-se cedo e encaminhava-se à praça pública (Ágora) para iniciar os seus debates esclarecedores. Dissera que tinha abandonado a profissão de escultor, porque, enquanto a sua mãe dava luz à criança, ele daria luz às ideias. Na vida política, participou de três campanhas militares. É considerado o criador do método em Filosofia

Sócrates procura o conceito. Este é alcançado através de perguntas. As perguntas têm um duplo caráter: ironia e maiêutica. Na ironia, confunde o conhecimento sensível e dogmático. Na maiêutica, dá à luz um novo conhecimento, um aprofundamento, sem, contudo, chegar ao conhecimento absoluto. Por exemplo, querendo apreender o conceito de coragem, dirigia-se ao um general, e perguntava-lhe: — você que é general, poderia me dizer o que é a coragem? O general respondia-lhe: — coragem é atacar o inimigo, nunca recuar. Porém, Sócrates contradizia: — às vezes temos que recuar para melhor contra atacar. E a partir daí continuava o debate ampliando o conceito.

As contestações de Sócrates eram sempre inesperadas. Um amigo de Sócrates perguntou ao oráculo de Delfos quem era o homem mais sábio de Atenas. O oráculo respondeu-lhe que era Sócrates. Seu amigo tratou de confundi-lo com a observação do oráculo e repetiu-o diante de muita gente. Sócrates comentou: o oráculo escolheu-me como o mais sábio dos atenienses porque o oráculo sabe que eu sou o único que sabe que não sabe nada.

Sócrates foi condenado à morte por duas razões: não crer nos deuses e corromper a juventude. Os jovens de Atenas seguiam Sócrates e escutavam-no, porque Sócrates ensinava-lhes a pensar por si mesmos, e por este caminho fazia-os chegar a conclusões que poderiam parecer subversivas. Na prisão, discutia a imortalidade da alma, ou seja, a possibilidade de existência de outra vida além desta.

A fama de Sócrates é tal que, passados vinte e cinco séculos, ainda estamos por resolver o problema do conhecimento de nós mesmos.

Fonte de Consulta

COLLINSON, D. Fifty Major Philosophers - A Reference Guide. London and New York, Routledge, 1989

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A pouca informação que temos sobre Sócrates vem de três fontes bem diferentes: o autor de comédias Aristófanes, o comandante militar Xenofonte e o grande filósofo Platão, que foi discípulo de Sócrates. Em sua peça As nuvens, Aristófanes o retrata como um bufão, ao passo que, para Xenofonte, ele era um soldado e um homem de ação. Graças a Platão é que temos conhecimento sobre as ideias filosóficas de Sócrates. Acredita-se que Apologia a Sócrates (discurso de defesa no julgamento de Sócrates), Críton e Fédon sejam as obras que melhor refletem os ensinamentos socráticos.

Para Sócrates, o segredo era levar uma vida virtuosa. Isso incluía resistir às aspirações de fama e de fortuna e nunca, sob nenhuma hipótese, retribuir o mal com o mal.

A infelicidade, para Sócrates, foi que suas provocações constantes em relação às crenças arraigadas acabaram por colocá-lo em conflito com o Estado.

Foi-lhe dada a opção de pagar uma multa em vez de encarar a sentença de morte, mas ele recusou; depois, ofereçam-lhe a chance de escapar da prisão por meio de suborno, o que ele não aceitou. Seu raciocínio era o seguinte: independentemente das consequências, os cidadãos deveriam sempre obedecer às leis do estado. (LEVENE, Lesley. Filosofia para Ocupados: dos Pré-Socráticos aos Tempos Modernos. Tradução de Débora Fleck. Rio de Janeiro: LeYa, 2019)

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O poder socrático consiste em rasgar continuamente o mundo das aparências; tanto das aparências emocionais quanto o das perceptivas — ou seja, o mundo que me agrada ou me desagrada, e ao qual estou atrelado meio das minhas emoções: o mundo de minhas emoções. Penetrar além do mundo das aparências significa pôr em xeque minhas crenças, opiniões e certezas, não apenas com respeito aos objetos, mas a mim mesmo. O que se revelará por trás dessas aparências? Nada, exceto uma nova qualidade mental que, devido às condições presentes, se mantém em estreita relação momentaneamente, com as regiões inconscientes da natureza humana. (O Coração da Filosofia, de Jacob Needleman)