14 outubro 2005

O Mytho e o Logos


A tese da evolução linear do mito à razão não só é historicamente inexata como também não consegue explicar certos fenômenos culturais complexos. No caso extremo, o mito é rebaixado a uma fábula sem valor. É preciso ponderar sobre a dialética mytho/logos, pois já se afirmou que o homem é um ser mítico. Quer dizer, trazemos jungidos ao nosso psiquismo os condicionamentos das diversas narrativas fantasiosas e dos feitos das divindades do politeísmo.


Platão, na Antigüidade, parte da narrativa mítica para fundamentar o seu logos filosófico. Criava uma situação utópica, principalmente nas suas teses políticas, a fim de explicar uma realidade efetiva. Aristóteles, por outro lado, exclui a narração mitológica, enfatizando que a razão do filósofo, o logos, manifesta-se através das suas próprias estruturas discursivas: a argumentação, o raciocínio, a ordem lógica da demonstração.

A fronteira entre o mytho e o logos não é percebida com facilidade. Nesse sentido, a astrologia e as demais pseudociências do universo acabaram caindo no mito que combatiam. Vindas para desmoronar o sacrifício das religiões oficiais, terminam criando o cosmo como um grande Anthropos, um homem cuja inteligência reside no movimento eterno e harmônico das esferas celestes, cujos olhos correspondem ao Sol e à Lua e a cujos pés jaz a matéria, num jogo sutil de correspondências regido por um único tema que varia até o infinito.

O mytho/logos do cristianismo primitivo apresenta uma novidade: o logos se divinizou e ao mesmo tempo se personalizou a ponto de coincidir com a própria pessoa do fundador. Observe que o mito da Trindade provindo das grandes religiões da Antigüidade - como vemos na trindade egípcia formada por Osíris, Ísis e Horus - deu à Igreja a possibilidade de incluir o Cristo na Mitologia Cristã como a segunda pessoa de Deus, de maneira que a Igreja, fundada pelo Cristo segundo a interpretação católica-romana, podia se apresentar como instituição divina do próprio Deus em pessoa.

A ciência e o mito se degladiam, mas nem sempre com muita razão. A ciência pelo seu próprio objeto, que é baseado nos fatos e nas comprovações estatísticas, acaba desmitificando o mito. Acontece que a ciência elabora apenas com o sensível. Ignora que a narração, o mito, é um instrumento de expressão certamente diferente da argumentação lógica do logos, mas no fim o mito não é menos lógico, não é menos racional, nem está menos ligado a uma exigência e a um projeto de conhecimento.

A ambígua conexão do mito com uma dimensão temporal não pode nos tirar o ensejo de penetrar-lhe na sua profundidade. Vejamo-lo sem preconceitos e poderemos lançar-nos no campo mais vasto de nossa compreensão espiritual.

Fonte: GIL, F. (Editor). Enciclopedia Einaudi. Lisboa, Imprensa Nacional, 1985-1991.


São Paulo, 30/4/1998


Complemento (julho de 2009): Mythologein
No livro, A República, a articulação entre o mythos e o logos é tamanha, que Platão usa o verbo mythologein para expressar essa junção. Há, assim, o mito propriamente dito, como é o caso do mito do anel de Giges, e formulações míticas completamente misturadas com o discurso argumentativo, como é o caso do mito da caverna. Mythologein é verbo intraduzível. Todas as figuras emanadas deste verbo servem para um aprofundamento do pensamento, pois tudo o que aí é dito dirige-se à inteligência no seu nível mais elevado.

O livro I, de A República, desdobra-se na intenção de responder à questão: “o que é justo?”. Tem como objetivo, no meio de toda a mistura do mythos/lógos obter a unidade. Céfalo, o anfitrião da conversa filosófica, sabe perfeitamente o que é justo. Achava-se leve e preparado para a morte. Mas esse sentimento de leveza diante da morte é como se fosse um mito: diante da morte não importa parecer justo, mas sê-lo. Eis o um: ser e não parece ser. Mas o que é o um? O que é o ser? O que é o parecer ser? Depois da confusão, este questionamento requer um esclarecimento, que Platão dará em forma de uma demonstração do bem.

Platão parte de uma analogia entre o bem e o Sol. É a descrição do mito da caverna. Não o faz para facilitar o tema, mas para aprofundá-lo. Há dificuldade de se entender os homens presos no fundo da caverna. Sua compreensão requer uma reconstrução da visão do ser humano: é o próprio ser humano que tem que se ver como homem livre ou como escravo. Contudo, o ser humano deverá fazer um esforço de se deslocar do lugar que está para um nível de mais compreensão, para o Sol.

Para Platão, a transformação da criança em adulto não é tarefa fácil. Por isso, em cada etapa do caminho há a confusão entre o ser e o parecer ser. É por isso que tomamos os sonhos pela realidade. Vemos como crianças, quando deveríamos ver como homens maduros. Mas, para vermos como homens maduros devemos aprender, pois para os gregos o logismós, o discernimento, é o primeiro estado do aprender e é quando e onde começa a vir a ser homem. Suportar a clareza do Sol é que mostra a diferença entre o ser e o parecer ser.
Os gregos tinham a convicção de que só quem aprende é que pode ensinar. Por isso, eles acreditavam que somente os filósofos, que percorreram o rude caminho da aprendizagem até o Sol, eram os seres capacitados a ensinar.

BOCAYUVA, Izabela. Para uma Nova Interpretação do Relacionamento entre Mito e Logos na Origem da Filosofia. In: MEES, Leonardo, PIZZOLANTE, Romulo (Orgs.). O Presente do Filósofo: Homenagem a Gilvan Fogel. Rio de Janeiro: Mauad X, 2008.


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