11 outubro 2005

Philosophia

A palavra filosofia, pelo fato de ser usada sob diversos ângulos, acabou perdendo o seu significado original. É preciso, pois, buscar o seu verdadeiro conceito, ou seja, a philosophia dos gregos que, enquanto palavra grega, é um caminho. Nesse sentido, a palavra grega philosophia é um caminho sobre o qual estamos a caminho. Quer dizer, há sempre uma procura renovada do arche, da ratio, do ti estin.

O espanto é o primeiro signo da philosophia grega. Esse espanto, denominado pathos, não está simplesmente no começo da filosofia. O espanto carrega a Filosofia e impera em seu interior. Traduzimos habitualmente a palavra pathos por paixão, turbilhão afetivo. Mas pathos remonta à paschein, sofrer, agüentar, suportar tolerar, deixar-se levar por, deixar-se con-vocar por. É uma dis-posição interior na qual o indivíduo se detém ante a grandeza do universo. Assim sendo, espanto é a dis-posição na qual e para qual o ser do ente se abre.

O espanto deve ter necessariamente uma cor-respondência, ou seja, res-ponder ao que foi perguntado. "Corresponder" significa ser dis-posto. Enquanto dis-posta e con-vocada a correspondência é essencialmente uma dis-posição. Por isso, o nosso comportamento é cada vez dis-posto desta ou daquela maneira. A dis-posição não é um concerto de sentimentos que emergem casualmente, que apenas acompanham a correspondência. A correspondência deve ser essencialmente dinâmica, sempre em vias de ser construída, de ser processada.

A "destruição" deve fazer parte do esforço para apreender o real significado da palavra philosofia. A "destruição" não representa uma ruptura com a história, nem uma negação da história, mas uma apropriação e transformação do que foi transmitido. Assim sendo, destruição não significa ruína, mas desmontar, demolir, por-de-lado. Quer dizer, destruição é abrir os nossos ouvidos, torná-los livres e dóceis à inspiração do ser do ente. Somente assim conseguiremos nos situar na perfeita correspondência com o que a palavra philosophia expressa.

O espanto é, enquanto pathos, a arche da Filosofia. Arche designa aquilo de onde algo surge. Buscar a arche da Philosophia é situar-se dentro do espírito pelo qual os gregos consideravam a Filosofia. Os gregos não o faziam através das emoções, dos sentimentos, mas usavam o logos, a ratio. Em outras palavras, queriam ter certeza de que conheciam o que conheciam. É por esta razão que Sócrates usava a sua famosa maiêutica, ou seja, colocar em dúvida o conhecimento vigente, para aprofundá-lo e descobrir novas verdades.

Lembremo-nos de que é somente através de estudos constantes e reflexões profundas que conseguiremos penetrar no âmago do conhecimento verdadeiro. 

Fonte de Consulta

HEIDEGGER, M. Que É Isto – A Filosofia? Identidade e Diferença. São Paulo, Duas Cidades, 1971.

São Paulo, 12/03/1999

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