02 outubro 2005

Espanto e Filosofia

A Filosofia originou-se em Mileto, no século VI a.C. Pergunta-se: o que existia antes? Como algo pode surgir repentinamente, se as idéias sofrem um processo de evolução? Partindo-se da mitologia, forma-se uma análise mais correta. Na mitologia, encontramos as grandes explicações sobre a origem do universo, do homem e de todas as coisas sobre a face da Terra. O grande mérito da filosofia grega foi o de propor um método para a absorção do real, iniciando pela surpresa, pela admiração.

O espanto (tò thaumázeisé), como dissemos acima, é o princípio da filosofia. Observe que tanto Platão (Teeteto, 155d) quanto Aristóteles (Metafísica, A2, 982d) diziam que a metafísica se originava na admiração. Nesse sentido, os primeiros filósofos foram aqueles que, contemplando o espetáculo, familiar, da abóbada celeste, e sentindo-se colhidos de admiração perante o movimento das estrelas e dos planetas, a si próprios formularam questões a propósito de um espetáculo até então passivamente aceito por todo o mundo. A ironia e a maiêutica socrática propunham, também, uma espécie de curto-circuito, que jogava o interlocutor na rota da abertura intelectual.

A pedagogia do filósofo torna-se, muitas vezes, uma dificuldade para o avanço da filosofia. Sócrates, Platão, Descartes, Hegel e outros começaram pelo espanto, pelo zero, por uma espécie de tábua rasa. Alguns deles, contudo, tão logo se achavam possuidores do conteúdo filosófico, negavam esse direito aos novos filósofos, entendendo que estes deveriam dar continuidade ao que eles haviam descoberto. Quer dizer, a posteridade não precisava mais do espanto e da admiração, características próprias do ato de filosofar.

O questionamento é requisito essencial no ato de filosofar. No âmago da questão está embutida a resposta. O fim e o começo estão unidos de tal forma que, muitas vezes, a racionalidade especulativa não consegue compreender. Por exemplo, como absorver diretamente a verdade e o bem, sem começar pelo erro ou pelo mal? Por que não podemos captar de imediato o bem e a verdade? Os filósofos têm dificuldade de dar uma resposta satisfatória a essas questões. Eles não entendem que a vida humana está acima da filosofia e da ciência. Preocupam-se apenas em especular racionalmente.

O estudo da filosofia não nos isenta da inquietação, ao contrário, aumenta-a. É ela que impulsiona o nosso pensamento para o progresso. Sabemos que, seguindo os caminhos que outros já percorreram, o nosso trabalho se torna mais leve. Mas, como não somos simples repetidores, acabamos sofrendo as agruras que o pensamento inovador acarreta. Muitos, ao se depararem com tal situação, voltam-se desanimados para a sua comodidade. Não deveríamos proceder desta maneira, pois os que souberem sofrer, sofrerão menos no futuro.

O filósofo, à semelhança do cristão, não deve pensar somente em si. Deve, sim, colocar-se como o arauto do pensamento, como uma luz que irá redimir a ignorância de toda a humanidade.

Fonte de Consulta



GUSDORF, Georges. Tratado de Metafísica. Tradução de Antonio Pinto de Carvalho. São Paulo: Nacional, 1960.
São Paulo, 22/10/2004

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