05 outubro 2005

Escrever é Pensar?


O tema vem a calhar, pois sentimo-nos diminuídos diante de um autor que editou mais de cem livros. Perguntamo-nos: como ele consegue fazer tanto e eu nada? Esta seria a pergunta relevante? Não estamos confundindo quantidade com qualidade? Suponhamos que ele componha estórias de amor e outras futilidades. Será que, por ele ter perdido tempo compondo-as, devemos nós perder o nosso para lê-las? É preciso cuidado. O que interessa extrair de um escrito? Algo que nos ajude a pensar melhor.

O que se entende por pensar? Pensar vem do latim sopesar e significa ponderar, avaliar, refletir. A metodologia filosófica lembra-nos de que não devemos conhecer por conhecer, mas conhecer para pensar; sugere-nos que devemos ruminar tudo aquilo que nos passa diante dos olhos, para que possamos construir o nosso próprio raciocínio. Temos a obrigação não só de conhecer os autores que nos precederam, mas também lhes sugar o que melhor produziram. Apropriar-se de um conhecimento alheio não é parafraseá-lo, mas construir solidamente aquele raciocínio como se fosse nosso.

A palavra escrever, em sentido comum, é colocar no papel o que está primeiro no cérebro. Num sentido mais amplo, podemos dizer que é a expressão do discurso do ser humano. Ou seja, nós só podemos colocar no papel aquilo que se encontra dentro de nós próprios. Se componho estórias de amor, é porque elas já existem em potência no meu psiquismo. Em outras palavras, os meus escritos revelam a maneira que eu sou. Se sou despótico, pessimista, violento, terei a tendência de passar isso para o papel; se sou bondoso, amante da verdade e da justiça, farei o contrário.

Os livros, em sua maioria, auxiliam a pensar? Temos dúvida. Muitos trazem informações, outros contam estórias, outros descrevem biografias, outros são pornográficos. Eles, em si mesmos, não dizem muita coisa. Vale mais a maneira que os lemos. Se tivermos um objetivo determinado, tiraremos proveito até do pior dos livros. Contudo, para ajudar a pensar, o autor deve se expressar claramente no sentido de sugerir uma reflexão, uma mudança de comportamento. Nesse mister, Einstein já nos dizia que "quem lê demais e usa o cérebro de menos adquire a preguiça de pensar". Temos de fazer nosso o motivo da reflexão.

Como, porém, tornar um texto apto à reflexão filosófica? Em primeiro lugar a disposição: se o texto não estiver legível e bem distribuído nas páginas, o leitor poderá abandoná-lo tão logo o pegue para ler. Observe quando nos pedem para ler alguma coisa. Os nossos olhos procuram sintetizar e colocar títulos para melhor dispor o próprio pensamento. É isso o que devemos fazer para o leitor. Em segundo lugar, o texto deve enunciar ou sugerir uma mudança de atitude. Por que? Por que na raiz da palavra aprendizagem está a mudança de comportamento.

Estejamos sempre atentos. Para bem viver nós não precisamos de muitas informações e nem de muitas leituras. Basta que elas sejam essenciais ao nosso crescimento moral e espiritual.

São Paulo, 02/08/2002

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