26 maio 2010

Dificuldades para Captar a Verdade

A verdade é comumente definida como uma relação entre o Sujeito e o Objeto. O Sujeito capta o Objeto e retorna ao mesmo como uma crítica conceituada. Se a imagem que teve do Objeto coincidir com a do próprio Objeto, diz-se que está de posse da verdade; se não coincidir, que está em erro.

Há, porém, muitas dificuldades quando queremos aprofundar essa relação. Precisamos incluir os condicionamentos do Sujeito, a sua familiaridade, os seus desejos, os seus interesses, as suas crenças, o seu sistema de valores. Ainda mais: há necessidade de verificar se suas percepções estão em perfeito estado, isto é, que não haja deficiências, como é o caso de enxergar sem luz, de sentir o cheiro de alguma coisa, estando resfriado.

As religiões e seus dogmas têm grande influência nos valores que o indivíduo forma para si e para os seus. Em tese, todas professam a verdade, verdade que leva o seu adepto à salvação. Se a sua crença religiosa leva à salvação, as outras estão em erro. Esta pessoa não é capaz de pensar que o outro também pode estar com a verdade. É por isso que a pluralidade das crenças leva aos conflitos e às diversas guerras que tivemos ao longo da história da humanidade. 

O problema do status social. Tomemos, por exemplo, um acidente de trânsito, em que um motoqueiro é atropelado por um automóvel. Haverá tantas versões quantas forem as pessoas indagadas. Se perguntarmos a um outro motorista de automóvel, ele dirá que o motoqueiro é imprudente, que atrapalha o trânsito, que fura a fila etc. Se perguntarmos a um outro motoqueiro, ele dirá que o motorista do automóvel tem raiva deles, que os trata com desprezo.

Os aspectos denotativos e conotativos. Suponha a palavra “vaca”. Ela denota um animal, cujo conceito (imagem mental) é a mesma em toda a parte do mundo. Entretanto, conota muitos outros significados. Na Índia, é considerado um animal sagrado. Este símbolo tem forte poder no relacionamento entre as pessoas. Nesse caso, quando quisermos ofender uma pessoa, basta tratarmos mal a sua vaca, que repercutirá sobre o seu possuidor. Não faz muito tempo, houve uma celeuma sobre a quebra de uma imagem de Nossa Senhora da Aparecida.

Além das dificuldades conotativas, religiosas, de condicionamento e de status social, deparamo-nos com a mentira. A mentira é uma espécie de imposição para nos fazer crer que algo é diferente do que realmente é. Os discursos políticos, por exemplo, precisam ser estudados e analisados nos seus mínimos detalhes, pois muitos deles trazem um viés dos dados e da análise da conjuntura nacional e mundial.

Lembremo-nos de que quanto mais nos desvencilharmos dos nossos condicionamentos e dos nossos preconceitos, mais aptos estaremos para nos aproximarmos da verdade. Dizer “é possível que estejamos em erro” é muito útil, pois obriga-nos a revisar aquilo que tínhamos por verdade inconteste.

Fonte de Consulta: Capítulo IV (A Verdade Pode Ser Plural?), de Promover Harmonia: Vivendo em um Mundo Pluralista, de Michael Amaladoss, S. J. Rio Grande do Sul: Unisinos, 2006.

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