10 novembro 2010

Questões Existenciais Segundo Alguns Filósofos

Para Sêneca (4 a.C.-65 d.C.), o sábio deve buscar a impassibilidade, em que o racional controla o emocional. Para ele, as emoções são doenças do espírito que perturbam o individuo, fazendo-o preferir a solidão. Acha que a qualidade do sábio é a indiferença e a finalidade da sua existência é a apatia, que nasce da supressão de qualquer desejo.

Para Leibniz (1646 -1716), aquilo que se nos configura como mal (dor, morte, pecado) não é absolutamente uma condição da imperfeição do universo. Segundo o seu ponto de vista, um mundo sem dor não seria melhor do que o atual: as piores coisas têm a sua significação na economia do todo, pois a economia nada mais é do que a realização de um fim pelos meios mais simples.

Para Voltaire (1694-1778), em seu livro Cândido ou o Otimismo, Cândido representa o otimista que, diante das piores desgraças, tais como, furtos, doenças e catástrofes naturais, acha que o mundo assim mesmo não poderia ser diferente porque vivemos no melhor dos mundos possíveis.

Para Rousseau (1712-1778), em seu livro Emilio ou da Educação, Emílio é educado segundo as leis da natureza. Nesse sentido, o mestre deve antes facilitar o seu aprendizado do que lhe passar uma tonelada de informações. É pela curiosidade do aluno que o mestre o introduzirá nos aspectos científicos da vida, sem lhe destruir a iniciativa e a pureza.

Para Pascal (1623-1662), por trás do frenesi da vida cotidiana, está sempre a fuga de nós mesmos, a tentativa de nos atordoarmos para não enfrentar a questões verdadeiras e importantes da existência: a inevitabilidade de morte. As pessoas desejam mais ser distraídas do que ensinadas a viver sozinhas consigo mesmas.

Para Kant (1724-1804), há duas coisas realmente capazes de comover o seu espírito: o céu estrelado e a constatação da lei moral interior. Entre as duas existe oposição e complementaridade: “Não somente porque uma é externa e a outra interna à pessoa, mas também porque o sentido de pequenez sugerido pelo confronto com o espetáculo do universo enfatiza, por contraste, a consciência da absoluta potência, da autossuficiência e da universalidade comumente denominada voz da consciência”.

Para Kierkegaard (1813-1855), o desespero é o sentimento que todo o ser humano padece por não ser capaz de realizar-se plenamente. Apenas a concepção religiosa pode responder ao problema do significado último da existência.

Fonte de Consulta

NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Margherita De Luca. São Paulo: Globo, 2005.

 

A Necessidade de Conhecer os Outros

"Conhecer melhor outros é conhecer a si mesmo".

O ser humano, sendo um animal social, tem necessidade de conhecer os outros, uma vez que só não é nada. Todo ser humano tem personalidade, desejos e emoções. É na convivência com os opostos, ou seja, com os outros que cada um de nós deve robustecer o seu caráter e a sua personalidade.

Mas quem são os outros? Os outros são os entes queridos, os amigos, as pessoas que encontramos no metrô, no ônibus, no consultório médico. Cada um desses outros tem vontade e desejos. Alguns de seus sentimentos são velados, outros expressos publicamente. Observe o relacionamento entre chefe e subalterno. Um pode estar querendo passar a perna no outro, mas os dois mantêm as aparências, como se tudo estivesse correndo a mil maravilhas.

Aprender a conhecer os outros é adquirir um sentido novo, o sentido psicológico, e para isso convém refletir muito sobre cada uma de nossas ações. Nesse sentido, a Psicologia informa-nos que há sete véus do caráter: o inconsciente; os meios interiores; a sensibilidade racional; a forma do rosto; a estrutura do corpo; os gestos e as maneiras de ser; o vestuário.

Baseando em pesquisas, os psicólogos retratam que pessoas com óculos são consideradas mais inteligentes do que aquelas que não os usam; as mulheres com batom são tidas como frívolas e ansiosas, enquanto as que não o usam são avaliadas como sendo mais conscienciosas, mais sérias e de conversa agradável.

A própria linguagem corrente emprega um vocabulário em que cada gesto possui uma tradução psicológica: vivo, desconfiado, medroso, colérico. Muitas vezes atraiçoamo-nos pelo gesto, na medida em que ele é uma alusão que nos espera. Abrir correspondência, sentar-se, esperar em fila de ônibus e tratar com gerentes de bancos podem ser motivos para o mapeamento do caráter e da personalidade.

"Mentimos com as palavras, mas os gestos revelam o que somos". Sejamos, pois, autênticos, tanto nos gestos quanto nas palavras. 

Fonte de Consulta

GAUQUELIN, Michel (Org.). Conhecer os Outros. Tradução de Cassiano Reimão e Virgílio Madureira. Lisboa/São Paulo: verbo, 1978.

 

30 outubro 2010

Heidegger, Martin

"Nunca chegamos aos pensamentos. São eles que vêm." (Martin Heidegger)

Martin Heidegger (1889-1976) filósofo alemão, discípulo de Husserl (que desenvolveu a fenomenologia) e umas das influências do existencialismo. Em 1923, foi nomeado professor titular na Universidade de Malburgo e sucedeu a Husserl na cátedra de filosofia em Freiburg (1928), chegando a reitor da universidade em 1933. Em sua obra principal, O Ser e o Tempo (1927), Heidegger procurou trazer a filosofia de volta para o que ele considerava uma questão de extrema importância: "O que é o ser?".

Para Heidegger, a existência só pode ser compreendida a partir da análise do Dasein (o ser-aí), do ser humano aberto à compreensão do ser. Embora reverencie as figuras de Platão e Aristóteles, acha que o sentido da pergunta pelo Ser foi perdido e caiu no esquecimento. Concentra-se na determinação própria da existência em lugar de colocá-la entre parênteses, dela fazendo abstração. Afirma, também, que a existência humana está baseada numa finitude radical; o homem é um ser-para-a-morte e sente angústia por isso.

Analisando o cotidiano, percebe que as pessoas estão presas ao “falatório”, inconsciente e inconsequente, repetindo o que todo mundo diz. Pondera que a busca incessantemente da novidade e do boato cria uma ambiguidade entre o autêntico e o inautêntico. Nesse caso, o Dasein está sempre à mercê da decadência e da queda, da inautenticidade e da alienação. Esta situação gera a angústia, uma espécie de “inquietação metafísica” em meio aos tormentos pessoais do ser humano.

Como estamos vendo, o ser humano tem duas alternativas: realizar-se na existência autêntica ou perder-se na existência inautêntica. Como se encontra jogado no mundo à sua revelia, está sempre à mercê do medo e da angústia. Mesmo assim é capaz de verdade, quer dizer, de desvelar ou revelar a si mesmo a temporalidade essencial de sua existência, de ser-para-a-morte. Ou seja, a angústia que revela a temporalidade e a mortalidade do Dasein, permite, assim mesmo, o acesso à existência autêntica.

Ser capaz de verdade remete o ser à sua transcendência. Transcender-se é projetar-se, ou seja, é constituir um mundo enquanto conjunto de possibilidades. A transcendência, enquanto estrutura da realidade humana, explica a liberdade e a verdade, entendida como aletheia, revelação ou descobrimento do ser. “Ora, a transcendência é a própria liberdade, que assim se revela como a origem do princípio, de razão e o fundamento último, o ‘abismo’ além do qual não é possível remontar”.

Fonte de Consulta

ENCICLOPÉDIA MIRADOR INTERNACIONAL. São Paulo: Encyclopaedia Britannica, 1987.

Kierkegaard, Sören Aabye

"[...] o conhecimento tem relação com o conhecedor, que é essencialmente um indivíduo existente, e [isso] por essa razão todo conhecimento essencial está relacionado essencialmente à existência." (Pós-Escrito Conclusivo não Científico às "Migalhas Filosófica")

Sören Aabye Kierkegaard (1813-1855) foi um filósofo e escritor dinamarquês. Estudou Filosofia e Teologia, e desde 1841 viveu na Alemanha. Apesar de ter morrido novo, deixou aproximadamente umas trinta obras, que assinou com pseudônimos vários. Dentre as suas obras, citamos: Tremor e Terror (1843); O Conceito de Angústia (1844); As Migalhas Filosóficas (1844); O Diário, escrito ao longo de vários anos.

Kierkegaard foi marcado por desilusões pessoais e familiares e, principalmente, pelo rompimento de seu noivado com Regina. Isso o fez um homem voltado para o pessoal, o existencial, contrapondo-se ao impessoal, o geral. Nesse sentido, combateu a metafísica de Hegel, que era abstrata e procurava o universal, defendendo a necessidade de uma “filosofia existencial”, a do ser humano concreto, daquele que vive intensamente o aqui e o agora.

Tanto em Kierkegaard quanto em Pascal, o saber filosófico dá passagem à vida religiosa. A divergência entre eles: Pascal optou por uma atitude contemplativa; Kierkegaard, não. Para ele, o cristianismo autêntico, aquele que Cristo pregou, é “escândalo e loucura”. Por isso, a sua crítica à fé acomodada que se refugia nas organizações religiosas. A sua religiosidade vivida incluía o pecado como consciência de si. Diz que Adão só pôde conhecer a sua condição finita quando se rebelou contra Deus. Antes disso, era inocente e ignorava a sua própria condição.

Em suas lucubrações, a fé induz ao pavor, porque além de não contar com o apoio da razão, exige que o ser humano vá além dela e caia no absurdo. Como se explica? Para ele, a existência é sempre liberdade, ou seja, possibilidades que se apresentam diante do indivíduo, e que tem de escolher. A escolha, porém, conduz o sujeito à angústia. Ele diz: “a angústia é a realidade da liberdade quanto à possibilidade”, que entre todas as possibilidades que se abrem diante do ser humano encontra-se também a do nada. A angústia nada mais é do que a “vertigem da liberdade”.

A passagem da ignorância à inocência, da inocência ao pecado, realiza-se em três níveis de consciência: 1) estético, no qual o indivíduo busca a felicidade no prazer, cuja fugacidade entretanto leva ao desespero inevitável; 2) ético, em que procura alcançar a felicidade pelo cumprimento do dever, sendo no entanto condenado ao eterno arrependimento por suas faltas; 3) religioso, em que o homem busca Deus, entretanto a verdadeira fé é angústia da distância de Deus. 

Por fim, lembremo-nos de que todos os filósofos, que deram destaque ao indivíduo e à existência, são devedores do seu pensamento. Entre eles estão: Heidegger, Jaspers e Sartre.

Fonte de Consulta

TEMÁTICA BARSA. Rio de Janeiro, Barsa Planeta, 2005. (Volume de Filosofia)

 

01 outubro 2010

Otimismo e Pessimismo

otimismo é uma atitude fundamental que leva o indivíduo a visualizar sempre as pessoas, as coisas, as situações, sob os seus aspectos bons, agradáveis, positivos. Da mesma forma, o pessimismo é uma atitude fundamental, a qual, porém, leva a supervalorizar os aspectos negativos e sombrios.

O otimista e o pessimista veem a mesma coisa, sob ângulos diferentes; por isso reagem de modo diferente. Numa prova que deve durar 2 horas, quando se anuncia que passou uma, a reação do pessimista é: "Que horror! Já passou uma hora!" A reação do otimista é: "Que bom! Ainda tenho uma hora!"

O pessimismo funciona, em geral, como inibidor da ação, mas propicia o desenvolvimento do senso crítico; o otimismo é um estimulante, mas quando sucumbe à ingenuidade, pode levar a desilusão e irresponsabilidade.

Tanto o otimista quanto o pessimista precisam ser realistas, ou seja, ver as coisas como elas realmente são. Muitas vezes, pelo excesso de zelo, podemos desviar o nosso olhar para um dos dois lados, sem medir a consequência dessa atitude, desse comportamento. Por um lado, podemos ser bastante ingênuos e acreditar em tudo o que nos falam; de outro lado, podemos duvidar de tudo e ver tudo pelo lado das sombras, das trevas.

Toda educação deve procurar ser realista, mas envolvida num clima de otimismo, que permita um desenvolvimento que não atrofie a confiança e a alegria de viver.

NOTA: Com exceção do 4. º parágrafo, o resto é cópia de: ÁVILA, F. B. de S.J. Pequena Enciclopédia de Moral e Civismo. Rio de Janeiro: M.E.C., 1967.

 

22 setembro 2010

Os Complexos Têm Cura?

“As moléstias da mente prejudicam os poderes do corpo”. Ovídio

Os complexos — de inferioridade, Frankenstein, Édipo etc. — incrustam-se em nosso psiquismo, porque não soubemos nos defender quando eles nos visitaram pela primeira vez.

complexo é um sistema de ideias, sentimentos, recordações e impulsos inter-relacionados, carregados de emoção, que geralmente são reprimidos e que dão origem a um comportamento anormal ou patológico. Os complexos são mentais, e sendo mentais não podem ser curados por alguma injeção de soro ou pela ingestão de comprimidos ou pós. (1)

De acordo com Dodson, em O Universo do Poder Mental, os complexos têm cura. Há, neste livro, vários métodos e estímulos para a erradicação desse mal. O complexo é uma atitude mental assumida por nós mesmos. Nesse caso, podemos substituí-la por outra, ou seja, por ideias que enobreçam o esforço próprio, o caráter e a personalidade.

Para que possamos absorver o poder superior do cosmo, não devemos forçar para que alguma coisa aconteça; permitamos apenas que aconteça. Quando forçamos, estamos sendo influenciados por condições externas; deixando-as seguir o ritmo normal, elas são direcionadas para o rumo certo, rumo este que está de acordo com o poder divino.

Há muitas orientações sobre a condução do nosso pensamento

Quando estivermos cansados, não permitamos que o espírito assim se sinta. Pensemos que é uma coisa passageira e que isso não pode influenciar a quietude de nosso espírito imortal. A dor, o cansaço e o sofrimento são do corpo. O espírito está sempre vivo, desperto, ativo. Paulo, em suas prédicas, já nos dizia que é imperioso levantar as mãos cansadas e os joelhos desconjuntados e persistir no caminho da evolução espiritual.

Na mente cósmica não há dor ou sofrimento. Em vista disso, dizer para nós mesmos que estamos calmos, sossegados e descontraídos, porque o poder divino nos ilumina, é um excelente exercício. Acrescentemos: serei inspirado por essas falanges do espaço. Nada há a temer. O medo é apenas um preconceito dos nervos.

Estendamos esses pensamentos aos nossos vícios. Digamos: eu rejeito todo o pensamento que macule o meu corpo físico, tais como, o álcool e o fumo. O meu corpo, ligado ao infinito bem, não pode ansiar por coisas materiais que lhe possam fazer mal e prejudicar. O fumo aumenta a infelicidade por meios artificiais.

A mudança comportamental não é tarefa fácil. Contudo, qualquer esforço hoje pode render frutos dulcíssimos num futuro próximo.

(1) DODSON, Samuel. O Universo do Poder Mental. Tradução de Luzia Machado da Costa. Rio de Janeiro: Record, s.d.p., p. 103.

 

11 agosto 2010

Fenomenologia do Ethos

Fenomenologia é definida como "um estado puramente descritivo dos fatos vividos de pensamento e de conhecimento". Ethos (grego), e sua tradução mores, em latim, embora tomando sentidos diversos na política, na moral e na música, significa caráter, comportamento, valores e costumes. Juntando os dois termos, diremos que fenomenologia do ethos é a descrição do comportamento, do caráter e dos valores éticos do ser humano. Nesse caso, há uma infinidade de aspectos a serem considerados. Vejamos alguns.

Em termos políticos, o ser humano tem necessidade de moradia, saúde, alimentação e infraestrutura. O Estado tem o dever de lhe prover o bem comum, que implica a distribuição justa dos recursos públicos. Na tirania, a busca do bem comum já está comprometida. Na democracia, os políticos podem atender a esse objetivo segundo um ethos autêntico ou um ethos demagógico.

ethos retórico trata, em linhas gerais, das qualidades do orador perante o público. Quando se fala do ethos do discurso, fala-se da persuasão pelo caráter (= ethos) do orador. O discurso tem uma natureza que confere ao orador a condição de ser digno de fé. São os traços de caráter que o orador deve mostrar ao auditório (pouco importa a sua sinceridade). O ethos, muito mais que o logos, é bastante útil ao orador, principalmente ao orador político, que procura agradar mais pela emoção do que pela razão.

Em termos morais, há diversas opiniões sobre o que consiste o bem a-fazer o o mal a-evitar. Uns acham que obedecendo a Deus, já estamos praticando o bem; outros, que crer ou não em Deus tem pouca relevância. No fundo, contudo, há um acordo, ou seja, aquele que diz respeito ao procedimento autenticamente humano, aquele que não pode ser anti-humano, que é “fazer aos outros o que gostaríamos que a nós fosse feito”.

A reflexão sobre o ethos leva-nos à prática do amor. O verdadeiro exercício do amor longe está das proibições e interdições de que a moral propõe. É uma autodeterminação que envolve a autonomia da vontade na busca da atualização do ser. Assim, não é agir de qualquer jeito, mas de forma ordenada, generosa, que promova a pessoa e os direitos do outro, sobretudo quando esses direitos são espezinhados.

ethos espírita está embasado nos ensinamentos de O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec. O comportamento ético-espírita só pode fixar-se e expandir-se em terra fértil. Para isto, o adepto do Espiritismo deve, em primeiro lugar, limpar, adubar e regar o “terreno interior”, a fim de criar condições favoráveis de receber a semente evangélica para, posteriormente, fazê-la frutificar cento por um.

O estudo do ethos, como dissemos, leva-nos para uma infinidade de reflexões: escolhamos aquelas que possam aumentar a nossa capacidade de compreender a nós mesmos e ao mundo que nos rodeia.

 

04 agosto 2010

Sócrates Foi um Verdadeiro Filósofo

De acordo com Platão, Sócrates era um mágico, um feiticeiro, um xamã. Mênon, Alcibíades e Aristófanes relataram que ficavam drogadosextasiados diante do mestre. As palavras de Sócrates enfeitiçavam-nos de tal modo que todos eles temiam perdê-lo, pois estava se aproximando a hora de sua partida, notadamente com a ingestão da cicuta.

Sócrates dizia-se guiado pelo seu demônio, seu guia protetor. Ele não lhe pedia autorização para fazer isso ou aquilo, mas recebia avisos deste quando fosse desviar-se do verdadeiro caminho, do caminho da verdade. Descartes, o autor do discurso do método, defensor do racionalismo, teve como ponto de partida três sonhos premonitórios, que lhe alertaram para o seu trabalho lógico.

Sócrates foi um filósofo, um verdadeiro filósofo, pois não tinha receio de contrariar os seus pares. Além do mais não cobrava pelas suas elucidações. E sabia diferenciar as questões de ciência das questões de filosofia. A ciência tenta explicar os meios; a filosofia, os fins. A ciência faz hipóteses, observa e conclui através dos objetos sensíveis, especialmente pela experimentação; a filosofia não, a filosofia está preocupada com o fim, com os valores, principalmente os valores do bem, do belo e do justo.

Se levarmos em conta os seus ensinamentos, somente os filósofos são verdadeiramente livres, porque nada fazem para tirar proveito próprio. Os políticos, os cientistas e os demais seres humanos, ao contrário, almejam poder para tirar alguma vantagem. Nesse caso, eles não podem ser considerados totalmente livres.

Sócrates foi um filósofo autêntico, pois vivia de acordo com o que pensava e influenciou muito mais pelo exemplo do que pelos seus discursos.

08 julho 2010

Fé e Razão Segundo Alguns Filósofos

Para São Tomás de Aquino, Deus não reconhece divergências entre fé e razão. Teologia e filosofia são disciplinas distintas, porém colocadas em escala hierárquica. A filosofia pode perfeitamente ser considerada como uma teologia natural, submetida à teologia da revelação. Dar mais importância à razão é inverter a ordem natural. Nesse caso, o ser humano pode ser vítima da ilusão.

Para Lutero, é a fé (e não as obras) que conduz o ser humano à salvação. Para isto, tem que se entregar à vontade de Deus. Não é simplesmente colecionando o maior número de ações boas, o que torna Deus um contabilista, mas entregando-se de corpo e alma à vontade do Criador.

Para Galileu, a Bíblia deve ser interpreta. Acha ele que, em princípio, não deveria haver oposição entre os dizeres dos profetas e as descobertas científicas, pois tanto a natureza religiosa quanto a natureza material provêm do mesmo Criador. A oposição existe no sentido de que as palavras da Bíblia devem ser interpretadas, distinguindo-se o sentido real do literal. Como a ciência está no livro de Deus, não é a ciência que deve se adaptar à Bíblia, mas a interpretação da Bíblia é que deve adaptar-se às teorias científicas.

Para Hegel, há continuidade e superação nas relações entre religião e filosofia. Para ele, a filosofia exprime de forma racional o que a religião prega de forma mítica. Nas duas formas de saber, o conteúdo doutrinal é o mesmo, mas não devidamente explicitado na narrativa religiosa. Assim, o mito da vinda do Cristo pode intuir a autoconsciência humana, principalmente pelos exemplos contados a seu respeito.

Para Feuerbach, a religião é uma forma de alienação, pois todo o progresso religioso traz como consequência um abaixamento da humanidade. Ao glorificar Deus o homem se diminui. Nesse caso, o ateísmo torna-se um dever ético para que o homem possa reencontrar a si mesmo. Temos que transformar os homens amigos de Deus em amigos dos próprios homens.

Para Soren Kierkegaard, a fé induz ao pavor, porque além de não contar com o apoio da razão, exige que o ser humano vá além dela e caia no absurdo.

Fonte de Consulta

NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Margherita De Luca. São Paulo: Globo, 2005.

30 junho 2010

Funcionamento da Mente Segundo Alguns Filósofos

Para Aristóteles, há uma hierarquia dos seres vivos baseada na capacidade de conhecimento. Nos animais, que só têm sensibilidade, há pouco conhecimento. Nos seres humanos, que têm memória e faculdades intelectivas, as quais permitem experimentar, ou seja, fazer ciência, a possibilidade de conhecer é infinitamente superior.

Para Campanella, na Cidade do Sol, o sistema didático baseia-se nos sete círculos de muralhas. Cada uma delas é marcada com representações (figuras) referentes ao inteiro conhecimento humano. Basta que uma criança vá observando as figuras, e o conhecimento vai lhe penetrando sem esforço.

Para Descartes, uma ideia é verdadeira quando ela se apresenta a nossa intuição com todas as características da evidência (modalidade psicológica pela qual a mente representa a si mesma certas verdades como claras e distintas, certas e inopináveis). Sendo clara em si mesma, é dotada de um grau de certeza, e não tem necessidade do filtro da razão, imposto pela dúvida metódica.

Leibniz, ao tratar da Mônada, afirma que a consciência não é um ingrediente necessário ao pensamento e à sensação. Ele diz que há percepções tão pequenas que não podem ser compreendidas pela consciência, mesmo agindo sobre os órgãos dos sentidos. Exemplo: acostumar-se com um ruído faz com que ele não seja mais notado.

Locke, polemizando com Descartes, demonstra com argumentos extraídos da experiência a inexistência de ideias inatas: as crianças, os loucos e os selvagens não possuem qualquer ideia de Deus. Daí, afirmar que não há nada inato no ser humano, pois tudo provém da experiência. Para ele, o ser humano nasce como se fosse uma tabula rasa, ou seja, um papel em branco sobre o qual a prática do mundo externo e a reflexão do sujeito imprimirão o conhecimento. Com isso, demonstra ser falsa a teoria de que as ideias claras e distintas precedem a experiência.

Para Kant, a mente deve criticar a si mesma, estabelecendo um limite para o seu raio de ação. Ele acha que a mente tem uma tendência para ir além dos seus limites, havendo necessidade de se impor um controle. Há, no ser humano, um impulso instintivo de ultrapassar o âmbito da experiência verificável para formular conjecturas hipotéticas e doutrinas metafísicas

Freud, através da sua teoria do complexo de Édipo, sintetiza a sexualidade pervertida da criança: inconscientemente, o garoto sente atração sexual pela mãe; a garota, pelo pai.

Para Bérgson, a intuição é o instinto da inteligência. Ele acha que não podemos afirmar a superioridade da inteligência em relação ao instinto: existem coisas que somente a inteligência é capaz de buscar, mas por si só não encontrará nunca; somente o instinto poderia descobri-la, mas não as buscará nunca.

Fonte de Consulta

NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Margherita De Luca. São Paulo: Globo, 2005.

 

16 junho 2010

O Uno, o Múltiplo e as Religiões

Ao longo do tempo, os filósofos e os diversos pensadores da humanidade têm feito reiterados esforços para conciliar o uno com o múltiplo. Nesse sentido, pregam que uma abordagem racional da vida exige que o ser humano preste atenção no pluralismo baseado no princípio da contradição. O problema surge quando o Deus de uma religião resiste à aceitação do Deus de outra religião. Quantas não foram as guerras de fundo religioso?

Contrapondo-se às guerras, há os esforços para paz. A segunda Assembleia Mundial de Religiões, realizada em Chicago em 1993, declarou que não pode haver paz entre as nações se não houver paz entre as religiões. Em 24 de janeiro de 2002, ao terminar o Dia de Oração pela Paz no Mundo, os chefes religiosos presentes em Assis, a convite de João Paulo II, proclamaram um compromisso, denominado “Decálogo de Assis para a Paz”, em que se refuta a violência e se enfatiza a concórdia.

O pluralismo religioso é um fato. Não o podemos negar. Observe as religiões mundiais: todas elas são moderadamente fundamentalistas, pois cada uma delas se acha na posse da verdade. Somente por ela, o indivíduo terá condições de se salvar, de ir para o céu. Imaginemos um cristão: quer tenha consciência ou não, o adepto de outra religião também poderá ser salvo, mas somente por meio de Cristo ou através de uma ligação com a Igreja de Cristo.

Michael Amaladoss, em seu livro Promover Harmonia, reporta-se a três exemplos de conflitos das religiões: 1) lenço de cabeça islâmico nas escolas francesas; 2) crucifixo numa sala de aula da Baviera; 3) Uma islamita divorciada abandonada na índia. Todos esses casos geraram discussões sobre os limites da fé religiosa, obrigando o Estado a arbitrar sobre o que é uma questão laica e uma questão religiosa.

O apego à própria religião deve ser combatido. Cada um de nós deveria olhar além do próprio umbigo. O cristão poderia raciocinar da seguinte forma: quantos são os cristãos no mundo? Pelas estatísticas, aproximadamente 2,5 bilhões de pessoas. Se somente Cristo salva, o que acontecerá com os outros 4 bilhões? Irão para o fogo do inferno? Não é uma incoerência?

Somente Deus é absoluto. A revelação divina pode nos ajudar a encontrar Deus, mas não é garantia para a verdade absoluta, pois a verdade não é monopólio de ninguém, mas patrimônio comum das inteligências.

Fonte de Consulta

AMALADOSS, Michael S. J. Promover Harmonia: Vivendo num Mundo Pluralista. Tradução de Nélio Schneider. Rio Grande do Sul, Unisinos, 2006.

09 junho 2010

Pensamento e Fisiologia do Pensamento

Pensamento. A palavra pensamento é fácil de ser intuída, mas difícil de ser explicada com palavras. O pensamento é definido em termos das atividades mentais, como inteligência ou razão, em que são descartados os sentimentos e as volições. Liga-se também à atividade discursiva ou intuitiva. Fisiologia. Ciência que trata dos fenômenos vitais e das funções pelas quais se manifesta a vida. Parte da biologia cujo objeto é o estudo das funções dos organismos vivos, vegetais e animais.

fisiologia do pensar diz respeito às relações matéria-espírito, corpo-alma, corpo-mente, matéria-consciência, físico-químico e, atualmente, mente-cérebro. Para Kant, a fisiologia do pensar resume-se em passar da sensação (estímulo desorganizado), para a percepção (sensação organizada), para concepção (percepção organizada) e para a ciência (conhecimento organizado).

A cultura grega deu ênfase à razão. A razão fazia o indivíduo raciocinar e aplicar-se ao conhecimento das virtudes. Acontece que o pensamento dos pré-socráticos e dos orientais não são interrogativos, mas poéticos-noemáticos, em que o racional é deixado em segundo plano. Mesmo assim, esses pensamentos poéticos-noemáticos não são superficiais, mas essenciais à própria elaboração do pensável.

A mente é vista como atividade ou processos mentais, em que estão presentes a consciência, a intencionalidade, a subjetividade e o caráter representacional. Para explicar a estrutura da mente há a teoria clássica das faculdades, em que se pressupõe hierarquia de poderes, ou seja, a inteligência e a vontade são superiores à imaginação, por exemplo. Presentemente, temos o construtivismo e o inatismo. No construtivismo, todas as estruturas mentais são construídas pelo sujeito com relação ao seu meio ambiente. No inatismo, a mente possui estruturas inatas que são ativadas em contato com o meio ambiente.

A ciência moderna tenta relacionar computador e cérebro. No computador, há a máquina (hardware), os programas (softwares).e a informação. Os programas usam a máquina para processar a informação. Analogamente, o cérebro é o hardware; as estruturas mentais, o software. O processamento das informações se dá de duas maneiras: modularidade e conexionismo. A tese da modularidade pressupõe que o cérebro funcione por “módulos independentes” e pelos “sistemas centrais”, tais como as relações entre os computadores independentes e o computador central. O conexionismo é a interpretação mais recente do funcionamento do cérebro. De acordo com esta teoria, o cérebro não processa a sua informação em série (uma operação depois da outra), mas simultaneamente, em paralelo.

Para o Espiritismo, o pensamento, como essência, é um atributo do Espírito, sinônimo de inteligência. Nesse caso, ele não pode ser considerado matéria. Acontece que também é usado no sentido material. Daí, alguma confusão. Os processos mentais entram em cena. Em vez de conceituá-los adequadamente, simplesmente dizemos que o pensamento é matéria e vamos tocando o barco. Sócrates, na antiguidade, já nos alertava sobre a necessidade bem definirmos os termos antes de iniciarmos uma discussão.

O pensamento, como inteligência, raciocínio e informação não é matéria. É simplesmente um atributo do Espírito, que é imaterial ou composto de alguma matéria ainda desconhecida por nós. Os processos mentais, que ocorrem no cérebro, possibilitam-nos o uso do termo fisiologia do pensamento, em que são considerados as vibrações, as radiações, os passes, a fotografia do pensamento e as emanações fluídicas.




07 maio 2010

Virtudes Cardeais

Platão, no livro IV da República, descreve as qualidades que uma cidade deve ter para o seu funcionamento racional. Essas qualidades são enumeradas em função de quatro virtudes, chamadas de fundamentais, e que mais tarde denominaram-se virtudes cardeais. Elas são: prudência (sabedoria), fortaleza (coragem), temperança e justiça.

Vale a pena notar que essas virtudes, primeiramente, dizem respeito à cidade, no sentido de termos cidades retas, ou cidadãos que agem segundo a reta razão. Somente depois é que o termo passou a ser aplicado ao próprio cidadão. Isso tem certa razão, pois Platão achava que não havia diferença substancial entre o público e o privado. As coisas devem valer muito mais pelas ideias que lhe são próprias.

Prudência (sabedoria). O que é uma cidade sábia? É a cidade que age segundo certa ciência, a ciência de saber escolher. Nesse caso, escolhe-se o melhor, segundo a natureza de cada coisa, pois Platão entendia a virtude como a potência que cada objeto tem em si mesmo. Por exemplo, a função da planta é produzir frutos Assim, a direção da cidade deveria ser feita pelo rei-filósofo, pois ele, segundo a sua natureza, era o mais sábio para o fazer, porque veio para desempenhar essa função.

A fortaleza (coragem) é um sentimento ou virtude que evoca a força. Observe o guerreiro. Ele não pode ser covarde, pois se assim o for não terá condições de defender a cidade dos inimigos. Daí, dizer que a coragem é a defesa da opinião própria, mesmo quando atacada por todos os lados e por todas as pessoas. A paciência, ligada à fortaleza, é a disposição interior de enfrentar as vicissitudes da vida: dor, morte, desilusão.

temperança, segundo Sócrates, é uma ordenação e ainda um poder sobre certos prazeres. Assim, a temperança refere-se à contenção dos prazeres sensitivos dentro dos limites estabelecidos pela razão. Diz-se que a moderação é a temperança no comer, a sobriedade é a temperança no beber e a castidade é a temperança no prazer sexual.

No estabelecimento da cidade, Platão disse que “cada um deve ocupar-se de uma função na cidade, aquela para a qual a sua natureza é mais apta por nascimento” (Rep., V, 433 c). Isto equivaleria também à justiça, pois implica “executar a tarefa própria e não fazer a dos outros”. (Rep., IV, 433 a). Hodiernamente, poderíamos dizer que a justiça consiste na atribuição, na equidade, no considerar e respeitar o direito e o valor que são devidos a alguém, ou alguma coisa.

Como vemos, temos muito que aprender a respeito das virtudes. O mais importante é não deixarmos que esse termo caia no esquecimento, como sói acontecer nos dias presentes, sendo este o principal empecilho para o nosso desenvolvimento moral e espiritual.




12 março 2010

Não-Dualidade e Fim do Sofrimento

Aristóteles, na antiguidade, desenvolveu um sistema inteiramente dualista, denominado de “lei do meio excluído”, em que tudo no mundo ou é preto ou é branco, negando qualquer outra possibilidade. Daí, a frase: “Quem não estiver comigo está contra mim”. Bush, presidente dos Estados, também incorreu neste erro, quando disse: “Quem não estiver conosco está com os terroristas”. Esta visão dualista de interpretar a realidade propiciou o aparecimento dos hábitos mentais egocêntricos, a principal causa de todo o sofrimento.

Buda, há 2.500 anos, em suas tentativas de iluminação, já nos alertava para a supressão de todo o sofrimento. Os seus ensinamentos se basearam nas Quatro Nobres Verdades, em que destaca a natureza, a causa, a supressão e o caminho para a supressão do sofrimento. No caminho da supressão do sofrimento, ele enfatiza o Nobre Caminho Óctuplo: entendimento correto, pensamento correto, linguagem correta, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, atenção plena correta e concentração correta.

Buda salientou que os padrões egocêntricos das nossas mentes, tais como o julgamento dos outros e o apego às coisas, são a origem das patologias humanas. Como a humanidade seguiu o caminho aristotélico — certo ou errado, bom ou mau e santo ou pecador — quase todo o sofrimento está na nossa mente: sentimento de culpa por algo feito no passado ou uma grande ansiedade por aquilo que está por vir, o que gera medo e desejo de vingança.

Deduz-se, dos ensinamentos de Buda, que cada um nós deveria transcender a ilusão de uma individualidade separada e penetrar na consciência cósmica, onde inexiste ofensa, ódio e rancor e, consequentemente, o desejo de vingança que desses estados dimana. Essa consciência cósmica só poderá ser alcançada quando toda a humanidade estiver cônscia do pensamento correto, aquele que nos leva à verdade de uma realidade.

Por fim, salienta-se que o desenvolvimento da compaixão é um passo firme no caminho que nos leva ao fim do sofrimento. Não é sem razão que a maioria das religiões evoca esta palavra como a principal bandeira do progresso moral e religioso. Assim, quando a humanidade toda estiver pondo em prática esse código de conduta, estaremos nos aproximando da lei áurea ensinada por povos e culturas de todo o mundo: “Fazer aos outros o que gostaríamos que os outros nos fizessem”.

Extinguindo o ódio, o rancor e a vingança, o sofrimento deixará de existir, pois ele está mente daquele que se sente ultrajado e ofendido.

Fonte de Consulta

HURTAK, J.J. e TARG, R. O Fim do Sofrimento: Vivendo sem Medo em Tempos Difíceis - ou como Sair Livre do Inferno. Tradução da Academia para Ciência Futura. São Paulo: Ícone, 2009.

 

 

24 fevereiro 2010

Acesso ao Conhecimento: do Mito ao Logos

Desde tempos remotos, o ser humano quis ter acesso ao conhecimento da realidade. Inicialmente, através do mito; depois, pela razão, pela explicação racional das coisas. Os primeiros filósofos da Grécia antiga começaram a questionar sobre o “mundo”, como ele foi formado, qual a substância primeira (physis), não de forma mítica, imaginária, mas pela razão, pela experiência, onde as coisas pudessem falar por si mesmas.

O mito é uma história, uma narrativa, geralmente acerca da criação. Há, assim, diversas cosmogonias, elaboradas pelos diversos povos da antiguidade. A mitologia grega – Homero e Hesíodo – é muito difundida. Homero tenta representar o Universo governado por deuses, alternando forças luminosas e obscuras. Hesíodo, por outro lado, narra a origem do mundo nos seguintes termos: “No começo era o Caos”. O caos é pura extensão, sem consistência orgânica; um vazio sobre o qual se assenta a Gaia, a Terra, “base segura de tudo que é”.

O nascimento do pensamento racional está ligado ao aparecimento da pólis. Na polis grega, os pensadores dispensaram a influência de agentes e forças sobrenaturais, ficando apenas com a razão e a experiência. Em seus debates sobre a ordem necessária, as formas de governo e o modo de agir deram também origem à filosofia, que é antes de tudo o amor ao saber, e mais precisamente conhecer a verdade, não pela fantasia, pela narrativa, mas pelo uso da razão, no sentido de o ser humano construir o seu próprio destino.

O logos filosófico não deve imaginar como o mundo deveria ser, mas limitar-se a explicá-lo. a tarefa da filosofia é meramente interpretativa: o problema é entender aquilo que é, fazer emergir da realidade o conteúdo racional. No mito, o ser humano fica perturbado diante do desconhecido, gerando ansiedade. Ele quer transformar esta ansiedade em harmonia, por isso inventa uma história, principalmente acerca da origem do Universo e do Homem.

Devemos ter em mente que a consciência racional é uma extensão da consciência mítica. A filosofia surgiu como um despertar do logos, mas não deixou imediatamente o mito. Procurou dar ao mito uma explicação racional. Daí, a consciência racional. No mito, há um conhecimento sagrado; no logos, o sagrado pode ser explicado pela razão humana.

18 janeiro 2010

O Eterno Aprendiz

“O saber que é absorvido em desmedida e sem fome, e até contra a necessidade, já não atua mais como motivo transformador”. (Nietzsche)

Todo ser humano tem desejo natural de saber. Para isso, frequenta bibliotecas, vasculha livros e pesquisa na Internet. Em virtude da facilidade de obter informações, pode absorver mais do que necessita, tendo, depois, dificuldade de manejar o seu excesso. Não é sem razão que os religiosos indagam: que aproveitará a ciência, sem o temor de Deus? Para eles, tem mais valor o humilde camponês que serve a Deus, do que o filósofo soberbo que observa o curso dos astros mas se descuida de si mesmo.

Depois de adquirida a informação, o ser humano sente desejo de passá-la ao outro (ensinar). Aqui, surge o seguinte problema: o propósito do ensino não deve ser o de encher a cabeça do outro com aquilo que pesquisamos, mas o de dar-lhe a dose certa para que possa caminhar por si mesmo. Em algumas escolas modernas, distribuem-se “notebooks” aos alunos, para eles poderem pesquisar online. O professor faz uma pergunta. Em vez de respondê-la, incentiva os alunos a buscarem a resposta na grande rede de computadores.

A Filosofia nos ensina que, por estar na mediatez do real, o ser humano é sempre aprendiz. Para tanto, deve correr o risco da incerteza, mas nunca fugir dessa aprendizagem. Se mudássemos o foco do ensino para o de aprendizagem, haveria uma mudança radical em nossa existência. Já não nos preocuparíamos em saber tudo, estar a par de toda novidade; focaríamos um único ponto: a necessidade peremptória de nosso espírito.

Reflitamos sobre a frase de Nietzsche: “O saber que é absorvido em desmedida e sem fome, e até contra a necessidade, já não atua mais como motivo transformador”. O que isto quer dizer? Que deveríamos buscar os conhecimentos que atendam às nossas necessidades interiores, mas as necessidades reais e não aquelas que são fabricadas pela nossa imaginação, principalmente aquelas sugeridas pelos meios de comunicação de massa.

Aquele que se coloca como aprendiz pode tirar proveito de toda e qualquer situação. Se o discurso que ouve é oco, poderá regenerá-lo dentro de um logos mais amplo, mais racional. Se o discurso é instrutivo, saberá verificar o que serve e o que não serve para o seu estoque de conhecimento. Em todo o caso, saberá aproveitar o tempo para dedicar-se inteiramente à sua evolução moral e espiritual.

 

05 janeiro 2010

Consciência e Conhecimento

Conhecer é uma atividade mental por meio da qual o ser humano se apropria do mundo ao seu redor. Consciência é um saber concomitante. É o saber de uma coisa que acompanha outra sendo esta principal que se produz ao mesmo tempo; simultâneo. Por analogia, dualidade ou multiplicidade de saberes ou de aspectos num mesmo e único ato de conhecimento.

O conhecimento é a relação que existe entre o “observador” e a “coisa observada”. A realidade é o que é. Ela não é falsa nem verdadeira. Verdadeiros ou falsos são os nossos juízos acerca da mesma. Se a imagem que fazemos de um objeto coincide com o que ele é, estamos de posse da verdade; se, ao contrário, houve um viés, estamos em erro. Assim sendo, é muito mais importante a imagem que fazemos do objeto do que ele próprio.

A consciência pressupõe conhecimento e conhecimento pressupõe consciência. Conhecer é ter consciência de alguma coisa. “Ter consciência de qualquer coisa, ser dela consciente e conhecê-la é identicamente a mesma coisa”. Em todo ato de conhecimento, por mais simples e elementar, está presente, ao menos implicitamente, a reflexão (consciência do eu), que opõe um sujeito a um objeto. O sujeito deve transcender no objeto, mas não se perder a si mesmo.

consciência racional é uma extensão da consciência mítica. Na antiguidade, os homens procuravam explicar a origem e o fim do mundo por intermédio do mito. A filosofia surgiu como um despertar do logos, mas não deixou imediatamente o mito. Procurou dar ao mito uma explicação racional. Daí, a consciência racional. No mito, há um conhecimento sagrado; no logos, o sagrado pode ser explicado pela razão humana.

O conhecimento espírita é o conhecimento transmitido pelos Espíritos, principalmente aquele que está arrolado nas obras básicas. A evolução é lei para todas as criaturas, mas o Espiritismo intervém no plano da consciência, ditando normas de conduta que servem para toda a vida. O Espiritismo dá ao conhecimento um verniz especial, aquele verniz trazido pelo mestre Jesus.

De acordo com os pressupostos espíritas, Deus nos deu o livre-arbítrio para regular as nossas ações. Quando enveredamos para o mal, a consciência nos acusa. Ela nos mostra que, continuando nessa direção, sofreremos mais adiante. Nesse caso, o remorso é um estado de alma que nos mostra o quanto devemos nos humilhar junto àqueles que fizermos sofrer. Mas, uma vez praticado o bem, sentimos uma imensa satisfação interior, um júbilo do Espírito que nenhuma fortuna pode pagar.

O ser, criado simples e inocente, procede a uma lenta e laboriosa caminhada evolutiva. Chega um momento em sua existência que percebe que os seus gestos e atitudes, para com os outros, criam nos outros atitudes e gestos semelhantes para com ele. “Incorporando a responsabilidade, a consciência vibra desperta e, pela consciência desperta, os princípios de ação e reação funcionam, exatos, dentro do próprio ser, assegurando-lhe a liberdade de escolha e impondo-lhe, mecanicamente, os resultados respectivos, tanto na esfera física quanto no mundo espiritual”.(1)

“Deus criou todos os Espíritos iguais, simples, inocentes, sem vícios, e sem virtudes, mas com o livre arbítrio de regular suas ações segundo um instinto que se chama consciência, e que lhes dá o poder de distinguir o bem e o mal. Cada Espírito está destinado à mais alta perfeição junto a Deus e do Cristo; para ali chegar, deve adquirir todos os conhecimentos pelo estudo de todas as ciências, se iniciar em todas as verdades, se depurar pela prática de todas as virtudes; ora, como essas qualidades superiores não podem ser obtidas em uma única vida, todos devem percorrer várias existências para adquirir os diferentes graus de saber”. (2)

Quanto mais conhecimento, mais consciência, mais responsabilidade e mais liberdade. O conhecimento livra-nos da cegueira do coração e lança-nos à imensidão do desconhecido, mas com a certeza de desvendá-lo pouco a pouco.

Fonte de Consulta

(1) XAVIER, F. C. e VIEIRA, W. Evolução em Dois Mundos, pelo Espírito André Luiz, 4. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1977, cap. XI, p. 80

(2) Kardec, Allan. Revista Espírita de 1862, p. 84.