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30 outubro 2010

Kierkegaard, Sören Aabye

"[...] o conhecimento tem relação com o conhecedor, que é essencialmente um indivíduo existente, e [isso] por essa razão todo conhecimento essencial está relacionado essencialmente à existência." (Pós-Escrito Conclusivo não Científico às "Migalhas Filosófica")

Sören Aabye Kierkegaard (1813-1855) foi um filósofo e escritor dinamarquês. Estudou Filosofia e Teologia, e desde 1841 viveu na Alemanha. Apesar de ter morrido novo, deixou aproximadamente umas trinta obras, que assinou com pseudônimos vários. Dentre as suas obras, citamos: Tremor e Terror (1843); O Conceito de Angústia (1844); As Migalhas Filosóficas (1844); O Diário, escrito ao longo de vários anos.

Kierkegaard foi marcado por desilusões pessoais e familiares e, principalmente, pelo rompimento de seu noivado com Regina. Isso o fez um homem voltado para o pessoal, o existencial, contrapondo-se ao impessoal, o geral. Nesse sentido, combateu a metafísica de Hegel, que era abstrata e procurava o universal, defendendo a necessidade de uma “filosofia existencial”, a do ser humano concreto, daquele que vive intensamente o aqui e o agora.

Tanto em Kierkegaard quanto em Pascal, o saber filosófico dá passagem à vida religiosa. A divergência entre eles: Pascal optou por uma atitude contemplativa; Kierkegaard, não. Para ele, o cristianismo autêntico, aquele que Cristo pregou, é “escândalo e loucura”. Por isso, a sua crítica à fé acomodada que se refugia nas organizações religiosas. A sua religiosidade vivida incluía o pecado como consciência de si. Diz que Adão só pôde conhecer a sua condição finita quando se rebelou contra Deus. Antes disso, era inocente e ignorava a sua própria condição.

Em suas lucubrações, a fé induz ao pavor, porque além de não contar com o apoio da razão, exige que o ser humano vá além dela e caia no absurdo. Como se explica? Para ele, a existência é sempre liberdade, ou seja, possibilidades que se apresentam diante do indivíduo, e que tem de escolher. A escolha, porém, conduz o sujeito à angústia. Ele diz: “a angústia é a realidade da liberdade quanto à possibilidade”, que entre todas as possibilidades que se abrem diante do ser humano encontra-se também a do nada. A angústia nada mais é do que a “vertigem da liberdade”.

A passagem da ignorância à inocência, da inocência ao pecado, realiza-se em três níveis de consciência: 1) estético, no qual o indivíduo busca a felicidade no prazer, cuja fugacidade entretanto leva ao desespero inevitável; 2) ético, em que procura alcançar a felicidade pelo cumprimento do dever, sendo no entanto condenado ao eterno arrependimento por suas faltas; 3) religioso, em que o homem busca Deus, entretanto a verdadeira fé é angústia da distância de Deus. 

Por fim, lembremo-nos de que todos os filósofos, que deram destaque ao indivíduo e à existência, são devedores do seu pensamento. Entre eles estão: Heidegger, Jaspers e Sartre.

Fonte de Consulta

TEMÁTICA BARSA. Rio de Janeiro, Barsa Planeta, 2005. (Volume de Filosofia)

 

28 janeiro 2009

Tédio: Significado e Transgressão

De acordo com Lars Svendsen, em Filosofia do Tédio, o conceito de tédio está associado ao conceito de significado e de transgressão. Para explicitar a sua tese, fez um intenso trabalho de pesquisa, consultando diversos pensadores acerca do tema. Entre eles estão: Adorno, Heidegger, Kierkegaard, Nietzsche, Pascal, Schopenhauer e Wittgenstein.

Kierkegaard descreveu o tédio como "a raiz de todo o mal". Rochefoucauld, referindo-se à corte francesa, disse: "Quase sempre somos entediados por pessoas para as quais nós mesmos somos entediantes". Para Pascal, "o homem sem Deus está condenado à diversão". Para Nietzsche, o tédio é "a 'desagradável calma' da alma" que precede os atos criativos, e enquanto os espíritos criativos o suportam, "natureza menores" fogem dele. No romance Lucinde (1799), no capítulo "O Idílio do Lazer", Friedrich Schlegel escreve: "Toda atividade vazia, agitada, não produz qualquer coisa senão tédio — o dos outros e o nosso".

O tédio é um fenômeno moderno. Ele surge quando não sabemos o que fazer com a passagem do tempo. Na era pré-moderna, falava-se da acédia, um conceito sobretudo moral. O demônio do meio-dia (daemon meridianus) é um tipo de acédia, o mais ardiloso de todos, pois ataca o monge em pleno dia, fazendo com que tudo lhe pareça uma ilusão. O demônio o faz detestar o lugar onde se encontra - e até a própria vida, lembrando-o dos atrativos que tinha antes de se devotar a Deus. Segundo Evágrio, quem consegue resistir à acédia, mediante vigor e paciência, será também capaz de resistir a todos os outros pecados e encontrará aí a alegria.

O tédio relaciona-se com informação e significado. Sabemos que informação e significado não são a mesma coisa. Significado consiste em fazer uma conexão da parte com o todo; a informação, não. Podemos encher o nosso cérebro com dados, fórmulas e as mais variadas técnicas, mas sem significado algum para nós. Nesse caso, temos de distinguir o essencial do acessório, a novidade, da verdade. Quantas não são as informações que recebemos diariamente que nada tem a ver com o nosso crescimento moral? O tédio aqui representa a perda de significado.

A transgressão, por seu turno, é a satisfação da necessidade que só se sacia na novidade. Para fugir ao tédio, procuramos os divertimentos, as festas, as peças teatrais, as viagens, as discotecas, os barzinhos etc. Nada disso, porém, preenche-nos intimamente. Incita-nos, pelo contrário, a fugirmos de nós mesmos. Contudo, com mais ou menos tempo, o tédio volta a nos visitar, pois desprezamos a verdadeira necessidade de nosso espírito, que é a evolução espiritual.

Renunciemos às novidades, às diversões e ao culto às celebridades. Apliquemos os nossos recursos pessoais na obtenção dos conhecimentos que irão conosco para o além-túmulo.

Fonte de Consulta 

SVENDSEN, Lars. Filosofia do Tédio. Tradução de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.