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13 agosto 2026

Agorazein e Filosofia

 “A filosofia é uma espécie de terra de ninguém, entre a Ciência e a Teologia, sujeita ao ataque de ambas.” — Bertrand Russell

Os princípios elementares da filosofia devem ser apreendidos de forma progressiva ao longo do tempo: começando pelos pré-socráticos, passando pela Idade Média com a Escolástica, até alcançar os racionalistas, os empiristas e outros filósofos modernos, como o próprio Bertrand Russell.

O termo grego Agorazein, que não possui tradução direta para outros idiomas, remete à ideia de “descer até a praça para ver o que estão dizendo” — o que envolve conversar, fazer negócios ou rever amigos. Trata-se também do ato de sair de casa sem um motivo particular: passear ao sol ou simplesmente desacelerar a mente para aguçar o cérebro e os pensamentos que daí advêm.

Sócrates é o exemplo clássico dessa atitude. Conta-se que ele saía rotineiramente de casa para a praça pública (Ágora) com o intuito de dialogar com as pessoas. Ao abordar especialistas em determinados assuntos, aplicava o método da maiêutica — uma sequência de perguntas que trazia à tona as contradições do interlocutor. Tudo isso ganhou força após seu amigo Querefonte consultar o Oráculo de Delfos, que declarou Sócrates o homem mais sábio de Atenas; surpreso, o filósofo decidiu testar a profecia nas ruas, concluindo que sua sabedoria residia justamente em reconhecer a própria ignorância.

Mas o que é, afinal, a filosofia? Ela atua como um campo intermediário entre a ciência e a teologia. Enquanto a ciência investiga os fenômenos da natureza com o recurso da razão, a religião busca algo que supere a capacidade de conhecer através do intelecto e dos sentidos. É nesse espaço que entra a filosofia, aproximando-se mais de uma ou de outra a depender do pensador — oscilando entre o rigor dos racionalistas e a sensibilidade daqueles com um certo pendor místico.

Convém frisar, contudo, que poucos se interessam profundamente por essa busca. Por essa razão, frequentemente prevalece o senso comum de que a filosofia carece de utilidade prática e de que os filósofos apenas divagam sobre abstrações irrelevantes. Quando inquiridos sobre Platão, por exemplo, a maioria se recorda imediatamente do “amor platônico”, interpretado de forma simplificada como um afeto puramente transcendental.

Em vista disso, temos de voltar à praça pública — hoje expandida em uma aldeia global — e resgatar o exemplo de Sócrates, para que possamos desenvolver o nosso próprio pensamento e instigar a reflexão daqueles que entram em contato conosco.

Fonte de Consulta

CRESCENZO, Luciano de. História da Filosofia Grega: Os Pré-Socráticos. Tradução de Mario Fondelli. Rio de Janeiro: Rocco, 2005.

 

24 abril 2018

Pré-Socráticos: Quatro Termos

Folheando o livro Filósofos Pré-Socráticos, de Jonathan Barnes, pela editora Martins Fontes, deparamo-nos com quatro termos (kosmosphysisarche logos). Façamos algumas anotações.

Kosmos. É o universo ou o próprio mundo. Daí, a cosmologia. Os gregos, daquela época, tinham necessidade de criar um termo que representasse o universo e o mundo todo. O substantivo kosmos deriva de um verbo cujo significado é "ordenar", "arranjar", "comandar". Um kosmos é um arranjo ordenado e, além disso, dotado de beleza. Deduziam que, sendo ordenado e belo, deveria ser também, em princípio, explicável. Curiosidade: cosmético (termo moderno) deriva de kosmos.

Physis, ou "natureza". O termo deriva de um verbo cujo significado é "crescer". Ao aludirmos ao physis, estamos querendo distinguir o mundo natural (physis) do mundo artificial (techne). Carroça é artificial; árvore, natural. Essa distinção não esgota o significado do conceito "natureza". Em determinado sentido, "natureza" designa a soma de objetos naturais e eventos naturais. Physis se presta, também, a denotar algo existente em cada objeto natural.

Arché. A noção de princípio ou origem das coisas leva-nos ao arché que, pode significar "começar", "iniciar", como também "reger", "dirigir". Arché é uma origem que tem uma regra ou princípio. Quais são os princípios do desenvolvimento, a origem dos fenômenos naturais? Qual é a origem do kosmos? Para Tales de Mileto, o arché do cosmos é a água. Quer dizer, tudo no universo tem por base a água.

Logos. Sua tradução é problemática. É cognato do verbo legein, que normalmente significa "enunciar" ou "afirmar". Meu logos é aquilo que quero afirmar. Apresentar um logos ou um relato de algo é explicá-lo, o que se deduz que logos é uma razão. Quando afirmamos que um homem inteligente é capaz de apresentar um logos das coisas, estamos querendo dizer que ele é capaz não só de descrever as coisas como explicá-las, ou apresentar a razão das coisas.

Os pré-socráticos, embora rudimentarmente, já faziam uso do método experimental, dando muita ênfase ao uso da razão, do racional, da argumentação.


14 fevereiro 2016

Origem da Filosofia: Do Mito à Razão

A passagem do conhecimento mítico ao conhecimento racional deu-se no começo do século VI a.C. na Grécia. Ocorreu primeiramente nas colônias gregas localizadas na Jônia, na costa da Anatólia. Esta revolução do conhecimento se reproduziu na Sicília e no sul da Itália e, depois, chegou a Atenas. Em Mileto de Éfeso, houve uma verdadeira transferência de conhecimentos astronômicos e matemáticos, que estimulou a investigação direta dos mistérios do Universo. 

Desde o começo da história, o desconhecimento das coisas deixa o ser humano desnorteado e, com isso, apodera-se dele o medo e a incerteza. A necessidade de superar essa incerteza levou o indivíduo a buscar algum domínio da natureza e, consequentemente, ter alguma tranquilidade. Isso quer dizer conhecer. O mito constitui a primeira tentativa da humanidade de interpretar os mistérios do Universo. Ele tem a forma de uma narrativa e se refere sempre a uma criação, conta a forma como alguma coisa começou a existir. 

Physis é a palavra-chave para a compreensão do início da filosofia, mais especificamente a filosofia pré-socrática. Geralmente, traduzida por Natureza, o que não espelha o seu verdadeiro sentido. Para os antigos filósofos, a physis refere-se a tudo o que se pode imaginar: os rios, as estradas, o planeta, o tempo, o ódio, o amor. Martin Heidegger assim se expressou: “À physis pertencem o céu e a terra, a pedra e a planta, o animal e o homem, o acontecer humano como obra do homem e dos deuses, e, sobretudo, pertencem à physis os próprios deuses”.

O nascimento do pensamento racional está ligado ao aparecimento da pólis. Na polis grega, os pensadores dispensaram a influência de agentes e forças sobrenaturais, ficando apenas com a razão e a experiência. Em seus debates sobre a ordem necessária, as formas de governo e o modo de agir deram também origem à filosofia, que é antes de tudo o amor ao saber, e mais precisamente conhecer a verdade, não pela fantasia, pela narrativa, mas pelo uso da razão, no sentido de o ser humano construir o seu próprio destino.

Tales de Mileto, Anaximandro de Mileto, Anaxímenes de Mileto, Xenófanes de Cólofon, Heráclito de Éfeso, Pitágoras de Samos, Parmênides de Eléia, Zenão de Eléia, Empédocles de Agrigento, Filolau de Cróton, Anaxágoras de Clazomena, Diógenes de Apolônia, Leucipo de Abdera e Demócrito de Abdera são os representantes da filosofia pré-socrática. Nos seus fragmentos e nas suas poesias estão todo o conteúdo filosófico. Tales de Mileto, por exemplo, trouxe-nos a ideia de a água ser a substância primeira da matéria.

Vasculhemos as ideias desses filósofos, pois elas nos retratarão com perfeição como o pensamento passou do mito à razão. 

Fonte de Consulta

TEMÁTICA BARSA - FILOSOFIA. Rio de Janeiro, Barsa Planeta, 2005.



03 abril 2009

Quatro Conceitos dos Pré-Socráticos

"Todo homem tem opiniões, mas poucos são os que pensam." (George Berkeley, o filósofo irlandês do século XVIII)

Os pré-socráticos são os filósofos que primeiramente aprenderam a olhar o mundo de uma forma científica e filosófica. Foram eles que substituíram o olhar mítico pelo olhar do logos, do racional. Os cientistas de hoje podem se orgulhar de suas vastas descobertas, mas não podem se esquecer daqueles que deram os primeiros passos na busca do conhecimento, do conhecimento pelas causas. Em se tratando dos filósofos pré-socráticos, há quatro conceitos fundamentais: kosmos, physis, arché e logos.

Kosmos. É o universo. O substantivo kosmos deriva de um verbo cujo significado é "ordenar", "arranjar", "comandar". Um "cosmo" é um arranjo ordenado. Mais que isso, é um arranjo dotado de estética, algo que embeleza, que é agradável de se contemplar. Se é ordenado, deve, em princípio, ser explicável. Desta palavra surgiram: cosmogonia (lendas e teorias sobre as origens do universo), cosmopolita (cidadão do mundo), cosmético (relativo à beleza humana).

Physis ou "natureza". O termo deriva de um verbo cujo significado é "crescer". Introduz uma clara distinção entre o mundo natural e o artificial, entre as coisas que se "desenvolvem" e aquelas que são fabricadas, entre a physis e a techne. Uma mesa provém da techne; uma árvore, da physis. Em muitos casos, physis e kosmos passam a ter o mesmo significado. Em outro sentido, o mais importante para eles, é que physis passa a denotar algo existente no próprio objeto. Por isso, diz-se que quando os pré-socráticos estavam investigando a natureza, eles estavam buscando a natureza das coisas.

Arché. É um termo de difícil tradução. Seu verbo cognato tanto pode significar "começar", "iniciar", como também "reger", "dirigir". Arché é um princípio; physis, é crescimento. Os filósofos pré-socráticos perguntavam: de onde se origina então o crescimento? Como este teve origem? Quais são seus princípios originais? Estas questões tinham por fim achar o arché das coisas. Tales de Mileto, por exemplo, achou que o primeiro princípio era a água. Mais tarde, foi provado que esta hipótese era falsa. Mas isso pouco importava, pois o que era merecedor de elogios é o modo como argumentavam, ou seja, como punham à prova as suas opiniões, eliminando por completo o dogmatismo.

Logos. É de tradução ainda mais difícil do que a de arché. É cognato do verbo legein, que normalmente significa "enunciar" ou "afirmar". Assim, logos é por vezes enunciado ou afirmação. Apresentar um logos ou um relato de algo é explicá-lo, desdobrá-lo. Quando Platão afirma que um homem inteligente é capaz de apresentar um logos das coisas, ele não queria dizer que essa pessoa era capaz de descrevê-las, mas de explicá-las, ou seja, de apresentar razões dessas coisas. Em síntese, logos é razão, racionalidade, raciocínio, argumentação e evidência.

Os pré-socráticos apresentavam argumentos. Eles não se importavam se estes eram verdadeiros ou não; estavam muito mais preocupados com o método, a maneira, a forma de buscar o conhecimento, do que o conhecimento em si mesmo.

Fonte de Consulta

BARNES, Jonathan. Filósofos Pré-Socráticos. Tradução Júlio Fischer. São Paulo: Martins Fontes, 2003 (Clássicos)

 

 

24 setembro 2008

Os Filósofos Pré-Socráticos

Os filósofos, denominados pré-socráticos, como o próprio nome diz, foram os filósofos que viveram antes de Sócrates. Eles foram os primeiros a serem reconhecidos como filósofos, no sentido próprio da filosofia, ou seja, como resultado de uma atividade da razão humana que se defronta com a totalidade do real. Até então, os conhecimentos eram adquiridos por intermédio dos mitos. Foram eles que introduziram o comportamento humano mais acentuadamente racional. Nietzsche resumiu-os na seguinte frase: “Os outros povos nos deram santos, os gregos nos deram sábios”.

Physis é a palavra-chave para a compreensão da filosofia pré-socrática. Geralmente, traduzida por Natureza, o que não espelha o seu verdadeiro sentido. Para os antigos filósofos, a physis refere-se a tudo o que se pode imaginar: os rios, as estradas, o planeta, o tempo, o ódio, o amor. Martin Heidegger assim se expressou: “À physis pertencem o céu e a terra, a pedra e a planta, o animal e o homem, o acontecer humano como obra do homem e dos deuses, e, sobretudo, pertencem à physis os próprios deuses”.

Tales de Mileto, Anaximandro de Mileto, Anaxímenes de Mileto, Xenófanes de Cólofon, Heráclito de Éfeso, Pitágoras de Samos, Parmênides de Eléia, Zenão de Eléia, Empédocles de Agrigento, Filolau de Cróton, Anaxágoras de Clazomena, Diógenes de Apolônia, Leucipo de Abdera e Demócrito de Abdera são os representantes da filosofia pré-socrática. Nos seus fragmentos e nas suas poesias estão todo o conteúdo filosófico. Tales de Mileto, por exemplo, trouxe-nos a ideia de a água ser a substância primeira da matéria.

A grande dificuldade, nos dias que correm, é destacar os pré-socráticos. A razão é simples: durante muitos anos eles foram esquecidos, desprezados, tidos como sofistas. E, como é do conhecimento geral, a palavra sofista tem um conteúdo pejorativo, pois se referia às pessoas que ensinavam mediante pagamento de salário. Desde que Platão os denominou de falsos filósofos, nunca mais tiveram respeito. Hoje, devido às pesquisas de alguns filósofos, começa-se a dar-lhes outra conotação, uma conotação de verdadeiros filósofos.

A busca da verdade tem este preço: é preciso cavar muita terra. Observe que para muitos pensadores, a filosofia atual nada mais é do que uma nota de rodapé de Platão. Isso, porém, não impede que se busquem novas fontes de conhecimentos. Nesse sentido, libertar a filosofia dos pré-socráticos da tutela platônico-aristotélica, nada mais é do que escutar o que diziam os próprios fragmentos, evitando-se visualizá-los através de conceitos posteriores, e que lhes roubam a sua dimensão original.

Desconfiemos das aparências. A verdade pode estar escondida no fundo das coisas. Busquemos os fragmentos desses antigos filósofos e descortinemos novas verdades para a nossa concepção de vida.

Fonte de Consulta 

BORNHEIM, Gerd A. (org.) Os Filósofos Pré-Socráticos. São Paulo: Cultrix, 1993.