20 janeiro 2010

Grandes e Pequenas Questões

Para aprender Filosofia, devemos focar as grandes questões. As pequenas questões – preparar comida, fazer pequenos reparos e pintar uma casa – podem facilmente ser respondidas pelo senso comum. As grandes questões – acerca da natureza de Deus e da relação entre espírito e matéria, ao contrário, por sua escala e abrangência, exigem maneiras não usuais de pensar.

Há questões de todos os matizes. As questões técnicas pedem a presença de um especialista, daí o tecnocrata. Este se aprofundou em determinado ramo do conhecimento e está capacitado a dar uma resposta científica sobre o assunto de sua área de trabalho. É o caso de se perguntar como se constrói uma ponte sobre um rio. O engenheiro, em virtude dos seus estudos, saberá nos dar uma resposta correta, para a sua edificação. Por outro lado, as questões que transcendem a técnica pertencem ao campo da Filosofia.

As questões, transcendentes ao conhecimento técnico, dizem respeito à “sabedoria”. Não é sem razão que se define o filósofo como o amante do saber, o amante da sabedoria. As perguntas filosóficas vão além das perguntas técnicas. Para o perfeito aprendizado das questões filosóficas, há necessidade de nos vermos e ao mundo como não corrompidos pela dor e pelo preconceito de nossa vida comum.

A busca das grandes questões pertence ao ser humano e não ao filósofo profissional, pois todo o indivíduo é um filósofo sem o perceber. Basta apenas que tenhamos a mente aberta e questionadora, pois as verdades auto-evidentes podem ser captadas por qualquer um dos viventes. Para o correto exercício da filosofia, convém nos afastarmos dos "filisteus", pois estes veem o mundo somente pela ótica da prática e não pela da intelectualidade.

Para ilustrar esta reflexão, lembremo-nos dos filósofos da antiguidade, especialmente, Sócrates, Platão e Aristóteles. Para Sócrates, o processo para investigar a verdade fundamenta-se na comparação entre o trabalho de uma parteira e o de um filósofo. Esta descrição está no livro Teeteto, de Platão. A preocupação de Sócrates não é propor afirmações verdadeiras, mas abrir caminho para a verdade na alma do interlocutor. Para isso, desenvolve o método da maiêutica, que é o método de perguntar.

Platão, por sua vez, descreve no livro VII da República, a tarefa do filósofo. É o “mito da caverna”, em que os ensinamentos são transmitidos em forma de metáforas. Depreende-se do colóquio que a caverna escura é o nosso mundo, os escravos acorrentados são os homens, as correntes são as paixões e a ignorância e as imagens do fundo da caverna são as percepções sensoriais. O mundo fora da caverna é o mundo das ideias, o Sol que ilumina o mundo todo é a ideia do Bem e a volta à caverna é o dever do filósofo de ensinar a verdade aos que ficaram.
Aristóteles, no livro Metafísica, afirma que o desejo de saber é inerente ao ser humano e nasce do espanto, do assombro que ele sente em relação à beleza do mundo. Aristóteles achava que a reflexão filosófica é uma atividade desinteressada, ou seja, não imediatamente útil à solução dos problemas triviais do dia-a-dia. Nesse sentido, já filosofavam todos antes do advento da filosofia, porque “não se pode viver sem filosofar”, sem questionar, sem pensar.

Formulemos sempre grandes questões. No final das contas, só levaremos conosco o que for de uso da alma, ou seja, a inteligência, os conhecimentos e as qualidades morais.

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