08 dezembro 2025

Use a Lógica (Notas de Livro)

Título: Use a Lógica: Um Guia para o Pensamento Eficaz

Autor: D. Q. Mclnerny

Tradução Fernanda Pantoja. Rio de Janeiro: 3.ª ed. BestSeller, 2009.

“Podemos ter a imaginação como companheira, mas devemos seguir a razão como guia.” — Dr. Samuel Johnson

Prefácio

Lógica é o raciocínio claro e efetivo. Trata-se de uma ciência e de uma arte. Este livro visa apresentar aos leitores os fundamentos da ciência, assim como as habilidades básicas associadas à arte.

Etapa Um — Preparando a Mente para a Lógica

Ser uma pessoa lógica pressupõe ter sensibilidade à linguagem e capacidade para usá-la efetivamente, pois lógica e linguagem são inseparáveis.

Seja atento

Muitos erros de raciocínio são explicados pelo fato de não prestarmos atenção suficiente à situação em que nos encontramos. Prestar atenção requer um custo, ou seja, uma reação ativa e energética a cada situação, às pessoas e aos elementos que dela fazem parte.

Vá direto aos fatos

Existem dois tipos básicos de fatos objetivos: as coisas e os acontecimentos. A coisa é algo que existe (Casa Branca).  O acontecimento é algo que já ocorreu no tempo (há necessidade de buscar provas, testemunhos). O fato subjetivo é o que se limita ao sujeito que o vivencia. Exemplo: uma dor de cabeça.

Ideias e objetos de ideias

Toda ideia de nossa mente pode essencialmente ser identificada com uma coisa, ou coisas, que realmente existem no mundo, independentemente de nossa mente. Uma ideia é a evocação subjetiva de um fato objetivo.

Preste atenção às origens das ideias

Todos tendemos a favorecer as próprias ideias, o que é completamente natural. O foco precisa estar na origem de nossas ideias no mundo objetivo. Não entenderemos, de fato, nossas próprias ideias supondo que elas tenham nascidas de si próprias. Ou seja, que não devem sua existência à realidade externa.

Ligue ideias a fatos

Existem três componentes básicos no conhecimento humano: primeiro, o fato objetivo (por exemplo, um gato); segundo, a ideia de gato; terceiro, a palavra que usamos para essa ideia, que permite a comunicação (por exemplo, em português, “gato”).

Ligue palavras a ideias

Primeiro vem a coisa, depois a ideia e, por fim, a palavra.

Comunicação eficaz

Ligar palavras a ideias é o passo inicial da comunicação. O passo seguinte é juntar as ideias para que formem proposições coerentes.

Seguem algumas diretrizes básicas para a comunicação efetiva:

Não suponha que a audiência entende sua intenção se você não deixa isso explícito.

Use frases completas.

Não trate as proposições avaliativas como se fossem proposições de um fato objetivo.

Evite duplicar as negativas.

Prepare a linguagem para a sua audiência.

Evite linguagem vaga e ambígua

Vago (do latim vagus, “viagem”) e ambíguo (do latim ambigere, “vaguear”) são dois exemplos específicos de palavras que se referem ao tipo de linguagem que pode inibir uma comunicação clara e efetiva.

Verdade

A proposta do raciocínio lógico é chegar à verdade das coisas.

A verdade tem duas formas básicas: a verdade “ontológica” e a verdade “lógica”.

Se a teoria econômica marxista pode ser considerada duvidosa, então a alegação de que certa declaração em relação a questões econômicas é verdadeira porque está de acordo com a teoria é, da mesma forma, duvidosa.  

Etapa Dois — Os Princípios Básicos da Lógica

Seja a lógica considerada uma ciência, uma arte, ou uma habilidade — e pode ser considerada nos três níveis —, é necessário haver princípios reguladores de ideias seminais que deem forma ao empreendimento e guiem suas atividades.

Primeiros princípios

A lógica, como ciência, tem seus princípios fundamentais, mas a lógica guarda uma relação única com todas as outras ciências porque os primeiros princípios da lógica aplicam-se não apenas à lógica, mas a todas as outras ciências.

Existem quatro primeiros princípios da lógica (ou da razão humana)

1) O principio da identidade

Assertiva: uma coisa é o que é.

2) O princípio do terceiro excluído

Assertiva: entre o ser e o não-ser não existe um estado intermediário

3) O princípio da razão suficiente

Assertiva: existe razão suficiente para tudo. Este princípio poderia ser chamado “o princípio da causalidade”)

4) O princípio da contradição

Assertiva: é impossível alguma coisa ser e não ser ao mesmo tempo e do mesmo jeito

Áreas cinzentas reais, áreas cinzentas fabricadas

Uma área cinzenta é uma situação na qual a verdade não pode ser claramente definida. 

Etapa Três — Argumento: a Linguagem da Lógica

A expressão concreta do raciocínio lógico é o argumento. Um argumentos se sustenta ou cai à medida que o raciocínio que incorpora é bom ou ruim.

Fundamentar um argumento

Argumentos são compostos de proposições, e são as proposições dentro de um argumento que carregam as ideias com as quais o processo inferencial está preocupado.

Uma conclusão é uma proposição sustentada, a proposição aceita como verdade na base da premissa.

Indicadores lógicos comuns de premissas são “porque”, “Já que”, “por causa de”. Indicadores lógicos de conclusões são “portanto”, “desse modo”, “de maneira que”. Expressões mais elaboradas podem ser usadas para anunciar premissas (“em vista do fato” etc.) e conclusões (“isso necessariamente resulta” etc.)

Do universal ao particular

A natureza de uma proposição universal é tal que, se for verdadeira, uma proposição particular com o mesmo sujeito e predicado também é verdadeira. Então se é verdade que todo cachorro é carnívoro, então é verdade que alguns cachorros são carnívoros.

Do particular ao universal

O processo do universal para o particular garante uma conclusão necessariamente verdadeira. O processo do particular para o universal não oferece tanta garantia.

É um erro muito óbvio reivindicar que alguma coisa é necessariamente verdade para um grupo inteiro só porque é verdade para uma parte do grupo.

Predicação

Uma proposição é uma expressão linguística que pode ser afirmada ou negada. Do ponto de vista gramatical, toda proposição é composta de um sujeito e um predicado. O elemento sobre o qual se enuncia algo é o sujeito; o que é dito é o predicado. “Predicação” é o processo de conexão de ideias. Predicações bem fundadas resultam em proporções verdadeiras.

Proposições negativas

“Proposições afirmativas” conectam ideias; “proposições negativas” desconectam ideias. Uma “proposição negativa universal” desconecta completamente as ideias (“Nenhum filósofo é infalível”); uma “proposição negativa particular” desconecta ideias de forma incompleta (“Alguns californianos não leem Dickens”)

Fazer comparações

A mente humana é estimulada pela comparação. Na verdade, o pensamento seria impossível sem ela. É por meio do ato mental de comparação que percebemos as similaridades e as diferenças entre as coisas.

Chamamos “julgamento” o ato mental pelo qual ligamos ideias de uma maneira que nos possibilita construir proposições coerentes com relação ao mundo em que vivemos. Um julgamento é bem fundamentado à medida que a relação que estabelece entre duas ideias reflita uma relação real no mundo objetivo.

Comparação e argumento

Quando queremos que um argumento seja comparado, nosso objetivo é demonstrar (isto é, provar com argumentos) que duas coisas são de fato semelhantes.   

Argumento bem fundamentado

Para que um argumento seja bem fundado, tem de ser também bem fundado em relação à sua questão (seu conteúdo) e à sua forma (sua estrutura).

É importante estar ciente da diferença entre verdade e validade. Embora muitas vezes confundidas, são, na verdade, bem diferentes. Primeiramente, verdade tem a ver apenas com proposições, enquanto validade tem a ver apenas com aquela disposição estrutural de proposições que chamamos de argumento.

Argumento condicional

O argumento condicional, algumas vezes chamado de argumento “hipotético”, é um argumento de “se/então”. Ele reflete a maneira como habitualmente pensamos. Por exemplo: “Se o tempo estiver bom na quinta-feira, vamos fazer um piquenique”.

Argumento silogístico

O silogismo é uma forma de argumento que reflete a maneira como a mente humana opera: isto é, conectando ideias de tal maneira que as conclusões podem ser tiradas a partir dessas conexões.

Todo M é P

Todo S é M

Portando, todo S é P.

Há ainda: a verdade das premissas, a relevância das premissas, proposições de fato, proposições de valor, forma argumentativa, conclusões têm de refletir a quantidade de premissas, conclusões têm de refletir a qualidade das premissas, argumento indutivo, avaliar um argumento, construir um argumento.

Etapa Quatro — As Origens do Pensamento Ilógico

Erros de raciocínio podem ser meramente acidentais ou, mais seriamente, resultado de descuidos.

Ceticismo

Há que se distinguir o ceticismo permanente (não indicado) e o ceticismo moderado. O cético extremo proclama que não existe a verdade. o cético moderado está preparado para admitir que a verdade pode existir, mas defende que, se ela existe, a mente humana é incapaz de alcançá-la.

Agnosticismo evasivo

Um agnóstico é alguém que defende que não tem conhecimento suficiente em relação a um assunto em particular para que ser capaz de emitir um julgamento preciso. O termo é geralmente aplicado à crença religiosa.

Há uma diferença acentuada entre o cético e o agnóstico. O agnóstico, diferente do cético, não nega a existência da verdade, nem seu alcance. Ele simplesmente alega ignorância em relação à verdade de determinada questão.

O agnóstico evasivo é a atitude que tenta tratar a ignorância superável como se ela fosse insuperável. Uma coisa é dizer “Eu não sei” depois de uma longa e assídua pesquisa em relação a um determinado assunto, outra é dizer “Eu não sei” quando nem mesmo se importou em investigar sobre o assunto.

Cinismo e otimismo ingênuo

Um cínico é alguém que faz enfaticamente uma proposição negativa sem evidência suficiente. Um otimista ingênuo é alguém que faz enfaticamente uma estimativa positiva sem evidência suficiente. Ambos representam posições ilógicas. Tanto o cínico quanto o otimista ingênuo representam o preconceito (do latim praejudicare, “julgar antecipadamente”).

Mentalidade estreita

Uma pessoa de mentalidade estreita se recusa a considerar certas alternativas simplesmente porque não encontra em suas suposições preconceituosas o que vale a pena ou não ser seguido. A mentalidade estreita é claramente enfraquecedora em seus efeitos, mas existe um tipo de mentalidade aberta que é ainda mais enfraquecedora. G. K. Chesterton aponta que uma mente aberta, como uma boca aberta, deve eventualmente se fechar para alguma coisa.

Emoção e argumento

Quanto mais intenso é o estado emocional, mais difícil se torna pensar claramente e comportar-se com moderação. Coloque ênfase na razão, mas não exclua inteiramente a emoção. Há um método empírico simples a ser seguido aqui: Nunca apele diretamente para as emoções das pessoas. Dedique-se a levá-las até o ponto em que possam ver por sim mesmas.

Raciocinar com a razão

Usar o raciocínio para qualquer objetivo que não seja o de alcançar a verdade é fazer mal uso dele.

Argumentar não é disputar

Argumento é uma conversarão racional. Não é para ser confundido com disputa. O objetivo do argumento e chegar à verdade.

Os limites da sinceridade

A sinceridade é uma condição necessária ao raciocino lógico, mas não é suficiente.

Senso comum

Senso comum é aquele raciocínio confortável do dia-a-dia que vem de nossa consciência e de nosso respeito pelo que é lógico. Caracteriza-se pela capacidade infalível de distinguirmos um gato de um canguru.

Etapa Cinco — As Principais Formas do Pensamento Ilógico

Os vários padrões típicos do maus raciocínio são chamados de” falácias”. Existem dois tipos básicos de falácias: a formal e a informal. “Falácias formais” tratam da forma, ou da estrutura, do argumento. “Falácias informais” tratam de todo o tipo de erro lógico, e não de erros formais.

Negar o antecedente

A ==> B

-A

Portanto, -B

Se Louise está correndo, então está se movimentando.

Louise não está correndo.

Portanto, não está se movimentando.

Afirmar o consequente

A ==> B

B

Portanto, A

Se Louise está correndo, então está se movimentando.

Louise está se movimentando.

Portanto, não está correndo.

O termo médio não-distributivo

Diversos nazistas eram membros do Clube Kaiser.

Hans era um membro do Clube Kaizer.

Portanto, Hans era um nazista.

Temos equívocos

Mangueiras desperdiçam muita água.

O gado está ocupando a mangueira.

Portanto, o gado está desperdiçando água.

Na premissa maior, mangueira é um objeto de borracha. Na premissa menor, refere-se ao cercado, em fazendas, onde o gado é guardado.

Mais: falácia do homem de palha, usar e abusar da tradição, um erro não justifica o outro, a falácia democrática, a falácia ad hominen, substituir pela força da razão, usos e abusos de autoridade, o quantificador de qualidade, considere mais do que a origem, interromper a análise, reducionismo, má classificação, falácia red herring, sorrir como tática diversiva, chorar como tática diversiva, a incapacidade de invalidar nada prova, o falso dilema, falácia post hoc ergo propter hoc, defesa especial, a falácia da conveniência, evitar conclusões, raciocínio simplista.

Posfácio

A arte da lógica não é como nenhuma outra, pois vai precisamente ao âmago do que somos. O poeta Píndaro oferece um conselho radical quando diz: “Torne-se o que você é” — ou seja, “Torne-se humano”. Se “ser lógico” não é exatamente o resultado de “ser humano”, é, gosto de pensar assim, parte muito importante dele.

 

 

 

 

 

 

 

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