Título: Use a Lógica: Um Guia para o Pensamento Eficaz
Autor: D. Q. Mclnerny
Tradução Fernanda Pantoja. Rio de
Janeiro: 3.ª ed. BestSeller, 2009.
“Podemos ter a imaginação como
companheira, mas devemos seguir a razão como guia.” — Dr. Samuel Johnson
Prefácio
Lógica é o raciocínio claro e
efetivo. Trata-se de uma ciência e de uma arte. Este livro visa apresentar aos
leitores os fundamentos da ciência, assim como as habilidades básicas
associadas à arte.
Etapa Um — Preparando a Mente para a
Lógica
Ser uma pessoa lógica pressupõe ter sensibilidade à linguagem e capacidade para usá-la efetivamente, pois lógica e linguagem são inseparáveis.
Seja atento
Muitos erros de raciocínio são explicados pelo fato de não prestarmos atenção suficiente à situação em que nos encontramos. Prestar atenção requer um custo, ou seja, uma reação ativa e energética a cada situação, às pessoas e aos elementos que dela fazem parte.
Vá direto aos fatos
Existem dois tipos básicos de fatos
objetivos: as coisas e os acontecimentos. A coisa é algo que existe (Casa
Branca). O acontecimento é algo que já
ocorreu no tempo (há necessidade de buscar provas, testemunhos). O fato
subjetivo é o que se limita ao sujeito que o vivencia. Exemplo: uma dor de
cabeça.
Ideias e objetos de ideias
Toda ideia de nossa mente pode
essencialmente ser identificada com uma coisa, ou coisas, que realmente existem
no mundo, independentemente de nossa mente. Uma ideia é a evocação subjetiva de
um fato objetivo.
Preste atenção às origens das ideias
Todos tendemos a favorecer as próprias
ideias, o que é completamente natural. O foco precisa estar na origem de nossas
ideias no mundo objetivo. Não entenderemos, de fato, nossas próprias ideias
supondo que elas tenham nascidas de si próprias. Ou seja, que não devem sua existência
à realidade externa.
Ligue ideias a fatos
Existem três componentes básicos no conhecimento
humano: primeiro, o fato objetivo (por exemplo, um gato); segundo, a ideia de
gato; terceiro, a palavra que usamos para essa ideia, que permite a comunicação
(por exemplo, em português, “gato”).
Ligue palavras a ideias
Primeiro vem a coisa, depois a ideia
e, por fim, a palavra.
Comunicação eficaz
Ligar palavras a ideias é o passo
inicial da comunicação. O passo seguinte é juntar as ideias para que formem proposições
coerentes.
Seguem algumas diretrizes básicas para
a comunicação efetiva:
Não suponha que a audiência entende sua intenção se você não deixa isso explícito.
Use frases completas.
Não trate as proposições avaliativas como se fossem proposições de um fato objetivo.
Evite duplicar as negativas.
Prepare a linguagem para a sua audiência.
Evite linguagem vaga e ambígua
Vago (do latim vagus, “viagem”) e ambíguo (do latim ambigere, “vaguear”) são dois
exemplos específicos de palavras que se referem ao tipo de linguagem que pode
inibir uma comunicação clara e efetiva.
Verdade
A proposta do raciocínio lógico é
chegar à verdade das coisas.
A verdade tem duas formas básicas: a
verdade “ontológica” e a verdade “lógica”.
Se a teoria econômica marxista pode
ser considerada duvidosa, então a alegação de que certa declaração em relação a
questões econômicas é verdadeira porque está de acordo com a teoria é, da mesma
forma, duvidosa.
Etapa Dois — Os Princípios Básicos da
Lógica
Seja a lógica considerada uma ciência,
uma arte, ou uma habilidade — e pode ser considerada nos três níveis —, é necessário
haver princípios reguladores de ideias seminais que deem forma ao empreendimento
e guiem suas atividades.
Primeiros princípios
A lógica, como ciência, tem seus princípios
fundamentais, mas a lógica guarda uma relação única com todas as outras ciências
porque os primeiros princípios da lógica aplicam-se não apenas à lógica, mas a
todas as outras ciências.
Existem quatro primeiros princípios da
lógica (ou da razão humana)
1) O principio da identidade
Assertiva: uma coisa é o que é.
2) O princípio do terceiro excluído
Assertiva: entre o ser e o não-ser não existe um estado intermediário
3) O princípio da razão suficiente
Assertiva: existe razão suficiente para tudo. Este princípio poderia ser chamado “o princípio da causalidade”)
4) O princípio da contradição
Assertiva: é impossível alguma coisa ser e não ser ao mesmo tempo e do mesmo jeito
Áreas cinzentas reais, áreas cinzentas
fabricadas
Uma área cinzenta é uma situação na
qual a verdade não pode ser claramente definida.
Etapa Três — Argumento: a Linguagem
da Lógica
A expressão concreta do raciocínio
lógico é o argumento. Um argumentos se sustenta ou cai à medida que o
raciocínio que incorpora é bom ou ruim.
Fundamentar um argumento
Argumentos são compostos de
proposições, e são as proposições dentro de um argumento que carregam as ideias
com as quais o processo inferencial está preocupado.
Uma conclusão é uma proposição
sustentada, a proposição aceita como verdade na base da premissa.
Indicadores lógicos comuns de
premissas são “porque”, “Já que”, “por causa de”. Indicadores lógicos de
conclusões são “portanto”, “desse modo”, “de maneira que”. Expressões mais
elaboradas podem ser usadas para anunciar premissas (“em vista do fato” etc.) e
conclusões (“isso necessariamente resulta” etc.)
Do universal ao particular
A natureza de uma proposição
universal é tal que, se for verdadeira, uma proposição particular com o mesmo
sujeito e predicado também é verdadeira. Então se é verdade que todo cachorro é
carnívoro, então é verdade que alguns cachorros são carnívoros.
Do particular ao universal
O processo do universal para o
particular garante uma conclusão necessariamente verdadeira. O processo do
particular para o universal não oferece tanta garantia.
É um erro muito óbvio reivindicar que
alguma coisa é necessariamente verdade para um grupo inteiro só porque é
verdade para uma parte do grupo.
Predicação
Uma proposição é uma expressão linguística
que pode ser afirmada ou negada. Do ponto de vista gramatical, toda proposição
é composta de um sujeito e um predicado. O elemento sobre o qual se enuncia
algo é o sujeito; o que é dito é o predicado. “Predicação” é o processo de conexão
de ideias. Predicações bem fundadas resultam em proporções verdadeiras.
Proposições negativas
“Proposições afirmativas” conectam ideias;
“proposições negativas” desconectam ideias. Uma “proposição negativa universal”
desconecta completamente as ideias (“Nenhum filósofo é infalível”); uma “proposição
negativa particular” desconecta ideias de forma incompleta (“Alguns
californianos não leem Dickens”)
Fazer comparações
A mente humana é estimulada pela comparação.
Na verdade, o pensamento seria impossível sem ela. É por meio do ato mental de comparação
que percebemos as similaridades e as diferenças entre as coisas.
Chamamos “julgamento” o ato mental
pelo qual ligamos ideias de uma maneira que nos possibilita construir proposições
coerentes com relação ao mundo em que vivemos. Um julgamento é bem fundamentado
à medida que a relação que estabelece entre duas ideias reflita uma relação
real no mundo objetivo.
Comparação e argumento
Quando queremos que um argumento seja
comparado, nosso objetivo é demonstrar (isto é, provar com argumentos) que duas
coisas são de fato semelhantes.
Argumento bem fundamentado
Para que um argumento seja bem
fundado, tem de ser também bem fundado em relação à sua questão (seu conteúdo)
e à sua forma (sua estrutura).
É importante estar ciente da diferença
entre verdade e validade. Embora muitas vezes confundidas, são, na verdade, bem
diferentes. Primeiramente, verdade tem a ver apenas com proposições, enquanto
validade tem a ver apenas com aquela disposição estrutural de proposições que
chamamos de argumento.
Argumento condicional
O argumento condicional, algumas
vezes chamado de argumento “hipotético”, é um argumento de “se/então”. Ele reflete
a maneira como habitualmente pensamos. Por exemplo: “Se o tempo estiver bom na
quinta-feira, vamos fazer um piquenique”.
Argumento silogístico
O silogismo é uma forma de argumento
que reflete a maneira como a mente humana opera: isto é, conectando ideias de
tal maneira que as conclusões podem ser tiradas a partir dessas conexões.
Todo M é P
Todo S é M
Portando, todo S é P.
Há ainda: a verdade das premissas, a relevância
das premissas, proposições de fato, proposições de valor, forma argumentativa, conclusões
têm de refletir a quantidade de premissas, conclusões têm de refletir a
qualidade das premissas, argumento indutivo, avaliar um argumento, construir um
argumento.
Etapa Quatro — As Origens do Pensamento Ilógico
Erros de raciocínio podem ser
meramente acidentais ou, mais seriamente, resultado de descuidos.
Ceticismo
Há que se distinguir o ceticismo
permanente (não indicado) e o ceticismo moderado. O cético extremo proclama que
não existe a verdade. o cético moderado está preparado para admitir que a
verdade pode existir, mas defende que, se ela existe, a mente humana é incapaz
de alcançá-la.
Agnosticismo evasivo
Um agnóstico é alguém que defende que
não tem conhecimento suficiente em relação a um assunto em particular para que
ser capaz de emitir um julgamento preciso. O termo é geralmente aplicado à
crença religiosa.
Há uma diferença acentuada entre o cético
e o agnóstico. O agnóstico, diferente do cético, não nega a existência da
verdade, nem seu alcance. Ele simplesmente alega ignorância em relação à
verdade de determinada questão.
O agnóstico evasivo é a atitude que
tenta tratar a ignorância superável como se ela fosse insuperável. Uma coisa é
dizer “Eu não sei” depois de uma longa e assídua pesquisa em relação a um determinado
assunto, outra é dizer “Eu não sei” quando nem mesmo se importou em investigar sobre
o assunto.
Cinismo e otimismo ingênuo
Um cínico é alguém que faz enfaticamente
uma proposição negativa sem evidência suficiente. Um otimista ingênuo é alguém que
faz enfaticamente uma estimativa positiva sem evidência suficiente. Ambos representam
posições ilógicas. Tanto o cínico quanto o otimista ingênuo representam o
preconceito (do latim praejudicare, “julgar
antecipadamente”).
Mentalidade estreita
Uma pessoa de mentalidade estreita se
recusa a considerar certas alternativas simplesmente porque não encontra em suas
suposições preconceituosas o que vale a pena ou não ser seguido. A mentalidade estreita
é claramente enfraquecedora em seus efeitos, mas existe um tipo de mentalidade aberta
que é ainda mais enfraquecedora. G. K. Chesterton aponta que uma mente aberta, como
uma boca aberta, deve eventualmente se fechar para alguma coisa.
Emoção e argumento
Quanto mais intenso é o estado
emocional, mais difícil se torna pensar claramente e comportar-se com moderação.
Coloque ênfase na razão, mas não exclua inteiramente a emoção. Há um método empírico
simples a ser seguido aqui: Nunca apele
diretamente para as emoções das pessoas. Dedique-se a levá-las até o ponto
em que possam ver por sim mesmas.
Raciocinar com a razão
Usar o raciocínio para qualquer objetivo
que não seja o de alcançar a verdade é fazer mal uso dele.
Argumentar não é disputar
Argumento é uma conversarão racional.
Não é para ser confundido com disputa. O objetivo do argumento e chegar à
verdade.
Os limites da sinceridade
A sinceridade é uma condição necessária
ao raciocino lógico, mas não é suficiente.
Senso comum
Senso comum é aquele raciocínio confortável
do dia-a-dia que vem de nossa consciência e de nosso respeito pelo que é lógico.
Caracteriza-se pela capacidade infalível de distinguirmos um gato de um
canguru.
Etapa Cinco — As Principais Formas do
Pensamento Ilógico
Os vários padrões típicos do maus
raciocínio são chamados de” falácias”. Existem dois tipos básicos de falácias:
a formal e a informal. “Falácias formais” tratam da forma, ou da estrutura, do
argumento. “Falácias informais” tratam de todo o tipo de erro lógico, e não de
erros formais.
Negar o antecedente
A ==> B
-A
Portanto, -B
Se Louise está correndo, então está
se movimentando.
Louise não está correndo.
Portanto, não está se movimentando.
Afirmar o consequente
A ==> B
B
Portanto, A
Se Louise está correndo, então está
se movimentando.
Louise está se movimentando.
Portanto, não está correndo.
O termo médio não-distributivo
Diversos nazistas eram membros do
Clube Kaiser.
Hans era um membro do Clube Kaizer.
Portanto, Hans era um nazista.
Temos equívocos
Mangueiras desperdiçam muita água.
O gado está ocupando a mangueira.
Portanto, o gado está desperdiçando
água.
Na premissa maior, mangueira é um
objeto de borracha. Na premissa menor, refere-se ao cercado, em fazendas, onde
o gado é guardado.
Mais: falácia do homem de palha, usar
e abusar da tradição, um erro não justifica o outro, a falácia democrática, a
falácia ad hominen, substituir pela
força da razão, usos e abusos de autoridade, o quantificador de qualidade,
considere mais do que a origem, interromper a análise, reducionismo, má
classificação, falácia red herring,
sorrir como tática diversiva, chorar como tática diversiva, a incapacidade de
invalidar nada prova, o falso dilema, falácia post hoc ergo propter hoc, defesa especial, a falácia da conveniência,
evitar conclusões, raciocínio simplista.
Posfácio
A arte da lógica não é como nenhuma
outra, pois vai precisamente ao âmago do que somos. O poeta Píndaro oferece um
conselho radical quando diz: “Torne-se o que você é” — ou seja, “Torne-se humano”.
Se “ser lógico” não é exatamente o resultado de “ser humano”, é, gosto de
pensar assim, parte muito importante dele.

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