Argumentar é defender ideias com razões — e por isso o pior inimigo das sociedades fechadas.
Um bom ensino da lógica e da filosofia terá de ensinar a
avaliar argumentos reais e a apresentar bons argumentos, distinguindo-os dos
maus. No ensino correto da lógica e da filosofia aprende-se a discutir ideias,
respeitando os seguintes princípios elementares do debate racional.
1. Respeitar e ouvir
atentamente as pessoas que discordam de nós
Discordar racionalmente de alguém é diferente de tentar
impedir a outra pessoa de exprimir as suas ideias, metralhando-a com um
discurso repetitivo que nunca acaba. Tentar impedir as pessoas de quem discordamos
de explicar as suas ideias é empobrecedor e uma atitude arrogante, pois
pressupõe que só nós temos a Verdade e que as outras pessoas estão todas
enganadas.
2. Estar disponível
para mudar de ideias se os nossos argumentos não resistirem à discussão
Estar aberto à discussão não é a mesma coisa do que gostar
da gritaria em que cada qual procura “brilhar” com as suas afirmações
bombásticas e as suas referências eruditas. Uma discussão não é uma luta em que
se procura deitar o parceiro ao chão; isso é uma gritaria. Numa discussão, o objetivo
é descobrir a verdade, independentemente de saber quem está do lado da verdade.
3. Não mudar de
assunto para assunto sem antes discutir adequadamente o que estava em discussão
Uma discussão de ideias não é uma forma de exibirmos a
nossa erudição, referindo nomes de filósofos ou outros autores em catadupa,
mudando de assunto para assunto e impedindo a análise serena de cada assunto.
Usar a discussão de ideias para exibir credenciais intelectuais, sociais ou
acadêmicas, mudando de assunto para assunto, é prostituir a discussão de
ideias.
4. Distinguir o
central e relevante do periférico e acessório
Em qualquer assunto há sempre imensas considerações e
aspectos laterais, com diferentes importâncias relativas. Discutir
proficientemente implica focar a atenção no que é central e relevante,
abandonando o periférico e acessório. Por vezes, podemos estar enganados quanto
ao que é relevante numa discussão, e o nosso interlocutor pode chamar-nos a
atenção para isso. Devemos estar dispostos a corrigir a nossa avaliação do que
é central, mas temos de resistir à tentação de fugir à discussão do que é
central desviando a discussão para um aspecto acessório.
5. Não usar ataques
pessoais de qualquer espécie
Se numa discussão se começa a atacar pessoalmente quem
discorda de nós, a probabilidade de se poder continuar a discutir de forma
razoável é mínima. As emoções fortes toldam a razão e se as pessoas responderem
aos ataques pessoais, a discussão anterior perde-se e passa-se a discutir outra
coisa.
6. Dominar (ainda
que intuitivamente) os aspectos elementares da lógica informal
Evidentemente, as pessoas não têm de estudar lógica
informal ou pensamento crítico antes de poderem discutir. Apesar de qualquer
pessoa dever ler um bom livro introdutório à prática argumentativa, não devemos
excluir uma pessoa de uma discussão só porque nada leu sobre como se discute de
forma razoável.
7. Conhecer a
bibliografia relevante
A discussão séria de qualquer assunto
pressupõe que quem o está a discutir tem algum conhecimento da matéria em causa.
Caso contrário, será melhor ficar calado e assistir à discussão de outras
pessoas que têm conhecimento da bibliografia relevante; ou ir para casa estudar
a bibliografia relevante.
8. Ter refletido de
forma razoavelmente sistemática no tema em causa
Só devemos estar dispostos a debater publicamente um determinado tema se tivermos refletido de forma razoavelmente sistemática no tema em causa. Se avançamos para um debate unicamente porque temos uma ideia, faremos baixar a qualidade do debate. É preciso que, além de termos uma ideia, lhe tenhamos dado alguma reflexão; é preciso que nos tenhamos perguntado se teremos realmente razão e que argumentos há contra o que defendemos. Não podemos ter a ingenuidade de pensar que só porque uma ideia é nossa é maravilhosa.
Para distinguir a discussão racional da mera manipulação não precisamos, felizmente, de uma teoria da racionalidade — como todos os problemas centrais e fundamentais do conhecimento, saber claramente o que é a racionalidade é um problema em aberto. Uma discussão racional apela à inteligência do interlocutor e é frontal; a manipulação procura furtar-se à inteligência do interlocutor, procurando fazê-lo aceitar o que ele não aceitaria se lhe fosse dada oportunidade para refletir cuidadosamente.
Fonte de Consulta
MURCHO, Desidério. Pensar Outra Vez: Filosofia, Valor e Verdade (Capítulo 8 — "Filosofia, Lógica e Democracia") [Trechos copiados]
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