09 dezembro 2014

Fogo

O que é o fogo? A resposta não é muito fácil. O fenômeno da combustão (fogo) teria sido explicado pela observação dos fenômenos naturais - tempestades, fricção de ramos secos de madeira, erupções vulcânicas etc. Embora se diga que é uma explicação científica, parte-se muito mais de uma interpretação intuitiva e pessoal. Em se tratando dos gravetos de madeira, a fricção produz realmente o fogo?

Gaston Bachelard, em A Psicanálise do Fogo, defende a tese de que o fogo tem um sentido psicológico e, por isso, pode falar de psicanálise do fogo: começa dizendo que a fonte inicial do estudo do fogo é impura: "a evidência primeira não é uma verdade fundamental". Ele afirma que, ao tentarmos explicar o que é o fogo, caímos numa zona objetiva impura em que se misturam as intuições pessoais e as experiências científicas. O fogo tem um sentido social e um sentido natural. 

O sentido social do fogo é mais importante do que o sentido natural. Esta observação leva-nos ao complexo de Prometeu, semelhante ao complexo de Édipo, mas com enfoque no aspecto intelectual: a inteligência do filho quer ultrapassar a inteligência dos seus pais e dos seus mestres. O fogo está associado a uma interdição social, ou seja, como ele queima, a criança deve ficar longe dele. A criança, então, rouba o fósforo do seu pai e vai fazer uma experiência num lugar deserto e distante de sua casa. 

O fogo é um fenômeno que explica tudo. O que muda lentamente se explica pela vida; o que muda rapidamente se explica pelo fogo. Na mitologia, o fogo representa tanto o bem quanto o mal. Há mitos ligados ao temor pelo poder destruidor do fogo; há mitos também ligados à gratidão pelos seus benefícios, à sua pretensa virtude rejuvenescedora. É como se estivesse brilhando no Paraíso e abrasando no Inferno. Enaltece a criança que brinca ao lado da lareira, mas castiga a desobediência de se aproximar demasiadamente de suas chamas. 

O fogo, junto à lareira, assume aspectos filosóficos. O devaneio diante do fogo - reflexão sobre si mesmo - inspira ao ser vivente o desejo de mudança: crescer, melhorar, progredir, rejuvenescer. A destruição é criativa, ou seja, jogar o velho no lixo e abrir a mente para o novo, para a renovação. Bachelard pensa que esse devaneio dá origem ao complexo de Empédocles: "um verdadeiro complexo em que se unem o amor e o respeito ao  fogo, o instinto de viver e o instinto de morrer". Nesse caso, o sonho é mais forte que a experiência. 

Saiamos da metáfora e caiamos na real. Não deixemos que as aparências tomem o verdadeiro valor das coisas. 

Fonte de Consulta

BACHELARD, Gaston. A Psicanálise do Fogo. Tradução Paulo Neves. São Paulo: Martins Fontes, 2008. (Tópicos)


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