22 dezembro 2013

Le Bon e a Psicologia das Multidões

"As multidões, pouco aptas ao raciocínio, mostram-se soberanas à ação." 

multidão, em seu sentido comum, representa uma reunião de indivíduos quaisquer, independentemente de sua nacionalidade, sua profissão ou seu sexo. Psicologicamente, a multidão possui características distintas do indivíduo (isolado). "A personalidade consciente desaparece e forma a alma coletiva. A coletividade torna-se uma multidão psicológica. Ela forma um único ser e encontra-se submetida à lei da unidade mental das multidões".

inconsciência e a irracionalidade estão na base de uma multidão. Geralmente, as pessoas em multidão são levadas pelo poder e contágio de um chefe, de um guru, de um líder religioso. Os tutelados ficam cegos diante da ordem do superior; apenas obedecem. Observe que individualmente não tomamos certas medidas, visto raciocinarmos e virmos que aquele ato não é correto. Em multidão, porém, falta-nos o senso crítico. Parece-nos que tudo é permitido, inclusive quebrar o bem público.  

Gustave Le Bon enfatiza o peso da raça na formação pensamento coletivo. Ele diz: "A organização de uma multidão forma-se sobre o fundo invariável e dominante da raça, sobrepõem-se algumas características novas e específicas que provocam a orientação de todos os sentimentos e pensamentos da coletividade numa direção idêntica". Por essa razão, pessoas letradas acabam tendo o mesmo comportamento do de outros integrantes da multidão. 

Le Bon aponta, pelo menos três causas, para diferenciar o indivíduo (só) de ele em grupo.  

1ª) O indivíduo na multidão adquire, exclusivamente por causa do número, um sentimento de poder invencível que lhe permite ceder a instintos que, sozinho, teria forçosamente refreado.

2ª) Contágio mental associado ao efeito hipnótico. Na multidão, todo sentimento, todo ato é contagioso, e contagioso no sentido de sacrificar o seu interesse pessoal ao interesse coletivo.

3ª) É a mais importante das causas, pois determina nos indivíduos na multidão características específicas às vezes muito opostas às do indivíduo isolado. 

Afirmação, repetição e contágio são palavras-chaves para direcionar uma multidão. A afirmação deve ser concisa, desprovida de provas e de demonstração. Pela repetição, a coisa afirmada chega a se estabelecer nos espíritos a ponto de se aceitar como uma verdade demonstrada. Depois de uma afirmação ser repetida há, ainda, a necessidade do contágio. "Nas multidões, as ideias, os sentimentos, as emoções, as crenças possuem um poder de contágio tão intenso quanto o dos micróbios". 

Fonte de Consulta

LE BON, Gustave. Psicologia das Multidões [obra de 1895]. Tradução de Mariana Sérvulo da Cunha. São Paulo: Martins Fontes, 2008. (Coleção Tópicos)

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Gustave Le Bon, médico e sociólogo, nasceu em Nogentle-Rotrou, França, em 1841. Estudou medicina na Universidade de Paris. Escreveu, entre outros livros, L'Homme et les Societés e Les Premières Civilisations. Faleceu em 1931. 

 


13 novembro 2013

Patrística

Patrística é o termo usado para expressar a junção do mundo antigo grego, elaborado pela razão, com o mundo cristão, concebido pela revelação. Na tradição judaica, a salvação é imediata; no cristianismo, não. Não se espera uma redenção imediata do sofrimento e da morte como acontecia no judaísmo. Para manter a esperança da salvação, há necessidade de aprofundar os conteúdos da verdade revelada. Por isso, a “patrística”.

Os antecedentes da patrística remetem-nos a Tertuliano (155) e Orígenes (185). Tertuliano, embora contrário à patrística, e posto à margem pela igreja, foi um dos precursores desse tipo de filosofia, pois criou um cristianismo místico e vivencial, que encontrará sua máxima expressão na síntese agostiniana de razão e fé. Orígenes, por seu turno, é o primeiro grande sistematizador da teologia cristã, ao qual incorpora elementos neoplatônicos e até gnósticos.

Justino, no século II, dá os primeiros passos para conciliar o pensamento platônico e neoplatônico às Sagradas Escrituras. Em seu desenvolvimento posterior, a patrística pode ser considerada, também, como uma doutrina que procura se diferenciar de heresias como o gnosticismo, o arianismo, o maniqueísmo e o monofisismo. 

A criação, a revelação de Deus com o mundo, o mal, a alma, o destino da existência e o sentido da redenção são problemas fundamentais da patrística. Há, também, os problemas teológicos: essência de Deus, trindade das pessoas divinas etc. Por último, os problemas morais: embora utilizando os conceitos helênicos, adota uma postura na graça e na relação do homem com seu Criador, e termina na concepção da salvação, estranha ao pensamento grego.  

A base da patrística está no platonismo. No platonismo, o Demiurgo é a Ideia, o mundo sensível é feito à imagem e semelhança das ideias e a ideia do Bem está topo da hierarquia. Para o cristianismo, a criação leva também a marca das ideias do Criador; o mundo sensível é baseado na contingencia, fator de dependência de seu ser em relação ao Criador; e o fato de o neoplatonismo situar a ideia do bem no topo da hierarquia, abriu espaço para o cristianismo expressar o monoteísmo.

Fonte de Consulta

Temática Barsa — Filosofia 

 

Pensamento Helenístico

helenismo ganha força a partir das expedições de Alexandre Magno ao Oriente que, após realizar grandes conquistas, põe em cheque o status quo da Pólis (Cidade-Estado). O ideal da Pólis é substituído pela ideal “cosmopolita”, em que o mundo inteiro é uma Pólis e não somente a Cidade-Estado.  O homem-citadino perde a sua capacidade de intervenção na vida política e é substituído pelo homem-indivíduo, aquele que cuida apenas da vida privada, apenas de si mesmo.  

As filosofias platônicas e aristotélicas tornaram-se desatualizadas. A exceção estava na filosofia socrática, que incentiva o ser humano a voltar-se para si mesmo. Exigiam-se novas filosofias, as quais deveriam ter um cunho prático. Estas, ao se formarem, difundiram-se em vários lugares, transformando-se em cultura helenística. O centro da cultura passou de Atenas para Alexandria. O epicurismo, o estoicismo e o ceticismo surgem dentro desse novo contexto.

Para Epicuro (341-270 a.C.), materialista e fundador do epicurismo, não existe nem imortalidade nem um “mais além”. A morte do indivíduo é morte do corpo e da alma. Apesar do seu materialismo, pregava que não se devia temer a morte. O importante é a vida, que se fundamenta na busca do prazer, não do prazer hedonista. O ideal é alcançar a ataraxia — “a tranquilidade do espírito que evita cair na dor decorrente da carência ou do excesso de prazeres — e a autarquia — auto-suficiência, não depender de nada a não ser de si mesmo, encontrar satisfação com pouco, uma vez que o desejo de abundância nos torna dependentes do objeto”.

Zenão de Cicia (335-264 a.C.) foi o fundador do estoicismo. Para o estoicismo, o mundo é regido por uma lei universal, o logos, a razão. O ser humano, sendo parte desse mundo, deve se submeter à lei universal. A vida, de acordo com a razão, é a vida do sábio, mas também do virtuoso. Em virtude dessa lei, que é inexorável, o sábio só pode aspirar à ataraxia, ou seja, à serenidade e imperturbabilidade do espírito.

Pirro de Élida (365-275 a.C.) é o iniciador do ceticismo. A tranquilidade de espírito aqui está na recusa de qualquer doutrina, pois ele considera que a razão não pode penetrar na essência das coisas e prega a dúvida diante de todas as questões. Pirro diz: já que nada sabemos com certeza sobre as coisas do mundo, tudo deve nos deixar em absoluta indiferença — e que nada perturbe nosso espírito. Esta é a sua ataraxia.

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Temática Barsa - Filosofia 

 

08 novembro 2013

Positivismo: Comte

Positivismo é a doutrina fundada por Augusto Comte (1798-1857). Comte afirma que a filosofia deve ser “positiva”, ou seja, restringir-se ao que for cientificamente verificado. Pensando desse modo, estabelece os fundamentos da sociologia, ciência da sociedade que ele entende como o saber superior.

O positivismo é uma filosofia dos fatos. Só os fatos são suscetíveis de comprovação por meio da experiência. A filosofia de Comte despreza a metafísica, pois para ele, "A única máxima absoluta que existe é que não existe nada absoluto". A filosofia comtiana é um saber que investiga os fatos e suas relações tal como são concebidos pelas ciências.

A doutrina de Comte é justificada pela lei dos três estados: 1.º) estado teológico, em que a mente humana explica os fenômenos de maneira fictícia, apelando para causas sobrenaturais; 2.º) estado metafísico, em que a indagação das causas é feita no terreno da natureza, mas de forma abstrata; 3.º) estado científico, em que se abandona o saber causal e limita-se a observar os fatos e a estabelecer leis positivas a partir deles. Comte acredita que o positivismo, além de corresponder ao estado científico da humanidade, é também uma religião, pois herda, como ciência social, aquela força coesiva do coletivo que se encontra nas religiões tradicionais. 

Comte, ao refletir sobre a sociedade, distingue dois momentos: o de equilíbrio e o de movimento, o de "ordem" e o de "progresso", que os denomina de estática social e dinâmica social. A estática social é o estudo das condições em que se produz a "ordem" coletiva. A dinâmica social é a investigação das leis de transformação que determinam o movimento, ou "progresso", de uma sociedade.

John Stuart Mill (1806-1873), sendo utilitarista e liberal, adapta o positivismo comtiano ao utilitarismo inglês, porém impregnado de conteúdos éticos e políticos bem específicos. Herdeiro de Jeremy Bentham (1748-1832), que relaciona o bem ao prazer e o mal à dor, Mill estabelece que o bem-estar deva estar disponível ao maior número possível de indivíduos. O positivismo de Mill é essencialmente pragmático.

Para Comte, a sociologia é a principal ferramenta científica para a compreensão da sociedade. Nesse sentido, pensa que a filosofia é um saber estéril se não é vinculado de forma reflexiva ao conhecimento científico.

Fonte de Consulta

Temática Barsa - Filosofia 

 

30 outubro 2013

Mecanicismo e Relatividade

mecanicismo é uma teoria filosófica que, uma vez concebida a matéria como inerte, deve-se explicar como nela se instala o movimento. A questão conduz-nos ao tema da causalidadeRelatividade. Diz respeito ao relativo, ao que não basta a si mesmo. Na Física, é uma teoria proposta por Albert Einstein que alargou os conceitos de tempo, espaço e movimento, revolucionando a física clássica.

Aristóteles argumentava que as coisas são relativas quando, para existir, umas dependem das outras: o maior só é maior em relação ao menor. Parmênides de Eleia, por outro lado, acha que o conhecimento sensível não permite apreender o ser verdadeiro, uno e imóvel. O relativismo foi muito criticado pela prática científica, pois o sujeito, ao conhecer, não permanece enclausurado nos próprios limites, mas apreende o mundo objetivo que independe, em sua existência e em sua estrutura, da consciência do sujeito que o percebe.

Biologicamente, o organismo se assemelha à máquina, mesmo admitindo um grau mais elevado de complexidade. Tudo se explica em termos de pura extensão e simples movimento local. Observe a síntese do silogismo (mecanicista) histórico: A premissa maior está com Descartes (todos os animais são autômatos), a menor com Darwin (o homem é um animal) e a conclusão com Watson (todos os homens são autômatos). Umas das principais críticas ao mecanicismo reside na incompatibilidade entre os processos biológicos e a simples redução deles a atividades físico-químicas.

Henri Poincaré (1854-1912), James C. Maxwell (1831-1879), Heinrich Hertz (1857-1894), Hendrik A Lorentz (1853-1928), Hermann Minkowski (1864-1909) e Bernhard Reemann (1826-1866) foram os precursores da teoria da relatividade de Einstein, que pode ser resumida da seguinte maneira: de Galileu a Newton, a física clássica considerava o movimento como relação determinada por sua referência a parâmetros julgados absolutos, o espaço e o tempo. Para Einstein, ao contrário, o espaço e o tempo se concebem em função do movimento, que se torna, assim, o absoluto.

As consequências da teoria da relatividade podem ser sintetizadas: a) em termos de espaço-tempo, alteração radical das noções de distância e duração; b) quanto à concepção da matéria, a física declara que esta constitui uma cadeia de entidades, sujeitas a uma determinada duração de modo algum absoluta; c) quanto à generalização da teoria, a força de gravidade, que unifica todo o sistema newtoniano, fica reduzida a um movimento particular de um corpo num espaço determinado por massas de matéria.

Bibliografia Consultada

ENCICLOPÉDIA MIRADOR INTERNACIONAL. São Paulo: Encyclopaedia Britannica, 1987.

TEMÁTICA BARSA - FILOSOFIA. Rio de Janeiro, Barsa Planeta, 2005.


18 outubro 2013

Estruturalismo

O “estruturalismo” é uma corrente de pensamento que teve como base a linguística estrutural de Ferdinand de Saussure na década de 1960. O estruturalismo aplica os princípios de linguística, elaborados por Ferdinand de Saussure (1857-1913), o qual fazia uma distinção entre língua e fala. A fala se refere ao uso da língua; a língua é anterior à fala, é um sistema de signos impessoal. O sistema de signos da língua forma uma estrutura.

“O conceito de ‘estrutura’ se aplica à totalidade do conjunto de elementos e de suas relações, de maneira que a mudança de qualquer um deles introduz uma transformação em todos os outros. A estrutura não é uma realidade empiricamente observável, mas um modelo teórico-explicativo, aplicável onde exista um conjunto, e que atende fundamentalmente às relações das partes dentro do todo, uma vez que são elas que o determinam”. 

As implicações filosóficas do estruturalismo podem ser desmembradas segundo dois pontos de vista: 1) Seu anti-humanismo epistemológico ocorre diante da descoberta da prioridade universal (estrutura) sobre o individual (o homem); 2) O desaparecimento do sujeito. As regras que determinam a estrutura são supra-individuais e inconscientes: não são regras do sujeito, regras que partam dele ou nele se fixem, mas são regras nas quais os sujeitos se inserem.

Lacan (1901-1981) aplica o método estruturalista à psicanálise com a intenção de dotá-la de um estatuto científico. Sua tese fundamental é a de que o inconsciente está estruturado como uma linguagem: a psicanálise deve analisar o inconsciente de acordo com o modelo da linguística estrutural. Para Lacan, o sujeito não se identifica somente com a consciência, mas também com o inconsciente, pois este também é sujeito. 

Foucault (1926-1984), pós-estruturalista foi, ao longo do tempo, alterando o objeto de seu interesse: primeiro foi o saber, mais tarde o poder e, por último, as formas de subjetivação. Quanto ao saber, acha que em cada época aparecem algumas estruturas epistêmicas que determinam o que pode ser pensado e o que pode ser dito. Quanto ao poder, Foucault o vê como uma rede de relações nas quais o homem se acha inserido. Em relação à subjetivação, analisa os mecanismos que intervêm na produção dos sujeitos. O sujeito não é algo dado, mas o resultado de uma relação de forças. 

Fonte de Consulta

TEMÁTICA BARSA - FILOSOFIA. Rio de Janeiro, Barsa Planeta, 2005.

 



24 setembro 2013

Eudaimonia

Daimon é uma entidade sobrenatural, situada entre um deus (theos) e um herói. Ela não é boa nem má. Pode, entretanto, ser concebida no seu sentido positivo; nesse caso, torna-se um anjo da guarda. Daimon não era o espírito protetor de Sócrates, que o avisava quando algo não devia ser feito? Antepondo “eu” ao “daimon”, formaremos a palavra “eudaimon” que, literalmente, significa “bom demônio”. Traduzindo-a por "bom deus", "bom espírito", "bom anjo da guarda" e, por conseguinte, "felicidade", pois toda pessoa que tivesse um bom demônio era considerada feliz. 

A felicidade pode ser vista sob diversas formas e sob diversos ângulos filosóficos. Quanto às diversas formas, consiste em "bem-estar", em "prazer", em "atividade contemplativa"... Trata-se de um "bem" e de uma "finalidade". No âmbito dos filósofos, temos: para Demócrito, a felicidade não consiste nos bens externos; para Platão, a felicidade reside na justiça; para Aristóteles, ela se fundamenta na contemplação intelectual.

Literalmente, 'eudemonismo' significa "posse de um bom demônio". É gozo ou fruição, cujo resultado final é a prosperidade, a felicidade. Filosoficamente, toda tendência ética segundo a qual a felicidade é o sumo bem. Para os eudemonistas, sempre haverá compatibilidade entre bem e felicidade, pois a felicidade é o prêmio da virtude. Para os opositores do eudemonismo, a felicidade e o bem podem coincidir, mas não coincidem necessariamente. Nesse caso, a virtude vale por si mesma, independentemente da felicidade que ela possa produzir.

No relato histórico-religioso da felicidade, há a concepção da beatitudo (felicidade). A “felicidade animal”, que é passageira, encontra-se num estado rudimentar e não deveria se chamar felicidade, mas "felicidade aparente". Seguem-na a “felicidade eterna” (que é a vida contemplativa), a “felicidade final” ou “última” ou “perfeita”, que é o que se chamaria “beatitude”. Para Santo Agostinho, a beatitude é a posse do verdadeiro absoluto e, em última análise, a posse (fruitio) de Deus.

No processo histórico acerca da felicidade, os pensadores têm muitas divergências quanto ao verdadeiro conceito filosófico. Há, porém, algo que permanece comum em todos eles: a felicidade nunca é apresentada como um bem em si mesmo, já que para saber o que é felicidade deve-se conhecer o bem ou os bens que a produzem.

A felicidade está no centro das discussões filosóficas, principalmente quando o assunto tratado versa sobre ética e o problema do bem. 

Fonte de Consulta

MORA, J. Ferrater. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Loyola, 2004.

PETERS, F. E. Termos Filosóficos Gregos: Um Léxico Histórico. Tradução Beatriz Rodrigues Barbosa. 2. ed. Lisboa: Fundação Calouse Gulbenkian, 1983. 


22 julho 2013

Montaigne, Michel de

"O homem não é tão ferido pelo que acontece, e sim por sua opinião sobre o que acontece." (Michel de Montaigne)

Michel Eyquem de Montaigne (1533-1592) nasceu e morreu na França. Seu pai era um rico comerciante de vinho, o qual teve oportunidade de proporcionar-lhe educação esmerada, sendo que, aos 13 anos de idade, sabia mais latim do que francês. Montaigne ficou famoso pelos seus Ensaios, dividido em três livros, escritos de 1580 a 1588.

Montaigne surge num cenário de guerras religiosas. Dessas amargas experiências, escreve a sua obra Ensaios. Foi o primeiro filósofo a inaugurar os ensaios sem classificação alguma. A sua única preocupação era a de registrar a tensão formada em seu ser, em seu pensamento. As suas ideias eram fundamentadas nos grandes escritores do passado, principalmente Plutarco. Os pensadores estoicos influenciaram-no sobremaneira.

Toda a filosofia de Montaigne está condensada no lema socrático: Que sais-je? ("O que é que eu sei?"), que ele mesmo mandou cunhar numa moeda. Este lema explica-se pelo ceticismo. Trata a filosofia como um saber presunçoso. "A presunção é nossa doença natural e original", e a filosofia em seus altos voos metafísicos, é apenas um produto da vaidade humana. A razão, pensa Montaigne, não pode alcançar certeza alguma, mas o homem tem de se acostumar a viver na incerteza, e suportá-la estoicamente.

O tema central dos Ensaios é o conhecimento de si mesmo. Partia de si mesmo, tentando uma generalização do ser humano. Aproveitava o ensejo para combater o egoísmo e o preconceito que grassava na sociedade. Embora acenasse para uma volta sobre si mesmo, não queria de modo algum esquecer o poder dos costumes. Segundo ele, há uma universalidade do costume, que se torna uma segunda natureza; o que não é universal é o conteúdo desse costumes. Criticava, assim, a redução de nossos sistemas de crenças a meros costumes e opiniões pessoais.

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Segundo Luís Augusto Fischer, escritor, ensaísta e professor de literatura brasileira da UFRGS, na sua apresentação do livro pela L&PM, o que Montaigne é para a França e o pensamento francês, Sócrates foi para a Grécia e o pensamento grego. 

Montaigne é considerado uma das mentes mais originais de que já se teve notícia. Foi humanista e precursor do iluminismo. 

 




20 julho 2013

Pascal, Blaise

"A consciência é o melhor livro de moral e o que menos se consulta.” (Blaise Pascal)

Blaise Pascal (1623-1662) foi matemático, cristão e filósofo. Escreveu várias obras científicas. Os Pensamentos, ideias condensadas em fórmulas curtas e fortes, porém, é seu trabalho mais conhecido.

O ponto central de sua filosofia: contestar as pretensões da razão filosófica e científica de alcançar a verdade total. Para ele, embora a ciência tenha um poder extraordinário, ela não é capaz de explicar a origem do Espírito e do Universo. Tem pouco apreço pelos argumentos filosóficos que procuram atestar a existência de Deus. “O homem não pode entender o que é a corporeidade e menos ainda o que é espírito e, de maneira alguma, como um corpo pode estar unido a um espírito”.

Pascal distingue dois tipos de razão, a do silogismo e a do coração. Por isso, ele diz: “O coração tem razões que a própria razão desconhece.” Para explicar as razões do coração, escreve: com o coração “conhecemos os primeiros princípios e é em vão que o raciocínio, que não participa deles, tenta combatê-los”. Com o coração se alcança a certeza de uma forma “totalmente interior e imediata”. Entende que o coração é uma faculdade como a própria razão o é.

A vida do ser humano é miséria e morte, mas também dimensão pensante. Pode ser destruído por um sopro de vento, mas também é dotado de consciência. “... mesmo que o universo o destruísse, o homem ainda seria mais nobre do que aquilo que o mata. Porque sabe que morre, e o que o Universo tem de vantagem sobre ele, e o Universo não sabe nada disso”.

aposta de Pascal. Ao homem coloca-se uma dupla alternativa: Deus existe ou não existe, e é preciso apostar em uma delas, como num jogo. As vantagens a favor da primeira alternativa (Deus existe) são indiscutíveis: no caso de ganhar, o homem ganha uma existência infinita; e, no caso de perder, não perde nada.

Os Pensamentos, redigido após a sua morte por parentes e amigos, tem uma tese central, que é a proeminência da religião sobre a filosofia e a ciência. A intenção de Pascal era a de sensibilizar os incrédulos. Pascal tem que usar a razão e a argumentação, únicos instrumentos que seu interlocutor reconhece. Vislumbra o tema miséria e grandeza do homem e pensa essa contradição. A obra pode ser considerada, também, uma crítica ao racionalismo de Descartes. Nesse sentido, usando o solo da razão e da experiência para investigar a condição humana, diz: "O coração tem suas razões que a razão não conhece".

Fonte de Consulta

TEMÁTICA BARSA - Filosofia. Rio de Janeiro, Barsa Planeta, 2005.





19 julho 2013

As Nuvens: Aristófanes

Para compreendermos como a filosofia de Sócrates o levou à morte, devemos nos valer da comédia de Aristófanes, As Nuvens, que criou uma “morte de Sócrates” ficcional, cerca de 12 anos antes do julgamento. Platão, inclusive, diz que essa peça teve importância capital na condenação de Sócrates.

É uma comédia sobre Estrepsíades, que fez dívidas enormes, por causa de sua mulher (esbanjadora) e de seu filho (admirador de cavalos). Estrepsíades inscreve-se como aluno de um sofista, para aprender “a transformar um argumento fraco em argumento forte” e, com isso, livrar-se de seus credores. O sofista escolhido é Sócrates, que tem a cabeça nas “nuvens”.

Estrepsíades fica satisfeito de repetir os pontos de vista de Sócrates, de que ele deveria rejeitar os velhos deuses em favor das divindades modernas. Ele, porém, se mostra muito senil para assimilar os conceitos de Sócrates. No fim, o filósofo desiste dele, como um caso perdido.

O filho de Estrepsíades, Feldípedes, parece mais capaz de aprender, mais sujeito a aceitar os ensinamentos socráticos. Ele toma o lugar de seu pai como estudante da escola. Sócrates ensina-lhe as noções do Argumento Melhor e do Argumento Pior. O Argumento Melhor diz respeito ao autocontrole, à ginástica, ao treinamento militar e às duchas frias. O Argumento Pior refere-se à esperteza, à retórica e à zombaria do autocontrole.

Estrepsíades, incentivado por Sócrates, recusa a pagar os seus credores, trapaceando-os com enganosos trocadilhos. Tornando-se igual ao seu filho, ele trata os credores como cavalos rebeldes: acoita-os com um chicote. O filho, porém, logo começa a bater no pai e ameaça bater também na mãe. Nisso, Estrepsíades percebe o erro cometido e acha que nunca deveria ter escutado Sócrates, nunca desobedecido os velhos deuses. Ele põe fogo na escola de Sócrates, matando-o, juntamente com seus alunos.

As últimas palavras de Sócrates são um clamor desesperado: “Ah, não, coitado de mim, é terrível! Vou sufocar!

Fonte de Consulta

WILSON, Emily. A Morte de Sócrates. Tradução de Maria de Fátima Siqueira de Madureira Marques. Rio de Janeiro: Record, 2013.

 



15 julho 2013

Galilei, Galileu

"Não se pode ensinar nada a um homem; só é possível ajudá-lo a encontrar a coisa dentro de si." (Galileu Galilei)

Galileu Galilei (1564-1642) nasceu em Pisa e estudou em Florença. Tornou-se célebre como astrônomo, tendo sido inventor do primeiro telescópio. Entrou em choque com a Inquisição. Conseguiu escapar à morte prometendo não pregar que o Sol era o centro do Universo.

O grande pioneiro da astronomia telescópica foi Galileu. Contrariando a suposição de um Céu perfeito e harmônico, mostrou que a superfície da Lua era marcada por crateras e montanhas, não uma esfera plana, polida. Descobriu que Júpiter era orbitado por quatro luas, hoje conhecidas como satélites galileanos. Descobriu ainda que Vênus tem fases, prova de que orbita o Sol. Vislumbrou os anéis de Saturno.

Galileu permanece na história como um divisor de águas no pensamento científico, tanto por suas descobertas como por ter lançado as bases de uma nova metodologia científica. Observe que a partir do século XVI, o progresso científico retoma o seu vigor, fornecendo às ciências a conciliação entre a teoria e a experimentação. Com Galileu, além da observação e da criação de modelos, acrescentou a organização da experiência e o desenvolvimento de aparelhos. Os instrumentos foram os grandes auxiliares no desenvolvimento de todas as ciências.

Depois de pedir licença ao papa para escrever uma obra de comparação entre os dois sistemas do mundo, Galileu a publica, em 1632, com o seguinte título: Dialogo sopra i due massimi del mundo (Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo), em que confronta os sistemas ptolomaico e coperniciano. Dando ênfase ao segundo, causou grande celeuma. Os opositores de Galileu denunciaram a obra como contrária às Escrituras. Intimado pelo Santo Ofício, ou seja, a Inquisição, abjurou para evitar uma condenação maior.Durante os 20 dias do processo, Galileu pouco se defendeu. Foi levado perante o tribunal e, de joelhos, pronunciou a abjuração da sua doutrina. Pretende a tradição que ao levantar-se, Galileu bateu com o pé no chão, exclamando: E pur, si muove! (E todavia, move-se!). Morreu cego, sob os olhos vigilantes da Inquisição.

“A astronomia compele a alma a olhar para o alto e nos transporta deste mundo para outro.” (Platão)

 


03 julho 2013

Apologia de Sócrates

Apologia é um discurso ou escrito laudatório que tem por fim justificar ou defender alguém ou alguma coisa. A Apologia de Sócrates é a obra escrita por Platão depois da morte de seu mestre (399 a.C.). Platão imagina Sócrates defendendo-se diante dos juízes que o condenaram à morte por corromper a juventude e introduzir divindades estrangeiras. 

Platão estrutura a defesa de Sócrates em quatro partes: 1.ª o acusado dirige-se ao júri referindo-se às pessoas de seus acusadores e às acusações feitas: sedução da juventude e impiedade; 2.ª o acusado dirige-se ao principal acusador, ou seja, Meleto; 3.ª o acusado, já ciente de que foi julgado culpado e condenado à morte, dirige-se outra vez ao júri; 4.ª condenado à morte, entrega os seus juízes ao julgamento da posteridade.

O conteúdo da Apologia é atípico. Na época os sofistas, que cobravam pela disseminação de seu saber, preparavam os seus alunos, não para disseminar a verdade, mas para ganhar a discussão. Baseavam-se no seguinte raciocínio: tornar o argumento fraco o mais forte possível. Sócrates, em sua defesa, fez o contrário, ou seja, usou de simplicidade, coerência e sem floreios. 

Eis um trecho do livro: “... se sentirdes que me defendo com os mesmos raciocínios com os quais costumo falar nas feiras, ou nos lugares onde muitos de vós me tendes ouvido, não vos espanteis por isso, nem provoqueis clamor, porquanto, é esta a primeira vez que me apresento diante de um tribunal, e com mais de setenta anos de idade! Por isso, sou quase estranho ao modo de falar daqui. Se eu fosse realmente um estrangeiro, sem dúvida, me perdoaríeis, se eu falasse na língua e da maneira pelas quais tivesse sido educado; assim também agora vos peço uma coisa que me parece justa: permiti-me, em primeiro lugar, o meu modo de falar – e poderá ser pior, ou mesmo melhor – depois, considerai o seguinte e só prestai atenção a isto: se o que eu digo é justo ou não. Essa, de fato, é a virtude do juiz, do orador: dizer a verdade.” 

Para explicar a sua ocupação de filósofo, parte da afirmação do oráculo, que o considerava o mais sábio dos homens. Se o oráculo diz isso, deve ser verdadeiro, pensava. Em seguida, começou a questionar os que sabiam algo e chegava à conclusão de que não sabiam o que pensavam saber. Este método denominou-se “maiêutica” que, à semelhança de sua mãe (parteira), daria luz às novas ideias. 

Para se defender da acusação de que corrompia os jovens, alegou que os jovens o seguiam de livre e espontânea vontade. E o seguiam porque Sócrates os ensinava a pensar com a própria cabeça. Para se defender da acusação da impiedade, disse que obedecia ao daimon. O seu daimon começou desde a infância: “Uma voz que só se produz para me afastar do que vou fazer, mas não me impele nunca a agir”. Trata-se, pois, de uma voz que só transmite proibições divinas.

O julgamento à morte foi essencialmente de natureza política. Os jovens que conviviam com Sócrates seriam políticos em Atenas, como Crítias e Alcibíades. Não dizia respeito apenas aos indivíduos, mas tinha projeção sobre a democracia em Atenas. Possivelmente, os detentores do poder temiam que esses jovens se insurgissem contra o status quo vigente. 

Uma vez julgado e condenado, preferiu morrer a fugir da prisão. Justificou esta atitude por amor à justiça e à coerência de suas ideias. Dizia que por mais injustas que sejam as leis devemos obedecê-las, para não incitar outros a desobedecê-las. Nos últimos instantes de sua vida disse: “Mas é chegada a hora de partir: eu para a morte e vós para a vida. Quem de nós se encontra para o melhor destino, todos nós ignoramos, exceto o deus”. Somente Deus conhece a verdade.

Fonte de Consulta 

Platão. Apologia de Sócrates. Tradução de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2011. (Edipro bolso)





28 abril 2013

Essência e Existência: a Interexistência

No pensamento antigo, a essência define o fundo de uma coisa (sua substância). Para Platão, o fundo era a "ideia"; para Aristóteles, a "forma". A existência vem de ex-sistência (estar aí, ex, fora das causas), o que se acha na coisa, in re. Existência é o fato de ser da essência. interexistência é a situação da essência que não se encontra na existência. É o intermúndio em que o ser se completa na morte.

No essencialismo, a essência sobrepõe à existência. No existencialismo, a existência precede a essência. Algumas filosofias, como a de Hegel, fazem total abstração dos existentes concretos. As doutrinas existencialistas, por sua vez, admitem que objeto próprio da filosofia é a realidade existencial, ou seja, existência concreta e vivida. A essência não implica necessariamente a existência. Exemplo: a essência de um unicórnio é que ele é um cavalo com um único chifre na cabeça. Unicórnios, porém, não existem.

O existencialismo transcende a si mesmo somente quando o ser existente admite a existência de uma vida além da matéria, em que os Espíritos dos que já se foram podem se comunicar – pela mediunidade – com os que aqui ficaram. Esta é a grande contribuição que a Filosofia Espírita fornece para uma melhor compreensão do problema do ser, do seu destino e da sua estada nesta encarnação.

A Filosofia Espírita, ao admitir as existências anteriores e posteriores do ser, ilumina os problemas obscuros do existencialismo. Enquanto para o existencialismo, a morte é fim de tudo e, com ela, o desespero, para o espiritismo, a morte é apenas uma passagem para outra vida. Uma existência terrena é a completude de um ciclo evolutivo. Depois deste, outros virão.

José Herculano Pires diz: "A faticidade misteriosa se explica pelo fazer anterior do Ser, através do desenvolvimento do princípio inteligente e sua projeção na existência como ser humano. Atravessando a existência, como um projétil (o projeto existencial) o homem completa na morte não o seu próprio Ser, mas o ser do corpo que chegou aos limites de suas possibilidades, nem a sua própria essência, mas apenas a essência de uma existência  através da vivência das experiências necessárias ao seu atualizar progressivo". (1)

Convém ressaltar que, na Filosofia Espírita, a mediunidade deve ser tratada de forma moral: o médium deve estar sempre estudando e se aperfeiçoando. 

(1) PIRES, J. H. Introdução à Filosofia Espírita. São Paulo: Paidéia, 1983, página 81. 





24 abril 2013

Bíblia e Filosofia

Bíblia vem do grego e significa “os livros”. Para os cristãos, a Bíblia é um livro inspirado por Deus para a santificação dos leitores. Seu objetivo é salvar o ser humano, não apenas um, mas toda a humanidade. Filosofia vem do grego e significa "amor à sabedoria". Na prática, é a busca do conhecimento por intermédio das luzes da razão. A Bíblia não é filosofia, pois não cogita da racionalidade. Em seus relatos literários, podemos encontrar argumentos que se ligam a algum tipo de filosofia. Exemplo: o livro da sabedoria e as cartas paulinas.

Como dar status filosófico a algo que permanece no particular? A filosofia está orientada para o universal, o testemunho bíblico situa-se no terreno do particular. Em filosofia, o universal é um princípio teleológico, que se traduz pelo desejo de pensar e de se comunicar. O testemunho bíblico narra um acontecimento, uma experiência individual. Lembremo-nos de que a revelação não é algo ilógico ou irracional: situa-se em outro nível de conhecimento, aquele obtido pela inspiração.

A inspiração bíblica está centrada na singularidade de uma história, mas voltada para o universal. Nesse sentido, a Bíblia é um precioso testemunho, um presente dado ao pensamento. A filosofia reconheceu que o literário, o simbólico ou o místico não eram sinônimos de irracional, de falacioso ou de primitivo: a racionalidade aí se expressa de outro modo. Observe a pensamento de Averrois (1126-1198), filósofo árabe: aceitamos que o Alcorão é verdadeiro. Mas, algumas partes dele são demonstravelmente equívocas. Daí, o texto é uma verdade poética e deve ser interpretado pelo raciocínio filosófico. Conclusão: Filosofia e Religião não são incompatíveis.

Comparemos Sócrates (filósofo grego) e Jesus (Filho de Deus):

a) “consciência de si”. Sócrates, aquele que sabe que nada sabe, acha que a verdade do “conhece-te a ti mesmo” dever ser buscada no fundo de si. Jesus, consciente de ser o Filho do Pai, orienta o interlocutor para relação filial com o Pai.

b) virtude e felicidade. Os dois interrogam a ordem moral da sociedade. Sócrates situa a felicidade ao termo de um esforço de aperfeiçoamento moral e do domínio de si, que associam a realização da virtude ao conhecimento do bem. Jesus, ao anunciar as bem-aventuranças, dá a moral, que não é uma condição, mas consequência do estar com Jesus.

c) divino. O daimon socrático é um sinal divino submetido à interpretação de sua razão, exortando-o a seguir as suas injunções. O divino com o qual Jesus se revela em estreita relação é propriamente o Pai.

d) amizade. Para Sócrates, essa amizade é fruto do amor de si – philautia – e busca recíproca do bem segundo as regras da justiça. Jesus, ao assumir o “amarás o teu próximo com a ti mesmo” propõe um dom total de si.

Fonte de Consulta

MIES, Françoise (org.). Bíblia e Filosofia: As Luzes da Razão. Tradução de Paula Sílvia Rodrigues Coelho da Silva. São Paulo: Loyola, 2012.



23 janeiro 2013

Gnosticismo

O gnosticismo centra-se na busca da perfeição através da gnose

Gnosticismo, uma corrente particular do pensamento, ainda não bem conhecido na época presente, deriva de grego gnosis, e significa “conhecimento”, não um conhecimento conceitual, mas intuitivo, reservado somente a alguns iniciados. É uma corrente de pensamento que surgiu a partir do século II de nossa era, na qual se combinam elementos cristãos e pagãos. (1)

No começo da era cristã, havia a tradição grega, baseada no deus da razão, e a tradição cristã, baseada na fé sobrenatural.  O problema principal era conciliar Deus e a Alma do Mundo. Deus é o invisível, o Bem; a Alma do Mundo, a matéria, o Mal. Não foram somente os cristãos que quiseram dar uma solução para a dualidade entre o bem e o mal. Na época, havia duas correntes: o gnosticismo e o neoplatonismo. (1)

Segundo o neoplatonismo, o real é constituído de três hipóstases - o Uno, a Inteligência (Nous) e a Alma, sendo que as duas últimas procederiam da primeira por emanação. As suas teses podem ser assim resumidas: absoluta transcendência do ser divino, a emanação e o retorno do mundo a Deus pela interiorização progressiva do homem.

Para defender a pureza angélica, os gnósticos de todos os tempos inventaram teorias que davam sustentação aos seus anseios. Muitos gnósticos negaram a corporeidade de Jesus, imputando-lhe um corpo astral. Valentim (c. 160 d.C.) dizia: “Jesus comia e bebia de forma especial, sem excretar a comida. Tão grande era a força de seu poder de evitar a excreção que os alimentos não apodreciam nele, pois ele mesmo era indefectível e incorruptível”.

autoconhecimento, que é a premissa básica do gnosticismo, não passa de um escapismo, como nos ensina Martin Burckhardt, em “Pequena História das Grandes Ideias”. Para ele, a gnose passa a ser um escapismo, quando se torna uma religião da razão. Platão falava de um mundo além deste; o gnósticos queriam a felicidade aqui e agora. A dificuldade estava em entender a descida do ser humano ao vale de lágrimas: como pressupunham que a carne era fraca, encontraram um vilão para todos os pecados: o demoníaco, diabolon, antítese da divindade.  

No início da era cristã, o gnosticismo surge como uma reunião da alma oriental e da alma ocidental. Depois, a gnose seguirá o seu próprio curso, fundamentada na revelação cristã e na racionalidade grega. No decorrer da história, porém, nem todo o pensamento assentou-se na fé cristã e na racionalidade grega. Entram em cena as doutrinas enigmáticas do Orfismo (transmigrações sucessivas das almas) e o hermetismo (que está relacionada com a astrologia e a alquimia). (Temática Barsa)

O gnosticismo busca o encontro com Deus, o Uno. Esta busca está centrada no conhecimento de si, base da gnose. Para tanto, utiliza-se de tudo o que possa facilitar a interiorização do ser humano: preceitos cristãos, as retortas alquímicas e a astrologia. O objetivo maior é diminuir a distância que há entre o homem (limitado) e Deus (o onipotente). 

(1) TEMÁTICA Barsa - Filosofia.

BURCKHARDT, Martin. Pequena História das Grandes Ideias: Como a Filosofia Inventou nosso Mundo. Tradução de Petê Rissatti. Rio de Janeiro: Tinta Negra Bazar Editorial, 2011.