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03 fevereiro 2012

Consenso

Consenso. Do latim consensus, acordo, juízo unânime. Acordo estabelecido, entre indivíduos ou grupos, sobre seus sentimentos, opiniões, vontades etc., como condição para que haja uma concórdia social. Poder-se-ia defini-la, também, como a concordância de várias pessoas ou da maioria dos membros de uma coletividade em torno de determinado assunto.

Diz-se que há consenso geral quando todos aderem a um princípio, a uma asserção, a uma crença ou a uma tomada de decisão como critério do melhor e do mais verdadeiro, a unanimidade sendo considerada como atitude mais razoável para a realização de determinado objetivo.

Para Luiz Antônio Saconni, em Corrija-se de A a Z, o termo “consenso ‘geral’” é redundância, pois a palavra consenso significa unanimidade de opinião, opinião geral, voz comum. Exemplos: 1) o consenso dos eleitores era de que as reformas poderiam ser implementadas; 2) se nem Jesus Cristo obteve consenso, como exigi-lo de nosso grupo de trabalho?; 3) Ninguém esperava o consenso dos pais da moça nesse casamento.

Em Ética a Nicômaco, Aristóteles instrui-nos sobre o consenso universal: "Aquilo em que todos consentem, dizemos que assim é, já que rejeitar semelhante crença significa renunciar ao que é mais digno de fé".

Mário Perniola, em Contra a Comunicação, fala-nos da sensologia, um neologismo que se refere à transformação da ideologia numa nova forma de poder, que acredita ter um consenso plebiscitário fundado em fatores afetivos e sensoriais.

Em suas palavras: "Pergunto-me, agora, se não seria justamente a comunicação essa nova forma de ideologia que batizei com o termo de sensologia. Por exemplo, orientações coletivas em que a comunicação desempenhou papel muito importante, como o neobelicismo e o neopacifismo, a globalização e a antiglobalização poderiam ser consideradas neo-ideologias (como sugere Fitoussi) ou — fato que não cria maiores diferenças — sensologias?" (Perniola, 2006, p. 21).

ERNIOLA, Mario. Contra a Comunicação. Tradução de Luisa Raboline. Rio Grande do Sul: Unisinos, 2006.

 

29 junho 2008

Ética a Nicômaco

Aristóteles, o maior sistematizador da Filosofia grega, escreveu mais de quatrocentas obras, das quais restam quarenta e sete, algumas certamente autênticas e outras de autenticidade duvidosa. Destas quarenta e sete somente uma pertence à classe das chamadas exotéricas, isto é, obras de divulgação, para "gente fora da escola". Dentre tais obras, as dedicadas à Ética são: a Ética a Nicômacos, a Ética a Êudemos e a Ética Maior (ou Magna Moralia).

O caráter estritamente esotérico de suas obras deve ser ressaltado. Aristóteles não escrevia para o público em geral, mas para o uso interno na sua academia. Em todas as suas obras sobre a Ética há características de notas de aula, tomadas pelos alunos, e transformadas em apostilas, para que o material fosse aproveitado na escola e não se perdesse no tempo. A Ética a Nicômacos, por exemplo, teria sido a edição das notas de aula tomadas pelo seu filho Nicômacos.

A Ética a Nicômacos compõe-se de dez livros. No livro I Aristóteles tenta determinar quais as coisas que são boas para o homem, inclusive qual é o bem supremo. Nos livros II, III e IV descreve as várias formas de excelência moral. Nos livros V, VI e VII examina com mais cuidado as excelências morais e as deficiências morais. Nos livros VIII e IX, destoando do escopo de sua obra, analisa a amizade. No livro X, concluindo, especula sobre a amizade e introduz o leitor à sua nova obra, ou seja, a Política.

A Ética a Nicômacos difere profundamente de um livro moderno de filosofia. No seu conteúdo, nota-se repetidas vezes, o sentido de coleção de notas de aula, elaborada com mais ou menos cuidado. Quer dizer, falta-lhe unidade e coerência, requisitos de um livro moderno de filosofia. O bem supremo, ou a felicidade, por exemplo, é objeto de discussões separadas nos livros I e X (o primeiro e o último da obra). Deixa muito espaço para a amizade e discute pouco a excelência intelectual.

O conteúdo da Ética a Nicômacos é determinar qual é a finalidade e o bem supremo da criatura humana, a fim de que ela possa fruir a felicidade de maneira mais elevada. Para Aristóteles, a ética é parte da ciência política, porque descreve o homem como um animal social que deve participar de sua polis. Este homem, como governante, deve proporcionar não só a felicidade de seus familiares e amigos com também de seus concidadãos. Para isso deve conhecer a formas de governo e de como governar, assunto de sua obra Política.

A ética é uma especulação sobre o bem e o mal, a justiça e a injustiça, a felicidade e a desgraça etc. Saibamos colocá-la em prática nos deveres mais ínfimos ou mais elevados de nossa vivência.

Fonte de Consulta

ARISTÓTELES, A Ética a Nicômacos. Trad. de Mário da Gama Kury. Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1985.

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Rosely de Fátima Silva, mestre e bacharel em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, escreveu o prefácio deste livro, em 2015, editado pela Martin Claret. Do exposto, transcrevemos algumas notas:

Até a nossa noção de felicidade pode ser considerada como influenciada pelo pensamento ético-aristotélico.

Entende-se, assim, que o bem da polis deriva e é consequência das ações dos indivíduos, dos cidadãos virtuosos, unidos em philia (amizade), que assim alcançam a perfeita virtude, o fim último de suas ações, ou seja, o bem. A virtude, enquanto bem e fim último das ações e deliberações de todos os homens a se alcançar, é denominada eudaimonia, palavra grega que se traduz, usualmente, por felicidade ou bem-estar, mas que não representa um estado, mas sim uma atividade humana, constante e contínua de bem deliberar sobre os meios para alcançá-la. Florescimento é outra palavra que traduz a eudaimonia.

Observemos a divisão, em 10 capítulos, de Ética a Nicômaco — lembremos que os livros antigos não possuíam tal divisão — e atentemos para os temas discutidos por Aristóteles:

I — Objeto e método do estudo, crítica da doutrina platônica do bem, definição da felicidade, introdução às definições das virtudes morais e intelectuais

II — Definição de virtude moral e noção de mediedade

III — Estudo do ato voluntário e da escolha deliberada

IV — Definições das virtudes morais

V — Definição da justiça

VI — Uma virtude intelectual unida à práxis: a prudência

VII — Acrasia, intemperança e bestialidade; primeiro tratado do prazer

VIII — A amizade

IX — A amizade (continuação)

X — Segundo tratado do prazer; felicidade; ética e política

O que a obra discute? 

Primeiramente, uma teoria do bem e da felicidade — eudaimonia — que se distancia das concepções platônicas sobre o bem, de cunho idealista, pois, como vimos, a eudaimonia é, para Aristóteles, uma atividade. Aristóteles fará uma distinção, crucial para o seu argumento ético, entre virtudes morais e intelectuais: basicamente, podemos dizer que as primeiras originam-se de nossas ações, enquanto as segundas podem ser aprendidas ou ensinadas.

Para Aristóteles, o conceito de justiça, explicitado no capítulo V da obra, é a virtude mais perfeita, porque é o uso da virtude completa. Ela é completa porque aquele que a possui é capaz também de fazer uso da virtude ao outro, e não somente a si próprio.

Sobre o justo, discutirá o justo natural e o justo legal. O justo legal é fácil de definir: o que os homens, por meio das leis, convencionam. O justo natural sofre poucas variações, enquanto o justo legal, dada às miríades de particularidades que abarca, sofre inúmeras variações. Em um contexto de homens virtuosos, o justo natural se apresenta como um reflexo de suas virtudes.

Concluindo, na Ética a Nicômaco, Aristóteles apresenta-nos uma teoria da ação humana, através do estudo dos atos humanos, do modo como a razão humana permeia e interfere em suas paixões e desejos, e quão voluntários e involuntários podem ser esses atos. Práxis e responsabilidade são inseparáveis.