24 dezembro 2022

Descartes, René

René Descartes (1596-1650) nasceu em La Haye, França, pertencendo a uma família de prósperos burgueses. Estudou no colégio jesuíta de La Fléche, na época um dos mais conceituados estabelecimentos de ensino europeu. Foi soldado, esteve sob as ordens de Maurício de Nassau. Participou de várias campanhas militares. As obras de Descartes são de considerável extensão. As mais importantes são: Regras para a Direção do Espírito (1628), O Discurso do Método (1637) e Meditações Filosóficas (1641). (1)

Um gênio maligno pode tentar me fazer acreditar em coisas falsas.

Não há nada do qual posso ter certeza.

Mas quando digo "Eu sou, eu existo", não posso estar errado sobre isso.

Um gênio maligno poderia tentar me fazer acreditar nisso se eu realmente existir.

Penso, logo existo. (2)

30 novembro 2022

Análise Dialética do Marxismo: Notas do Livro

Mário Ferreira dos Santos, em seu livro Análise Dialética do Marxismo, cuja primeira edição data de 1953, expõe, em suas primeiras páginas, o plano da obra.

Como o marxismo atrai a atenção de muitos estudiosos, pretende analisá-lo com a máxima atenção de ânimo, evitando as paixões. Pela dificuldade de analisar, num único volume, os diversos aspectos filosóficos, históricos, econômicos e sociológicos que o marxismo oferece, concentrar-se-á nos aspectos gerais para uma análise decadialética. (1)

Marxismo: Fatores Emergentes e Predisponentes

Mário Ferreira dos Santos, no capítulo 18 — “Os Fatores Emergentes e Predisponentes”, do livro Análise Dialética do Marxismo, esclarece-nos sobre o erro que Marx cometeu ao se deixar influenciar apenas pelos fatores econômicos que se destacavam em sua época.

Os fatores emergentes são os internos; e os predisponentes, os externos.  No homem, o corpo (fatores bionômicos) e alma (fatores psicológicos) são os fatores emergentes. A natureza (fatores ecológicos) e a sociedade humana (fatores históricos-sociais) são os fatores predisponentes.

Observação: os fatores emergentes se atualizam conforme a disposição dos fatores predisponentes. Nesse caso, o meio ambiente apenas favorece ou desfavorece a atualização da emergência. Na eotécnica (1), o artesanato; na paleotécnica, o salariado. A inversão vai dar-se com os marxistas. Estes surgem em plena era da paleotécnica. São os socialistas da grande concentração.

O capitalismo, cujo objetivo é aumentar a produção com o menor custo, tende para uma centralização, para um monopólio. Marx viu nisso um fator importante do progresso e uma lição da organização social futura. Assim, a sociedade tem de ser centralizada, haver monopólio de poder, de governo, de tudo.

Faltou a Marx o conhecimento da escolástica, que preconizava a inseparabilidade do corpo e da alma. Neste sentido, não pode empreender uma análise dialética correta. Deixou-se influenciar pela predisponência econômica de sua época, o que obliterou o seu raciocínio.  Desde esse momento, a emergência numa adequação com a predisponência dava a concluir precipitadamente que o fator econômico fosse sempre decisivo. (Marx e Engels em seus últimos dias rejeitavam esse absolutismo).

(1) Foi Patrick Geddes quem dividiu as fases da técnica em três, partindo das análises de Kropotkin: a eotécnica, a paleotécnica e a neotécnicaEos, que em grego quer dizer aurora, enquanto paleos, em grego, quer dizer antigo. A eotécnica, quanto à energia e aos materiais característicos, é um complexo de água e madeira; a paleotécnica, complexo de carvão e de ferro; e a neotécnica, um complexo de eletricidade. A chamada biotécnica será a época da energia atômica, e outras energias a serem descobertas e controladas. (Capítulo 3 — “A Eotécnica”, do mesmo livro)

 

29 novembro 2022

Aspectos Contraditórios do Marxismo

Mário Ferreira dos Santos, no capítulo 17 — “Análise Decadialética do Marxismo” do livro Análise Dialética do Marxismo, relata algumas contradições do marxismo.

1. O marxismo construiu uma dialética, que julgou ser hegeliana, mas foi pouco usada pelos próprios marxistas. A ditadura do proletariado é uma ficção e utopia que a realidade desmentiu, pois o que vimos foi a ditadura de um grupo sobre um partido, que a exerceu sobre o Estado e sobre a população.

2. Marx, Engels, Lênin e Stálin e outros têm uma visão deformada e primária da filosofia. Estes abandonaram as obras de Santo Tomás e de Duns Scot, que pressupõem o homem como criatura, e portanto foi criado. Por escolher uma visão materialista, o marxismo juntou o seu destino ao destino do materialismo, a mais fraca posição que se conhece na filosofia. Reduz o homem a uma coisa e não a uma pessoa. “Dessa forma, combateu a família, combateu a moral, combateu a religião, combateu a filosofia e, na verdade, não encontrou em que dar coerência ao seu movimento. Em lugar da força dada pela coerência, acabou por obter uma coerência conquistada pela força”.

3. Em se tratando da contradição funcional, o princípio autoritário, inerente ao marxismo, levou-o a um excesso de poder que não pode afrouxar nem manter. Uma brutalidade leva a outra brutalidade e com essa sequência convivem milhões de seres humanos, sujeitos a todas as lutas internas que gera naturalmente o autoritarismo.

4. Como não há coerência nessa doutrina, as vitórias obtidas são uma marcha apressada para a derrota final, como as de Hitler o aproximavam cada vez mais da derrota.

Em síntese, só pela revolução o povo se libertará de toda a opressão, e o marxismo passará para a história como mais um exemplo do malogro das doutrinas autoritárias.

 

18 novembro 2022

Fases da Revolução Russa

Mário Ferreira dos Santos, no capítulo 11 — “Pode a Ditadura ser uma Escola de Liberdade?”, do livro Análise Dialética do Marxismo, mostra-nos que antes da Revolução Russa não se tinha uma ideia concreta da “ditadura revolucionária do proletariado”. Para melhor compreensão do dessa questão, elenca as fases progressivas de tal empreendimento. 

Primeira fase: entregar “todo o poder aos sovietes” é perigoso, mas o aceitamos, declaravam os anarquistas, porque os sovietes não são criação de um partido político, mas uma espontânea realização do povo russo. Mas os bolchevistas, organizados em partido, ambicionavam o poder. E, com o tempo, deu-se o que os anarquistas previram: os sovietes perderam o poder, transferindo-o para a organização burocrática do Estado, que monopolizou o mando supremo.

Segunda fase: o aniquilamento dos partidos de oposição.   

Terceira fase: todos os compromissos assumidos com os anarquistas e com os socialistas revolucionários foram postos de lado, ficando apenas os bolchevistas.

Quarta fase: a centralização crescente do poder nas mãos de um grupo de homens do partido, de uma elite. E, em pouco tempo, o partido bolchevista desapareceu. Um grupo dirigia a vontade e a consciência de todo um povo.

Quinta fase: a ascensão do ditador, já prevista pelos anarquistas. E veio. Lênin assumiu todo o poder, sua vontade reinava absoluto.

Sexta fase: o poder absoluto de um dirigente. Stálin, saindo-se vencedor, foi inexorável para com todos os que lhe fizeram frente.

Sétima fase: bonapartismo.

Os frutos da Revolução Russa não devem ser desprezados, e nos devem servir para que estudemos novamente, e com acuidade, os problemas surgidos ao movimento socialista.

O Estado para os Socialistas Libertários e Anarquistas

Mário Ferreira dos Santos, no capítulo 10 — “O Estado para os Socialistas Libertários e Anarquistas”, do livro Análise Dialética do Marxismo, chama-nos a atenção para as consequências daqueles que pretendem assumir o poder e, que, depois de obtê-lo, agem de modo contrário às suas promessas.

Os anarquistas nunca se iludiram com as promessas dos socialistas autoritários, que pretendem substituir um Estado por outro, e que este logo se definhará. Eles, na realidade, previram o seu constante fortalecimento. Nesse sentido, eles previram que Lênin seria vítima de seu Estado e, depois dele, Trotsky, e todos os outros que estiveram na vanguarda da Revolução. A vitória de Stálin, com sua falta de escrúpulos, também fora prevista por outros pensadores.

Os socialistas libertários, por sua vez, não creem que a revolução social se faça através do Estado. Não é a substituição de um Estado por outro, mas de abolir o domínio do homem sobre o homem, a exploração do homem sobre o homem, representada no próprio Estado.

Trecho extraído do livro:

Eis o conceito anarquista do Estado:

O Estado — isto é, a instituição governativa que faz as leis e as impõe por meio da força coercitiva, com a violência ou a ameaça — tem uma vitalidade própria e constitui, com seus componentes estáveis ou eletivos, com seus funcionários ou magistrados, com seus policiais e com seus clientes, uma verdadeira e própria classe social à parte, dividida em tantas castas quanta sejam as ramificações de seu poder; e esta classe tem seus interesses especiais, parasitários ou usurários, em conflito com os da coletividade restante, que o Estado pretende representar.

Esse imenso polvo é o inimigo natural da sociedade, da qual absorve sua alimentação. Ainda num regime capitalista, onde o Estado é o aliado natural e a garantia material, armada, dos privilégios econômicos, não são somente os trabalhadores conscientes que veem no Estado um inimigo; também uma parte da burguesia sente aversão pelo Estado, pois vê no governo um competidor, que rouba, com a fiscalização, uma parte de seus benefícios e lhe impede desenvolver e exercer além de seus limites sua função exploradora.

Palavras de Fabbri escrita nos dias da Revolução de Outubro:

A ditadura, que é o Estado sob a forma de governo absoluto e centralizado, embora tome o nome de proletária ou revolucionária, é, no entanto, a negação da revolução. Depois que as velhas dominações tenham sido abatidas, o Estado tirânico renascerá de suas cinzas.

17 novembro 2022

Teoria Marxista do Estado

Mário Ferreira dos Santos no capítulo 8 — “Teoria Marxista do Estado”, do livro Análise Dialética do Marxismo [1. ª edição de 1953], busca, nas próprias palavras dos marxistas, o modo como conceberam o Estado. As obras consultadas foram: A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, de Friedrich Engels; O Estado e a Revolução, de Vladimir Lênin.

No final do capítulo, apresenta-nos um esquema da teoria marxista do Estado, nos seguintes termos:  

Estado: 1. Não existiu sempre; houve sociedades sem Estado. 2. Organismo posterior, supõe certa divisão da sociedade, com classes antagônicas e irreconciliáveis. Ao desaparecerem as classes e, consequentemente, seu antagonismo e irreconciliabilidade, processa-se o desaparecimento inevitável do Estado.

Características do Estado:

a. uma força interna não imposta do exterior;

b. produto de certa fase de desenvolvimento da sociedade, embaraçada esta numa insolúvel contradição interna, que gera antagonismos inconciliáveis;

c. necessidade de uma força para atenuar o conflito nos limites da “ordem” — colocação superior dessa força, e seu afastamento cada vez maior;

d. organização da força armada, independentizada da população — homens armados, prisões, instituições coercitivas;

e. funcionalismo.

Revolução Proletária

Fases:

a. aniquilamento do Estado burguês (pela forma violenta e revolucionária);

b. o definhamento começa a se processar-se depois da posse dos meios de produção.

Lênin combate os “pseudorrevolucionários

a. colaboracionistas

b. e os que desejam vencer democraticamente na sociedade burguesa.

16 novembro 2022

Marx e Marxismo

“Semeei dragões e colhi pulgas.” (Karl Marx) Esta frase é atribuída ao poeta Heinrich Heine, amigo de Karl Marx.

“Marx e Marxismo” é o título do capítulo 5, do livro Análise Dialética do Marxismo, de autoria de Mário Ferreira dos Santos [1.ª edição foi em 1953]. Anotemos alguns pontos deste estudo. Destaque-se os perigos dos epígonos, que acabam por tornar estéreis o pensamento primordial do seu autor. Lembremo-nos de que, na construção de sua doutrina, Marx valeu-se de pensadores da história e das ideias sociais que o antecedera.

15 novembro 2022

O Relógio, a Máquina e a Automatização

De acordo com Mário Ferreira dos Santos, no capítulo 1 — “A Economia, a Técnica e a História”, do livro Análise Dialética do Marxismo, nos últimos 1000 anos, houve uma profunda transformação exercida pela máquina, denominada de “era mecânica”, “máquina automática de tecer”, e mais especificamente, a chamada “Revolução Industrial”.

Salienta que o relógio foi a máquina-chave da época industrial moderna, e não a máquina a vapor, que, ao sobrevir, já abre campo a outra fase no terreno técnico. O relógio permitiu a análise do movimento, os tipos-de-engrenagens e transmissões e a exatidão da medida. Além disso, “tempo é dinheiro” é uma das frases mais apreciadas pelos burgueses do século XVIII em diante.

Mas o que é a máquina? Segundo Reuleaux, “máquina é uma combinação de corpos resistentes, dispostos em forma tal que, mediante eles, as forças mecânicas da natureza podem ser obrigadas a fazer trabalho, acompanhadas por certos movimentos determinados”.

Enfatiza que a mecanização do homem no mosteiro e no exército precede a que se verificou na fábrica. Nos mosteiros beneditinos, onde imperavam a ordem e a disciplina, realizou-se uma das grandes revoluções que sucedem à revolução cristã. São os beneditinos em grande parte os fundadores do capitalismo moderno.

Ainda: a máquina foi aproveitada, não para estimular o bem-estar social, mas para aumentar lucros, e em benefício das classes dominantes. As virtudes das máquinas não são devidas ao capitalismo. A este se devem muitos dos seus males. A técnica permitiu que o capitalismo ocidental tomasse essa feição que conhecemos. A técnica não depende do capitalismo.

Análise Dialética do Marxismo

Mário Ferreira dos Santos, em seu livro Análise Dialética do Marxismo, cuja primeira edição data de 1953, expõe, em suas primeiras páginas, o plano da obra.

Como o marxismo atrai a atenção de muitos estudiosos, pretende analisá-lo com a máxima atenção de ânimo, evitando as paixões. Pela dificuldade de analisar, num único volume, os diversos aspectos filosóficos, históricos, econômicos e sociológicos que o marxismo oferece, concentrar-se-á nos aspectos gerais para uma análise decadialética. (1)

09 agosto 2022

Encheirídion

O Encheirídion é um termo grego que significa “punhal”, arma portátil ou livro portátil, manual. Consiste num conjunto de apotegmas  [ditado breve e sentencioso, que inclui um conteúdo moral que pretende dar uma lição], anotações de Arriano a partir das aulas de Epicteto que, à semelhança de Sócrates e de Jesus, nada deixou escrito.

Epicteto (55-135) é considerado, ao lado de Sêneca (4-65), Musônio Rufo (25-95) e Marco Aurélio (121-180), um dos grandes nomes do estoicismo imperial romano. Filho de uma serva, foi adquirido por Epafrodito, secretário imperial de Nero e Dominiciano. Em Roma, frequentou a escola de Musônio Rufo. Entre 89 e 94, já exercia o ofício de filósofo. Após ser expulso de Roma, retirou-se para Nicópolis, abriu uma escola de filosofia, e logo ficou famoso.

No Manual de Epicteto, de Flávio Arriano, com tradução do original grego, introdução e notas de Aldo Dinucci, há 53 instruções e 72 notas. Nessas notas, observa-se o cuidado em detalhar os termos gregos e sua correta tradução para o português, pois dependendo do contexto os termos podem apresentar outro significado. Eis alguns exemplos: enkatreia — o império sobre si mesmo; karteria — perseverança; anexikakia — paciência; apaheia — ausência de sofrimento na alma.

O aspecto relevante deste manual encontra-se na análise daquilo que está ou não está sob o nosso controle. Entre as coisas que não estão sob o nosso controle podemos citar os acontecimentos que não dependem de nós [tempo, vizinho, barulho externo...] como também as opiniões alheias. Estão sob nosso controle o autoconhecimento, a crítica às apropria opiniões, a conquista de uma noção de piedade, fruição racional dos prazeres.

O Manual tem uma disposição prática: não se dedica aos altos voos da filosofia, mas na mudança comportamental dos seres humanos ante as várias situações que lhe são apresentadas, tanto as de caráter negativo quanto as de caráter positivo. Cabe a cada um de nós saber usufruir adequadamente cada uma dessas ocorrências, entendendo-se que, no final das contas, tudo depende de como vemos o mundo.   

Lembremo-nos sempre da passagem socrática — conhece-te a ti mesmo —, pois aí está tudo de que precisamos para uma vida bem vivida.

ARRIANO, Flávio. O Manual de Epicteto. Tradução do original grego, introdução e notas de Aldo Dinucci. Campinas - SP: Cedet, 2020.

26 julho 2022

Aríston

“A virtude é a saúde da alma.” Aríston

Aríston, o desafiador (306 a. C.- 240 a. C.), natural de Assos, Quios.

Considerado um controverso discípulo rebelde, que por pouco não mudou por completo o rumo da filosofia estoica.

Cleantes era o aluno preferido de Zenão e, em 262 a.C., o sucessor escolhido por ele. Aríston era um filósofo igualmente promissor, e muito menos passivo e discreto. Foi apelidado de “sereia” pelo poder de encantar audiências, ao mesmo tempo que as desencaminhava.

Desafiador era uma alcunha mais apropriada, pois ele estava sempre questionando e minando muitos pontos da doutrina do estoicismo antigo, incluindo as suas regras práticas para o cotidiano.

Em que discordava? Do papel dos preceitos, ou regras práticas, que determinavam o que deveríamos ou não fazer, por exemplo, sobre casamento, criação dos filhos, insultos etc. Tais regras eram úteis, mas não passavam de muletas que impeliam as pessoas a seguir um roteiro para as dificuldades da vida.

Aríston queria que seus alunos se preocupassem com um único ponto, queria lhes oferecer uma estrela-guia: a virtude. A virtude era o único bem que não gerava confusão de espécie alguma. Tudo o mais não valia a preocupação. Pregava a total indiferença a tudo que estivesse entre a virtude e vício, sem quaisquer exceções.  

A escola de Aríston aboliu os tópicos de física e lógica. O primeiro estava além da nossa capacidade e o segundo não valia a pena. Apenas a ética importava, apenas a virtude.

Resumindo: esqueça os preceitos. Não fique refletindo sobre regras. Apenas faça. Na vida, o que importa são os momentos que nos aproximamos da virtude.

Fonte de Consulta

HOLIDAY, Ryan e HANSELMAN, Stephen. A Vida dos Estoicos: A Arte de Viver, de Zenão a Marco Aurélio. Tradução de Alexandre Raposo e Luiz Felipe Fonseca. Intrínseca, 2021. 

 


21 julho 2022

Ética Estoica

Na ética estoica, há a ausência das paixões, pois estas eram simplesmente o intelecto em um estado doentio, devido às perversões da falsidade. O intelecto, livre de perturbações, era o monarca legítimo, “o princípio do condutor” no reino do ser humano. Essa era a parte da alma que recebia as "fantasias", onde eram gerados os impulsos.   

O impulso era o princípio na alma que impulsionava para a ação. Em estado de ausência de perversão, era dirigido exclusivamente a coisas em harmonia com a natureza. A forma contrária chamava-se repulsão. Para os estoicos, “paixão” era definida como “um impulso excessivo”. Embora condenassem toda paixão, admitiam certas eupatias, ou paixões felizes, experimentadas pelos sábios.

Raciocínio para se chegar a Deus: ser feliz era ser virtuoso; ser virtuoso era ser racional; ser racional era acatar a natureza; e acatar a natureza era obedecer a Deus.

Paradoxos estoicosDizer que “a virtude é o supremo bem” é uma proposição feita por todo aquele que aspira a uma vida espiritual, mesmo que o faça de boca para fora. Alterando-se para “a virtude é o único bem”, transforma-se num paradoxo. Entende-se por "paradoxo" aquilo que contraria a opinião geral.

Outros paradoxos estoicos: “Todo insensato é louco”; “Somente o sábio é livre, e todo insensato é um escravo”; “Somente o sábio é rico”; “Pessoas boas são sempre felizes e pessoas más, sempre infelizes”. “Todos os bens são iguais”; “Nenhuma pessoa é mais sábia ou mais feliz do que a outra”.

A lei era definida como “a correta razão comandando o que era para ser feito e proibindo o que não era para ser feito”. Por isso, ela era sempre justa. 

Destaque: o sábio jamais perdoava porque nunca tinha algo para perdoar. Não podia ser atingido por nenhum dano enquanto sua vontade estivesse fixada na retidão, isto é, enquanto fosse um sábio: o pecador pecava contra sua própria alma.

Notas extraídas de: STOCK, George. O Estoicismo. Tradução de Edson Bini. São Paulo: Edipro, 2022. (capítulo IV "Ética") 

17 julho 2022

Cérebro, Mente e Computador

A relação mente-corpo é estudada desde a Antiguidade. Coube, porém a Descartes a primazia de levantar o problema com mais ênfase. Em seu dualismo, afirma que a mente (res cogitans) e o corpo (res extensa) são formados de substâncias distintas, mas que ainda não tinha descoberto como uma é ligada a outra. Aventou a hipótese de a glândula pineal ser o intermediário. Contudo, mais tarde, dissera que o importante é saber que são distintos e isto basta.

O materialismo, oferecendo-nos uma série de dificuldades conceituais, contrapõe-se e abandona o dualismo cartesiano. Alguns pensadores materialistas, inspirando-se na lei de Leibniz, advogam a identidade entre cérebro e mente, ou seja, cérebro e mente não são distintos como afirmara Descartes, eles fazem parte da mesma substância. Como dão valor à matéria e não ao espírito, dificultam o entendimento da mente e da sua relação com o corpo, inclusive, chegando alguns a afirmar que a mente não existe porque a Psicologia não a definiu.

O surgimento do computador, e sua evolução através do tempo, trouxe como consequência mudanças radicais em todos os níveis de conhecimento. Física, Química, Biologia etc. A Filosofia da Mente, uma área aparentemente díspar da teoria computacional, também sofreu influência, principalmente através dos modelos computacionais em que se procura relacionar o software (programa de computação) com o hardware (a máquina), comparando-os com o relacionamento entre mente e cérebro.

A teoria computacional retoma as posições radicais entre o materialismo e o dualismo, procurando achar o meio termo entre ambas. H. Putnan, em “Minds and Machines”, artigo escrito em 1975, procura estabelecer uma correlação entre estados mentais (pensamentos) e software de um lado e entre os estados cerebrais e o hadware ou os diferentes estados físicos pelos quais passa a máquina ao obedecer as instruções. Esta teoria não esteve isenta de críticas. A principal delas é que a máquina é geral e não permite a individuação própria de cada mente humana.

Numa versão moderna, temos o funcionamento neuro-computacional ou conexionismo iniciado com os trabalhos de Von Neumann. Pretende-se, com esse sistema computacional, resolver a questão da individuação deixada no modelo de Putnan. De Acordo com esta teoria, estabelece-se uma relação específica entre o software e o hardware. Não há independência entre o software e o hardware e as características do design deste tipo de máquina permitem que, no limite, possamos conceber que cada estado mental (ou de software) corresponda a um estado cerebral (ou de hardware).

A teoria computacional deu novo dinamismo à pesquisa da mente, contudo o problema da ligação mente-cérebro ainda está por resolver. Falta-lhes a noção de PERISPÍRITO, elo entre a matéria e o espírito.

Fonte de Consulta

TEIXEIRA, J. de F. Filosofia da Mente e Inteligência Artificial. Campinas, UNICAMP, Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência, 1996. (Coleção CLE; v. 17)

05 julho 2022

Jean-Jacques Rousseau e "Emílio" (1762)

“Toda maldade vem da fraqueza. A criança só é má porque é fraca. Tornai-a forte, e ela será boa.” (Jean-Jacques Rousseau)

Rousseau quer educar as crianças partindo de sua naturalidade, sem ter sido impregnada dos vícios educacionais dos adultos. Ele queria educar o homem para que este se tornasse homem.

Emílio é uma mistura de tratado, romance e estudo de caso. Emílio é o nome do personagem principal, o aluno Emílio, objeto da experiência em educação. Emílio modificou fundamentalmente nossa opinião sobre os homens e se tornou a teoria da educação mais influente na história da filosofia. Mostra o que o homem pode se tornar quando é mantido distante das influências nocivas da sociedade.

Detalhes extraídos do livro:

Emílio é um garoto de origem aristocrática, portanto pode crescer livre de pressões sociais e materiais.

O educador está ao lado de Emílio e à disposição dele durante todo o dia. Os dois levam a mesma vida.

O educador não deve ser autoritário, e sim parteiro da natureza. Lema: learning by doing.

O homem deve aprender o que necessita e não aquilo que a convenção determina.

O primeiro entendimento do mundo passa pela “razão sensitiva”; por isso, o auxílio dos pés, das mãos e dos olhos.

Foi dos primeiros filósofos a dar ao papel das brincadeiras uma grande importância pedagógica.

Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, cumpre o papel que Rousseau esperava da literatura: que fosse didática e útil.  

O clássico lema do iluminismo, “Ousa fazer uso do teu próprio intelecto”, formulado por Immanuel Kant, foi diretamente extraído dos fundamentos pedagógicos de Emílio.

Rousseau pode ser considerado o pai da pedagogia moderna, fundada por Pestalozzi no fim do século XVIII. Sua filosofia influenciou também Rudolf Steiner, fundador da antroposofia, e John Dewey, principal teórico da educação do pragmatismo norte-americano.

Por trás das barreiras sociais, Rousseau descobre o homem natural e dá-lhe todas as condições de progredir segundo a sua necessidade.

ZIMMER, Robert. O Portal da filosofia: Uma Breve Leitura de Obras Fundamentais da Filosofia Volume 2. Tradução Rita de Cassia Machado e Karina Jannini. São Paulo: Martins Fontes, 2014.

03 julho 2022

Montesquieu e "Do espírito das leis" (1748)

Montesquieu (1689-1755), cujo nome verdadeiro é Charles-Louis de Secondat, um dos mais famosos cartógrafos da história da filosofia, foi um típico homme des letres de seu tempo. Sua educação aconteceu, primeiramente, sob o teto da Igreja católica. Depois de concluir a escola, iniciou a sua formação jurídica. Em 1713, contraiu matrimonio de conveniência com uma calvinista abastada e assumiu o vinhedo paterno. A sua fama maior refere-se à sua teoria da tripartição dos poderes.

Ainda: foi um filósofo político francês de formação iluminista e importante crítico da monarquia absolutista, bem como do clero católico.

Montesquieu foi um colecionador de fatos. Registrou-os no âmbito histórico e geográfico, que favoreceu a formação de diferentes constituições e instituições políticas. Para ele, existência é anterior às exigências da razão. 

Com Do espírito das leis, Montesquieu desenhou um mapa das culturas políticas, abrindo os olhos para o fato de que o sistema absolutista, preparado sob medida para o poder central do rei e que dominava sua terra natal, a França, não era a única nem a melhor alternativa de organização de um sistema político.

Do espírito das leis se dedica, grosso modo, a três diferentes temas: as diversas formas de governo e as relações que nelas se concretizam entre o cidadão e o Estado; os “fatores ambientais” sociais e naturais que influenciam a formação de uma constituição; e, finalmente, a questão sobre os modelos constitucionais existentes na história e quais lições podem ser tiradas a partir deles para o presente.

Montesquieu distingue três tipos de governo, tripartição que remonta à filosofia política da Antiguidade. Aristóteles (384-322) nomeia-as: a monarquia, em que o poder se concentra em uma pessoa; a aristocracia, em que o poder se concentra num grupo de pessoas; a democracia, em que o povo exerce o poder através de representantes eleitos. Cada uma dessas formas pode se degenerar: a monarquia, em tirania, a aristocracia, em timocracia e a democracia, em demagogia.

Em Montesquieu, essas três formas aparecem um pouco modificadas, orientadas que foram pelas condições políticas de seu tempo. O ponto de referência já não é a antiga pólis, e sim o mundo de Estados do século XVIII.

O “esprit general” é o conceito criado por Montesquieu para a cultura política, madura e inconfundível, de um país. É muito mais abrangente do que a “volonté générale”, a “vontade geral” de Rousseau, que representa somente a soberania e a unidade política de um país.

A divisão proposta por Montesquieu entre governo (Executivo), Parlamento (Legislativo) e tribunais (Judiciário), ultrapassou tanto a separação de poderes entre rei e parlamento, sugerida por John Locke, quanto a realidade constitucional praticada na Inglaterra. Tratava-se de uma teoria revolucionária, que apontava para o futuro.

Montesquieu tornou-se um dos grandes mentores políticos do estado de direito moderno, em que o projeto de separação de poderes sempre teve um significado mais amplo: a teoria do “check and balance”, do equilíbrio e controle recíproco de interesses e instituições, se tornou a base de negócios das democracias ocidentais.

Fonte de Consulta

ZIMMER, Robert. O Portal da filosofia: Uma Breve Leitura de Obras Fundamentais da Filosofia Volume 2. Tradução Rita de Cassia Machado e Karina Jannini. São Paulo: Martins Fontes, 2014.

 


23 junho 2022

Nicolau de Cusa e "Da Douta Ignorância"

Nicolau de Cusa, em Da Douta Ignorância, defende que Deus está sempre além da razão humana. O conhecimento de Deus é um saber do não saber. No primeiro capítulo do seu livro diz: “O homem será tanto mais sábio quanto mais ignorante se souber”. Este livro procura mostrar a relação entre Deus, o mundo e o homem em base completamente nova.

Nicolau de Cusa (1401-1464), cujo nome verdadeiro era Nicolau Krebs, graças ao patrimônio do pai, ao completar 15 anos, pode ser enviado à recém-criada Universidade de Heidelberg, que se lecionava com o espírito da escolástica, e a doutrina cristã era interpretada com base na filosofia aristotélica. Posteriormente, transferiu-se para a Universidade de Pádua, onde pode receber excepcionais ensinamentos do Cardeal Giuliano Cesarini. Foi ordenado padre aos 22 anos. Doutorou-se em direito canônico.

Antes que sua obra viesse a público, refletiu sobre os grandes ensinamentos dos filósofos da Antiguidade grega, tais como, Platão, pela sua Teoria das Ideias, Aristóteles, pela sua lógica e metafísica, Pitágoras, pela sua matemática. De Plotino, extrai o princípio da realidade do “Uno”. Em se tratando de Deus, diz: “Deus é a unidade no sentido de uma ‘coincidência’, uma junção ou simultaneidade de opostos em um nível mais elevado. O conhecimento dessa unidade, porém, está ligado à renúncia ao ‘conhecimento’ em seu sentido habitual: é um saber do não saber”.

Da Douta Ignorância é composto de três volumes: o primeiro trata de Deus como unidade “em que opostos coincidem” [metafísica]; o segundo volume trata do universo [cosmologia]; e o terceiro, ao papel de Jesus Cristo como a ligação entre Deus, o mundo e o homem [teologia]. Usa as noções de “máximo”, “absoluto”, “infinito” etc., para explicar a sua teoria sobre Deus, o universo e Jesus Cristo.

As ideias de Nicolau de Cusa influenciaram outros pensadores.  A tese da infinitude do mundo e da impossibilidade de pensar em Deus foi incorporada à obra de Giordano Bruno. As contradições da razão estão na “doutrina das antinomias”, posta por Kant na Crítica da razão pura. A “interação entre unidade e diversidade” está presente na obra de Hegel.

Percebemos que Cusa estava à frente de seu tempo. Todas as suas teses envolvem o aspecto lógico, matemático, místico e intuitivo. Além disso, incentiva-nos a buscar a humildade perante às forças ocultas da natureza.

Fonte de Consulta

ZIMMER, Robert. O Portal da filosofia: Uma Breve Leitura de Obras Fundamentais da Filosofia Volume 2. Tradução Rita de Cassia Machado e Karina Jannini. São Paulo: Martins Fontes, 2014.

 

 

22 junho 2022

Tomás de Aquino e a Escolástica Medieval

Nosso ponto de partida: Aristóteles acredita na existência de um deus (“motor imóvel”), mas este não criou o mundo a partir do nada nem possui um filho, que seria também Deus, e redimiria a humanidade. Tomás de Aquino vê Aristóteles, que o denominou de “o filósofo”, como o filósofo que expressou de forma racional o cristianismo antes que esse se apresentasse de forma completa na revelação do Novo Testamento.

Tomás de Aquino (1225-1274), aos 5 anos de idade, foi internado no mosteiro dos beneditinos em Monte Casino, onde ficou até 1239, e, nesse mesmo ano, fora enviado a Nápoles para estudar com a finalidade se tornar abade naquele mosteiro. Em 1244, ingressou, contrariando os desejos da família, na jovem Ordem Mendicante, dedicada a atividades de ensino e formação, um contrapeso à crescente secularização da Igreja, tornando-se sua pátria espiritual.

Mesmo a família tentando dissuadi-lo de levar uma vida como frade mendicante, inclusive deixando-o preso em casa por um ano, ele retornou a seus irmãos de Ordem, e pode, assim ter contato com um dos professores de filosofia mais importante da época, o alemão Alberto de Lauingen, também conhecido como “Albertus Magnus”. Tornou-se o aluno-mestre de Alberto, recebendo o apelido de “boi mudo”, por ser muito reservado. Posteriormente, passou a ser chamado “Doctor angelicus”, doutor angélico entre os eruditos.

Depois de se separar de seu professor, e voltar para Paris, teve oportunidade de lecionar de maneira autônoma. Um de seus primeiros e mais conhecidos escritos, O ente e a essência, tem o objetivo de familiarizar seus colegas de estudos com a doutrina de Aristóteles. Tomás permaneceu até o fim da vida como professor a serviço de sua Ordem, que lhe dava sempre novas tarefas.

Em 1259, foi enviado de volta à Itália. Em 1264, concluiu sua primeira grande obra: a Suma contra os gentios. O título de suma significava que ali havia o resumo sistemático de um plano de curso. A Suma contra os gentios deveria fornecer argumentos aos monges dominicanos para que pudessem defender sua posição teológica contra os dissidentes.

Em 1266, começa a esboçar a sua segunda grande obra: a Suma teológica, que seria tripartida, e pretendia delinear uma nova metafisica e uma nova ética sobre a base cristã. A primeira parte, cujo centro está Deus, foi concluída na Itália. Entre 1268 e 1272, quando voltou a lecionar em Paris, surgiu a segunda parte, dedicada ao homem. Entre 1272 e sua morte, em 1274, Tomás regressou à sua casa, no sul da Itália, onde iniciou a terceira parte, não concluída, que trata do filho de Deus encarnado.

Na Suma Teológica está esboçada uma ordem mundial que engloba Deus e o homem e é acessível em sua estrutura racional e no curso regular da razão humana. Nesta obra, razão e fé não são opostas, pois são conduzidas na mesma direção. Assim, a “luz natural da razão” determina os limites da atuação na filosofia. A teologia, que tem por base a fé, pode se apoiar na “luz de uma ciência superior”.

“Durante a Idade Média, a Suma teológica foi o ápice da escolástica. Ela forneceu a visão de mundo para a Divina comédia, de Dante, e o modelo para a renovação da escolástica pelo espanhol Francisco Suarez, no século XVI. Mas mesmo no século XX os ‘neotomistas’, como Jacques Maritain e Josef Pieper, tentaram desenvolver uma filosofia de inspiração religiosa, seguindo Tomás de Aquino. Ser finito e ser eterno, principal obra da filósofa Edith Stein, morta em Auschwitz, é um dos resultados mais importantes desses esforços da Idade Moderna".

A Suma teológica não serve apenas para dar às convicções religiosas uma aparência filosófica. "Ela pertence ao grupo das grandes obras, com as quais a razão começa a se apossar de princípios religiosos para, finalmente, deles se emancipar no iluminismo do século XVII".

Fonte de Consulta

ZIMMER, Robert. O Portal da filosofia: Uma Breve Leitura de Obras Fundamentais da Filosofia Volume 2. Tradução Rita de Cassia Machado e Karina Jannini. São Paulo: Martins Fontes, 2014.