24 dezembro 2022

Descartes, René

René Descartes (1596-1650) nasceu em La Haye, França, pertencendo a uma família de prósperos burgueses. Estudou no colégio jesuíta de La Fléche, na época um dos mais conceituados estabelecimentos de ensino europeu. Foi soldado, esteve sob as ordens de Maurício de Nassau. Participou de várias campanhas militares. As obras de Descartes são de considerável extensão. As mais importantes são: Regras para a Direção do Espírito (1628), O Discurso do Método (1637) e Meditações Filosóficas (1641). (1)

Um gênio maligno pode tentar me fazer acreditar em coisas falsas.

Não há nada do qual posso ter certeza.

Mas quando digo "Eu sou, eu existo", não posso estar errado sobre isso.

Um gênio maligno poderia tentar me fazer acreditar nisso se eu realmente existir.

Penso, logo existo. (2)

09 agosto 2022

Encheirídion

O Encheirídion é um termo grego que significa “punhal”, arma portátil ou livro portátil, manual. Consiste num conjunto de apotegmas  [ditado breve e sentencioso, que inclui um conteúdo moral que pretende dar uma lição], anotações de Arriano a partir das aulas de Epicteto que, à semelhança de Sócrates e de Jesus, nada deixou escrito.

Epicteto (55-135) é considerado, ao lado de Sêneca (4-65), Musônio Rufo (25-95) e Marco Aurélio (121-180), um dos grandes nomes do estoicismo imperial romano. Filho de uma serva, foi adquirido por Epafrodito, secretário imperial de Nero e Dominiciano. Em Roma, frequentou a escola de Musônio Rufo. Entre 89 e 94, já exercia o ofício de filósofo. Após ser expulso de Roma, retirou-se para Nicópolis, abriu uma escola de filosofia, e logo ficou famoso.

No Manual de Epicteto, de Flávio Arriano, com tradução do original grego, introdução e notas de Aldo Dinucci, há 53 instruções e 72 notas. Nessas notas, observa-se o cuidado em detalhar os termos gregos e sua correta tradução para o português, pois dependendo do contexto os termos podem apresentar outro significado. Eis alguns exemplos: enkatreia — o império sobre si mesmo; karteria — perseverança; anexikakia — paciência; apaheia — ausência de sofrimento na alma.

O aspecto relevante deste manual encontra-se na análise daquilo que está ou não está sob o nosso controle. Entre as coisas que não estão sob o nosso controle podemos citar os acontecimentos que não dependem de nós [tempo, vizinho, barulho externo...] como também as opiniões alheias. Estão sob nosso controle o autoconhecimento, a crítica às apropria opiniões, a conquista de uma noção de piedade, fruição racional dos prazeres.

O Manual tem uma disposição prática: não se dedica aos altos voos da filosofia, mas na mudança comportamental dos seres humanos ante as várias situações que lhe são apresentadas, tanto as de caráter negativo quanto as de caráter positivo. Cabe a cada um de nós saber usufruir adequadamente cada uma dessas ocorrências, entendendo-se que, no final das contas, tudo depende de como vemos o mundo.   

Lembremo-nos sempre da passagem socrática — conhece-te a ti mesmo —, pois aí está tudo de que precisamos para uma vida bem vivida.

ARRIANO, Flávio. O Manual de Epicteto. Tradução do original grego, introdução e notas de Aldo Dinucci. Campinas - SP: Cedet, 2020.

26 julho 2022

Aríston

“A virtude é a saúde da alma.” Aríston

Aríston, o desafiador (306 a. C.- 240 a. C.), natural de Assos, Quios.

Considerado um controverso discípulo rebelde, que por pouco não mudou por completo o rumo da filosofia estoica.

Cleantes era o aluno preferido de Zenão e, em 262 a.C., o sucessor escolhido por ele. Aríston era um filósofo igualmente promissor, e muito menos passivo e discreto. Foi apelidado de “sereia” pelo poder de encantar audiências, ao mesmo tempo que as desencaminhava.

Desafiador era uma alcunha mais apropriada, pois ele estava sempre questionando e minando muitos pontos da doutrina do estoicismo antigo, incluindo as suas regras práticas para o cotidiano.

Em que discordava? Do papel dos preceitos, ou regras práticas, que determinavam o que deveríamos ou não fazer, por exemplo, sobre casamento, criação dos filhos, insultos etc. Tais regras eram úteis, mas não passavam de muletas que impeliam as pessoas a seguir um roteiro para as dificuldades da vida.

Aríston queria que seus alunos se preocupassem com um único ponto, queria lhes oferecer uma estrela-guia: a virtude. A virtude era o único bem que não gerava confusão de espécie alguma. Tudo o mais não valia a preocupação. Pregava a total indiferença a tudo que estivesse entre a virtude e vício, sem quaisquer exceções.  

A escola de Aríston aboliu os tópicos de física e lógica. O primeiro estava além da nossa capacidade e o segundo não valia a pena. Apenas a ética importava, apenas a virtude.

Resumindo: esqueça os preceitos. Não fique refletindo sobre regras. Apenas faça. Na vida, o que importa são os momentos que nos aproximamos da virtude.

Fonte de Consulta

HOLIDAY, Ryan e HANSELMAN, Stephen. A Vida dos Estoicos: A Arte de Viver, de Zenão a Marco Aurélio. Tradução de Alexandre Raposo e Luiz Felipe Fonseca. Intrínseca, 2021. 

 


17 julho 2022

Cérebro, Mente e Computador

A relação mente-corpo é estudada desde a Antiguidade. Coube, porém a Descartes a primazia de levantar o problema com mais ênfase. Em seu dualismo, afirma que a mente (res cogitans) e o corpo (res extensa) são formados de substâncias distintas, mas que ainda não tinha descoberto como uma é ligada a outra. Aventou a hipótese de a glândula pineal ser o intermediário. Contudo, mais tarde, dissera que o importante é saber que são distintos e isto basta.

O materialismo, oferecendo-nos uma série de dificuldades conceituais, contrapõe-se e abandona o dualismo cartesiano. Alguns pensadores materialistas, inspirando-se na lei de Leibniz, advogam a identidade entre cérebro e mente, ou seja, cérebro e mente não são distintos como afirmara Descartes, eles fazem parte da mesma substância. Como dão valor à matéria e não ao espírito, dificultam o entendimento da mente e da sua relação com o corpo, inclusive, chegando alguns a afirmar que a mente não existe porque a Psicologia não a definiu.

O surgimento do computador, e sua evolução através do tempo, trouxe como consequência mudanças radicais em todos os níveis de conhecimento. Física, Química, Biologia etc. A Filosofia da Mente, uma área aparentemente díspar da teoria computacional, também sofreu influência, principalmente através dos modelos computacionais em que se procura relacionar o software (programa de computação) com o hardware (a máquina), comparando-os com o relacionamento entre mente e cérebro.

A teoria computacional retoma as posições radicais entre o materialismo e o dualismo, procurando achar o meio termo entre ambas. H. Putnan, em “Minds and Machines”, artigo escrito em 1975, procura estabelecer uma correlação entre estados mentais (pensamentos) e software de um lado e entre os estados cerebrais e o hadware ou os diferentes estados físicos pelos quais passa a máquina ao obedecer as instruções. Esta teoria não esteve isenta de críticas. A principal delas é que a máquina é geral e não permite a individuação própria de cada mente humana.

Numa versão moderna, temos o funcionamento neuro-computacional ou conexionismo iniciado com os trabalhos de Von Neumann. Pretende-se, com esse sistema computacional, resolver a questão da individuação deixada no modelo de Putnan. De Acordo com esta teoria, estabelece-se uma relação específica entre o software e o hardware. Não há independência entre o software e o hardware e as características do design deste tipo de máquina permitem que, no limite, possamos conceber que cada estado mental (ou de software) corresponda a um estado cerebral (ou de hardware).

A teoria computacional deu novo dinamismo à pesquisa da mente, contudo o problema da ligação mente-cérebro ainda está por resolver. Falta-lhes a noção de PERISPÍRITO, elo entre a matéria e o espírito.

Fonte de Consulta

TEIXEIRA, J. de F. Filosofia da Mente e Inteligência Artificial. Campinas, UNICAMP, Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência, 1996. (Coleção CLE; v. 17)

06 junho 2022

Zenão de Cítio

Zenão, o Profeta (334a.C.-262a.C.), natural de Cítio, Chipre.

No fim século IV a.C., o comerciante fenício Zenão sofrera um naufrágio, com o carregamento de pigmento raro, de grande valor comercial. Zenão perdeu tudo. Mais tarde, afirmou: “Tive uma viagem próspera quando o naufrágio ocorreu.” Pois foi o naufrágio que levou Zenão a Atenas, a caminho da criação do que se tornaria a filosofia estoica.

Há muitas outras versões para o início da filosofia estoica, mas a tragédia inesperada tem mais credibilidade, pois a destruição financeira poderia ter levado Zenão ao alcoolismo ou à miséria. Mas, em vez disso, o problema se tornou útil — foi um chamado ao qual ele decidiu atender, que o instigou a uma nova vida e a um novo jeito de ser. Essa capacidade de adaptação era um atributo oportuno à sobrevivência naquela época.

Durante uma pausa em suas atividades, buscou ouvir a leitura de um compilado de trabalhos sobre Sócrates, o filósofo que havia sido executado em Atenas um século antes e cujos ensinamentos o pai de Zenão lhe apresentara durante a infância. 

Há semelhança com Sócrates. Zenão também consultara o oráculo para saber como aproveitar melhor a vida. O oráculo respondeu: “Para aproveitar melhor a vida, você deve conversar com os mortos.”

Nas histórias contadas, a que mais impressionou Zenão foi “Hércules na encruzilhada”, a história de um herói diante de escolhas: virtude ou vício. Escolhendo a virtude, haverá trabalho e grandes esforços; em se tratando do vício, a preguiça. 

Após ouvir os relatos acerca de Sócrates, pergunta: “Onde posso encontrar um homem como ele?” Resposta: em Crates, um célebre filósofo ateniense. Não queria apenas ouvir, ele queria mais. Exigia mais respostas, exigia que lhe ensinassem mais, e foi a partir desse impulso que o estoicismo seria formado.

Como diz o antigo ditado zen: quando o discípulo está preparado, o mestre aparece. Crates era exatamente o que Zenão precisava.

Primeira lição de Crates: curar Zenão de seu complexo em relação à própria aparência.

Para Zenão, o propósito da filosofia, da virtude, era encontrar “o curso suave da vida”, alcançar o estágio em que tudo que fazemos esteja em “harmonia com o espírito individual e a vontade daquele que governa o Universo”. Em um esforço para alcançar essa harmonia, Zenão viveu uma vida simples. Partidário de uma vida simples, Zenão se mantinha retraído, dando preferência ao círculo de amigos próximos, e não a aglomerações sociais.

A jornada de Zenão rumo à sabedoria foi demorada, cerca de cinquenta anos desde o naufrágio até sua morte. Não foi definida apenas por uma única epifania ou descoberta, mas por muito trabalho. 

Fonte de Consulta

HOLIDAY, Ryan e HANSELMAN, Stephen. A Vida dos Estoicos: A Arte de Viver, de Zenão a Marco Aurélio. Tradução de Alexandre Raposo e Luiz Felipe Fonseca. Intrínseca, 2021. 



01 junho 2022

Estoicismo

Estoicismo é uma corrente filosófica que apregoava a vida contemplativa acima das ocupações, das preocupações e das emoções da vida comum. Em essência, se o indivíduo viver em harmonia com a razão, ou seja, com a natureza, irá encontrar a paz da alma (ataraxia) afastando dele tudo o que poderia perturbá-lo, essencialmente as paixões consideradas como movimentos antinaturais, doenças da alma.

A epistemologia estoica baseava-se na phantasia kataleptikê ou percepção apreensiva. Para que possa ser verídica, uma percepção tem de obedecer a certas condições (clareza, assentimento comum, probabilidade e sistema), que foram atacadas de diversas maneiras pelos seus oponentes, os céticos.

A origem do estoicismo remonta à Grécia antiga, sendo a corrente filosófica predominante entre 300 a.C. e 200 d.C. Sobreviveu até os nossos dias. O nome deriva da Stoa paikile (pórtico ornado com as pinturas de Polignoto) de Atenas, local em que Zenão de Citium (325-264 a.C.), seu fundador, começou a ensinar.

O estoicismo do último período foi romano e Epiteto, Sêneca e o imperador Marco Aurélio foram alguns de seus membros mais ilustres. Como defensores de um sistema filosófico, travaram batalhas contínuas, em especial contra os filósofos céticos da Academia.

Os temas saídos do estoicismo inspiraram, além de grandes escritores Montaigne, Corneille, A. de Vigny, Maeterlinck , filósofos entre os quais Descartes, Kant. A anuência desses grandes pensadores prende-se ao fato de o estoicismo ser eminentemente prático. Tem grande utilidade para os afazeres da vida.

No estoicismo, há também os prós e os contras. A indiferença, por exemplo, é útil em diversas situações, mas pode levar o indivíduo à pura insensibilidade.

O estoicismo nos ajuda em muitas coisas, inclusive a sofrer resignadamente o barulho do vizinho, pois nosso primeiro ímpeto é reclamar, gritar, esbravejar. Os estoicos, no entanto, dizem que estamos errados, pois isso altera a ordem natural das coisas.




28 março 2022

Sofistas e os Deuses, Os

“O sol, a lua, os rios e os mananciais, assim como tudo o que favorece a vida, foram considerados pelos antigos como divindades por causa de sua utilidade, como o Nilo para os egípcios.” (Protágoras)

Os sofistas foram alguns dos estrangeiros que chegaram a Atenas por volta do século V a.C. Tinham em seu bojo uma mercadoria a ser vendida: o conhecimento. Não apenas o conhecimento, mas a maneira de construí-lo e empregá-lo. Destacaram-se na preparação dos jovens para enfrentarem quaisquer tipos de debates.

A dúvida e a controvérsia eram as suas principais ferramentas. Num debate, o oponente defende uma tese. Eles ensinavam como contra-argumentar, como tirar proveito de uma situação desfavorável. Queriam que seus alunos fossem pessoas versadas na esgrima da palavra. A dúvida tinha por objetivo buscar a verdade. Esta deve ser buscada pelo homem, pois este é a medida de todas as coisas.  

Em determinado momento, começaram a facear terreno perigoso, que foi a refutação das divindades gregas. Colocavam dúvida sobre os poderes divinos, mas não eram ateístas. De Protágoras, temos uma frase emblemática:  “Sobre os deuses, não posso saber sequer se existem, nem que não existem, nem qual forma é a sua; muitas circunstâncias impedem-me de sabê-lo: a ausência de dados sensíveis e a brevidade da vida”.

A afirmação de que não se pode saber se os deuses existem ou não vai de encontro às tradições religiosas, e suscita o escândalo ao abrir o caminho para a impiedade. Por outro lado, os deuses protegiam a moral, os juramentos e as leis, que asseguravam a boa ordem da cidade. A partir do momento em que se admitia que os deuses poderiam não existir, o conjunto desses fundamentos cívicos e morais parecia relaxar-se.

A respeito de Sócrates. Um dos casos contidos em sua ata de acusação é “não reconhecer como deuses os deuses da cidade e introduzir outros novos”.

Fonte de Consulta

ROMILLY, Jacqueline de. Os Grandes Sofistas da Atenas de Péricles. Tradução de Osório Silva Barbosa Sobrinho. São Paulo: Octavo, 2017. 

 

 

 

25 março 2022

Educação Física e Educação Intelectual na Atenas Antiga

Jacqueline de Romilly, no capítulo 2 — “Um ensinamento novo”, do livro Os grandes sofistas da Atenas de Péricles, trata da educação das crianças e dos jovens na tradição grega comparada com a dos sofistas.

Na Atenas antiga, havia o paidotríbes, “o que treina as crianças”. O papel do paidotríbes evidencia a importância que se dava à educação física. As crianças também aprendiam a cantar e a dançar em coro. Platão, por sua vez, fundava a sua cidade ideal na música e na ginástica, afirmando que isso vem desde tempos imemoriais. Havia, também, o gramatista, ou mestre encarregado de ensinar a ler e a escrever. A memorização era muito enfatizada, principalmente na exposição de cor de textos dos grandes poetas.

Tudo estava transcorrendo naturalmente. Contudo, surgiram os sofistas, ou mestres itinerantes, para ocasionar um caos no sistema educativo grego. Oferecem uma nova formação, mas mediante pagamento, que era vultoso. E o que ensinavam? Ensinavam a falar, a raciocinar, a argumentar, a debater no intuito de vencer pela palavra os oponentes.   

Há, assim, um choque entre os adeptos do desporto e os adeptos do intelecto. Sócrates também seguia as técnicas dos sofistas. Era, porém, considerado filósofo, e não cobrava por seus ensinamentos. Esta é a tese principal defendida por Platão para combater os sofistas que cobravam por suas aulas.

Esse menosprezo pelos sofistas, reiterado várias vezes por Platão, acabou predominando ao longo do tempo, e hoje a maioria das pessoas veem-nos em termos pejorativos. Observe que semelhante situação está presente em nossa sociedade, quando as grandes mídias e a classe política e jurídica querem escorraçar aqueles que dizem a verdade a seu respeito. As Fake News são verdades que eles querem esconder. Daí, a atualidade da frase: “o que domina o mundo é o medo da verdade”.

Voltemos ao contraste entre desporto e intelectualidade. O impasse pode ser resolvido admitindo a necessidade de atuarmos nos dois campos, nos sentido de termos um equilíbrio psíquico, físico e emocional.