15 agosto 2008

Origens da Filosofia

O ser humano, premido pelo medo do desconhecido, foi obrigado a buscar explicações que pudessem transformar uma desordem inicial em ordem perene. O mito foi a primeira tentativa de interpretar os mistérios do Universo. Os mitos nada mais são do que histórias acerca da criação: do ser humano, do mundo, da vida. Essas narrações ocorreram num tempo "pré-humano", ou seja, num tempo em que o ser humano ainda não existia. No entanto, o que ocorreu nesse tempo serve para explicar o que acontecerá depois que o ser humano aparecer na Terra.

Na Grécia antiga, berço da civilização ocidental, o nascimento do pensamento racional coincide com o surgimento da pólis. A vida na cidade exige uma outra maneira de explicar as coisas. Essa nova maneira de pensar as coisas recebeu o título de Filosofia. Os filósofos, ou melhor, os amantes do saber, já não se contentavam com os relatos sobrenaturais; eles desejaram explicações mais racionais, mais de acordo com a razão. O logos grego queria captar as coisas tais quais eram, tais quais se revelavam, ou seja, queriam descobrir a aletheia (verdade), que significa "revelar algo que estava oculto".

A transição da consciência mítica para a consciência ao nível racional não foi instantânea. Começaram pelo estudo da physisPhysis era entendido como a totalidade do Universo e também como uma forma permanente das coisas. Este termo abrange tudo o que existe e tudo o que não existe. Traduz-se, geralmente, por física, mas não deve ser entendida como a Física dos dias presentes. Em realidade, os primeiros filósofos estavam preocupados em descobrir a origem de todas as coisas. Tales vai dizer que o princípio de tudo é a água; Anaximandro, o infinito indeterminado, Anaxímenes, o ar; Heráclito, o fogo; Pitágoras, o número; Empédocles, os quatro elementos: terra, água, ar, fogo, em vez de uma substância única.

Para melhor compreendermos o pensamento antigo, dividamo-lo em três grandes períodos: 1) até Sócrates, em que a preocupação era com a physis, ou seja, a busca do elemento primordial do Universo. Este período é também o período da admiração, do espanto e da perplexidade; 2) os sistemas metafísicos de Platão e de Aristóteles, em que estes procuravam conciliar o devir e as exigências do pensamento racional; 3) o advento do cristianismo, em que a crença era baseada na . Nesse período, estabelece-se um retorno ao mito.

Religião e filosofia entram em cena e, com elas, as discussões entre fé e razão. O cristianismo é uma religião, revelada, que aceita a  por meios extra-racionais. A filosofia, por outro lado, tenta uma compreensão por vias racionais. A fé é sobrenatural; a razão, natural. Embora de natureza distinta, razão e fé mantêm uma ligação, marcada muitas vezes por tensões. Os primeiros Pais da Igreja, por exemplo, não se contentaram apenas em aceitar a fé; eles queriam estudá-la à luz da razão.

A origem da filosofia está na admiração, no espanto, na perplexidade. Saibamos bem utilizar esses insights para uma melhor compreensão da realidade que nos envolve.

Fonte de Consulta

TEMÁTICA BARSA. Rio de Janeiro, Barsa Planeta, 2005.


13 agosto 2008

Consciência da Liberdade

Os ensinamentos dos primeiros Profetas em Israel, de Buda, na China, de Zoroastro, na antiga Pérsia e dos pré-socráticos, na Grécia, tiveram grande influência na formação da liberdade e da compreensão do outro como sujeito. Esses ensinamentos mostram-nos a passagem de uma consciência mítica  sujeito ligado ao objeto  para uma consciência ao nível racional, em que o sujeito se desliga momentaneamente do objeto, para melhor avaliá-lo.

Hegel, em suas Lições sobre a Filosofia da História, mostra-nos a evolução da história como o advento da liberdade, em que a consciência-de-si é constituída na relação com o outro, na luta pelo reconhecimento. O reconhecimento, porém, só pode se dar no âmbito da liberdade. Quando o ser humano começa a ver o outro como um sujeito e não como um objeto no meio dos objetos, aí começa verdadeiramente a comunicação das consciências, pois cada uma começa a respeitar as outras, com suas virtudes e os seus defeitos.

reconhecimento do outro como sujeito se dá na tessitura do tempo. A escolha do sujeito é o fato marcante. Nesse sentido, o sujeito quando toma uma decisão, ele a toma baseando-se na faticidade do passado e nas possibilidades do futuro. A formação do ser humano baseia-se nessa relação, pois mesmo que não faça uma escolha, isso também é uma escolha, como diria Sartre, em sua filosofia existencialista.

A decisão fundamental do ser humano é a busca do sumo bem. A procura do sumo bem, por sua vez, tem íntima relação com interioridade do ser. E quem, no processo histórico, deu o primeiro passo para essa concretização foi Sócrates com o "conhece-te a ti mesmo". Na época, toda a filosofia estava preocupada com as coisas externas ao ser, principalmente na busca da arché, do princípio de todas as coisas. Sócrates faz o sujeito desviar-se dessas coisas externas e aplicar-se às internas, ou seja, ao conhecimento de sua alma imortal.

interioridade é a chave. Ela não pode, porém, ser uma mera contemplação, uma mera meditação, mas uma reflexão para uma melhor apreensão do dever, que ainda é a busca do sumo bem no relacionamento com o outro. O outro é a medida exata do nosso progresso moral e espiritual. Dos outros recebemos abusos, agressões, repreensões, censuras, mas dos outros também recebemos elogios que, embora não os merecendo, servem de estímulo à nossa vivência diária.

A liberdade — no relacionamento com o outro — pode ser comparada à semente que se joga ao solo. Uma vez lançada, a fruta virá com certeza. Do mesmo modo são os nossos atos, uma vez tomada uma decisão, a consequência virá. Por isso, o silêncio, em muitas das nossas rusgas diárias é o melhor remédio.