11 dezembro 2023

Pensamento e Vontade

Pensamento. Do latim pensare, pensar, refletir.  Atividade da mente através da qual esta tematiza objetos ou toma decisões sobre a realização de uma ação. Palavra fácil de ser intuída, mas difícil de ser explicada com palavras. Vontade. É a faculdade de perseguir o bem conhecido pela razão. Disciplina. Submissão da vontade e da inteligência a normas de pensamento, da ação, de conduta, sob os vários aspectos que apresenta a vida humana.

Dificuldade de descrever o pensamento. A cultura grega deu ênfase à razão. A razão fazia o indivíduo raciocinar e aplicar-se ao conhecimento das virtudes. Acontece que o pensamento dos pré-socráticos e dos orientais não são interrogativos, mas poéticos-noemáticos, em que o racional é deixado em segundo plano. Mesmo assim, esses pensamentos poéticos-noemáticos não são superficiais, mas essenciais à própria elaboração do pensável.

Conceito de vontade no curso da história. Na história da filosofia, foi tratado da seguinte forma: 1) Psicologicamente (ou antropologicamente), falou-se da vontade como de uma certa faculdade humana, como expressão de um certo tipo de atos; 2) moralmente, tratou-se da vontade em relação com os problemas da intenção e com as questões concernentes às condições requeridas para alcançar o Bem; 3) teologicamente, o conceito de vontade foi usado para caracterizar um aspecto fundamental e, segundo alguns autores, o aspecto básico da realidade, ou personalidade, divina; 4) metafisicamente, considerou-se às vezes a vontade como um princípio das realidades e como motor de todas as mudanças. Das quatro abordagens a que mais predominou foi a psicológica. (1)

Relação entre pensamento e vontade. Dizemos com razão que um homem de força de vontade é aquele que persegue com firmeza alguma coisa. É a vontade que nos leva à ação. Os atos dependem da vontade e a vontade da ideia. Para que o ato seja moral, o indivíduo precisa distinguir entre o bem e o mal. A pessoa que rouba parte de uma ideia, ou seja, que ele consegue com mais facilidade aquilo que deseja. (2)

Relação entre ideia e ação. Observe a frase de Karl Marx: "Até hoje, os filósofos só fizeram interpretar o mundo; devemos, agora, transformá-lo". Não são poucos os que creem firmemente nessa ideia tendo, como consequência, um total desprezo pela teoria. Muitos preconizam a excelência da ação, como a única solução a ser procurada, a única verdadeiramente eficaz. A ideia assemelha-se a uma semente. Passa por diversos tratamentos até dar o fruto esperado. (2)

A vontade pode ser fortalecida no indivíduo através da educação esclarecedora e, principalmente, através do combate ao capricho e à obediência passiva, bem como pela formação do hábito de propor a si mesmo tarefas difíceis e de trabalhar até conseguir alcançar o objetivo.

(1) MORA, J. Ferrater. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Loyola, 2004.

(2) MENDONÇA, Eduardo Prado de. O Mundo Precisa de FilosofiaRio de Janeiro: Agir, 1988.


 

05 outubro 2023

Filosofia Concreta

Filosofia Concreta, é o título de um livro de Mário Ferreira dos Santos, e diz respeito ao volume X da sua “Enciclopédia de Ciências Filosóficas e Sociais”. Sua primeira edição é de 1957. Seus capítulos são: “O ponto arquimédico”, “Refutação do atomismo adinâmico”, “Teses dialéticas”, “O ser infinito”, “Os possíveis e o ser”, “Da criação”, “Comentários aos postulados”, “Da matéria”.

Este livro contém 258 teses. Eis três delas:

Tese 1 — Alguma coisa há, e o nada absoluto não há...

Tese 256 — A ciência busca o “como” e o como do “porque” próximo das coisas, mas a filosofia é um afainar-se pelo “porque” do “como” e pelos últimos “porquês” dos “porquês”.

Tese 257 — Se a filosofia tem vários métodos para alcançar a sua meta, uns são indubitavelmente mais hábeis que outros, e um há de haver que será o mais hábil para ser usado pelo homem.

Normalmente, o concreto é entendido como a representação de um ser real, captado pela intuição sensível. Contudo, podemos vê-lo sob outro ponto de vista, bastando fazer uso de sua etimologia. Concreto vem de concretum, particípio passado do verbo crescior, com o aumentativo cum, que lhe dá o significado simples do que cresce junto, do que cresce com outros.

Nesse sentido, a filosofia concreta, para Mário Ferreira dos Santos, é "uma filosofia que dê uma visão unitiva, não só das ideias como também dos fatos, não só do que pertence ao campo propriamente filosófico como também do que pertence ao campo da Ciência, deve ela ter capacidade de penetrar nos temas transcendentais. Deve demonstrar as suas teses e postulados com o rigor da Matemática, e deve justificar os seus princípios com a analogia dos fatos experimentais”.

Eis a última tese do livro, a tese 258 — Filosofar é ação.

"Filosofar é a ação que consiste em conexionar, de certo modo, um fato ou fatos à totalidade do universo, e transcendê-los ou não, ao refletir sobre eles, e sobre os diversos nexos hierárquicos que têm com os outros fatos e entidades antecedentes e consequentes, inclusive transcendentais, a fim de alcançar uma visão humana da Verdade.

A Filosofia é ação; é o afainar-se para alcançar a Mathesis Suprema.

Se essa é ou não alcançável pelo homem, este, como um viandante (homo viator), deve buscá-la sempre, até quando lhe paire a dúvida, de certo modo bem fundada, de que ela não lhe está totalmente ao alcance.

Esse afainar-se acompanhará sempre o homem, e estabelecido um ponto sólido de esteio, devemos esperar por melhores frutos".

Observação do autor: Em todos os tempos se considerou que o ponto de partida deve ser um ponto arquimédico, apodítico, de validez universal. Assim sendo propôs um que é de validez universal ("alguma coisa há"), sobre o qual não se pode pairar nenhuma dúvida.

 


11 setembro 2023

Krishnamurti, Jiddu

Jiddu Krishnamurti (1895-1986) foi um filósofo e orador indiano que discorria sobre autoconhecimento, disciplina e espiritualidade. A partir dos treze anos de idade passou a ser educado pela Sociedade Teosófica, que o considerava o veículo para o “Instrutor do Mundo”. Já, nessa idade, viajava pelo mundo para participar de debates filosóficos. Discutiu sobre desapego e autodisciplina mais do que quaisquer outros temas.  

Repudiando a imagem messiânica que lhe queriam impor, em 1929 dissolveu a grande e rica organização que havia sido criada à sua volta, e declarou ser a verdade “uma terra sem caminhos”, à qual nenhuma religião formalizada, filosofia ou seita daria acesso. A partir de então, por quase sessenta anos até sua morte em 17 de fevereiro de 1986, viajou pelo mundo conversando com grandes audiências e indivíduos sobre a necessidade de uma mudança radical na humanidade.

Krishnamurti não expôs nenhuma filosofia ou religião, mas tratou dos diversos problemas que nos afetam, ou seja, violência, corrupção, segurança, felicidade. Realçava sempre a necessidade de a humanidade se libertar dos fardos internos do medo, raiva, mágoa e tristeza. Em suas palestras, afirmava que organização religiosa, seita ou país são fatores que dividem os seres humanos, pois provocam conflitos e guerras. Não falava como um guru, mas como um amigo.

Krishnamurti deixou um grande corpo de literatura na forma de palestras públicas, escritos, discussões com professores e alunos, com cientistas e figuras religiosas, conversas com indivíduos, entrevistas de rádio e televisão e cartas. Muitos deles foram publicados como livros e gravações de áudio e vídeo.

Frases

“A forma mais elevada de inteligência humana é dirigir a atenção desprovida de julgamento.”

The truth is a pathless land. (“A verdade é uma terra sem caminhos”)

“A curiosidade não é o caminho da compreensão. O entendimento vem com o autoconhecimento.”

“É somente quando o processo de pensamento cessa que pode haver amor.”

“Não há professor, não há aluno, não há líder, não há guru, não há mestre, não há salvador. Você mesmo é o professor, o aluno, o mestre, o guru, o líder, você é tudo.”

“Não há caminho para a verdade: ela que deve vir até nós.”

Alguns títulos de seus livros

A Mente Imensurável

A Primeira e a Última Liberdade

Liberte-se do Passado

Nossa Luz Interior: o Verdadeiro significado da Meditação

O Livro da Vida

Seu Universo Interior: Você é a História da Humanidade

Fonte de Consulta

https://laparola.com.br/jiddu-krishnamurti

https://krishnamurti.org.br/wp/biografia/


08 junho 2023

Intuição

Garcia Morente, no capítulo terceiro do livro “Fundamentos da Filosofia”, faz um estudo detalhado sobre a intuição como método da filosofia. Eis um pequeno resumo.

A intuição é um meio de se chegar ao conhecimento de algo, e se contrapõe ao conhecimento discursivo. Num único ato do espírito, lança-se sobre o objeto, apreende-o, fixa-o, determina-o. Quanto ao método discursivo, podemos dizer que discorrer e discurso dão a ideia de uma série de atos, de uma série de esforços sucessivos para captar a essência ou realidade do objeto.

Esclarece-nos que não há apenas uma intuição, mas intuições, as quais denomina de intuição sensível, espiritual, intuição real, intuição intelectual, intuição emotiva, intuição volitiva. Posteriormente, enumera os filósofos defensores de cada uma dessas intuições. Estudemos cada uma dessas intuições.

Intuição sensível é a intuição que todos praticamos a cada momento. Quando com um só olhar percebemos um objeto, um copo, uma árvore, uma mesa. Esta intuição sensível não é a mesma de que fala os filósofos. As razões: 1) O filósofo precisa de tomar como termo do seu esforço objetos não sensíveis; 2) Os dados sensíveis não oferecem conhecimento. Precisa de um dado universal.

Situemos a intuição espiritual. Suponhamos a seguinte afirmação: “Uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo.” O princípio de contradição, como o chamam os lógicos, é, pois, intuído por uma visão direta do espírito, é uma intuição.

Útil se nos torna diferenciar intuição formal da intuição real. A intuição formal descreve o objeto. A intuição real penetra no fundo da coisa, que chega a captar sua essência, sua existência, sua consistência.

Continuando nosso estudo. A intuição intelectual é um esforço para captar diretamente, mediante um ato direto do espírito, a essência, ou seja, aquilo que o objeto é. A intuição emotiva mostra-nos não a essência do objeto, mas o valor do objeto, aquilo que o objeto vale. Intuição volitiva. Não se refere nem à essência, como a intuição intelectual, nem ao valor, como a intuição emotiva. Refere-se à existência, à realidade existencial do objeto.

Os representantes dessas intuições. A intuição intelectual pura encontramo-la na Antiguidade, em Platão; na época moderna, em Descartes e nos filósofos idealistas alemães, sobretudo em Schelling e Schopenhauer. A intuição emotiva encontramo-la em Plotino, Santo Agostinho, São Tomadas de Aquino, Spinoza (Sentimus experimur que nos esse aeternos.” Que quer dizer: “Nós sentimos e experimentamos que somos eternos.”). A intuição volitiva está em Fichte que faz depender a realidade do universo e a própria realidade do eu de uma afirmação voluntária do eu. O eu voluntariamente se afirma a si mesmo; cria-se, por assim dizer, a si mesmo

É preciso considerar que estas três classes de intuição que repartem em grandes linhas o campo metódico filosófico contemporâneo têm, cada uma delas, sua justificação num lugar do conjunto do ser. O erro consiste em querer aplicar uniformemente uma só delas a todos os planos e a todas as camadas do ser.

Fonte de Consulta

GARCIA MORENTE, M. Fundamentos de Filosofia - Lições Preliminares. 4. ed. São Paulo: Mestre Jou, 1970. [Lição III — A intuição como método da filosofia]

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Intuição e Inteligência Artificial

A inteligência artificial pode ser entendida como um enorme banco de dados que, por meio de associações e análises combinatórias, oferece informações sobre os dados que possui. Não é uma inteligência propriamente dita, pois a raiz da palavra inteligência pressupõe uma escolha do indivíduo. A inteligência artificial não tem essa capacidade de escolha, limita-se a oferecer o que já tem guardado em sua memória virtual.  

A intuição, tanto quanto a imaginação e outras representações simbólicas, pressupõe uma relação vertical com o mundo das ideias, como nos ensinou Platão no Mito da Caverna, com um plano espiritual, um plano mental. No caso da inteligência artificial, a relação é horizontal. Mostra apenas o que tem, não cria algo. Observe a diferença entre o símbolo e o logotipo. No símbolo, há um relação vertical, que une dois planos: o material e o espiritual. No logotipo, há somente o plano material, que é a relação da empresa com os seus consumidores. 

A ciência valoriza muito a razão, mas utiliza sobremaneira a intuição.

Fonte: "Visão Simbólica X Inteligência Artificial" — Professora Lúcia Helena Galvão [Nova Acrópole].

Link do vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=HW0xqoTDEw8&t=2364s 

 

 

09 maio 2023

Bachelard, Gaston

Gaston Bachelard (1884-1962). Filósofo e epistemologista francês, começou a sua carreira como funcionário dos correios, antes de conquistar seus títulos universitários: professor de colégio, depois da faculdade de Dijon, tornando-se catedrático de História e de Filosofia das Ciências na Sorbonne.

Bachelard renovou a epistemologia, definindo as características de um novo espírito científico.  Ele condena a doutrina das naturezas simples e absolutas, defendida por Descartes, e observa que o racionalismo não deve mais ser imobilizado na universalidade dos princípios. A nova filosofia das ciências só pode ser mista: teórico e experimental.

Segundo ele, a verdade (provisória) será polêmica, na medida em que o progresso do conhecimento científico só pode se exprimir pelos obstáculos, a princípio inerente a nosso pensamento comum: “conhece-se contra um conhecimento anterior, destruindo conhecimentos malfeitos”. O conhecimento profundo exige uma psicanálise dos mitos e ilusões que podem perturbá-lo.

A filosofia do não (1940). Nesta obra, Bachelard propõe a constituição de uma filosofia capaz de satisfazer ao mesmo tempo filósofos e sábios e que leve em conta a evolução do saber; na medida em que o último só progride superando o que adquiriu, essa filosofia só poderá ser aberta, dialética, em ruptura com qualquer forma de dogmatismo, qualquer concepção congelada da razão.

O conceito de massa pode ser explicado em cinco etapas. As duas primeiras são pré-científicas (a massa é percebida segundo as qualidades sensíveis do objeto). Depois vem o empírico (assimila-se massa ao peso). Em seguida a racional (definido pelas relações matemáticas: mecânica de Newton), que depois se torna mais complexo (na teoria da relatividade). Por fim, o dialético (mecânica de Dirac: aparecimento de uma massa “negativa”. Em síntese: qualquer teoria se forma englobando a precedente.

Outras obras: O novo espírito científico (1934); A psicanálise do fogo (1937); A formação do espírito científico (1938); A água e os sonhos (1941); O ar e os devaneios (1943); A terra e os devaneios da vontade (1948); A terra e os devaneios do repouso (1948); O racionalismo aplicado (1948); O materialismo racional (1953); A poética do espaço (1957); A poética do devaneio (1960).

Fonte de Consulta

DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

Frases de Gaston Bachelard

“O pensamento puro deve começar por uma recusa da vida. O primeiro pensamento claro, é o pensamento do nada.” (Gaston Bachelard)

"Entre a imagem e o conceito, nenhuma síntese. Tampouco essa filiação, sempre dela, jamais vivida, pela qual os psicólogos fazem o conceito emergir da pluralidade das imagens. Quem se entrega com todo o seu espírito aos conceitos, com toda a sua alma às imagens, sabe bem que os conceitos e as imagens se desenvolvem em linhas divergentes da vida espiritual." (Gaston Bachelard)

O pensamento lógico tende a apagar sua própria história. Parece, de fato, que as dificuldades da invenção deixam de aparecer a partir do momento em que se pode fazer seu inventário lógico." (Bachelard. A atividade racionalista da física contemporânea)

"A história das ciências é a história das derrotas do irracionalismo." (Bachelard, A atividade racionalista da física contemporânea)

"As grandes paixões preparam-se em grandes devaneios." (Bachelard, A poética e o devaneio)

"Sempre se pretende que a imaginação seja a faculdade de formar imagens. Ela é antes a faculdade de deformar as imagens fornecidas pela percepção, é sobretudo a faculdade de nos liberar das imagens primeiras, de mudar a imagem." (Bachelard, O ar e os sonhos)