12 outubro 2009

A Metáfora do Trilho

Metáfora é a mudança do sentido comum de uma palavra por outro sentido possível que, a partir de uma comparação subentendida, tal palavra possa sugerir. A palavra trilho pode sugerir-nos diversas ideias: de finito e infinito, de destino do ser humano, do bem e do mal, da perfeição, de um ideal a ser atingido, de um roteiro, dos desvios de rumo e da ansiedade.

Em uma viagem trem, podemos observar os trilhos paralelos que servem para a nossa volta. Ao redor deles, há pedras, dormentes, árvores e vegetação rasteira. Sentados próximo à janela, estas imagens deslizam suavemente aos nossos olhos. Se não tivermos nenhuma preocupação, o nosso pensamento pode acompanhar essas imagens e delas extrair material para futuras reflexões. Façamos este pequeno exercício.

Observando os trilhos, percebemos que há, entre eles, uma distância finita, que é a medida entre um trilho e outro. Esta medida é fixa e constante, pois serve de apoio para as rodas do trem. Ao mesmo tempo, os dois trilhos paralelos parecem que vão até o infinito, pois eles vão deslizando como se nunca chegasse ao fim. Embora pareça que não tem fim, sabemos que a última estação é o término, o fim, mas a impressão de infinito move a nossa mente, principalmente no sentido de expandir o nosso pensamento, as nossas ideias, os nossos ideais. Temos a impressão que caminhamos para o desconhecido, para o futuro, para aquilo que Deus está nos reservando.

Tomemos, por exemplo, a perfeição a ser atingida. Os dois trilhos podem significar os limites para as nossas ações no bem. Caso os ultrapassemos, ou seja, saiamos dos trilhos, sofreremos as consequências, pois praticamos o mal, e o mal não faz parte do nosso caminho de evolução espiritual. Ir além dos limites, trar-nos-á dor. Sofrendo-a com resignação, podemos voltar novamente ao caminho do bem, ou seja, entrar novamente nos trilhos da perfeição. Caso nos revoltemos, podemos continuar mais tempo fora dos trilhos da perfeição.

Podemos pensar: se eu conseguisse viajar sempre dentro desses trilhos, economizaria tempo e mais rapidamente chegaria ao porto do meu destino. A vida, contudo, não transcorre nessa harmonia linear. Ela tem altos e baixos, desvios, mudança de rota. Às vezes é preciso fazer uma pausa, parar, refletir, para melhor caminhar, tal qual nos ensinava Sócrates com a sua maiêutica. Lembremo-nos também de Paulo que, depois de aderir ao cristianismo, precisou ficar três anos no deserto, trabalhando no tear, para poder adquirir maturidade espiritual e desempenhar nobremente a sua nobre missão de levar a boa nova do Cristo aos pagãos.
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