05 dezembro 2012

Pré-história

pré-história é um conceito nebuloso. Ela procura compreender, no presente, os conjuntos de lugares, artefatos e paisagens do passado. Vale-se da escavação arqueológica, muitas vezes descrita como passar do conhecido ao desconhecido. Fundamenta-se na ausência de escrita. É muda e silenciosa. É a história sem palavras.

De acordo com Chris Gosden, a palavra "pré-história" foi usada pela primeira vez em 1832, mas só adquiriu uso corrente após a publicação, em 1865, de Prehistoric Times, de Sir John Lubbock. Acrescenta que este conceito tornou-se necessário por causa da expansão do universo imaginativo durante o século XIX e à revelação de espaços de tempos maiores para a história humana e biológica.

A pré-história tem relação com a visão de mundo: para os arqueólogos, os nossos antepassados surgiram há 6 milhões de anos; para os criacionistas somente a partir do "Gênesis" da Bíblia. O bispo Ussher, por exemplo, no final do século XVIII, estimou que a Terra fora criada em 4.004 a.C. A base empírica, porém, para escalas de tempos maiores veio-nos através dos geólogos e biólogos.

Para bem entendermos a pré-história, há necessidade estudá-la de forma empírica e filosófica. As escavações e as sondagens fornecem-nos informações seguras sobre o passado. O aspecto filosófico: como nos abrirmos ao modo de pensar dos antigos, que não tinham palavras para se expressarem? Como renunciar ao nosso mundo civilizado para absorver os horizontes de vida dos primeiros seres humanos?

A pré-história, nos tempos presentes, está bastante viva entre nós. Ela habita aqueles setores de nossa vida em que é difícil expressar em palavras, ou seja, a nossa relação com carros, computadores, lápis, papel etc.

Para mais informações, leia o livro Pré-história, de Chris Gosden, traduzido por Janaína Marcoantonio. Porto Alegre: L&PM, 2012. (Coleção L&PM POCKET; vol. 1057)  

 

23 outubro 2012

Reflexão

reflexão, fenomenologicamente observada, manifesta-se como um segundo ato de conhecimento (o primeiro é a intenção direta).

Ao evocarmos a intenção direta e o segundo ato, verificaremos que uma noção ampla do juízo em geral e do juízo reflexivo em especial influencia notoriamente o comportamento de um crítico do conhecimento. Sem elo, poder-se-ia perder em afirmações frouxas e superficiais, por ausência de um eixo diretor.

Há, assim, a intenção direta e o segundo ato. A reflexão, propriamente dita, diz respeito ao segundo ato. Mas, se o segundo ato, é uma espécie de repetição da intenção direta, reduziríamos a visão reflexa a uma outra face do mesmo ato. Uma simples abstração nos faria ver separadamente as duas intenções, conduzindo-nos à ilusão final das dualidades dos atos.  

Para que haja a verdadeira reflexão, a intenção direta deve opor-se à reflexão, no sentido de se distinguirem como dois atos efetivamente distintos e não apenas como intensificação um do outro. A simultaneidade proporciona a aparente impressão de que um ato seja a intensificação do outro; a observação cuidadosa nos liberta deste equívoco, conduzindo-nos à consciência de nós mesmos e enaltecendo a nossa racionalidade.

Fonte de Consulta

PAULI, Evaldo. Que é Pensar? Teoria Fundamental do Conhecimento. Santa Catarina: Biblioteca Superior de Cultura, 1964.

 

Os Sofistas

A palavra “sofista”, derivada do grego sophos (sábio) era, na antiguidade, sinônimo de sábio. Com o tempo, o sentido pejorativo ultrapassou o sentido real. Somente na atualidade, o sentido antigo voltou a ser defendido por um movimento, que se denominou “iluminismo grego”.

Sofistas é o termo que se usa para caracterizar um conjunto de pensadores gregos que surgiu na segunda metade do século V a.C. A fundamentação deste conceito reside no fato de eles terem sido os primeiros educadores profissionais (recebiam pagamento pelo ensino) de disciplinas humanas, tais como, política e moral e, principalmente, a retórica.

A democracia grega trouxe uma mudança radical na natureza da liderança: numa assembleia, em que o povo podia tomar decisões, a linhagem não era suficiente. Como a aspiração máxima era a vitória, um político tinha que se desenvolver na arte de persuadir e de convencer as massas, mostrando que a sua era a melhor proposta para governar a cidade, o estado.

Os sofistas davam grande valor aos sentidos. Pergunta: se os sentidos mostram coisas diferentes a diferentes indivíduos, como decidir qual delas está de posse da verdade? A resposta é: a verdade é relativa a cada um. Assim, não há uma verdade absoluta; cada coisa é o que parece ser para cada um. Este relativismo conduz ao ceticismo.

Os gregos pensavam que as leis naturais eram inamovíveis, ou seja, absolutas. A constatação, porém, de que outros povos têm culturas e valores diferentes, levou os sofistas a aceitarem o convencionalismo das leis. A partir desse momento, as leis passam a ser arbitrárias e provisórias, relativas, portanto, à comunidade e ao próprio indivíduo.

Protágoras (480-410 a.C.) foi o sofista mais famoso do seu tempo. Dele vem a famosa frase: “o homem é a medida de todas as coisas, das que são, enquanto são, e das que não são, enquanto não são.” Dele, também, provém a ideia dos raciocínios duplos: “Em toda questão há dois raciocínios opostos entre si”, quer dizer, de cada coisa se pode dar duas versões opostas. Já que não há verdade, um juízo é tão válido quanto o seu contrário.

Sócrates, Platão e Aristóteles achavam os sofistas perigosos para a sociedade. Por isso, elaboraram grande parte de suas concepções como respostas destinadas a desmontar o edifício construído por esses pensadores.

Fonte de Consulta

Temática Barsa - Filosofia.  

 

15 agosto 2012

Autoconhecimento

autoconhecimento, embora tenha por objetivo a perfeição do ser humano, visa, em última instância, a exortação da gnose (onde gnothi seauton significa “conhece a ti mesmo”) não passa de um escapismo segundo Martin Burckhardt, em “Pequena História das Grandes Ideias”. Como se explica?

Burckhardt parte da pressuposição de que esta célebre frase começa com uma tragédia, que é o enigma apresentado pela esfinge ao rei Édipo, que pergunta: “Quem pela manhã anda sobre quatro pernas, à tarde sobre duas e à noite sobre três?” A resposta é: bebê que engatinha de quatro, o adulto que fica de pé e o velho que anda de bengala. Ele diz: “Se Édipo conseguisse tirar a esfinge do pedestal com a solução do enigma e livrar Tebas da tirania do monstro, precisaria mais tarde pagar um preço alto por isso. O desejo de autoconhecimento obriga Édipo a enfrentar sua própria culpa. O que ele vê é tão insuportável que o leva a cegar-se com a espada”.

A história do Édipo é um exemplo da corrente de pensamento que se denominava como gnose ou gnosticismo. Como a gnose, porém, passa a ser um escapismo? Quando ela se torna uma religião da razão. Entre os pitagóricos, os números eram a origem de todas as coisas. Os gnósticos não se contentam com a afirmação de Platão de que somos sombra do mundo espiritual. Para eles, o paraíso é aqui e agora. Mas, se é assim, como o ser humano desceu ao vale de lágrimas?  

Diante dessa pergunta, que não mais gira sobre o autoconhecimento, mas sobre a estilização como anjo, entram em cena as duas forças que se combatem: de um lado o ser espiritual, racional e puro; do outro, a carne pecadora. Como se pressupõe que a carne é fraca, quer-se encontrar o vilão de todos os pecados. Daí, o demoníaco, diabolon, antítese da divindade.

Para defender a pureza angélica, os gnósticos de todos os tempos inventaram teorias que davam sustentação aos seus anseios. Muitos gnósticos negaram a corporeidade de Jesus, imputando-lhe um corpo astral. Valentim (c. 160 d.C.) dizia: “Jesus comia e bebia de forma especial, sem excretar a comida. Tão grande era a força de seu poder de evitar a excreção que os alimentos não apodreciam nele, pois ele mesmo era indefectível e incorruptível”. 



10 agosto 2012

Lógica

"Podemos ter a imaginação como companheira, mas devemos seguir a razão como nosso guia." (Samuel Johnson) 

Lógica — do grego logos significa “palavra”, “expressão”, “pensamento”, “conceito”, “discurso”, “razão”. Para Aristóteles, a lógica é a “ciência da demonstração”; Maritain a define como a “arte que nos faz proceder, com ordem, facilmente e sem erro, no ato próprio da razão”; para Liard é “a ciência das formas do pensamento”. Poderíamos ainda acrescentar: “É a ciência das leis do pensamento e a arte de aplicá-las corretamente na procura e demonstração da verdade.

03 agosto 2012

Ilusão da Mudança

Ao longo do tempo, arquivamos muitas informações e experiências em nosso subconsciente. Nele estão gravados os nossos hábitos e automatismos, tanto bons quanto ruins. O subconsciente somente arquiva. Pode ser comparado ao hardware de um computador, que oferece condições para o funcionamento dos softwares.

Em se tratando do ser humano, devemos considerar o corpo físico e o corpo emocional. O corpo físico é composto de cabeça, tronco e membros. Cada um dos seus órgãos auxilia o funcionamento do todo. O corpo emocional é o que pensa, sente; tem afetividade. Para o corpo físico, o tempo transcorre linearmente, ou seja, uma hora depois da outra; para o corpo emocional, não há essa continuidade, pois para ele passado e presente estão ocorrendo simultaneamente.

Os nossos hábitos e automatismos estão gravados em nosso subconsciente. Por outro lado, estamos constantemente falando de mudança de comportamento. E por que é difícil essa mudança? Ou melhor, por que temos a ilusão da mudança? Recebemos uma informação e formamos uma “máscara” de progresso. Achamos que já vencemos aquele defeito, que não cometeremos mais aquela falta, que... Acontece que o nosso eu verdadeiro está preso ao subconsciente.

Pensamos que mudamos. Acontece que usamos máscaras, as quais conseguem esconder o corpo emocional, mas não conseguimos mudar o verdadeiro efeito que ele exerce em nossa vida.

Eis como Chris Griscom, em O Tempo é uma Ilusão, vê o problema:

“É quase impossível libertar-se dessa rotina cíclica, pois o corpo emocional está ligado ao corpo físico pelo centro do plexo solar. O centro de força do plexo solar estimula o sistema nervoso simpático, que funciona pelo princípio de “fugir ou lutar”. Quando percebemos algo que nos amedronta, os gânglios do plexo solar ficam estimulados e ativam uma mudança da composição química do sangue no cérebro. Isso, por sua vez, cria uma forma de estímulo elétrico com o qual o corpo emocional e o corpo físico vão se viciando cada vez que o episódio se repete. Com o tempo esse esquema se torna imperceptível e deixamos de percebê-lo diretamente, mas continuamos a executar o ciclo”.

Todo esforço tem a sua recompensa, mas se não mudarmos o fundo, tudo o mais não passa de ilusão de progresso, de evolução.  

 

31 maio 2012

Novo Cérebro: Mudar Respostas

Problema: Como descobrir as crenças que estão limitando a nossa vida? Como mudá-las para outras mais expansivas?

Russell Ackoff já nos dizia que "A solução errada para o problema certo é anos-luz melhor do que a solução certa para o problema errado". 

Primeiramente, entendamos que há uma profunda diferença entre fatos e crenças. Sobre os fatos, há poucas discordâncias, pois eles procuram mostrar o que a coisa é. Exemplo: o calor dilata o metal. Não há o que discutir, a não ser sobre o grau de temperatura que isso acontece. Os seres humanos acabam entrando em conflito quando discutem crenças. 

Em se tratando de crenças, há as racionais e as irracionais. As crenças racionais são aquelas que nos parecem apresentar argumentos lógicos: Exemplo: A Terra é redonda; o dinheiro facilita a vida; dois mais dois são quatro; o ser humano é constituído de cabeça, tronco e membros. As crenças, ditas irracionais, são aquelas as quais não se consegue chegar a um acordo. Exemplo: Deus Existe?; há vida além-túmulo? 

Vejamos alguns tipos de crenças:

  • "Isto sempre acontece comigo";
  • "Não posso errar";
  • "Devo mostrar que sei o assunto";
  • "Tenho que agradar a audiência";
  • "Preciso fazer mais exercícios físicos". 

Como mudar esses tipos de crenças?

"Isto sempre acontece comigo". É uma visão individual do problema. E se procurássemos saber o que está acontecendo com os outros?

"Não posso errar". Por quê? Não há erro, só há experiência. Além do mais, aprendemos melhor com os erros do que com os acertos. Lembremo-nos no ditado latino: errando corrigitur error (errando, corrige-se o erro)

"Devo mostrar que sei o assunto". Não temos que mostrar a ninguém, a não ser a nós mesmos. 

"Tenho que agradar a audiência". Querer agradar a todos pode desagradar a Deus. 

"Preciso fazer mais exercícios físicos". No estudo da obesidade, há controvérsia sobre os exercícios de educação física. 

Essas lembranças são mais para aguçar a reflexão sobre o nosso  comportamento. O importante é estarmos abertos para a mudança. Deixar o velho causa transtorno, gera inquietação e angústia. Enfrentemos tudo isso com confiança e determinação. A recompensa virá adiante.

 

16 maio 2012

Blablablá e Pensamento

De vez em quando, é muito útil verificarmos se a nossa escrita ou os nossos pensamentos não passam de um blábláblá sem fim. Por blablablá, entende-se a conversa sem importância, a conversa fiada ou os “ditos verborrágicos destinados a engabelar a desconfiança”. O blablablá é encontrado, muitas vezes, nos políticos, nos demagogos e nos sedutores.

Para evitar o blablablá, convém fazer como o filósofo amador, que transforma o cogito ergo sum, de Descartes, em “escrevo, logo penso”. Pensar, escrever e ler permite-nos descobrir se aquilo que pensamos é “bem pensado”. Embora não haja um pensamento original, pois tudo o que pensamos já foi pensado antes, a apropriação do pensamento alheio, transformando-o em pensamento próprio, é de grande valia para o nosso exercício filosófico.

Ao escrevermos, não podemos ser tão radicais como os moralistas que, segundo Joubert, são atormentados pela “maldita ambição de por um livro inteiro numa página, uma página inteira numa frase e essa frase numa palavra”. Há casos em que, para nos fazermos entender, o nosso pensamento tem que ser obrigatoriamente prolixo. O que atrapalha a compreensão de um texto não é quantidade de palavras, mas a verborragia das palavras vãs que nada acrescentam ao entendimento de uma questão.

Esses pensamentos foram trabalhados em função do livro: “Sobre o Blablablá e o Mas-Mas dos Filósofos”, de Fredric Schiffer que, na Internet, tem o seguinte marketing de venda: “Este ensaio, escrito com pena ágil e petulante, surpreende os filósofos em alguns de seus pecados mais comuns: o palavrório e o pedantismo. Armado com o desiludido humor cioraciano, e aguçado por uma lucidez cara a Clément Rosset (que, aliás, assina o prefácio), Frédéric Schiffer investe contra os que denigrem as aparências e preferem refugiar-se em alguma zona inabordável. Ao longo de suas divagações provocativas, reencontramos os ridicularizados sofistas, o diletante Montaigne, o agudo Baltasar Gracián e assistimos ao encontro (feliz) de um pensamento e de um estilo”.

Schiffer explica-nos que o blablablá concerne ao campo dos discursos destinados a entorpecer a desconfiança e o espírito crítico; o mas-mas (ou afetação), ao campo dos discursos que têm por vocaçao desvalorizar a vida real em prol da essência. O homem do blablablá enaltece o irreal, é um charlatão. O homem do mas-mas deprecia o real: é um pedante afetado.

Em vista do exposto, a quantas andam o nosso pensamento? Estamos buscando uma certa profundidade ou permanecemos na sua superficialidade?

 

09 maio 2012

Alcibíades

Platão (427-347 a.C.) descreve, neste texto, um encontro entre Sócrates e Alcibíades, jovem célebre por sua beleza e ambição.

Problemática: Alcibíades justifica seu desejo de poder, não por sua família e suas relações, mas por suas competências. Como bom democrata, acha que o poder (ou a política) resume-se na prática da justiça. Incapaz de definir a justiça, Sócrates vai ao seu encontro e o auxilia, dizendo que a justiça fundamenta-se no conhecimento de si mesmo.

As Teses

O saber necessário à política: “conhece-te a ti mesmo”. O conhecimento de si mesmo é essencialmente a tomada de consciência da própria ignorância. É, também, saber distinguir o que nos pertence daquilo que nos é adventício. “Conhecer-se a si mesmo é distinguir-se do que pertence a si mesmo, repor cada coisa em seu justo lugar”.

Para governar cidadãos, é preciso governar a si mesmo. Aquele que governa a si mesmo adquire a virtude, porque aprendeu a cuidar de si mesmo. Esta virtude lhe dá condições de governar os outros, porque não o fará em beneficio próprio, mas por causa do bem comum.

Partilhar a virtude com os cidadãos. A política é muito mais arte do que ciência. É a arte de equilibrar os desejos e ambições dos cidadãos. Ele merece reinar porque cria laços de amizade com os cidadãos. “Uma cidade governada por um homem virtuoso e livre (nem escravo nem tirano) é bem mais sólida do que uma cidade defendida por armas ou riquezas”.

Fonte de Consulta

CAMUS, Sébastien et al. 100 Obras-Chave de Filosofia. Tradução de Lúcia Mathilde Endlich Orth. 2. ed., Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.

14 março 2012

Ressentimento: Nietzsche e Scheler

Ressentimento. Ato ou efeito de ressentir-se. Diz respeito ao sujeito que está magoado, aquele que se melindra com facilidade ou que sofreu os efeitos de abalo, dano ou moléstia. Em espanhol a palavra correspondente é remordimiento e define-se como a amarga e arraigada lembrança de uma injúria particular, da qual se deseja tirar satisfações. Pode-se dizer que seu sinônimo é a palavra rancor, palavra esta que vem do latim e que quer dizer queixa, querela, demanda. Já em francês, ressentiment traz em sua etimologia a repetição de uma vivência cuja qualidade da emoção é hostil.

Nietzsche e Scheler dizem que o ressentimento é o principal obstáculo ao amar ao próximo como a si mesmo. Embora haja problemas da tradução do alemão para o português, percebemos que esta palavra assume vários significados, tais como, rancor, repugnância, acrimônia, má vontade, contrariedade, despeito e nocividade. Embora usem o mesmo termo, referem-se a tipos diferentes de hostilidade.

Para Nietzsche, ressentimento é aquilo que o abatido, o desprovido e o pobre sentem pelos seus “superiores”, os ricos. Pode-se dizer que a causa mais profunda está na “dissonância cognitiva”, em que as pessoas buscam uma sensação de equilíbrio entre suas crenças, atitudes e comportamentos. Exemplificando: reconhecer os direitos de seus “superiores” seria equivalente a aceitar a sua própria inferioridade. O ressentimento é uma mistura de genuflexão e acrimônia, mas também de inveja e despeito.

Max Scheler, ao contrário de Nietzsche, acha que o ressentimento surge entre os iguais. Nietzsche interpreta o ressentimento como uma luta contra a desigualdade e uma pressão para se nivelarem por baixo as hierarquias existentes; Scheler, por seu turno, acha que as pessoas lutam para chegar ao topo e atirar os outros para baixo. As pessoas partem do seguinte princípio: “Minha liberdade é limitar a liberdade dos outros que desejam chegar ao mesmo ponto”. Scheller conclui que ressentimento resulta em competição, numa luta contínua pela redistribuição de poder e prestígio, reverência social e dignidade socialmente reconhecida.

Saibamos sacrificar tudo, inclusive o sentimento do ressentimento, pois ele é um grande empecilho para a nossa evolução moral e intelectual.

Fonte de Consulta

BAUMAN, Zygmunt. A Ética é Possível num Mundo de Consumidores? Tradução de Alexandre Werneck. Rio de Janeiro: Zahar, 2011, capítulo 1.

 

18 fevereiro 2012

O Corpo Humano Segundo Alguns Filósofos

Para Sócrates, o filósofo deseja morrer. O sábio deseja apressar a libertação da alma espiritual do cárcere corpóreo, não prolongando a vida eternamente.

Para Platão, os gêneros sexuais eram três, ou seja, masculino, feminino e o andrógino, um ser dotado de órgãos sexuais, masculinos e femininos. “O amor homossexual é antes preferível ao heterossexual, porque não voltado à procriação e, portanto, mais inclinado a um desenvolvimento no sentido puramente espiritual”.  

Para Agripa, o homem é um cosmo em miniatura. No final da Idade Média e no Renascimento afirmou-se a ideia de uma equivalência estrutural entre o ser humano e o cosmo. “O homem, síntese viva da inteira natureza, possui em si todos os elementos da criação: é terra, água, ar, fogo (inteligência), participa tanto do mundo animal quanto do espiritual mundo angélico. Pode-se chegar ao universo partindo do homem, e vice-versa”.

Para Paracelso, o corpo humano é um sistema químico. “O corpo humano, efetivamente, deve ser considerado como um sistema químico, passível de cura por meio de minerais como o enxofre, o mercúrio, o sal. Apesar de fundamentarem-se, ainda, em crenças mágicas, alquímicas e ate astrológicas, essas ideias marcam o inicio da medicina moderna”.

Para Morus, o homem deve ter direito à eutanásia. “Uma das reformas, previstas por Tomás Morus diz respeito à licitude da eutanásia, ou seja, ao direito de o moribundo terminar dignamente a sua vida, pondo fim, com o suicídio assistido, a sofrimentos não curáveis pela ciência médica”.

Para Descartes, o corpo humano assemelha-se ao modelo hidráulico. Explica-o através da metáfora da fonte: “o corpo atua segundo os mesmos princípios que regulam o funcionamento dos mecanismos hidráulicos que, nos jardins mais admirados, movimentam água e estátuas”.

Para Schopenhauer, sentir-se um corpo vivente, é o único conhecimento essencial ao ser humano. “Refletindo sobre a própria corporeidade é fácil descobrir que a essência do Eu consiste na vontade de viver”.

Para Bérgson, o corpo está entre o passado e o futuro. “O corpo enquanto matéria modificada pelo tempo constitui uma espécie de memória biológica, um arquivo da experiência passada. Mas, enquanto sistema de necessidades voltado para a ação, o corpo é também projeção em direção ao futuro”.

Fonte de Consulta

NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Margherita De Luca. São Paulo: Globo, 2005.

 


O Homem Segundo Alguns Filósofos

Para Platão, o corpo é obstáculo ao conhecimento. “O corpo, e tudo o que ele significa (percepção, paixão, instinto, emoção), deve ser anulado para que a razão seja exercitada. Tudo aquilo que não é pura espiritualidade racional pode ser descrito em termos de patologia da alma”. 

Para Ficino, o homem é copula mundi, o centro do universo. “O homem é o termo médio (cópula), o centro, uma entidade intermediária na hierarquia da criação, a meio caminho entre o animal e o anjo”. 

Para Pico Della Mirandola, o homem é um camaleão. “A doutrina do homem camaleão, pela qual o homem não possui uma virtude específica, mas contém em si todas as qualidades de todos os outros seres viventes, é de alguma maneira compatível com a teoria oriental da metempsicose, segundo a qual as almas dos mortos se reencarnam em outros corpos, humanos ou animais”.   

Para Descartes, o homem se resume no penso, logo existo. “Depois de ter duvidado de tudo, só uma coisa permanece não discutível: quem duvida pensa, é um ser pensante”.   

Para Pascal, nada somos para o infinito. Defende a tese do realismo trágico: “O homem é uma estranha mescla de louvável grandeza e reprovável miséria, um paradoxo lógico, um monstro incompreensível até para si mesmo”. 

Para Nietzsche, o Super-Homem é o sentido da terra. “O Super-Homem está além da racionalidade, despreza todo valor ético, vive num mundo dionisíaco, reconhece o engano inerente a todas as filosofias, percebe o passar do tempo como o eterno retorno. O homem atual é somente uma fase de passagem, é uma corda estendida sobre um abismo, entre o feio de que se origina e o Super-Homem para o qual tende” 

Fonte de Consulta 

NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Margherita De Luca. São Paulo: Globo, 2005. 

 

A Realidade Segundo Alguns Filósofos

Para Heráclito, não nos banhamos duas vezes no mesmo rio. Nada existe de estável e definitivo na natureza; tudo muda continuamente. Cada coisa é e não é, ao mesmo tempo. Nós mesmos somos e não somos, porque existir, viver, significa tornar-se, ou seja, mudar a própria condição atual por uma outra.

Para Parmênides, o ser é uma esfera bem redonda. “Os atributos do ser não podem ser encontrados por via experimental ou sensorial, mas deduzidos com coerência lógica do próprio conceito de ser”.

Para Aristóteles, a estrutura interna de cada coisa depende de seu fim. “Entre as quatro causas possíveis, identificáveis como a origem de qualquer coisa, destaca-se pela importância a causa final: aquilo que, em última análise, faz as coisas serem como são é a finalidade para a qual nasceram”.

Para Galileu, deve-se indagar a natureza para descobrir as suas verdadeiras leis. “Isso só é possível adequando a mente humana ao específico caráter matemático e geométrico com que o grande livro da natureza foi escrito por Deus. A matemática, portanto, constitui a linguagem específica da ciência”.  

Para Leibniz, a Mônada é o elemento constitutivo da realidade. “A Mônada não é matéria, mas energia, força viva no estado puro, ou seja, o superior princípio que torna vivas e operantes as leis físicas da natureza”.

Para Hegel, o real é racional e o racional é real. Na primeira parte do aforismo, Hegel afirma que “o mundo não é um amontoado caótico de substâncias, mas o desdobramento progressivo de uma espiritualidade racional (chamada respectivamente de Absoluto, Espírito, Ideia, Razão, Deus), que se exprime inconscientemente na natureza e conscientemente no homem”. Na segunda parte, segundo a qual a racionalidade coincide com a realidade, indica que a “razão não exprime uma abstração, um dever-ser ideal ou utópico, mas a estrutura profunda do mundo real”.

Fonte de Consulta

NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Margherita De Luca. São Paulo: Globo, 2005.

 

17 fevereiro 2012

A Substância Segundo Alguns Filósofos

Para Parmênides, afirmar uma negação é incorrer em erro lógico. “Como passagem de uma condição de ser a uma de não-ser, toda mutação, qualquer que seja a sua espécie, é sempre pura aparência: a verdadeira estrutura do mundo consiste em um ser imutável e eterno”. 

Para Aristóteles, a metafísica é necessária, é a ciência do ser. Todas as ciências precisam de uma filosofia primeira que é a metafísica. “A medicina estuda o ser enquanto corpo vivo, a política estuda o ser da sociedade, a ética o ser como ação, a matemática, o ser como quantidade; somente a filosofia estuda o ser enquanto ser, em abstrato e independentemente de qualquer determinação particular”.

Para Descartes, a dúvida metódica conduz-nos à existência de um sujeito espiritual, capaz de produzir pensamento: ao lado da substância pensante (res cogitans), existe a substância material (res extensa). Pensa que o único modo de demonstrar a existência do mundo material consiste em refletir sobre a existência de Deus. “Logo, ao lado da espiritual, existe também uma realidade material, que se caracteriza por ser extensa ao espaço. Res cogitans e res extensa, espírito e matéria, mente e corpo, são as duas substâncias metafísicas do real”.

Para Leibniz, a mônada é um átomo espiritual. Para entendê-la, deveríamos compará-la à mente humana. A mônada é “um microcosmo, um espelho vivo do universo para o qual tudo é, ao menos potencialmente, inteligível. Como um verdadeiro átomo espiritual, possui todas as características da espiritualidade: percebe – ou seja, conhece o mundo a partir de um particular ponto de vista – e apetece, ou seja, deseja –, tendendo sempre à realização de um fim, de um projeto".

Para Spinoza, Deus é substância: para existir não precisa de nada. Partindo da definição clássica do conceito de substância como aquilo que não precisa de nada para existir, ele conclui que: 1) só uma substância pode existir (monismo); 2) tal substância deve ser Deus; 3) a matéria e o espírito não devem ser considerados substâncias, mas sim atributos (manifestações) da única substância; 4) a substância divina é livre — porque age somente sob o impulso da necessidade da sua natureza — e eterna; 5) sendo única, tal substância não admite nada fora de si mesma e, portanto, deve compreender o mundo inteiro.

Para Hume, a substância é um feixe de percepções. “No âmbito do pensamento empírico, voltado para a concretude da experiência, devemos concluir que na realidade existem somente determinadas qualidades particulares dos objetos que a mente, depois de apreendê-los separadamente, reagrupa e liga um termo linguístico para facilitar a memória e a comunicação”.  

Fonte de Consulta

NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Margherita De Luca. São Paulo: Globo, 2005.

 

O Significado de Conhecer Segundo Alguns Filósofos

Para Platão, conhecer é buscar o que se ignora. Recorrendo à doutrina da reminiscência, diz que conhecer é, para a alma, lembrar o que já sabia antes de encarnar num corpo.

Para Aristóteles, a estrutura interna de cada coisa depende de seu fim. “Entre as quatro causas possíveis, identificáveis como a origem de qualquer coisa, destaca-se pela importância a causa final: aquilo que, em última análise, faz as coisas serem como são é a finalidade para a qual nasceram”.  

Para Cusa, conhecer é estabelecer uma proporção entre o conhecido e o desconhecido, entre o que se conhece e o que se vai conhecer. Por isso, “o processo de acréscimo do conhecimento deve ser lento e gradual; os objetivos de qualquer investigação cognitiva não podem ultrapassar muito o nível atual dos conhecimentos”.

Para Bacon, devemos estudar os erros para evitá-los. “O engano muitas vezes é decorrência da presença, no intelecto humano, de uma série de ídolos, ou seja, de crenças inconscientes, suposições, prejulgamentos e preconceitos que condicionam a aquisição do novo saber”.

Para Kant, o ato cognitivo não é uma adequação da mente ao objeto conhecido. São os esquemas mentais, que funcionam como filtros, já presentes na mente que determinam o que podemos conhecer do objeto. Assim, “no centro da filosofia do conhecimento devem ser postas essas formas a priori da mente, universais e necessárias”.

Para Fichte, cada Eu se põe a si mesmo. O inteiro sistema do saber funda-se em um ato de espontânea, intuitiva e incondicionada autocriação do sujeito pensante. “A validade de um ato cognitivo não depende mais de uma presumida correspondência entre o objeto pensado e o objeto pensante, mas funda-se numa atividade totalmente interior do sujeito e independente do mundo”.

Fonte de Consulta

NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Margherita De Luca. São Paulo: Globo, 2005.

 

Como se Deve Viver Segundo Alguns Filósofos

Para Aristóteles, a virtude está no justo meio. A capacidade em dispor as coisas pelo justo meio adquire-se pelo exercício, em que se excluem os vícios do excesso e da escassez. A coragem, por exemplo, é a virtude média entre a temeridade e a covardia.

Para Diógenes, a vida é simples. Entendia a sabedoria como uma recusa da vida comum. Foi o primeiro de uma lista de filósofos que: “munidos de um manto e de uma tigela, orgulhoso de sua pobreza, perambulavam como mendigos pelas cidades da Grécia pregando o ascetismo, o retorno à vida natural, o desprezo pelas comodidades”.  

Para Epicuro, o objetivo da vida feliz é o prazer. Há necessidade de separarmos o falso prazer do verdadeiro. Acha que “a solução mais sábia está em submeter a busca da felicidade ao juízo da razão. É preciso, portanto, eliminar os medos inúteis (da morte, dos deuses, da dor), moderar as necessidades de modo que o seu gozo não se transforme no contrário e, principalmente, ter como meta a tranquilidade de espírito, a serenidade”.

Para Zenão de Cítio, o ser humano devia viver conforme a natureza, ou seja, conforme a virtude. “Assim como o animal é inevitavelmente guiado pelo instinto, o homem deve fazer-se guiar pela razão, porque nesta reside a sua íntima natureza. Isso significa que o homem sábio deve evitar qualquer forma de paixão”.

Para Sêneca, há vantagem em ser espontâneo. Seguir a razão não significa tornar-se escravo da racionalidade; buscar o crescimento espiritual não significa desprezar o corpo. “Simplicidade, espontaneidade, presteza são qualidades do sapiente, ou seja, daquele que se aceita pelo que é. Ao contrário, a ansiedade, a artificialidade de comportamentos, o frenesi de viver sem descanso, o desejo de viajar sem destino são sintomas patológicos de uma personalidade que não aceita a própria natureza”.

Para Marco Aurélio, a fonte do bem está na máxima: Olha dentro de ti: aí se encontra a fonte do bem, sempre capaz de jorrar, se souberes sempre cavar em ti mesmo. “A filosofia consiste na reflexão sobre a existência, na indagação interior, na meditação sobre a vida. O lugar onde se vive e o papel social não têm a menor importância”.

Para Morus, quando todos trabalham, todos trabalham menos. Em sua ilha da Utopia, “Todos os cidadãos são iguais entre si, todos se revezam nos trabalhos de agricultura e artesanato, e o trabalho é dividido de tal forma que impede o surgimento de diferenças sociais”.

Para Hume, as escolhas morais fundam-se no sentimento. Os comportamentos dos indivíduos estão mais sujeitos ao sentimento do que à razão. “Na realidade, seguimos as regras de moralidade e de justiça não com base em deduções abstratas, mas segundo um sentimento específico da sua utilidade coletiva”.  

Para Kant, um comportamento pode ser considerado moral quando é universalizável. Por isso, a crença no imperativo categórico, ou seja, no comportamento que se prende a uma norma que ultrapassa o caso concreto, a utilidade ou o interesse pessoal.

Para Fichte, o dogmatismo ou idealismo depende do caráter do sujeito. A escolha não é feita segundo um convencimento racional, mas segundo as qualidades morais do sujeito. “quem é idealista, interiormente livre, professa o idealismo e vive em mundo efetivamente livre; quem é dogmático, ao contrário, acredita viver em mundo dominado pela necessidade objetiva somente porque, dentro de si, já é desprovido de amor pela liberdade”.

Para Schopenhauer, a única solução é esquecer que se existe. De acordo com o seu pensamento, a vontade de viver condiciona todos os aspectos da existência, produzindo alternadamente sofrimento e tédio. Para combater a vontade de viver, “aconselha o silêncio, o jejum, a castidade, a renúncia sistemática, a fuga temporária da realidade por meio da arte ou de práticas orientais de meditação”.

Fonte de Consulta

NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Margherita De Luca. São Paulo: Globo, 2005.

 

A Matéria Segundo Alguns Filósofos

Para Zenão, o movimento não existe. Ele demonstra que “afirmar a realidade de qualquer manifestação do não-ser (o movimento, a translação dos corpos, a multiplicidade, a velocidade) leva a conclusões ainda mais paradoxais”.

Para Demócrito, a alma também é feita de átomos. Acha que para a matéria não vale a mesma divisibilidade infinita de que gozam os números matemáticos. “Pode-se subdividir um número ao infinito, mas partindo de uma partícula de matéria progressivamente chega-se a um mínimo indivisível (e invisível): o átomo, expressão grega que significa, literalmente, sem divisão”.

Para Plotino, Deus não criou o mundo, mas emanou-o. “Não foi um ato de livre criação que produziu a realidade material, como querem os cristãos, mas um processo automático de irradiação. Assim como o perfume exala (emana) de uma flor, o mundo transborda de Deus”.

Para Giordano Bruno, habitamos um dos infinitos mundos. Até então, acreditava-se no universo finito. Ele afirma que o “Universo é infinito e homogêneo em cada parte; não existe uma esfera das estrelas fixas nem o último céu (Empíreo). É razoável supor também que outros corpos celestes são habitados por seres inteligentes”.

Para Galileu, a natureza possui qualidades objetivas e subjetivas. Para provar a sua tese faz considerações sobre o tato, o menos confiável entre os cinco sentidos. “De fato, é suficiente tocar um objeto para perceber de imediato a sua forma porque, mesmo de olhos fechados, ninguém confunde uma esfera com um cubo. Por outro lado, o contato com os objetos produz também reações absolutamente subjetivas: as cócegas, por exemplo, dependem mais do estado do sujeito (da reatividade da sua pele) que da natureza do objeto”.

Para Berkeley, a matéria não existe, é apenas uma ideia na mente. “A matéria não existe, existem somente Deus e o espírito humano. As qualidades objetivas que parecem tão concretas e que Galileu julgava inopináveis são apenas uma representação da mente”.

Para Leibniz, em cada gota existe um jardim cheio de plantas. Contrariando Descartes e Demócrito, diz que a matéria pode ser dividida ao infinito. “Chegando ao limite infinitesimal, em um certo sentido, no fundo da matéria, encontra-se um princípio incorpóreo, a Mônada espiritual”.

Para Schelling, a matéria é vida adormecida. Um mesmo princípio está subordinado à natureza orgânica e inorgânica. “Não existe nada de morto no universo, tudo está concatenado com todo o resto de modo a formar um grande animal, um macrocosmo estruturalmente semelhante a um ser humano”.

Fonte de Consulta

NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Margherita De Luca. São Paulo: Globo, 2005.

 

16 fevereiro 2012

O Estado Segundo Alguns Filósofos

Para Maquiavelo fim justifica os meios. O que conta para um político não é a substância, mas a imagem. Tendo em vista o bem comum, pode perfeitamente abandonar a ética individual. “Se necessário, o príncipe pode chegar até à traição; o importante é que justifique o seu comportamento com uma aparência de legitimidade”.  

Para Hobbes, o Estado soberano é um Deus mortal. Acha que o homem só cumpre a lei quando é atemorizado pelo Estado; quanto mais forte o Estado, menos serão as transgressões. “Hobbes foi o teórico do absolutismo político; considerava o Estado uma entidade digna de veneração, um Deus mortal pouco abaixo de Deus imortal, um Leviatã, o invencível monstro descrito na Bíblia (Livro de Jó)”.

Para Locke, a proteção do cidadão, com relação ao abuso de poder, assenta-se na divisão de poderes. Em se tratando do Estado, elucida, também, os limites da tolerância: “Uma sociedade democrática não pode aceitar qualquer seita secreta e obediente a um país estrangeiro, assim como não pode permitir o ateísmo, sinônimo de imoralidade e falta de responsabilidade”.

Para Rousseau, o Estado deve pautar-se pela vontade geral, e não a da maioria. É uma posição contrária à democracia: “O bem comum não pode ser estabelecido pela simples soma estatística das opiniões individuais – por exemplo, pelo voto, posto que somando tantos egoísmos não se obtém absolutamente altruísmo e consciência civil”.

Para Kant, o Estado deveria respeitar uma constituição republicana mundial. Mesmo reconhecendo que a agressividade é própria da psicologia humana, ainda assim crê firmemente na utopia pacifista. “Não poderiam existir guerras civis em um Estado de direito capaz de salvaguardar os princípios fundamentais da igualdade social, da liberdade individual, da representação e da divisão de poderes”.

Para Hegel, o Estado é uma família em ponto grande; é substância ética consciente de si mesma. Com isso, diviniza a noção de Estado. “Reafirmando a unidade interna típica da família (tese), e após ter passado pela dispersão da sociedade civil (antítese), o Estado coloca-se como um organismo vivo e necessariamente compacto e unitário, uma verdadeira família ampliada”.

Para Marx, a história é luta de classes. Em seu materialismo histórico e dialético, mostra as transformações da sociedade. Para tanto, baseia-se na dialética de Hegel. “O mundo feudal, o capitalismo burguês e a futura sociedade comunista são respectivamente a tese, a antítese e a síntese de uma tríade dialética global”.

Fonte de Consulta

NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Margherita De Luca. São Paulo: Globo, 2005.

 

14 fevereiro 2012

Moral e Política Segundo Alguns Filósofos

Para Maquiavelhá vícios benéficos e virtudes perniciosas. A moral, na política, não deve vir de fora, mas ser autonormativa. “Isso não significa que o príncipe (o chefe político) deva ser imoral ou indiferente ao bem e ao mal, mas que às vezes o que para um indivíduo é ruim (por exemplo, a crueldade) torna-se necessário ao governo do Estado”.

Para Voltairea discórdia é a peste, e a tolerância, o remédio. Defende que o respeito às opiniões alheias deveria provir do bom senso, ou seja, da nossa ignorância sobre qualquer problema de uma dada relevância. Isso se aplica à religião, à ciência e, principalmente, à política.

Para Rousseauo homem, nascido livre, está acorrentado. No seu Contrato Social, evoca a necessidade de cada pessoa renunciar a sua liberdade em prol da sociedade. “Somente um homem não mais educado na escola do egoísmo e da propriedade privada poderá fazer escolhas políticas com base não nos seus interesses particulares, mas tendo em vista o bem-estar do conjunto da sociedade, segundo o princípio da vontade geral”.

Para Fichtea sustentação da linguagem original confere ao povo alemão a sua supremacia sobre os demais. “Isso os torna os únicos depositários, no mundo moderno, da antiga sabedoria original e confere a eles o dever de civilizar o resto da humanidade”.

Para Nietzschedevemos ressaltar a moral dos vencedores e a dos perdedores. Na Grécia antiga a saúde, a juventude, a sexualidade, o orgulho da própria força eram considerados virtudes. O Cristianismo trouxe-nos a moral dos perdedores, pois “Os novos valores que se impuseram são ainda os mesmos pelos quais somos educados: o pudor do corpo, a vergonha da sexualidade, a humildade, o amor pela pobreza, a renúncia a viver em plenitude, o desejo da morte”.

Fonte de Consulta

NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Margherita De Luca. São Paulo: Globo, 2005.

 

13 fevereiro 2012

O Amor Segundo Alguns Filósofos

Para Platão, os tipos de amor estão dispostos numa escala hierárquica. O enamoramento pela beleza do corpo está situado no nível mais baixo. Complementa: “O amor passional, mesmo precisando ser superado para se alcançarem formas cada vez mais elevadas de espiritualidade, pode ser de alguma forma justificado como o início de um possível percurso de crescimento espiritual”.

Para Campanella, a raça humana deveria ser melhorada pela vigilância estatal sobre as atividades amorosas dos Solares. “Com base crença de que as conjunções astrais existentes no momento da concepção influem de modo decisivo sobre o nascituro, até mesmo a hora dos acasalamentos deveria ser determinada por Amor, um dos três técnicos que, junto com Sapiência e Potência, governam a cidade sob a direção político-filosófica de um Grande metafísico”.

Para Morus, a condição da mulher na Utopia é muito melhor daquela vivida em sua época. “As mulheres podem participar das atividades bélicas, mesmo se, afirma o filósofo, as melhores guerras são aquelas que não são necessário travar; em algumas circunstâncias podem obter o divórcio e, no caso de praticarem o adultério ou de manterem relações sexuais antes do casamento, são punidas exatamente como os homens”.

Para Kierkegaard, o sedutor é o instante fugaz. “A vida estética representada pela figura do Don Juan, protótipo do sedutor, é típica daquele que busca a máxima satisfação no tempo presente e foge a qualquer forma de repetição, procurando tornar inimitável e único cada instante de vida. O esteta abomina a monotonia, mas dado que o instante é sempre, por definição fugaz, chega logo ao tédio e ao desespero”.

Para Schopenhauer, não existe amor sem sexo. No sentimento do amor há uma ilusão: “Por trás de toda manifestação de amor, mesmo a mais pura e sutil, está o instinto procriador, uma escondida determinação biológica voltada ao acasalamento e á reprodução da espécie”.

Fonte de Consulta 

NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Margherita De Luca. São Paulo: Globo, 2005.

 

A Vida Segundo Alguns Filósofos

Para Pitágoras, o ar é cheio de almas. Foi o primeiro filósofo ocidental a sustentar a teoria da metempsicose. “Devido a uma culpa original, a alma é obrigada a reencarnar em sucessivas substâncias corpóreas (nem sempre humanas, mas também animais), em um ciclo que só é interrompido após a purificação”.    

Para Demócrito, a vida nasceu do vórtice atômico. Explica que “a agregação de átomos em corpos sólidos e compactos deve-se a fenômenos puramente mecânicos, particularmente à força centrípeta agregadora desenvolvida pelo movimento em vórtice”.

Para Giordano Bruno, o mundo é um grande animal. A sua tese é explicada da seguinte forma: “Tudo é vivo, porque cada parte da realidade, mesmo no mundo mineral, está presente um princípio formal e vital, ou seja, aquela estrutura interna, aquela necessidade que faz cada coisa ser o que é. O que chamamos mente não existe somente no homem mas também, obviamente de modo inconsciente, nos animais, nas plantas, nas gemas e nos minerais”.

Para Bérgson, a inteligência não explica a vida. Segundo seu ponto de vista, “a vida é um impulso construtivo que, a cada momento, explora todas as variações possíveis, sem seguir um projeto preciso; é uma onda que arrasta e ultrapassa qualquer obstáculo, sem nunca, todavia, abandoná-lo definitivamente”. Em cada reino da natureza, a vida foi vencendo os seus obstáculos. No reino hominal, tece comentários sobre o instinto e a inteligência: “O instinto animal está cercado por um halo de inteligência e a inteligência humana não funcionaria se não se baseasse também na contribuição do instinto”. Disto resulta que “a inteligência não consegue explicar a vida, mas a vida explica a inteligência”.

Fonte de Consulta

NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Margherita De Luca. São Paulo: Globo, 2005.

 

12 fevereiro 2012

O Significado de Pensar Segundo Alguns Filósofos

Para Heráclito, todos têm o logos, mas só os despertos o sabem. O logos é o pensamento, a razão, a inteligência, o discurso; é, também, o princípio de tudo, a lei que regula o funcionamento do cosmo. Todos participam do logos universal. “Alguns, os adormecidos, limitam-se às percepções imediatas, vivem como que num sonho e desenvolvem opiniões subjetivas; outros — os filósofos ou os despertos — utilizam o logos de modo consciente e conseguem penetrar profundamente na verdade da natureza”.

Para Parmênides, somente a razão vê o real. Os cinco sentidos testemunham toda a transformação da realidade. “É verdade que a vida cotidiana requer o uso dos órgãos dos sentidos, mas por meio deles não se chega à verdade. A razão, não o olho, vê o real”.

Para Sócrates, o fundamental é saber que não se sabe. A presunção do saber é o maior empecilho para a descoberta da verdade. “Sócrates defende esses argumentos com uma abordagem irônica e intencionalmente paradoxal: invertendo os valores do bom senso, o elogio socrático do não-saber provoca no interlocutor uma benéfica sacudida intelectual”.

Para Platão, o conhecimento é fruto da recordação. Para ele, “A alma conhece as coisas recuperando a lembrança adormecida daquilo que viu no mundo extraterreno antes de reencarnar”.

Para Cusa, o conhecimento assenta-se na douta ignorância. “Em relação a Deus, tudo o que se pode fazer é confessar a total impossibilidade de entender: o homem é como um caçador sempre em busca de uma presa em fuga, porque a sua mente, se de um lado pode conceber Deus como perfeição absoluta, do outro, é totalmente incapaz de preencher com conteúdos positivos essa ideia de perfeição”.

Para Descartes, deve-se usar o método para raciocinar corretamente. O pensamento científico deve se estruturar de forma diferente da do pensamento cotidiano. Acha que “a investigação científica deve ser absolutamente desinteressada, ou seja, indiferente a qualquer utilidade ou interesse social”.

Para Condillac, todo conhecimento deriva da experiência. Formula “uma doutrina completamente materialista e voltada para os sentidos: nada existe na mente humana senão as percepções que ela recebe do exterior a cada momento”.

Para Locke, a mente não inventa ideias. “A mente limita-se a reelaborar sob forma de abstração crescente dados e observações que recebe do exterior, segundo a fórmula empirista nada existe no intelecto que não tenha antes passado pela percepção”.

Para Kant, em toda a sensação existe um a priori. “A vista não funciona como uma máquina fotográfica: uma parte da percepção (a sua forma) depende exclusivamente do sujeito, dos esquemas a priori (espaço-temporais) que estruturam a sua psique”.

Para Hegel, tudo aquilo que dizemos finito não existe. O finito deve ser estudado como parte de um todo. “O finito existe unicamente como parte do infinito e em cada coisa existente se pode perceber o desenvolvimento necessário do espírito”.

Fonte de Consulta

NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Margherita De Luca. São Paulo: Globo, 2005.

 

A Linguagem Segundo Alguns Filósofos

Para Parmênides, a linguagem consiste na doutrina do ser, sintetizada na célebre fórmula o ser é, o não-ser não é. A sua argumentação baseia-se no seguinte: “Enquanto aquilo-que-é pode ser dito — portanto, pensado —, aquilo-que-não-é afasta-se, por definição, de qualquer formulação linguística e intelectual. É impossível pensar o nada. No cotidiano, usamos o verbo ser de modo impróprio e acabamos por atribuir realidade a condições de ausência, a coisas que não existem: a escuridão e o silêncio, por exemplo, são condições de não-ser da luz e do som, portanto, pela lógica não existem”.

Para Górgias, a linguagem fundamenta-se no poder mágico das palavras. Para tal demonstra a não-culpabilidade de Helena na Guerra de Troia. Argumenta que Helena foi raptada contra a sua vontade, mas não com violência, pois teria sido seduzida pelas palavras de Paris. Usando com destreza a linguagem, pode-se produzir modificações físicas em que escuta: rubor, medo, simpatia, antipatia etc.

Para Demócrito, as palavras são estranhas às coisas que representam. São simplesmente sinais convencionais. Nas diversas línguas empregam-se nomes diferentes para o mesmo objeto. “As palavras não possuem, em si, como som, nenhum significado; são puras convenções que adquirem sentido somente pelo uso comum com base no critério de utilidade recíproca”.

Para Rousseau, a linguagem nasceu sob o estímulo das emoções, não da utilidade social, como sustentava Demócrito. “Para resolver todos os problemas práticos da vida bastam os gestos e as ações; é somente para significar o amor e o ódio que as palavras se tornam imprescindíveis. A primeira linguagem dos homens era, portanto, poética, expressiva, ligada aos estados de ânimo. Depois vieram as gramáticas: ganhou-se em clareza, mas perdeu-se em poesia”.

Para Hobbes, as operações mentais são reduzidas a um puro cálculo matemático. O pensamento e a linguagem podem ser descritos por meio da composição e decomposição de palavras e sinais: “Dois termos são adicionados em uma afirmação e subtraídos na negação; quanto mais afirmações se adicionam em uma dedução, mais deduções concatenadas entre si formam a demonstração. Raciocinar é, portanto, computar, ou seja subtrair, somar, calcular”.

Fonte de Consulta

NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Margherita De Luca. São Paulo: Globo, 2005.

 

A Paz Possível Segundo Alguns Filósofos

Para Heráclito, a guerra é pai de todas as coisas. O devir se realiza por meio de uma contínua passagem de um contrário ao outro. Daí, parecer que a guerra é o que regula o mundo. Isto é verdade, mas muito superficial, ou seja, sob o antagonismo dominante, pode-se perceber uma lei de harmonia, porque as coisas em oposição, para existir, precisam umas das outras. “Entre os opostos há uma guerra constante, mas também uma secreta harmonia, uma mútua necessidade: não existiria saúde sem doença, saciedade sem fome. Dito de outra forma: não pode existir uma subida que, ao mesmo tempo, de um outro ponto de vista, não seja também uma descida”.

Para Maquiavel, a moderação é necessária, mas a bondade sistemática compromete a ordem da sociedade, produzindo danos maiores do que o uso da violência. “Certamente, o ideal, para o príncipe, seria ser ao mesmo tempo amado e temido, mas na prática as duas coisas não são facilmente conciliáveis. Quem governa o Estado, portanto, deve decidir a cada vez com base na oportunidade. Em todo caso, o que não deve fazer é submeter as práticas de governo às normas que regem a ética individual”.

Para Voltaire, o fanatismo é uma apologia da alma e, portanto, não deve se combatido. Enfrentar um fanático, fazendo-o entender, pela lógica, a inconsistência de suas teses, é perda de tempo e pode agravar o mal. “Superstição e preconceitos não podem ser desmentidos com argumentações lógicas, porque não nascem no terreno da razão. Resta a risada como único remédio nos casos extremos, o gracejo capaz de desmontar a agressividade. Mas isso nem sempre é possível e permanece sem resposta o problema que conclui o trecho: o que fazer quando um fanático tenta degolar-vos porque está convencido de que esta é a vontade de Deus?”

Para Kant, a paz mundial de todas as nações do mundo só seria possível se estas se reunissem numa federação unitária de Estados livres e instaurasse um direito internacional fundado numa constituição liberal no nível planetário. “Apesar da impossibilidade de eliminar o antagonismo presente nas relações humanas, a paz perpétua e a coexistência pacífica entre os povos são possíveis e realizáveis desde que se estendam no nível internacional os princípios de justiça social elaborados pelas constituições em vigor nos Estados liberais”.

Para Hegel, criticando Kant, nunca poderia existir uma república da humanidade, posto que não existe um espírito da humanidade, mas somente um espírito dos povos. Acha que “A soberania política deve residir exclusivamente no estado nacional, e dado que as nações, entre si, se encontram numa condição natural, de ausência de qualquer forma de contratualidade recíproca, resulta que a guerra continua sendo o único modo de resolver as divergências. Todavia, não somente a guerra é inevitável; ela também é necessária à saúde espiritual dos povos, cuja união (autoconsciência) se fortalece definindo-se por oposição ao inimigo”.

Para Freud, a agressividade deve ser inclusa entre os dons instintivos do homem – e, portanto, não elimináveis. “O desenvolvimento da civilização certamente impôs um autocontrole cada vez maior, fazendo com que o indivíduo moderno consiga vigiar sua própria conduta de modo muito mais rígido do que no passado. Tudo isso, porém, não é fruto de um crescimento geral, de uma mutação do homem em sentido pacifista, mas de pura e simples auto-repressão interior”.

Fonte de Consulta

NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Margherita De Luca. São Paulo: Globo, 2005.

11 fevereiro 2012

A História é Progresso Segundo Alguns Filósofos

Para Comte, o progresso resume-se na sua lei dos três estados: o estado teológico representa a infância da humanidade; o metafísico, a juventude; e o positivismo, a maturidade. “A humanidade na sua origem vivia numa condição espiritual teológica ou fictícia: todo o evento natural era explicado pela intervenção de potências sobrenaturais mais ou menos numerosas. O nascimento da filosofia na antiga Grécia sugeriu explicações igualmente abstratas, mesmo se não mais de origem mítica, tais como a essência, a causa final e outras noções elaboradas pela metafísica. São todos conceitos que não significam nada, pois tentam somente explicar a natureza com palavras apropriadas: como dizer que o fogo aquece porque contém a virtude calorífica ou porque possui a essência do calor. O terceiro estado, científico ou positivo, renuncia a colocar-se perguntas sobre a íntima natureza das coisas, limitando-se, com maior modéstia, mas resultados fecundos, a individuar as leis que regem o mundo físico”.

Para Marx, a classe burguesa nasce da superação da classe feudal, dando origem à sociedade capitalista. “Mas, pela lei do devir dialético, o desenvolvimento do capitalismo comporta o surgimento do proletariado e das contradições que produzirão a sua superação. A sociedade comunista não nascerá em consequência de uma tensão ética e utópica, de pregações moralistas contra os desastres sociais produzidos pela propriedade privada, mas acabará inevitavelmente por se impor, como única solução possível do desenvolvimento histórico. Logo, a revolução proletária é absolutamente inevitável: não é um ato de justiça, porque a classe operária não tem qualquer ideal a realizar, mas o necessário resultado do devir real da história. O comunismo não é um ideal ao qual a realidade terá que se conformar, mas o movimento real que abole o estado de coisas existente”.

Para Darwin, o progresso fundamenta-se em sua teoria da evolução biológica: o mecanismo da seleção determinaria um avanço, lento, mas contínuo e progressivo, das formas de vida para estados cada vez mais complexos e aperfeiçoados. A crítica: “As Coisas não são bem assim: a natureza não é econômica, mas perdulária, porque desperdiça uma enorme massa de energia em tentativas evolutivas destinadas ao fracasso; não é nem mesmo inteligente, porque não faz escolhas, mas persegue todas as soluções possíveis; não se parece absolutamente com um engenheiro que realiza um projeto, mas talvez com um funileiro que repara os buracos conforme a necessidade do momento. Logo, a espécie humana não representa o ponto mais alto de um percurso orientado, mas somente um dos muitos possíveis resultados da evolução”.

Para Croce, a realidade, mesmo nos seus aspectos mais multiformes, está toda inserida no interior de um único processo de desenvolvimento, capaz de unir, reciprocamente, por meio da sucessão de tese, antítese e síntese, a natureza e o espírito, a matéria e a inteligência. Croce acha que esse sistema totalizante deve ser rompido em quatro setores distintos: a arte, a filosofia, a economia e a ética. “Somente no interior de cada um desses blocos valem as oposições dialéticas hegelianas (belo/feio, verdadeiro/falso, útil/inútil, bem/mal), mas no exterior, entre os diversos momentos da espiritualidade, existe apenas a distinção. Cada uma das quatro formas do espírito, em suma, possui uma dinâmica própria interna e um âmbito próprio de aplicação não comensurável com as outras. A arte é conhecimento intuitivo do particular; a filosofia é conhecimento lógico do universal; a economia é a investigação da utilidade particular; a moral, a busca da utilidade universal. Porém, distinção não significa incomunicabilidade absoluta, porque cada um desses momentos condiciona o seguinte. A arte coloca sugestões à filosofia, as duas artes práticas (economia e moral) são valorizadas pelo conhecimento acumulado nas artes teóricas (arte e filosofia). Em resumo: a vida do espírito não se desenvolve em sentido linear, como imaginava Hegel, mas por meio de uma circularidade entre esses quatro momentos”.

Para Husserl, a crise da ciência não é interior às disciplinas específicas. “Se, por exemplo, o estudo da história, como afirma a ciência positivista, deve limitar-se aos fatos documentáveis, reduzir-se-á a história inteira da humanidade a uma sucessão cíclica de civilizações que a cada vez nascem, desenvolvem-se e morrem, sem nem mesmo tentar identificar o sentido de tal percurso. É verdade que não existe em absoluto um sentido da história e que qualquer pesquisa de um seu significado último se reduz a uma interpretação, um ponto de vista condicionado, se não por outra coisa, pela subjetividade do historiador. Tudo isso é o que o Positivismo procurava evitar, perseguindo um ideal de impessoalidade e objetividade da ciência; todavia, observa Husserl, é, em suma, a única coisa que conta, quando não se considera o estudo da história como uma atividade desligada da vida”.

Fonte de Consulta

NICOLA, Ubaldo. Antologia Ilustrada de Filosofia: das Origens à Idade Moderna. Tradução de Margherita De Luca. São Paulo: Globo, 2005. (Cópia de textos)