07 janeiro 2026

Pensamento Positivo — ou Negativo?

O pensamento positivo foca em resultados favoráveis e soluções, buscando crescimento e bem-estar. Nasce no New Thought (século XIX), passa pela autossugestão e primeiras correntes psicológicas, é popularizado por Norman Vincent Peale nos anos 1950, depois é revisitado de forma científica pela Psicologia Positiva moderna. 

O pensamento negativo é um padrão mental focado em autocrítica, pessimismo e preocupação excessiva sobre falhas passadas ou medos futuros, caracterizado por interpretações distorcidas da realidade e julgamentos severos sobre si mesmo, os outros e o mundo. Esse comportamento doentio pode afetar o bem-estar emocional, tendo como consequência, o aparecimento da ansiedade e da depressão se não gerenciado corretamente. 

Na filosofia, o "pensamento negativo" tem significados distintos, que variam desde uma abordagem crítica e dialética para questionar o status quo até o pessimismo filosófico que argumenta que a existência é fundamentalmente sofrida. Ele não se resume ao conceito psicológico de pensamentos prejudiciais do dia a dia

Qual tipo de pensamento é mais poderoso: o negativo ou o positivo? Nenhum dos dois é mais poderoso em todas as situações. O pensamento negativo parece mais forte, porque o cérebro humano tem o chamado viés de negatividade, ou seja, lembramos mais de eventos e emoções negativos, pois o cérebro prioriza riscos e ameaças. Isso vem da evolução: prestar atenção ao perigo aumentava as chances de sobrevivência.

Então… qual é melhor? O pensamento negativo é útil para analisar riscos. O pensamento positivo é útil para agir com confiança e continuar avançando. O mais “poderoso”, na prática, é o equilíbrio: pensamento crítico para avaliar ameaças; otimismo realista para seguir adiante. Em outras palavras, usar o negativo para enxergar o problema; o positivo, para construir a solução.

Sobre a autoajuda. A autoajuda é valiosa quando inspira reflexão e mudança consciente, mas pode ser prejudicial quando promete soluções fáceis para problemas complexos. Ela funciona melhor quando é crítica, realista e aplicada à própria experiência. A autoajuda pode ajudar a crescer ou iludir, dependendo do uso. O ideal é encará-la como ferramenta, não como verdade absoluta.

O meio-termo proposto por Aristóteles é o fundamento do pensamento crítico. Em tudo o que se nos apresenta à mente, ponderemos, analisemos os prós e os contras e teremos uma visão mais clara da realidade.

Fonte de Consulta

IA

06 janeiro 2026

O ChatGPT e o Pensar

Questão: o ChatGPT ajuda-nos a pensar ou pensa por nós?

Em sua resposta, o ChatGPT procurou explicar o significado do pensar no sentido humano, esclarecendo-nos que envolve coisas como dar sentido à experiência, fazer julgamento de valor, decidir o que é importante, ter intuição, criatividade, emoções e intenções. Esses elementos não existem em um modelo de linguagem. Nesse sentido, o ChatGPT ajuda-nos a pensar, mas não pensa por nós.

O que o ChatGPT faz, então? Reconhece padrões em textos, combina informações, propõe possibilidades, organiza ideias e caminhos, oferece contrapontos e alternativas. Consequentemente, isso pode acelerar o nosso raciocínio, ampliar nossas perspectivas, estruturar nossos argumentos e sugerir-nos outros ângulos de análise. Em outras palavras, funciona como uma ferramenta de pensamento, não um substituto do pensar.

Quando o ChatGPT “parece” estar pensando por nós? Isso acontece quando aceitamos as respostas sem questionar, usamos o modelo como autoridade final e delegamos o julgamento crítico. Nesse caso, o risco não é a IA “pensar demais” — é nós pensarmos de menos. Lembremo-nos de que toda ferramenta forte exige uso crítico. Qual o melhor modo de atuação? Termos sempre a IA como parceira do raciocínio, no sentido de explorar ideias, testar hipóteses, pedir contra-argumentos, organizar pensamentos e aprender a revisar conceitos.

Em termos filosóficos, o ChatGPT não tem consciência, quer dizer, não pensa no sentido forte, não compreende, apenas manipula linguagem. Logo, não produz sentido existencial. Mas, pode funcionar como extensão do pensamento humano, ampliando possibilidades de reflexão e diálogo. Assim, numa leitura filosófica, ele não pensa por nós, contudo pode modificar a maneira como pensamos.

Ética e responsabilidade moral. Do ponto de vista moral, a IA não pensa no sentido responsável do termo, pois pensar exige consciência, valores e decisão. Logo, não há transferência de responsabilidade. O risco ético não é a IA “pensar por nós”, mas nós deixarmos de pensar por nós mesmos. Dessa forma, o uso eticamente maduro é utilizar a IA como apoio ao raciocínio, mantendo a autonomia, o julgamento e a responsabilidade humanos.

Autoria e criatividade. A dúvida que surge: quem é o autor? quem cria? onde está a originalidade? De acordo com o ChatGPT, em termos éticos e filosóficos, a IA não é autora, não cria com intenção ou experiência, não produz sentido próprio. Ela pode ampliar o processo criativo, enriquecer a reflexão e estimular novas formas de expressão. Mas, a autenticidade, a decisão estética e a responsabilidade criadora permanecem humanas.

Fonte de Consulta

ChatGPT

 

06 dezembro 2025

Arrependimento

Arrependimento. Angustiante reconhecimento da culpa.  É um sentimento de pesar ou remorso que surge quando uma pessoa acredita que cometeu uma ação errada ou fez algo que não deveria ter feito. Percepção de que a escolha teve repercussões negativas para si mesma ou para outras pessoas. Pode ser em relação ao passado como ao futuro (decisões adiadas e, caso tivessem sido tomadas, os resultados poderiam ser completamente diferentes).  

Nas 95 Teses, documento escrito por Martinho Lutero (1483-1546) que questionava práticas da Igreja Católica, especialmente a venda de indulgências, e afixada, em 31 de outubro de 1517, na porta da Igreja do castelo de Wittenberg, há alusão ao arrependimento verdadeiro, ou seja, o perdão dos pecados vem do arrependimento sincero, não de pagamentos. Lutero abre as teses afirmando que o arrependimento verdadeiro é uma mudança contínua de vida, não algo que pode ser resolvido com um simples pagamento ou ritual.

Para a religião, a liberdade identifica-se com o sacrifício. As propostas são de renúncia à própria personalidade, de obediência à vontade de Deus e de arrependimento pelas más ações cometidas. Procedendo desta forma, vivenciaremos plenamente o bem e tornar-nos-emos bem-aventurados no reino dos céus. Lá receberemos as recompensas pelo esquecimento da injúria, pelo perdão concedido aos nossos ofensores e pela quietude do espírito nas situações críticas da existência.

Os filósofos estão de acordo em admitir o valor moral do arrependimento. Espinosa, embora julgue que o arrependimento “Não é uma virtude, isto é, não deriva da razão” e que, portanto, quem se arrepende é duplamente miserando e impotente (uma vez porque agiu mal e depois porque se aflige com isso), reconhece que aquele que está submetido ao arrependimento pode, todavia, a voltar a viver segundo a razão muito mais facilmente do que os outros. Montaigne, que dedicou ao arrependimento um de seus ensaios mais notáveis, observara, porém, que o arrependimento não deve transformar-se no desejo “de ser outro”. (1)   

Para Schopenhauer, o arrependimento não é sobre a vontade mudar (o que é impossível), mas sobre o conhecimento mudar, levando a pessoa a se arrepender do que fez em vez do que quis, pois agiu sob falsas noções; ele é uma forma de o caráter adquirido (o eu) se aperfeiçoar, revelando uma discrepância entre o querer e o fazer, um tormento que, ao ser reconhecido, pode levar à negação da Vontade de Vida e à paz interior, mas também pode ser visto como um sofrimento pela descoberta de sua própria essência imutável. (2)

(1) ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

(2) Vista geral de IA

11 outubro 2025

Mantra

Mantra — do sânscrito man ou manas (mente) e tra (instrumento ou ferramenta) —, significa literalmente “instrumento da mente” ou “ferramenta para direcionar o pensamento”. Um mantra é uma repetição focalizada de sílabas, palavras ou frases que ajudam a concentrar a mente e o corpo, favorecendo processos de transformação interior. Sua prática combina som, ritmo e intenção, permitindo que o indivíduo encontre um estado de serenidade e clareza mental.

A origem dos mantras remonta à Índia, por volta de 1500 a.C., especialmente aos Vedas, os textos sagrados mais antigos do hinduísmo. Para os védicos, o mantra era uma fórmula sagrada composta de sons e sílabas com o poder de invocar, proteger ou transformar a consciência. Esses sons eram considerados vibrações espiritualmente eficazes, utilizadas em rituais, meditação e devoção. Um mantra amplamente reconhecido é o som primordial Om, que, segundo os Upanixades, representa toda a criação e a unidade de todas as coisas do universo.

Fora das tradições religiosas, passou a designar qualquer frase repetida com frequência que contenha uma verdade essencial ou um princípio orientador. Exemplos disso são expressões como “um dia de cada vez” ou “fazer o bem sem ostentação”. O psicólogo e farmacêutico francês Émile Coué (1857–1926) adotou esse princípio em sua famosa fórmula: “Todos os dias, de todas as maneiras, estou cada vez melhor” (Tous les jours, à tous points de vue, je vais de mieux en mieux), posteriormente adaptada no Brasil para “Todos os dias, sob todos os aspectos, eu vou cada vez melhor”.

Coué foi o criador do método da autosugestão consciente, uma forma de reprogramação mental baseada na repetição positiva. Ele acreditava que a imaginação e a crença influenciam diretamente o comportamento e a saúde. Por isso, recomendava repetir sua frase preferida duas vezes por dia, vinte vezes seguidas, com calma e convicção, para reeducar o inconsciente. 

A neurociência contemporânea entende o mantra como uma forma de repetição sonora e rítmica que ajuda a focar a atenção, reduzir a dispersão mental e induzir estados de calma. Estudos indicam que essa prática diminui a atividade do córtex pré-frontal — área associada à preocupação e ao pensamento analítico —, enquanto ativa o sistema límbico, ligado às emoções, e regula o sistema nervoso autônomo. 

Com relação ao sistema nervoso, temos: 1) benefícios fisiológicos: redução da frequência cardíaca, da pressão arterial e o relaxamento muscular; 2) benefícios psicológicos: diminuição da ansiedade, o aumento da clareza mental, o foco e a sensação de bem-estar. 

Em síntese, repetir um mantra acalma o cérebro, regula a respiração e harmoniza corpo e mente. 

Fonte de Consulta

ARP, Robert (Editor). 1001 Ideias que Mudaram a Nossa Forma de Pensar. Tradução Andre Fiker, Ivo Korytowski, Bruno Alexander, Paulo Polzonoff Jr e Pedro Jorgensen. Rio de Janeiro: Sextante, 2014.

ChatGPT (inclusive com sua ajuda para melhorar o texto final).

27 setembro 2025

História da Filosofia: uma Síntese

SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Considerações Iniciais. 3. Filosofia Antiga: 3.1. Pré-Socráticos; . 3.2. Período Clássico ou Grego Romano. 4. Filosofia Medieval. 5. Filosofia Moderna. 6. Filosofia Contemporânea. 7. Conclusão. 8. Bibliografia Consultada.

1. INTRODUÇÃO

O objetivo deste trabalho é sintetizar a história da filosofia, salientando os aspectos relevantes em cada um de seus períodos: filosofia antiga, filosofia medieval, filosofia moderna e filosofia contemporânea.

2. CONSIDERAÇÕES INICIAIS

A filosofia difere da ciência, porque necessita da história. Nenhum filósofo começa do zero, mas acrescenta ao que o filósofo precedente já descobriu. Pode-se dizer que a história da filosofia é a soma das contribuições que cada filósofo deu ao quebra-cabeça que é a experiência humana. Vem um filósofo e dá uma solução, e todos aclamam como a melhor; tempo mais tarde, vem outro e dá outra solução para o mesmo problema, e assim sucede no tempo.

12 setembro 2025

Empirismo e Racionalismo

“Pensamentos sem conteúdo são vazios; intuições sem conceitos são cegas.” (Kant)

Desde tempos remotos, tanto o empírico quanto o racional sempre tiveram os seus defensores. A tradição filosófica nos mostra duas posições clássicas diante do conhecimento: a platônica ou socrático-platônica, que envolve a questão da reminiscência, das ideias inatas, e a sofistica ou empírica que se refere apenas aos nossos sentidos. Há entre esses dois campos numerosas escolas e subescolas. Este problema perdurou ao longo dos séculos.

Sobre a origem do conhecimento. Para o empirismo, o conhecimento nasce da experiência sensível (dos sentidos). A mente é uma “página em branco” que vai sendo preenchida. Para o racionalismo, o conhecimento verdadeiro tem origem na razão. A experiência pode enganar; a mente já traz princípios inatos ou lógicos que orientam o saber. John Locke, George Berkeley e David Hume são os defensores do empirismo; René Descartes, Baruch de Spinoza, Gottfried Leibniz, do racionalismo.

O papel da percepção. Para o empirismo, a percepção é o ponto de partida de todo conhecimento. A mente — tabula rasa (Locke) —, começa absorvendo as ideias simples (cor, forma, som). Depois, essas ideias simples vão se tornando mais complexas (cadeira, amizade, justiça). Tudo começa com a experiência sensível. Para o racionalismo, a percepção pode enganar; só a razão garante certeza.

Sobre o Método. Para o empirismo, utilizamos o método indutivo, base da ciência experimental moderna (observação — hipótese — teste). Em se tratando do racionalismo, aplicamos o método dedutivo, como na matemática e na lógica (partir de princípios evidentes — deduzir consequências).

Interligação entre empirismo e racionalismo. Muitos filósofos posteriores (como Kant) perceberam que razão e experiência são inseparáveis: A experiência fornece o conteúdo.  A razão fornece a forma, a organização e os princípios. Exemplo: na ciência moderna, a observação empírica é indispensável, mas só ganha sentido quando analisada por hipóteses e raciocínios lógicos. São faces complementares da busca da verdade.

Em síntese, o método científico moderno equilibra percepção (empírica) e razão (racional) para construir um conhecimento mais confiável.

09 setembro 2025

Ilusão: Entre Aparência e Realidade

A ilusão é algo mais que um simples erro. O erro, uma vez identificado, pode ser corrigido e desaparecer. Já a ilusão persiste mesmo quando foi desmascarada. Continuamos a percebê-la e a senti-la, ainda que saibamos intelectualmente que se trata de uma falsidade. Exemplo clássico: embora tenhamos conhecimento astronômico de que a Terra gira em torno do Sol, a experiência sensível cotidiana insiste em nos mostrar o contrário.

Essa permanência da ilusão revela sua força: ela não se limita a enganar os sentidos, mas envolve nossa forma de pensar, sentir e agir no mundo. Diversos filósofos, em épocas diferentes, dedicaram-se a investigar esse fenômeno que atravessa a história da humanidade.

A Alegoria da Caverna: A Força Trágica da Ilusão

Platão, em sua célebre Alegoria da Caverna, mostra como os homens, desde a infância, podem estar prisioneiros de aparências que confundem com a realidade. Presos e de frente para a parede, veem apenas sombras e acreditam que estas são a verdade. O simples gesto de virar a cabeça, que poderia libertá-los, mostra-se quase impossível: a ilusão oferece conforto e segurança, enquanto a verdade exige coragem, risco e ruptura.

As Ilusões da Razão

Séculos depois, Immanuel Kant chama atenção para outro aspecto: nem sempre a ilusão nasce dos sentidos. A própria razão, ao ultrapassar seus limites, cria ilusões inevitáveis. As ideias de Deus, da alma imortal ou da bondade natural do ser humano são produtos da razão que não podem ser provados nem refutados. Funcionam como horizontes de sentido, que orientam a vida, mas não como verdades demonstráveis.

Ilusão e Ideologia

Karl Marx, no século XIX, interpreta a ilusão em termos sociais e históricos. Para ele, as ideias que circulam em uma sociedade — aquilo que se chama ideologia — não são neutras. Elas expressam, na verdade, interesses ocultos, frequentemente vinculados à manutenção de relações de poder. As pessoas acreditam estar buscando a verdade, quando, de fato, estão sustentando crenças que servem a propósitos muitas vezes inconscientes ou coletivos.

A Ilusão da Diversão

Blaise Pascal, no século XVII, descreve a condição humana como frágil e trágica: somos seres insignificantes, condenados à ignorância e à morte. Para escapar dessa miséria, recorremos à “diversão”, isto é, a qualquer atividade que nos afaste da reflexão sobre nós mesmos: jogos, trabalho, até mesmo a guerra. A diversão, nesse sentido, não é simples lazer, mas um mecanismo de ilusão que nos protege da angústia existencial.

A Ilusão Vital

Para Nietzsche, entretanto, a vida não comporta refúgios definitivos. Se tudo é aparência, ilusão e máscara, resta-nos aprender a conviver com isso sem recorrer a consolos metafísicos. O erro está em acreditar que a vida precisa nos oferecer segurança ou sentido. Pelo contrário: viver é assumir a fragilidade e a instabilidade do real. A ilusão, nesse caso, não é um obstáculo a ser superado, mas uma condição vital que exige coragem para ser sustentada.

Conclusão: Viver entre Aparências

Da caverna de Platão ao perspectivismo de Nietzsche, a filosofia mostra que a ilusão é parte constitutiva da experiência humana. Ela pode escravizar ou libertar, esconder ou revelar, confortar ou desafiar. O importante talvez não seja eliminá-la — tarefa impossível —, mas aprender a lidar com ela de modo crítico e criativo. Viver num mundo de aparências exige um valor especial: a capacidade de reconhecer a ilusão sem deixar de afirmar a vida.

Fonte de Consulta

Atlas Básico de Filosofia. Textos de Hector Leguizamón. Tradução de Ciro Mioranza. São Paulo: Escala Educacional, 2007. [Texto melhorado pelo ChatGPT] 

 

04 setembro 2025

Adversidade

Adversidade — Refere-se a uma situação, condição ou evento que representa um obstáculo, dificuldade, ou desafio na vida de uma pessoa. São circunstâncias desfavoráveis que podem gerar sofrimento, estresse, frustração e até mesmo perdas. Martin Heidegger expressou, em sua filosofia, que de alguma forma somos lançados no mundo e não conseguimos nunca encontrar um ponto de apoio firme.

Tenhamos em mente que a adversidade é inevitável. Cabe-nos, em razão disso, tirar proveito das diversas situações em que nos encontrarmos. Observe que a mente humana é intolerante a limitações e restrições: ela reflete sobre o passado e lança planos para o futuro. Esse trabalho de imaginação gera desconforto, tensão, pois a capacidade de enxergar quantas coisas poderiam ser diferentes das do que são enfatiza a insaciabilidade inerente à alma.

Cada um de nós é fonte de muitas sensações positivas e negativas, “um moinho de desejos”, em que tudo se esvai rapidamente. Platão, por exemplo, via os seres humanos como baldes furados: despeje agua neles e, em vez de permanecer no lugar, ela vaza toda pelo fundo. Possuímos desejos, mas ao mesmo tempo estamos presos a eles. A própria atividade humana é uma forma de distração, uma tentativa de nos livrarmos da sensação do vazio.

Algumas notas: 1) apesar da utilidade das redes sociais, elas tendem muito mais para distrações; 2) vício em drogas, álcool, o jogo e a obesidade servem exclusivamente para preencher o espaço vazio que nos assombra; 3) fugir ao tédio [sensação de vazio existencial] é buscar algo novo, no sentido de contornar a confusão interior; 4) o budismo elaborou técnicas mentais para aceitar o vazio dentro de nós.

Administrando a adversidade: 1) a primeira coisa é aceitar que a vida nunca estará inteiramente livre da adversidade; 2) praticar o olhar cético, entendendo que as coisas que não sabemos são muito maiores das que sabemos acerca da condição humana; 3) a vida é misteriosa e nossas ações obscuras; 4) não permitir que nossa opinião enalteça a convicção de que sabemos; 5) aqueles que acham ter as respostas ficam geralmente muito ácidos para impô-las aos outros.

A maneira como as pessoas reagem à adversidade é o que a torna um conceito tão importante. Lidar com a adversidade pode ajudar a desenvolver resiliência, força interior e capacidade de adaptação. É um catalisador para o crescimento pessoal, pois nos força a confrontar nossas limitações e a encontrar novas soluções e perspectivas.

Para reflexão

"Suportar a nossa sina é vencê-la." (Thomas Campbell) / "Na adversidade a maior consolação é a consciência das boas ações." (Cícero) / "Um homem habituado à adversidade, dificilmente se abate." (Samuel Johnson) / "À beira de um precipício só há uma maneira de andar para a frente: é dar um passo atrás". (M. de Montaigne) / "A adversidade é nossa mãe, a prosperidade é apenas a nossa madrasta." (Montesquieu) / "Quem não sabe suportar contrariedades nunca terá acesso às coisas grandiosas." (Provérbio Chinês) / "O pessimista queixa-se do vento, o otimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas." (William George Ward).


02 setembro 2025

Lógica e Argumentação

“Uma das razões mais importantes para estudar filosofia é aprender a formar e defender pontos de vista próprios.” — MARK SAINSBURY

lógica é o estudo dos princípios que orientam o raciocínio correto. É uma disciplina que estuda a validade dos raciocínios, ou seja, se as conclusões realmente decorrem das premissas. A argumentação é o uso desses princípios com a finalidade de defender uma ideia, refutar uma objeção ou construir um discurso convincente. São as razões apresentadas para sustentar uma conclusão, tendo como objetivo convencer, persuadir, explicar.

lógica permite-nos fazer o seguinte: 1) distinguir os argumentos corretos dos incorretos; 2) compreender por que razão uns são corretos e outros não; e 3) aprender a argumentar corretamente. Divide-se: 1) lógica formal: trabalha com estruturas abstratas (ex.: “Se todos os homens são mortais e Sócrates é homem, então Sócrates é mortal”); 2) lógica informal: aplicada ao cotidiano, analisa falácias, coerência e clareza dos argumentos.

Os elementos da argumentação são: 1) Tese (ideia principal a defender); 2) Argumentos (razões que sustentam a tese); 3) Exemplos/provas (dados, estatísticas, analogias, autoridades). Em relação à estrutura do raciocínio, temos: 1) Premissa maior: regra geral; 2) Premissa menor: caso particular; 3) Conclusão: consequência lógica. Exemplo: Todos os políticos são cidadãos. / João é político. / Logo, João é cidadão.

No estudo de lógica e argumentação, não podemos nos esquecer das falácias. Entre as falácias mais comuns, temos: ad hominem: atacar a pessoa em vez do argumento; apelo à autoridade: usar autoridade sem relação com o tema; falsa causa: assumir que uma coisa causa a outra sem prova; generalização apressada: tirar regra geral de poucos casos. Muitas vezes, distingue-se falácias de sofismas, havendo no segundo caso a intenção de enganar.

As boas práticas de argumentação podem ser resumidas: clareza: evitar ambiguidades; coerência: premissas devem se conectar; evidência: usar dados, exemplos, lógica; Refutação: prever e responder objeções.

Falácia: Raciocínio falso ou um argumento logicamente incorreto que aparenta ser válido, mas que falha em sustentar a conclusão de forma coerente.

15 agosto 2025

Só Sei que Nada Sei

A frase “só sei que nada sei” é atribuída a Sócrates, mas não há registro dela. A origem encontra-se na declaração da sacerdotisa do templo de Delfos, onde diz que dentre os atenienses, Sócrates é o mais sábio. Este fica perplexo porque não tem teoria alguma, tal como Heráclito (c. 500 a.C.), Parmênides (c. 515-445 a.C.) ou os atomistas Leucipo (c. 450-420 a.C.) e Demócrito (c. 460-371 a.C.).

Para construir o seu conhecimento, Sócrates questiona as pessoas que julga serem mais sábias do que ele, e descobre a controvérsia: eles pensavam que sabiam o que não sabiam. Sócrates faz, então, a seguinte reflexão, depois de conversar com um deles: “Sou, sem dúvida, mais sábio que este homem. É muito possível que qualquer um de nós nada saiba de belo nem de bom; mas ele julga que sabe alguma coisa, embora não saiba, ao passo que eu nem sei nem julgo saber. Parece-me, pois, que sou algo mais sábio do que ele, na precisa medida em que não julgo saber aquilo que ignoro”. (Apologia, 21 d) É desta passagem da Apologia que nos chegou a expressão “só sei que nada sei”.

O sentido filosófico da frase refere-se à ignorância. “Só sei que nada sei” é uma espécie de tomada de consciência da ignorância. A reflexão sobre este assunto é útil, pois nos chama a atenção à humildade diante de qualquer conhecimento. Podemos saber muito, mas há muito mais a explorar. É isso que Sócrates procura nos advertir quando procura uma pessoa entendida num determinado ramo do saber. Depois de várias perguntas, o interlocutor acaba se contradizendo. Quer dizer, o interlocutor pensa que sabe, mas não sabe.

Um pouco de lógica. Em lógica formal, se você realmente não sabe nada, então não poderia ter certeza de absolutamente nada — nem mesmo de que não sabe. Mas aqui, “sei” não é literal no sentido absoluto; é usado para expressar um nível de consciência sobre a própria ignorância. Assim, o “paradoxo” é mais retórico do que uma contradição lógica insolúvel. Ele funciona como uma provocação filosófica. Para evitar o paradoxo, basta reformular a frase de forma que não haja contradição lógica entre “saber” e “não saber”. Em vez de "sei que nada sei", dizer: “Acredito que sei muito pouco.” “Tenho consciência de que meu conhecimento é limitado.” “Sei que o que sei é pouco diante do que há para saber.”

A manutenção do paradoxo é muito útil. O “choque” lógico obriga a pensar: se a pessoa “sabe” que “não sabe”, então há um tipo de saber que nasce da consciência da ignorância. Esse é o paradoxo fértil: o conhecimento começa quando reconhecemos o que não sabemos. No fundo, o paradoxo só existe porque a frase, tomada literalmente, se autonega. Quando deixamos claro que se trata de limitação, não de ausência total de saber, ele desaparece.

Tenhamos sempre em mente a nossa limitação. Reconheçamos, com Sócrates, que a humildade intelectual e o reconhecimento da própria ignorância são os alicerces, os fundamentos para alcançar a verdadeira sabedoria.

14 agosto 2025

Falibilidade: Controle e Ajuste

Somos seres falíveis. Por mais cuidado que tenhamos, mesmo assim, o engano ocorrerá. O provérbio “aprender com os erros” tem grande significância. Quer dizer, pouco adianta ter certezas, porque a convicção profunda de que não nos enganamos é fictícia, ilusória. O melhor, para cada um de nós, é deixar sempre a mente aberta à dúvida metódica, como nos ensinou Descartes. 

Uma boa maneira de diminuir os nossos erros é procurar recorrer a outras pessoas, que são também falíveis. Se um terceiro refuta a nossa ideia, livramo-nos desse erro. Anotemos, também, que a verdade ou a falsidade das nossas convicções não depende de nós, mas antes da realidade — que é o objeto das nossas convicções. O que depende de nós é a justificação cuidadosa de nossas convicções.

Controles e ajustes. Comparando nossas convicções com a de outras pessoas — cientistas, religiosos e filósofos —, podemos aumentar os nossos controles e ajustes, que nada mais são do que raciocínio. Nesse sentido, precisamos raciocinar para concluir, com base na observação ou na experimentação, se os nossos pensamentos estão de posse da verdade ou do erro. 

Para que o nosso saber seja robusto e correto, evitemos a tentação que, ao longo dos séculos, tem sido fingir que podemos abandonar o raciocínio paciente envolvidos  nos controles e ajustes permanentes, substituindo por Deus, pela autoridade ou pela observação ou experimentação. O problema está dentro de nós. O terceiro pode nos auxiliar, mas a decisão sobre o teor da verdade é apropriada a cada um. 

Quando o raciocínio visa persuadir outras pessoas — chama-se argumentoO argumento  visa persuadir o nosso interlocutor a aceitar uma conclusão que ele originalmente não aceita. Se partirmos da premissa que ele aceita, o argumento é inútil. Argumentar com o interlocutor é mostrar que as suas ideias implicam outras ideias que ele quer rejeitar.

 

 

17 julho 2025

Os Enciclopedistas

Os enciclopedistas foram os principais intelectuais da França — escritores, cientistas, acadêmicos e filósofos — que participaram da famosa Enciclopédia ou Encyclopédie (1751-1772), organizada pelo filósofo francês Denis Diderot e Jean de Round d’Alambert. Uma obra de 35 volumes que pretendia reunir todo o conhecimento humano da época, com base na razão, na ciência e no pensamento crítico — pilares do Iluminismo.

Os artigos, escritos por esses pensadores, eram muito amplos, mas centrados em três principais áreas: a necessidade de basear a sociedade não na fé e nas doutrinas da Igreja católica, mas no pensamento racional; a importância da observação e das experiências para a ciência; e a busca de uma forma de organizar estados e governos em torno de uma lei e justiça natural.

Diderot organizou os artigos da Enciclopédia em três grandes categorias: memória (assuntos ligados à história); razão (filosofia); e imaginação (poesia). De forma controversa, não havia nenhuma categoria especial para Deus ou o divino — a religião, assim como a magia e a superstição, era tratada como parte da filosofia. Essa abordagem foi inovadora e litigiosa. A religião tinha estado no próprio cerne da vida e do pensamento da Europa por séculos: a Enciclopédia e o próprio Iluminismo negaram-lhe essa posição-chave.

Em linhas gerais, esta enciclopédia tinha as seguintes características: 1) racionalismo — valorizavam a razão em detrimento da fé cega; 2) anticlericalismo — criticavam o poder da Igreja sobre o conhecimento e a sociedade; 3) defesa da ciência e do progresso humano; 4) crítica ao absolutismo monárquico e à desigualdade social; 5) democratização do saber, tirando-o da elite.

Principais enciclopedistas: Denis Diderot (coordenador da obra, escreveu sobre filosofia e arte), Jean de Round d’Alambert (coeditor, escreveu sobre ciências), Voltaire (crítico da Igreja e defensor da liberdade de expressão), Jean-Jacaques Rousseau (pensador político e influente na educação), Montesquieu (defensor da separação dos poderes), Helvétius (materialista, acreditava que o homem é produto do meio) e Baron d’Holbach (ateu e crítico da religião).

Em termos históricos, o pensamento dos enciclopedistas formaram a base da Revolução Francesa e inspiraram o liberalismo e outros aspectos da filosofia política iluminista. Desse modo, começaram a influenciar os líderes em muitas partes do mundo, que se prontificavam a desenvolver sistemas jurídicos e estabelecer direitos para seus cidadãos — principalmente a separação dos poderes: executivo, legislativo e judiciário.

Fonte de Consulta

O Livro da História. Tradução de Rafael Longo. São Paulo: GloboLivros, 2017.

 

26 maio 2025

Habermas, Jürgen

Jürgen Habermas (1929-), filósofo e sociólogo alemão que participa da tradição da teoria crítica e do pragmatismo, cresceu na Alemanha sob o regime nazista. Sua percepção de que "estávamos vivendo em um sistema criminoso" teria, após os julgamentos de Nuremberg (1945-46), um efeito duradouro em sua filosofia.

Ao completar seu doutorado em 1954, estudou com membros da Escola de Frankfurt, incluindo Max Horkheimer e Theodor Adorno.

Nas décadas de 1960 e 1970, deu palestras em universidades em Bonn e Gotinga. Em 1982, tornou-se professor de filosofia na Universidade de Frankfurt, onde lecionou até a aposentadoria, em 1993.

Resumo de seu pensamento: As tradições da sociedade não estão necessariamente entre os maiores interesses dos indivíduos. ==> Os indivíduos precisam ser capazes de questionar e mudar essas tradições. ==> Eles podem fazer isso por meio da razão comunicativa na esfera pública, o que... ==> ... constrói o consenso ... ocasiona a mudança ... fortalece a sociedade. ==> A sociedade é dependente da crítica às suas próprias tradições.

Nas décadas de 1960 e 1970, Habermas concluiu que havia uma ligação entre a razão comunicativa e o que ele chamou de "esfera pública". Até o século XVIII, o controle do Estado era muito intenso sobre as atividades de um modo geral. A partir daí, com o surgimento de salões literários e cafés, os indivíduos puderam se reunir e questionar as ações governamentais. Essa esfera pública possibilita reconhecer interesses comuns em outros indivíduos. Habermas acreditava que a ampliação da esfera pública ajudou a desencadear a Revolução Francesa em 1789.

Obras-chave: Mudança estrutural da esfera pública (1962), Teoria da ação comunicativa (1981), O discurso filosófico da modernidade (1985), Entre naturalismo e religião (2005)

Fonte de Consulta

O Livro da Filosofia. Tradução Rosemarie Ziegelmaier. São Paulo: Globo, 2011.

 

25 maio 2025

Rorty, Richard

"A filosofia progride não ao se tornar mais rigorosa, mas ao se tornar mais imaginativa." Richard Rorty

Richard Rorty (1931-2007) foi um filósofo pragmatista estadunidense. Nasceu em Nova York, Estados Unidos. Seus pais eram ativistas políticos e Rorty passou seus primeiros anos lendo sobre Leon Trotsky, o revolucionário russo.

Aos doze anos de idade, ele disse que já sabia que "a questão do ser humano era passar a vida lutando contra a injustiça social". Começou cedo, aos quinze anos, a frequentar a Universidade de Chicago, prosseguindo até um doutorado em Yale, em 1956.

Serviu o exército por dois anos, antes de se tornar um palestrante. Escreveu sua obra mais importante, A filosofia e o espelho da natureza, quando era professor de filosofia em Princeton. Produziu textos em filosofia, literatura e política e, de maneira insólita para um filósofo do século XX, aproximava-se tanto da tradição analítica quanto da europeia continental. Morreu de câncer aos 75 anos.

Resumo de seu pensamento: Quando dizemos "sei do fundo do coração que é errado..." ==> ...admitimos que há uma verdade eterna em relação ao erro. Mas não podemos encontrar quaisquer verdades eternas em relação à ética. ==>...admitimos que o conhecimento que temos é um conhecimento certo. Mas conhecimento absolutamente certo sobre as coisas não é possível. ==> O que conhecemos é uma questão de conversação e prática social. ==> Não há nada em nosso íntimo, exceto o que nós mesmos colocamos lá.

A tendência para retratar a nós mesmos possuindo um tipo de "duplo — uma alma ou um "eu" profundo que "usa a própria linguagem da Realidade" — foi explorada pelo filósofo norte-americano Richard Rorty na introdução de Consequências do pragmatismo (1982). Rorty argumentou que, na medida em que temos tal coisa, a alma é uma invenção humana — é algo que nós mesmos colocamos lá.

Rorty foi um filósofo que trabalhou dentro da tradição americana do pragmatismo. Ao considerar uma afirmação, a maioria das tradições filosóficas pergunta "isso é verdadeiro?", no sentido de "isso representa corretamente o modo como são as coisas?". Já o pragmático considera as afirmações de modo diferente, perguntando: "quais são as implicações práticas de aceitar isso como verdadeiro?"

Obras-chave: A filosofia e o espelho da natureza (1979); Contingência, Ironia e solidariedade (1989); Achieving our country (1998); Filosofia e esperança social (2001)

Fonte de Consulta

O Livro da Filosofia. Tradução Rosemarie Ziegelmaier. São Paulo: Globo, 2011.

 


13 fevereiro 2025

Sócrates e a Responsabilidade

As grandes ideias — que perfazem mais de 2500 anos — têm fracassado na penetração do coração humano. Os ideais da tradição judaico-cristã e do cristianismo, rememorados por milhões de pessoas, não têm sido suficientes para impedir as atrocidades de uma guerra global, holocaustos e assassinatos em massa. Cristo, Moisés e Platão têm permanecido apenas como ideias. Mas as ideias não transformam o ser humano?

A filosofia do mundo ocidental nasceu da percepção de impotência da mente. Para Sócrates, tanto a religião como a ciência de seu tempo não estavam orientando o homem à virtude. É bom esclarecer o sentido específico da virtude: Sócrates dizia que a virtude consistia no objetivo da vida humana. O termo “autodomínio” não possui esta tonalidade precisa do significado, isto é, que o único objetivo digno de um ser humano é a criação de um canal de responsabilidade e relacionamento entre a verdade, ideias e mente, de um lado e as estruturas inconsistentes da natureza humana, de outro.

Sócrates não focou especificamente na ciência, na religião, na arte, na política. Ele apenas questionava e interrogava. Mas, em que consistia o questionamento socrático? Consistia em rasgar continuamente o mundo das aparências. Fica a seguinte dúvida: se a virtude era o objetivo de Sócrates, por que era perseguida por intermédio de questionamentos ao invés da exposição de doutrinas, de análises conceituais, sínteses de grandes ideias?

Penetrar além do mundo das aparências significa pôr em xeque nossas crenças, opiniões e certezas, não apenas com respeito aos objetos, mas a nós mesmos. Para Sócrates, o canal da virtude, o poder da verdadeira filosofia, reside no poder de auto indagação. Podemos amar a grandeza da verdade; contudo isso, por si, não nos modifica, não nos transforma.

Tudo o que sabemos de Sócrates veio por intermédio de Platão. Platão apresenta Sócrates como um homem que nada sabe, cuja “sabedoria” consiste no fato de que apenas ele, dentre todos os atenienses, se dá conta da própria ignorância. Aí está a raiz da “ironia” socrática. 

Fonte de Consulta

NEEDLEMAN, Jacob. O Coração da Filosofia. Tradução de Júlio Fischer. São Paulo: Palas Athena, 1991.

Notas sobre a Autoridade

Autoridade. Do lat. auctoritas, que por sua parte deriva-se do verbo augere, aumentar, crescer, criar e dá, como substantivo, autor.

O argumento de autoridade fundamenta-se na posição de alguém, considerado como conhecedor competente de determinada matéria. Na religião, baseia-se nas revelações, as quais são obtidas por meio de indivíduos escolhidos pela divindade. Na ciência, possui valor relativo, pois exige verificação e confirmação. Na filosofia, o argumento da autoridade é falho, pois na filosofia a única e verdadeira autoridade é a demonstração.

Em se tratando da ciência e da filosofia, a prova é o elemento preponderante. Observe que a ciência é o conhecimento das causas cujas afirmações são provadas. A prova pode ser a experimental ou a demonstração lógica. A ciência observa e experimenta, e a filosofia demonstra. O filosofar apenas opinativo é um filosofar prático e não teórico, é um filosofar primário.

Santo Agostinho distingue autoridade divina da humana: Auctoritas autem partim divina est, partim humana; sed vera, firma, summa ea est quae divina nominatur. (A autoridade, contudo, é parte divina e parte humana; mas a verdadeira, firme, suprema, é a que se chama divina). Portanto, Deus é a mais alta autoridade.

Alguns tipos de autoridade

Autocracia. O poder de si mesmo, gerado de si mesmo. A capacidade de exercê-lo e legislar acima de qualquer outro. Consiste no poder entregue a uma autoridade arbitrária, a qual se acha nas mãos de um homem ou de um grupo, ou de um partido. Assim: despotismo, oligarquia, ditadura. Opõe-se à democracia.

Autoridade carismática.  É a ascendência que exerce uma pessoa sobre outra ou grupos sociais, dando-lhes a impressão e a convicção de possuir um poder que transcende a natureza humana.

Democracia. É o sistema político no qual os cidadãos, independentemente de castas, classes, estamentos, exercem a autoridade, quer por si mesmos (democracia plebiscitária) quer por intermédio de delegados ou representantes do povo (democracia eletiva).

Ditadura. Sistema político no qual uma pessoa ou um pequeno grupo tem a total autoridade sobre a vida política de um povo, sobre o qual legisla e executa suas leis, sem subordinação de qualquer espécie a nenhum outro poder.

Fonte de Consulta 

SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. ed. São Paulo: Matese, 1965.