28 fevereiro 2026

Platão e Aristóteles

Aristóteles (384-322 a.C.) foi discípulo de Platão (427-347 a.C.), que foi discípulo de Sócrates (470 a 401 a.C.). Eles fazem parte do período clássico da Filosofia grega da Antiguidade. Aristóteles frequentou por 20 anos a Academia de Platão. Enquanto aluno, respeitava o seu mestre, porém divergia muito das suas ideias, afirmando, inclusive, que era amigo de Platão, mas muito mais da verdade. Pergunta-se: no que divergiam?

A divergência entre Platão e Aristóteles estava centrada na construção do conhecimento. Platão – idealista – acreditava que as ideias provinham de um outro mundo, o mundo das essências, denominado topus uranus. Aristóteles – realista – acreditava que as ideias provinham das sensações ou do mundo circundante do aqui e do agora. Aristóteles achava que o ser humano não devia ficar preocupado com a contemplação do mundo das ideias, mas viver intensamente o momento presente. 

A percepção do conhecimento implicava modos diferentes de analisar as questões: Poder-se-ia vê-las pelo lado sensível ou pela contemplação. Tomemos como exemplo a felicidade. Segundo Platão, a felicidade diz respeito a uma vida futura, àquilo que o indivíduo poderia esperar pelo que fez de bom ou de ruim nesta vida; Aristóteles, ao contrário, achava que a felicidade era o bem supremo do homem, pois todo o ser humano que alcançasse o fim pelo qual foi criado atingiria esse estado de felicidade.  

Sobre a relação ensino-aprendizagem. Platão achava que o indivíduo já trazia no seu subconsciente o conhecimento adquirido em outras vidas. Cita Sócrates ensinando matemática ao escravo. As perguntas de Sócrates faziam desabrochar no escravo o conhecimento que já possuía dentro de si mesmo. Para Aristóteles, o conhecimento tem que ser formado no mundo circundante. Ele é como uma tabula rasa que deve encher a sua memória e o seu intelecto de novos conhecimentos.

De acordo com Marcelo Perine, em Quatro Lições sobre a Ética de Aristóteles, "Para Platão, a phronesis (sabedoria), mesmo quando dirige a ação, o faz elevando-se acima de si mesma, isto é, na medida em que é um conhecimento transcendente adquirido na contemplação da Ideia do Bem. A phronesis aristotélica, ao contrário, não é uma ciência contemplativa, mas sabedoria prática que dirige imediatamente a ação pelo conhecimento do singular e dos meios. Porém, essa sabedoria prática é verdadeira e, portanto, normativa, pois conhece universalmente o fim da vida humana, ‘fim que, seguramente, não é o bem-em-si de Platão, mas a contemplação do Deus da Metafísica’". 

Platão descortina-nos a contemplação de uma vida futura; Aristóteles chama-nos a atenção para viver o aqui e o agora. Cabe-nos, assim, fazermos uma síntese das duas concepções para que tenhamos uma vivência plena de sabedoria.




Química da Felicidade

A química da felicidade é sentir-se bem, mesmo sem uma boa razão. Por quê? Como sociedade, as nossas responsabilidades com a vida cotidiana tendem a ser negativas, ao invés de positivas. Observe o noticiário da mídia: morte, sequestro e guerra; além destes, a grande inutilidade da maioria programas televisivos; e para completar, os filmes de violência. A Psicologia informa-nos de que o nosso subconsciente registra todas as cenas, quer sejam verdadeiras ou fictícias. Para ele, tudo é verdadeiro. Por isso, o cuidado na escolha do que irá povoar a nossa mente.

Os relacionamentos são o ponto de partida para a nossa felicidade. Há relacionamentos que somos obrigados a suportar, quer sejam bons ou ruins: são os contatos com os nossos familiares. Contudo, há outros que podem ser desfeitos. É o caso, por exemplo, de termos sob nossa supervisão funcionários relapsos, que nos trazem problemas, deixando-nos na mão quando mais deles precisarmos. Estes podem ser substituídos por outros que, além de serem otimistas, acrescentam valor ao produto.

Passamos, a maior parte do nosso tempo, remoendo o passado ou temendo o futuro. É impossível nos libertar de nossa memória, mas se ela estiver atrapalhando o bom desempenho das nossas ações no presente, ela deverá ser revista. Se o remorso de um erro cometido no passado gasta muitas horas do nosso dia, não nos sobra tempo de repará-lo eficientemente. Do mesmo modo é a apreensão sobre o que há de vir. A concentração acaba provocando a ação. Nesse sentido, o provérbio "prepare-se para o pior e espere o melhor" não é verdadeiro. Se nos prepararmos para o pior, o nosso pensamento se concentrará nisso e acabará o atraindo para nós. A regra deve ser: "vivamos intensamente o momento que passa".

Problemas? Dificuldades? Quem não os têm? Qual é a melhor atitude a tomar? Um problema não pode ser colocado debaixo do tapete, como fazemos com o lixo de casa, pois ao avolumar-se, poderemos tropeçar nele e acabar nos machucando. Ele deve ser enfrentado tão logo surja. Mas há problemas e dificuldades que se repetem indefinidamente. Estes, com certeza, devem ser banidos do nosso foco de atenção. Pois aquilo que se perpetua pode ser a influência menos feliz de alguma entidade espiritual ou a nossa imaginação mórbida.

A felicidade requer tempo para meditação e reflexão. É aquele momento sagrado que todo o ser humano deveria reservar para si mesmo. Nesse mister, convém nos retirarmos do mundo exterior e debruçarmo-nos sobre o nosso interior. Seria como Santo Agostinho fazia todas as noites: repassava o dia para ver como fora em pensamentos, palavra e atos. Voltando para dentro de nós mesmos, podemos tomar consciência tanto de nossas fraquezas como de nossas potencialidades. É nesse clima de interioridade que podemos solicitar forças para suplantar as nossas limitações. 

Forjemos a nossa felicidade. Não esperemos circunstâncias exteriores favoráveis. Todo o momento é momento de vivenciá-la, pois ela depende de como estamos interpretando o mundo que nos rodeia.

 


Filosofia e o Mundo do Trabalho

O mundo do trabalho é caracterizado pela produção. É um fazer ininterrupto de coisas com o propósito de aumentar o bem-estar da humanidade. Daí o desejo insaciável que nos estimula a consumir cada vez mais. Como somos homo faber antes de sermos homo sapiens, acabamos dando ao trabalho o fim último de nossa existência. No mundo do trabalho, a tecnologia e a economia de escala são requeridas insistentemente, e acabam nos aprisionando cada vez mais a este mundo material. Em muitos casos, a preocupação excessiva com o que comer e com o que vestir leva-nos a um esgotamento nervoso. 

O que diferencia o "útil" do "inútil"? O útil é sempre meio, intermediário. Ele não vale por si mesmo, mas pelo poder de intermediação. Uma cadeira é útil porque foi criada para as pessoas sentarem. Ela não é útil a si mesma, ou seja, ela não se senta nela. A palavra inútil, por sua vez, significa: 1) que não tem fim algum; 2) que tem um fim em si mesmo. Entre as atividades que têm um fim em si mesmo, anotamos a filosofia, a arte e a religião. Todas compreendem uma espécie de gozo metafísico do Espírito.

A filosofia transcende o mundo do trabalho. A filosofia se atém ao "bem comum" enquanto o trabalho à "utilidade comum". O bem comum é muito mais amplo do que a utilidade comum, pois engloba a totalidade do ser. A filosofia, embora inútil, não vive sem o mundo do trabalho. Há uma certa complementaridade entre esses dois conceitos. Santo Tomás de Aquino dissera certa vez que para haver o bem comum há necessidade de haver pessoas que se dediquem à arte do inútil e da contemplação, atividades essas completamente opostas às requeridas pelo mundo do trabalho.

A pseudofilosofia pretende também transcender o mundo do trabalho. Em Platão, Sócrates pergunta ao sofista Protágoras: "Que ensinas aos jovens que se achegam a ti"? E Protágoras responde: "O objeto de meu ensino é a prudência, quer na administração da própria casa, quer no modo de melhor influir na coisa pública, pela palavra ou pela ação". Todas essas pseudo-atitudes não só não transcendem como acabam enclausurando ainda mais as pessoas ao mundo do trabalho. 

Embora o inútil seja uma atividade totalmente livre, muitos acabam sendo condenados a buscá-la. Observe que algumas pessoas, por mais que queiram tratar das coisas materiais, são impulsionadas por uma força superior, a tratar exclusivamente das coisas relacionadas à melhoria do pensamento, sem outro qualquer interesse. No atendimento a esta nobre missão, acabam sendo incompreendidos e desprezados pelos outros seres humanos. Jesus Cristo, por exemplo, foi um desses incompreendidos, que veio nos ensinar a lei do amor e nós o condenamos a morrer na cruz, entre dois ladrões. 

Atendamos fielmente às nossas predisposições interiores. Seguir os apelos da consciência pode nos trazer muitos problemas. Contudo, vejamos a consequência de cada ação para a vida futura. Lembremos: Se o homicida soubesse, de antemão, as dores que o futuro lhe reserva, com certeza não praticaria tamanho crime. 

Fonte de Consulta

PIEPER, Josef. Que é Filosofar?; Que é Acadêmico? Tradução de Helmuth Alfredo Simon. São Paulo: EPU, 1981.

 

 


Felicidade em Aristóteles

As obras de Aristóteles — Ética a NicômacoÉtica a Eudemo e Magna Moralia — são ainda hoje a referência mais importante para quem queira estudar e escrever sobre ética. Tanto na Ética a Nicômaco como na Ética a Eudemo, Aristóteles procura definir e caracterizar o bem. Em ambas surge a noção de que "o bem do homem consiste no bom exercício da atividade humana". E qual é essa atividade? É atividade da alma racional, da razão, atividade esta que é disposta de acordo com a virtude. 

Antes de penetrarmos no tema felicidade, entendamos o significado de virtude: será ela uma paixão? Uma faculdade? Ou uma disposição? Paixão não é, pois o medo e o ódio nunca podem ser considerados virtudes. Faculdade, também não, pois uma faculdade tanto pode ser posta ao serviço do bem quanto do mal. É, na realidade, o resultante duma disposição voluntária. Assim, para Aristóteles, a virtude é um extremo na excelência, mas é uma posição média entre dois vícios, um por excesso e outro por falta.

A felicidade seria o prazer, a diversão, a honra? O que é que caracteriza o bem ou a felicidade? Para Aristóteles, a felicidade é o maior bem do homem e identifica-se com o viver bem e o fazer o bem. Não é prazer, nem diversão e nem mesmo honra. A felicidade estaria centrada no estudo teórico. Somente este tem o condão de proporcionar a felicidade, pois a pessoa que empreende o estudo teórico, empreende-o por conta própria, sem outro móvel que não seja o de estudar e o de continuar a estudar.

Vida feliz pressupõe tempo livre. As pessoas que estão voltadas essencialmente para o sustento físico não podem ser felizes, porque lhes falta o tempo livre e necessário para cuidarem de suas almas e disporem suas ações para os objetivos superiores da existência humana. Às vezes, a sorte ajuda no processo da felicidade, mas a felicidade em si não depende da sorte. A felicidade é um sentimento intrínseco da ação realizada. Não é a influência externa; é o bem que se fundamenta em si mesmo.

De nada adianta buscarmos coisas que estão fora de nós mesmos. Podemos, muitas vezes, agradar aos outros, mas desagradarmos a nós mesmos. Isso deve ser evitado. Observe que no livro Política, Aristóteles disse que a virtude ou as boas ações poderiam ser tanto particulares quanto sociais. Definindo o homem como um animal político, quis dizer que todos os homens devem ser solidários uns com os outros. A solidariedade se realiza na cidade. Para tanto, o interesse social deve vir antes do interesse particular. Surge a questão: podemos ensinar a virtude? Ela é passível de ser aprendida?

A virtude é ensinada pela educação, tornando-se com o tempo um hábito, uma segunda natureza. Essa segunda natureza é uma forma especial de fazer as coisas. E, uma vez adquirido, não se perde jamais. Observe que quando estivermos exercitados numa dada virtude, nada nos fará mudar de atitude. Alguém nos pede para fazermos algo que contrarie a nossa razão e a nossa ética. De imediato, recusamos o pedido. Para os outros pode ser uma ação banal, mas para o exercício da virtude é uma tarefa hercúlea que exige muito esforço da vontade, no sentido de continuarmos sendo o que somos, independentemente da avaliação alheia.

Estudemos os grandes pensadores da humanidade. Sempre poderemos acrescentar algo ao nosso passivo intelectual e moral.

Fonte de Consulta 

MARQUES, Ramiro. O Livro das Virtudes de Sempre: Ética para os Professores. Portugal: Landy, 2001.

 

Sócrates: Posições Filosóficas

Sócrates (470 a 401 a.C.) afirmava que o conhecimento é a chave de todos os demais problemas. Interessou-se especialmente por descobrir um método para alcançar o verdadeiro conhecimento, distinto de simples opiniões. O método que desenvolveu consistia em eliminar, primeiramente, as noções falsas e depois proceder a minuciosas observações e desenvolver pensamentos, a fim de atingir o juízo universal. Em meio à diversidade de pensamentos, Sócrates procurou descobrir aquilo que era comum a todos, uma base que não admitisse contestação. 

O bem e o mal. Sócrates pensava que deveria haver um princípio básico do bem e do mal, uma medida que transcendia a toda e qualquer crença do indivíduo. Para ele, o maior bem da humanidade é o conhecimento. Acreditava também que “Nenhum homem é voluntariamente mau”; se souber que uma coisa é boa, preferirá fazê-la. A sua crença era tão intensa que passou a vida toda procurando auxiliar os homens a descobrir o que representa o bem. Daí a frase “Uma vida sem exame não merece ser vivida”. 

O destino e livre escolha. Com conhecimento o homem age de maneira acertada; sem conhecimento, corre o risco de agir com desacerto. Pelo conhecimento, o homem pode ter certa influência sobre o destino e a vida futura. De acordo com sua escolha, o homem pode exercer influência sobre a sorte que o espera. É o começo da crença na liberdade de escolha. No pensamento de Sócrates, muitas pessoas escolhem erroneamente e, em consequência disso, sofrem. Por isso, insistia em transmitir o verdadeiro conhecimento aos seus adeptos. 

O cidadão e o Estado. Sócrates não se cansava de perguntar a todos os que encontrava: “Que é Estado? Que é estadista? Que é governante dos homens? Que é um caráter soberano?” Embora não respondesse às perguntas, explicava que o conhecimento deve ser a preocupação de todo ser humano. O bom cidadão é aquele que, constantemente, está em busca do verdadeiro conhecimento e está sempre indagando. Quando o homem descobre o verdadeiro conhecimento – argumentava – age de acordo com ele e conduz-se com acerto em todas as relações com seus semelhantes. 

O homem e a educação. Sócrates, embora discordasse dos sofistas em muitos aspectos, participava da crença geral de que a educação torna o homem melhor cidadão e, com isso, mais feliz. Mas, ao passo que os sofistas se preocupavam mais com o homem como indivíduo, Sócrates o considerava como membro do grupo. Doutrinava que a coisa mais valiosa que o homem pode possuir é o saber, que se obtém eliminando as diferenças entre os indivíduos e descobrindo os elementos essenciais com os quais todos eles estejam de acordo. 

Para Sócrates, o princípio único, do qual tudo o mais decorre chama-se conhecimento. Esforcemo-nos, pois, na busca incessante do verdadeiro conhecimento.

 

Descartes e a Filosofia Moderna

As ideias desenvolvidas por Aristóteles (384-322 a.C.) influenciaram as especulações filosófico-religiosas da Idade Média. Esse período, denominado de Escolástica, retratava a dependência da Filosofia à Religião. Exercitava-se o intelecto, baseando-se nas regras do silogismo. Procuravam explicar logicamente o cristianismo, lutando por excluir o espírito místico do pensamento até então. A finalidade maior era conciliar fé com razão.

René Descartes (1596-1650) insatisfeito com as informações adquiridas dos mestres e dos livros, faz tábua rasa, e, constrói o seu próprio método de obtenção do conhecimento. O verdadeiro ponto de partida da Filosofia cartesiana é a matemática, visto oferecer evidência e certeza. Os princípios incondicionados desta ciência, permite a Descartes romper com o modelo de pensamento estabelecido pela Escolástica.

Para Descartes, a Filosofia depende da matemática. O fato dá origem a uma ideia fundamental: a verdadeira filosofia deve ser um tratado do método. Estabelece, assim, suas quatro célebres regras: 1) não admitir verdadeira coisa alguma que não se saiba com evidência que o é; 2) dividir cada dificuldade em quantas partes seja possível e em quantas requeira sua melhor solução; 3) conduzir ordenadamente os pensamentos, começando pelos objetos mais simples e fáceis de conhecer, para ascender, gradualmente, aos mais compostos; 4) fazer uma recontagem tão integral e razões tão gerais, que se chegue a estar certo de não omitir nada.

Seu método inclui a dúvida metódica. Como se explica? Parte do conhecimento centrado em si mesmo. Dizia: “Cogito ergo sum”, penso, logo existo. Mas o cogito, ao evidenciar a existência de quem pensa, permite estabelecer o seguinte raciocínio: se eu existo, sei que sou finito. Porém, a ideia do finito implica ao mesmo tempo a do infinito. Para Descartes, o infinito é Deus. Descobre Deus pela sua própria razão e não vindo de fora como o Deus de Platão e dos escolásticos.

As regras do seu método, o estabelecimento da dúvida, o conhecimento centrado na razão e o conceito de subjetividade transcendental influenciaram o pensamento filosófico posterior, tendo Spinoza, Malebranche, Leibniz e Kant como seus maiores seguidores. Hoje, a metafísica, traz em seu bojo, as influências cartesianas, quando muda o enfoque dado ao ser para o sujeito.

A Filosofia, ao contrário da ciência, pertence a uma história. Não resta dúvida que Descartes foi um dos grandes construtores dessa História da Filosofia. Estudemo-lo, assim, com mais ardor. 



 

 

Reflexão e Sabedoria

Reflexão é uma espécie de movimento de volta a si mesmo (re-flexão), executado pelo espírito que põe em pauta os conhecimentos que possui. Sabedoria é uma compreensão superior do mundo e da vida, acumulada através da experiência e da meditação. O trabalho do filósofo é uma ação voltada para a busca do saber. Ironizado e desprezado, vivendo em meio à humildade, à pobreza e à castidade, segue a vocação que o destino lhe traçou.

sophia da palavra filosofia não é, ao mesmo tempo, ciência e filosofia. É somente o desejo, a procura, o amor dessa sophia. É como estar a caminho. Nesse sentido, Jasper insiste em dizer que a essência da filosofia é a procura do saber e não sua posse. Do mesmo modo Kant afirma: "Não há filosofia que se possa aprender; só se pode aprender a filosofar".

O modelo de reflexão filosófica é maiêutica socrática, ou seja, o ato de interrogar e problematizar. Para a filosofia, perguntar é mais importante que responder, pois uma reposta suscita outra pergunta. Sócrates, criador do método, afirmava nada saber. Isto significa dizer que a matéria de reflexão não é o seu saber, mas o conhecimento que o interlocutor tira de si mesmo no transcorrer do diálogo.

A solidão do filósofo adquire todo o seu sentido. Preocupado com o conhecimento rigoroso e desinteressado, não se integra a nenhum meio. É como um inquilino no quarto de hotel. Sua consciência inquieta e insatisfeita lhe determina sua ação, muitas vezes, estranha aos demais seres humanos. Mas, isto nada mais é do que o ardor pela busca da verdade.

Segundo Nietzsche, as virtudes ascéticas — humildade, pobreza e castidade — constituem o misterioso sentido da vida de um filósofo. Isento de desejos, volta-se para a aquisição da verdade, tendo a certeza de que não a alcançará totalmente. A humildade filosófica consiste em dizer que a verdade não pertence mais a mim que a ti, mas se encontra diante de nós.

A reflexão, no âmbito da filosofia, é o elo de ligação para a conquista da sabedoria. Faz-nos ir além da ciência e da técnica, proporcionando-nos o contato com os conhecimentos superiores de nossa esfera.

Fonte de Consulta

HUISMAN, D. e VERGEZ, A. Compêndio Moderno de Filosofia.Rio de Janeiro, Freitas Bastos, 1966.

 

Virtude em Aristóteles

Aristóteles, em Ética a Nicômaco, II, 6, diz que a virtude é a disposição adquirida voluntária, em relação a nós, na medida, definida pela razão em conformidade com a conduta de um homem ponderado. Ela ocupa a média entre duas extremidades lastimáveis, uma por excesso, a outra por falta. Enfatiza, também, que, embora consista numa média, em relação ao bem e à perfeição ela se situa no ponto mais elevado. Como pode a virtude ser ao mesmo tempo média e ápice? 

Para entender corretamente o texto filosófico, devemos localizar os termos mais importantes, e suas noções. Assim, virtude (arétè) designa toda excelência própria de uma coisa, em todas as ordens de realidade e em todos os domínios. Aristóteles a emprega assim, embora lhe acrescente o valor moral. Disposição (héxis) é definida como uma maneira de ser adquirida. O latim traduziu héxis por habitus. A virtude só será habitus se se retirar desse termo o caráter de disposição permanente e costumeira, mecânica, automática. Mediedade (mésotès): este termo remete tanto ao termo médio de um silogismo quanto à média (ou ao meio termo) que caracteriza a virtude. 

Como, pois, entender que virtude é média e ápice? Aristóteles parte de um conceito geral e delimita-o depois. Diz, primeiramente, que a virtude é agir de forma deliberada; depois, fala em agir em prol do mais alto bem. Ao falar dela como héxis, enfatiza uma capacidade adquirida, constante e duradoura, o que elimina a pretensa qualidade inata. Assim, ao se comportar moralmente, o homem deve também se comportar racionalmente, ou seja, uma razão que já passou pela prova dos fatos; a mediedade, diz ele, é a que o homem prudente determinaria. E determinaria em função dos homens superiores a ele. Por isso é oportuno aconselhá-los a imitarem os melhores.

mediedade opõe-se a dois vícios simétricos. Como estamos no campo da moral, o que vale não são as idéias, mas a prática dessas idéias. Perguntaríamos: quais são essas práticas que não são virtudes? Os vícios. Explicação: a natureza moral jamais é natural, e sim o resultado de uma maneira de ser adquirida – para mais ou para menos –, o que representa sempre um excesso. Por exemplo, a coragem é virtude delimitada por essa falta que é a covardia e esse excesso que é a temeridade. A virtude revela-se portanto como um meio termo.

A virtude não é média, ela é a média justaSaímos do âmbito quantitativo onde tudo é colocado no mesmo plano e passemos ao âmbito qualitativo. Observe que tanto nas paixões como nas ações, há condutas que estão abaixo ou acima do que convém. A virtude não é assim uma média aritmética dos excessos para mais ou para menos, ela é o vértice de eminência, ou seja, é ela quem diz qual é o vício para cima ou para baixo. O óbolo da viúva, de que nos lembra o Evangelho, vem a calhar: a viúva que deu apenas uma moeda, deu mais do que o rico, pois enquanto este deu o que lhe sobrava, para ela a quantia representava uma privação.

Esta reflexão sobre a virtude em Aristóteles serviu-nos para melhor apreciar os termos que usamos constantemente. Devemos, assim, lembrar que a virtude é sempre uma disposição a ser adquirida na prática do bem. Ou seja, há sempre algo a melhorar.

Fonte de Consulta

FOLSCHEID, Dominique e WUNENBURGER, Jean-Jacques. Metodologia Filosófica. Tradução de Paulo Neves. 2. ed., São Paulo: Martins Fontes, 2002. (Ferramentas) 

 


Aristóteles

Aristóteles (384-322 a.C.) nasceu em Estagira, colônia greco-jônia, na península macedônica da Calcídia. Filho de Nicômaco, médico. Ainda criança, ficou órfão de pai e mãe. Quando contava 18 anos (367 a.C.) mudou-se para Atenas, o centro intelectual por excelência, e aí estudou 20 anos sob a orientação de Platão. Aos 50 anos de idade, abriu uma escola denominada de liceu, pela proximidade do tempo de Apolo Liceio. Foi tutor de Alexandre, o Grande. Anos depois, assim como Sócrates, foi acusado e condenado, mas fugiu para não permitir que Atenas pecasse duas vezes por causa da Filosofia. Os seus alunos chamavam-se Peripatéticos, quer porque tinham o costume de passear pelo jardim enquanto estudavam, quer porque o local fosse conhecido por Passeio (Peripatos).

A enciclopédia aristotélica distingue-se em quatro grupos: 1.º, os escritos e as doutrinas lógicas que servem de introdução geral a todo o sistema; 2.º, Filosofia especulativa, cujo fim é o verdadeiro supremo; 3.º, a Filosofia prática, cujo fim é a ação; a Filosofia criativa ou poética, cujo objeto é o produto artístico. A Filosofia especulativa compreende a Filosofia primeira, a Matemática e a Física; a Filosofia pratica distingue-se em Ética econômica e política; a Filosofia poética considera a arte e as formas específicas da Poesia e da Retórica.

O ponto básico da filosofia de Aristóteles é a sua divergência com relação à "Teoria das Ideias" de Platão. Ambos são realistas, mas Platão vê o seu realismo na "Teoria da Ideias", no mundo perfeito e imutável, no mundo das formas. Para Platão, o conceito já existe. O que temos que fazer é rememorá-lo. Aristóteles acha que o real é o sensível e que o conceito se forma pela abstração. Uma pessoa tem a forma de uma cadeira, outra pessoa tem outra forma de cadeira e uma terceira pessoa tem uma terceira forma de cadeira. Aristóteles pega todas as formas de cadeira, retira as diferenças e mantém o que é igual, formando o conceito cadeira, através de uma operação mental.

Platão estabeleceu os princípios da filosofia idealista, em que havia uma superioridade da razão. Com Aristóteles, o foco da atenção transfere-se para a experiência. Embora aluno de Platão, deste discordava fundamentalmente, chegando a ponto de dizer que ele era amigo de Platão, mas muito mais da verdade. O gênio de Aristóteles é, acima de tudo, ordenador, lógico. Uma de suas grandes ideias é a de classificação que permite agrupar os seres de acordo com suas semelhanças ou diferenças. Também se deve a ele a criação da lógica como disciplina própria.

O realismo aristotélico pode ser agrupado nos seguintes itens: crítica a Platão, a origem da filosofia, o princípio de identidade, as causas do ser, o ser como substância, o acidente, o movimento, Deus e sua natureza, a ordem e eternidade dos movimentos naturais, o homem como animal político e a virtude como justa medida. Este realismo dominou absolutamente a Idade Média, principalmente no período da Escolástica, e mais precisamente com Santo Agostinho. O uso exagerado do silogismo é uma prova cabal desse predomínio.

De acordo com Ramiro Marques, em O Livro das Virtudes de Sempre: Ética para Professores, Aristóteles constitui ainda hoje a referência mais importante para quem queira estudar e escrever sobre ética. Esses ensinamentos estão catalogados em suas três grandes obras: Ética a Nicômaco,Ética a Eutidemo e Magna MoraliaMagna Moralia, também conhecida por Grande Moral ou Grandes Livros de Ética, embora pouco editada e pouco conhecida, é uma obra de grande qualidade, pois complementa e aprofunda o que Aristóteles escreveu nas outras éticas.

Na ética de Aristóteles, a virtude está no meio. Você não deve estar mais à esquerda ou mais à direita. Literalmente, a frase está correta. A sua interpretação, porém, deixa a desejar. Devemos vê-la como o termo médio de uma polêmica e não simplesmente a virtude está no meio. A virtude deve ser construída conforme a discussão for tomando corpo, isto é, passando de um extremo ao outro. Esta noção de ética dá direção à sua política. Diferente de Sócrates e Platão, que é da polis, de Atenas, Aristóteles é o filósofo do Império, do Império de Alexandre, o Grande. 

Somos o arcabouço de toda a história da humanidade. Às vezes parecemo-nos originais, mas uma acurada pesquisa mostra que a essência do que sabemos já fora veiculado pelos grandes pensadores da humanidade.

 

Filosofia: Algumas Notas

"A filosofia não é como a física. Na física, há um amplo corpo de verdades estabelecidas que os iniciantes têm que pacientemente dominar. Na filosofia, em contraste, tudo é controverso."

As pessoas, em geral, tem uma impressão negativa da filosofia. Dizem que “a filosofia é a ciência pela qual ou sem a qual continua tudo igual”, “a filosofia é um saber especulativo inútil, que em nada contribui com a ciência e o conhecimento”. Há também algo genuinamente filosófico contado por Platão sobre Tales: "Enquanto observava as estrelas, olhando para o alto, Tales caiu em um poço. Presenciando o acontecido, uma espirituosa serva trácia diz-lhe gracejos: ele queria saber o que havia céu, mas permanecia-lhe oculto o que estava diante dele e a seus pés".

A filosofia precisa recobrar a sua originalidade, pois a sua profissionalização nos centros acadêmicos tem sido indigesta pelos demais seres humanos, principalmente pelas crianças e jovens. Se os filósofos contemporâneos colocassem o diálogo como centrum da filosofia eles facilmente substituiriam o caráter sisudo, acadêmico, hierático e hermético em que filosofia se transformou ao longo do tempo

A sociedade, nos dias atuais, instrumentalizou-se e não dispõe de tempo para os arroubos filosóficos. O ser humano está tão preso às aparências e aos formadores de opinião que abdicou do seu exercício de pensar. Pensar dá trabalho porque temos que romper com o comodismo e debruçar sobre os problemas que se nos apresentam tentando dar uma solução racional.

Sócrates, ao praticar naturalmente a filosofia, tinha um objetivo claro e definido: transformar opiniões em conceitos que, em outras palavras, é transitar da doxa para a episteme. A filosofia não é conversação espontânea, pois esta ficaria sujeita apenas à discussão infindável sobre pontos de vista de um ou do outro litigante. O objetivo da filosofia é passar dessa opinião aos conceitos claros e límpidos como bem dizia descartes em seu Discurso do Método.

Olhemos criticamente o ensino da filosofia. Muitas vezes diz-se que a filosofia é contemplação, reflexão e comunicação. Isso não é verdade. Essas palavras referem-se mais a uma técnica do que à filosofia propriamente dita. Observe que contemplar não é criar, refletir pertence a todo o mundo e comunicar nada mais faz do que divulgar o consenso. Em outras palavras, a filosofia se utiliza dessas ferramentas como qualquer outra atividade intelectual.

Em filosofia, deve-se dar ênfase à discussão e não à exposição. Os participantes de uma reunião filosófica não devem ser passivos, ficar simplesmente ouvindo os outros. Eles devem também expressar as suas opiniões para poderem chegar ao conceito. Para tanto, não devemos nos envergonhar de buscar subsídios com os chamados mortos, tais como Sócrates, Platão e outros. Auguste Comte, o pai da sociologia, criou a sua religião natural que não era mais do que uma volta aos ensinos dos grandes pensadores desde a antiguidade até os dias presentes.

A filosofia é um tesouro oculto que ninguém poderá nos roubar. É um consolo na falta de tudo o mais, tal como emprego, família e amigos. Quanto menos coisas exteriores tivermos mais tempo teremos para nos dedicar às coisas do espírito. Em princípio, não precisaríamos de mais nada porque, a filosofia, embora faça uso de tudo o mais, basta-se a si mesma. Seu principal objetivo é fazer o homem voltar-se para dentro de si mesmo no intuito de conhecer a sua própria ignorância e com isso educar-se para a vida de relação.

A filosofia é um contínuo perguntar. O ensino formal favorece mais as respostas do que as perguntas. Contudo, no âmbito da filosofia, deveríamos ensinar o aluno a perguntar. As perguntas mostram não só o estado de espírito do aluno como também o torna proativo, no sentido de ele mesmo buscar o conhecimento de que precisa e não esperando que venha do outro, o que fez a pergunta e tenta passar as suas informações para frente. A pergunta também revela uma virtude, ou seja, a virtude da humildade, porque nos coloca na condição de ouvir o outro, ouvir aquele que supostamente saiba mais do que nós.

Escolhamos sempre a filosofia como a nossa orientadora na vida. Cuidemos, contudo, que ela esteja sempre abaixo de Deus, para que a fé esteja sempre secundada pela razão e não o contrário.

Fonte de Consulta

FÁVERO, Altair Alberto et all. (Org.) Um Olhar sobre o Ensino de Filosofia. Rio Grande do Sul: Unijuí, 2002. (Coleção filosofia e ensino)

&&&

Um pequeno diálogo

— O que senhor faz? — indaga o camponês.

— Sou professor de filosofia.

— Isso é profissão?

— Por que não? Acha estranho?

— Um pouco!

— Por quê?

— Um filósofo é uma pessoa que não liga para nada... Não sabia que se aprendia isso na escola.

 

Epiteto

"O que é a filosofia? Não seria uma preparação para nos depararmos com o que vem pela frente?" — Discursos

Epiteto (55-135) não nos deixou escritos filosóficos. Os pontos principais de sua doutrina foram preservados graças ao historiador Flávio Arriano, um de seus alunos. Arriano transcreveu em grego um número considerável de palestras de seu mestre. Essas palestras, conhecidas como os Discursos (ou Diatribes) foram originalmente reunidas em oito livros, dos quais apenas quatro subsistiram até nossos dias. O Manual de Epiteto (ou Enchiridion) é um conjunto de trechos selecionados dos Discursos que forma um resumo conciso da essência dos ensinamentos de Epicteto.

Epiteto nasceu escravo por volta de 55 d.C., em Hierópolis, Frigia, no extremo oriental do império Romano. Seu mestre foi Epafrodito, o secretário administrativo de Nero. Dado seu talento intelectual, Epafrodito mandou-o a Roma para estudar com o famoso professor estoico Gaio Musônio Rufo. Tornando-se o aluno mais aclamado de Musônio Rufo, acabou sendo libertado da escravidão. Epiteto ensinou em Roma até o ano 94 d.C., quando o imperador Domiciano, ameaçado pela crescente influência dos filósofos, expulsou-o de Roma. Passou o resto de sua vida no exílio em Nicópolis, na costa noroeste da Grécia. Ali fundou uma escola filosófica e passou seus dias fazendo palestras sobre como viver com mais dignidade e tranquilidade.

A base de seus ensinamentos encontra-se na clara distinção entre aquilo que se pode controlar e aquilo que não se pode. Dizia ele que podemos controlar nossas opiniões, aspirações e desejos e as coisas que nos causam repulsa ou nos desagradam. Fora do nosso controle estão as circunstâncias, as intempéries do tempo e o fato de ter nascido rico ou pobre. Tentar controlar aquilo que não pode ser controlado gera angústia e aflição. Por isso, pede que evitemos assumir as questões dos outros, porque estas tiram-nos ou desviam-nos do nosso caminho.

Anotemos alguns de seus pensamentos: "tudo tem um bom motivo para acontecer"; "aceite os acontecimentos à medida que ocorrem"; "não são os acontecimentos que nos ferem, mas a visão que temos deles"; "nunca dependa da admiração dos outros, mas crie o seu próprio mérito"; "evite adotar os pontos de vistas negativos de outras pessoas, porque eles podem ser contagiosos"; "a busca da sabedoria atrai críticas"; "ao tentarmos agradar outras pessoas, corremos o risco de nos desviarmos para o que está fora de nossa esfera de influência".

Para Epiteto, a meta principal da filosofia é ajudar as pessoas comuns a enfrentar positivamente os desafios cotidianos e as dificuldades da vida. É, comparativamente, um modelo taoista para o Ocidente, pois sua filosofia identifica-se com a arte de viver. Assim sendo, a filosofia deve responder ao apelo da alma. Pode-se dizer também que a verdadeira filosofia não envolve rituais exóticos, liturgias misteriosas ou crenças originais. É, sim, o amor à sabedoria, a arte de viver.

Embora devamos pensar por nós mesmos, uma reflexão sobre o modo de pensar dos outros, muito contribui para o nosso engrandecimento espiritual. Não importa de onde veio o ensinamento; basta apenas que o coloquemos em prática.

 

 

07 janeiro 2026

Pensamento Positivo — ou Negativo?

O pensamento positivo foca em resultados favoráveis e soluções, buscando crescimento e bem-estar. Nasce no New Thought (século XIX), passa pela autossugestão e primeiras correntes psicológicas, é popularizado por Norman Vincent Peale nos anos 1950, depois é revisitado de forma científica pela Psicologia Positiva moderna. 

O pensamento negativo é um padrão mental focado em autocrítica, pessimismo e preocupação excessiva sobre falhas passadas ou medos futuros, caracterizado por interpretações distorcidas da realidade e julgamentos severos sobre si mesmo, os outros e o mundo. Esse comportamento doentio pode afetar o bem-estar emocional, tendo como consequência, o aparecimento da ansiedade e da depressão se não gerenciado corretamente. 

Na filosofia, o "pensamento negativo" tem significados distintos, que variam desde uma abordagem crítica e dialética para questionar o status quo até o pessimismo filosófico que argumenta que a existência é fundamentalmente sofrida. Ele não se resume ao conceito psicológico de pensamentos prejudiciais do dia a dia

Qual tipo de pensamento é mais poderoso: o negativo ou o positivo? Nenhum dos dois é mais poderoso em todas as situações. O pensamento negativo parece mais forte, porque o cérebro humano tem o chamado viés de negatividade, ou seja, lembramos mais de eventos e emoções negativos, pois o cérebro prioriza riscos e ameaças. Isso vem da evolução: prestar atenção ao perigo aumentava as chances de sobrevivência.

Então… qual é melhor? O pensamento negativo é útil para analisar riscos. O pensamento positivo é útil para agir com confiança e continuar avançando. O mais “poderoso”, na prática, é o equilíbrio: pensamento crítico para avaliar ameaças; otimismo realista para seguir adiante. Em outras palavras, usar o negativo para enxergar o problema; o positivo, para construir a solução.

Sobre a autoajuda. A autoajuda é valiosa quando inspira reflexão e mudança consciente, mas pode ser prejudicial quando promete soluções fáceis para problemas complexos. Ela funciona melhor quando é crítica, realista e aplicada à própria experiência. A autoajuda pode ajudar a crescer ou iludir, dependendo do uso. O ideal é encará-la como ferramenta, não como verdade absoluta.

O meio-termo proposto por Aristóteles é o fundamento do pensamento crítico. Em tudo o que se nos apresenta à mente, ponderemos, analisemos os prós e os contras e teremos uma visão mais clara da realidade.

Fonte de Consulta

IA

06 janeiro 2026

O ChatGPT e o Pensar

Questão: o ChatGPT ajuda-nos a pensar ou pensa por nós?

Em sua resposta, o ChatGPT procurou explicar o significado do pensar no sentido humano, esclarecendo-nos que envolve coisas como dar sentido à experiência, fazer julgamento de valor, decidir o que é importante, ter intuição, criatividade, emoções e intenções. Esses elementos não existem em um modelo de linguagem. Nesse sentido, o ChatGPT ajuda-nos a pensar, mas não pensa por nós.

O que o ChatGPT faz, então? Reconhece padrões em textos, combina informações, propõe possibilidades, organiza ideias e caminhos, oferece contrapontos e alternativas. Consequentemente, isso pode acelerar o nosso raciocínio, ampliar nossas perspectivas, estruturar nossos argumentos e sugerir-nos outros ângulos de análise. Em outras palavras, funciona como uma ferramenta de pensamento, não um substituto do pensar.

Quando o ChatGPT “parece” estar pensando por nós? Isso acontece quando aceitamos as respostas sem questionar, usamos o modelo como autoridade final e delegamos o julgamento crítico. Nesse caso, o risco não é a IA “pensar demais” — é nós pensarmos de menos. Lembremo-nos de que toda ferramenta forte exige uso crítico. Qual o melhor modo de atuação? Termos sempre a IA como parceira do raciocínio, no sentido de explorar ideias, testar hipóteses, pedir contra-argumentos, organizar pensamentos e aprender a revisar conceitos.

Em termos filosóficos, o ChatGPT não tem consciência, quer dizer, não pensa no sentido forte, não compreende, apenas manipula linguagem. Logo, não produz sentido existencial. Mas, pode funcionar como extensão do pensamento humano, ampliando possibilidades de reflexão e diálogo. Assim, numa leitura filosófica, ele não pensa por nós, contudo pode modificar a maneira como pensamos.

Ética e responsabilidade moral. Do ponto de vista moral, a IA não pensa no sentido responsável do termo, pois pensar exige consciência, valores e decisão. Logo, não há transferência de responsabilidade. O risco ético não é a IA “pensar por nós”, mas nós deixarmos de pensar por nós mesmos. Dessa forma, o uso eticamente maduro é utilizar a IA como apoio ao raciocínio, mantendo a autonomia, o julgamento e a responsabilidade humanos.

Autoria e criatividade. A dúvida que surge: quem é o autor? quem cria? onde está a originalidade? De acordo com o ChatGPT, em termos éticos e filosóficos, a IA não é autora, não cria com intenção ou experiência, não produz sentido próprio. Ela pode ampliar o processo criativo, enriquecer a reflexão e estimular novas formas de expressão. Mas, a autenticidade, a decisão estética e a responsabilidade criadora permanecem humanas.

Fonte de Consulta

ChatGPT

 

06 dezembro 2025

Arrependimento

Arrependimento. Angustiante reconhecimento da culpa.  É um sentimento de pesar ou remorso que surge quando uma pessoa acredita que cometeu uma ação errada ou fez algo que não deveria ter feito. Percepção de que a escolha teve repercussões negativas para si mesma ou para outras pessoas. Pode ser em relação ao passado como ao futuro (decisões adiadas e, caso tivessem sido tomadas, os resultados poderiam ser completamente diferentes).  

Nas 95 Teses, documento escrito por Martinho Lutero (1483-1546) que questionava práticas da Igreja Católica, especialmente a venda de indulgências, e afixada, em 31 de outubro de 1517, na porta da Igreja do castelo de Wittenberg, há alusão ao arrependimento verdadeiro, ou seja, o perdão dos pecados vem do arrependimento sincero, não de pagamentos. Lutero abre as teses afirmando que o arrependimento verdadeiro é uma mudança contínua de vida, não algo que pode ser resolvido com um simples pagamento ou ritual.

Para a religião, a liberdade identifica-se com o sacrifício. As propostas são de renúncia à própria personalidade, de obediência à vontade de Deus e de arrependimento pelas más ações cometidas. Procedendo desta forma, vivenciaremos plenamente o bem e tornar-nos-emos bem-aventurados no reino dos céus. Lá receberemos as recompensas pelo esquecimento da injúria, pelo perdão concedido aos nossos ofensores e pela quietude do espírito nas situações críticas da existência.

Os filósofos estão de acordo em admitir o valor moral do arrependimento. Espinosa, embora julgue que o arrependimento “Não é uma virtude, isto é, não deriva da razão” e que, portanto, quem se arrepende é duplamente miserando e impotente (uma vez porque agiu mal e depois porque se aflige com isso), reconhece que aquele que está submetido ao arrependimento pode, todavia, a voltar a viver segundo a razão muito mais facilmente do que os outros. Montaigne, que dedicou ao arrependimento um de seus ensaios mais notáveis, observara, porém, que o arrependimento não deve transformar-se no desejo “de ser outro”. (1)   

Para Schopenhauer, o arrependimento não é sobre a vontade mudar (o que é impossível), mas sobre o conhecimento mudar, levando a pessoa a se arrepender do que fez em vez do que quis, pois agiu sob falsas noções; ele é uma forma de o caráter adquirido (o eu) se aperfeiçoar, revelando uma discrepância entre o querer e o fazer, um tormento que, ao ser reconhecido, pode levar à negação da Vontade de Vida e à paz interior, mas também pode ser visto como um sofrimento pela descoberta de sua própria essência imutável. (2)

(1) ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Mestre Jou, 1970.

(2) Vista geral de IA

11 outubro 2025

Mantra

Mantra — do sânscrito man ou manas (mente) e tra (instrumento ou ferramenta) —, significa literalmente “instrumento da mente” ou “ferramenta para direcionar o pensamento”. Um mantra é uma repetição focalizada de sílabas, palavras ou frases que ajudam a concentrar a mente e o corpo, favorecendo processos de transformação interior. Sua prática combina som, ritmo e intenção, permitindo que o indivíduo encontre um estado de serenidade e clareza mental.

A origem dos mantras remonta à Índia, por volta de 1500 a.C., especialmente aos Vedas, os textos sagrados mais antigos do hinduísmo. Para os védicos, o mantra era uma fórmula sagrada composta de sons e sílabas com o poder de invocar, proteger ou transformar a consciência. Esses sons eram considerados vibrações espiritualmente eficazes, utilizadas em rituais, meditação e devoção. Um mantra amplamente reconhecido é o som primordial Om, que, segundo os Upanixades, representa toda a criação e a unidade de todas as coisas do universo.

Fora das tradições religiosas, passou a designar qualquer frase repetida com frequência que contenha uma verdade essencial ou um princípio orientador. Exemplos disso são expressões como “um dia de cada vez” ou “fazer o bem sem ostentação”. O psicólogo e farmacêutico francês Émile Coué (1857–1926) adotou esse princípio em sua famosa fórmula: “Todos os dias, de todas as maneiras, estou cada vez melhor” (Tous les jours, à tous points de vue, je vais de mieux en mieux), posteriormente adaptada no Brasil para “Todos os dias, sob todos os aspectos, eu vou cada vez melhor”.

Coué foi o criador do método da autosugestão consciente, uma forma de reprogramação mental baseada na repetição positiva. Ele acreditava que a imaginação e a crença influenciam diretamente o comportamento e a saúde. Por isso, recomendava repetir sua frase preferida duas vezes por dia, vinte vezes seguidas, com calma e convicção, para reeducar o inconsciente. 

A neurociência contemporânea entende o mantra como uma forma de repetição sonora e rítmica que ajuda a focar a atenção, reduzir a dispersão mental e induzir estados de calma. Estudos indicam que essa prática diminui a atividade do córtex pré-frontal — área associada à preocupação e ao pensamento analítico —, enquanto ativa o sistema límbico, ligado às emoções, e regula o sistema nervoso autônomo. 

Com relação ao sistema nervoso, temos: 1) benefícios fisiológicos: redução da frequência cardíaca, da pressão arterial e o relaxamento muscular; 2) benefícios psicológicos: diminuição da ansiedade, o aumento da clareza mental, o foco e a sensação de bem-estar. 

Em síntese, repetir um mantra acalma o cérebro, regula a respiração e harmoniza corpo e mente. 

Fonte de Consulta

ARP, Robert (Editor). 1001 Ideias que Mudaram a Nossa Forma de Pensar. Tradução Andre Fiker, Ivo Korytowski, Bruno Alexander, Paulo Polzonoff Jr e Pedro Jorgensen. Rio de Janeiro: Sextante, 2014.

ChatGPT (inclusive com sua ajuda para melhorar o texto final).

27 setembro 2025

História da Filosofia: uma Síntese

SUMÁRIO: 1. Introdução. 2. Considerações Iniciais. 3. Filosofia Antiga: 3.1. Pré-Socráticos; . 3.2. Período Clássico ou Grego Romano. 4. Filosofia Medieval. 5. Filosofia Moderna. 6. Filosofia Contemporânea. 7. Conclusão. 8. Bibliografia Consultada.

1. INTRODUÇÃO

O objetivo deste trabalho é sintetizar a história da filosofia, salientando os aspectos relevantes em cada um de seus períodos: filosofia antiga, filosofia medieval, filosofia moderna e filosofia contemporânea.

2. CONSIDERAÇÕES INICIAIS

A filosofia difere da ciência, porque necessita da história. Nenhum filósofo começa do zero, mas acrescenta ao que o filósofo precedente já descobriu. Pode-se dizer que a história da filosofia é a soma das contribuições que cada filósofo deu ao quebra-cabeça que é a experiência humana. Vem um filósofo e dá uma solução, e todos aclamam como a melhor; tempo mais tarde, vem outro e dá outra solução para o mesmo problema, e assim sucede no tempo.

12 setembro 2025

Empirismo e Racionalismo

“Pensamentos sem conteúdo são vazios; intuições sem conceitos são cegas.” (Kant)

Desde tempos remotos, tanto o empírico quanto o racional sempre tiveram os seus defensores. A tradição filosófica nos mostra duas posições clássicas diante do conhecimento: a platônica ou socrático-platônica, que envolve a questão da reminiscência, das ideias inatas, e a sofistica ou empírica que se refere apenas aos nossos sentidos. Há entre esses dois campos numerosas escolas e subescolas. Este problema perdurou ao longo dos séculos.

Sobre a origem do conhecimento. Para o empirismo, o conhecimento nasce da experiência sensível (dos sentidos). A mente é uma “página em branco” que vai sendo preenchida. Para o racionalismo, o conhecimento verdadeiro tem origem na razão. A experiência pode enganar; a mente já traz princípios inatos ou lógicos que orientam o saber. John Locke, George Berkeley e David Hume são os defensores do empirismo; René Descartes, Baruch de Spinoza, Gottfried Leibniz, do racionalismo.

O papel da percepção. Para o empirismo, a percepção é o ponto de partida de todo conhecimento. A mente — tabula rasa (Locke) —, começa absorvendo as ideias simples (cor, forma, som). Depois, essas ideias simples vão se tornando mais complexas (cadeira, amizade, justiça). Tudo começa com a experiência sensível. Para o racionalismo, a percepção pode enganar; só a razão garante certeza.

Sobre o Método. Para o empirismo, utilizamos o método indutivo, base da ciência experimental moderna (observação — hipótese — teste). Em se tratando do racionalismo, aplicamos o método dedutivo, como na matemática e na lógica (partir de princípios evidentes — deduzir consequências).

Interligação entre empirismo e racionalismo. Muitos filósofos posteriores (como Kant) perceberam que razão e experiência são inseparáveis: A experiência fornece o conteúdo.  A razão fornece a forma, a organização e os princípios. Exemplo: na ciência moderna, a observação empírica é indispensável, mas só ganha sentido quando analisada por hipóteses e raciocínios lógicos. São faces complementares da busca da verdade.

Em síntese, o método científico moderno equilibra percepção (empírica) e razão (racional) para construir um conhecimento mais confiável.

04 setembro 2025

Adversidade

Adversidade — Refere-se a uma situação, condição ou evento que representa um obstáculo, dificuldade, ou desafio na vida de uma pessoa. São circunstâncias desfavoráveis que podem gerar sofrimento, estresse, frustração e até mesmo perdas. Martin Heidegger expressou, em sua filosofia, que de alguma forma somos lançados no mundo e não conseguimos nunca encontrar um ponto de apoio firme.

Tenhamos em mente que a adversidade é inevitável. Cabe-nos, em razão disso, tirar proveito das diversas situações em que nos encontrarmos. Observe que a mente humana é intolerante a limitações e restrições: ela reflete sobre o passado e lança planos para o futuro. Esse trabalho de imaginação gera desconforto, tensão, pois a capacidade de enxergar quantas coisas poderiam ser diferentes das do que são enfatiza a insaciabilidade inerente à alma.

Cada um de nós é fonte de muitas sensações positivas e negativas, “um moinho de desejos”, em que tudo se esvai rapidamente. Platão, por exemplo, via os seres humanos como baldes furados: despeje agua neles e, em vez de permanecer no lugar, ela vaza toda pelo fundo. Possuímos desejos, mas ao mesmo tempo estamos presos a eles. A própria atividade humana é uma forma de distração, uma tentativa de nos livrarmos da sensação do vazio.

Algumas notas: 1) apesar da utilidade das redes sociais, elas tendem muito mais para distrações; 2) vício em drogas, álcool, o jogo e a obesidade servem exclusivamente para preencher o espaço vazio que nos assombra; 3) fugir ao tédio [sensação de vazio existencial] é buscar algo novo, no sentido de contornar a confusão interior; 4) o budismo elaborou técnicas mentais para aceitar o vazio dentro de nós.

Administrando a adversidade: 1) a primeira coisa é aceitar que a vida nunca estará inteiramente livre da adversidade; 2) praticar o olhar cético, entendendo que as coisas que não sabemos são muito maiores das que sabemos acerca da condição humana; 3) a vida é misteriosa e nossas ações obscuras; 4) não permitir que nossa opinião enalteça a convicção de que sabemos; 5) aqueles que acham ter as respostas ficam geralmente muito ácidos para impô-las aos outros.

A maneira como as pessoas reagem à adversidade é o que a torna um conceito tão importante. Lidar com a adversidade pode ajudar a desenvolver resiliência, força interior e capacidade de adaptação. É um catalisador para o crescimento pessoal, pois nos força a confrontar nossas limitações e a encontrar novas soluções e perspectivas.

Para reflexão

"Suportar a nossa sina é vencê-la." (Thomas Campbell) / "Na adversidade a maior consolação é a consciência das boas ações." (Cícero) / "Um homem habituado à adversidade, dificilmente se abate." (Samuel Johnson) / "À beira de um precipício só há uma maneira de andar para a frente: é dar um passo atrás". (M. de Montaigne) / "A adversidade é nossa mãe, a prosperidade é apenas a nossa madrasta." (Montesquieu) / "Quem não sabe suportar contrariedades nunca terá acesso às coisas grandiosas." (Provérbio Chinês) / "O pessimista queixa-se do vento, o otimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas." (William George Ward).