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11 novembro 2009

Ensaios (Montaigne)

Michel Eyquem de Montaigne (1533-1592) nasceu e morreu na França. Seu pai era um rico comerciante de vinho, o qual teve oportunidade de proporcionar-lhe educação esmerada, sendo que, aos 13 anos de idade, sabia mais latim do que francês. Montaigne ficou famoso pelos seus Ensaios, dividido em três livros, escritos de 1580 a 1588. Muitos usufruíram de suas lições. Na lápide de Auguste Collignon, morto em 1830, aos setenta e oito anos, havia a seguinte inscrição: “vivera para fazer o bem, tendo haurido suas virtudes nos Ensaios de Montaigne”.

Toda a filosofia de Montaigne está condensada no lema socrático: Que sais-je? ("O que é que eu sei?"), que ele mesmo mandou cunhar numa moeda. Este lema explica-se pelo ceticismo. Trata a filosofia como um saber presunçoso. "A presunção é nossa doença natural e original", e a filosofia em seus altos voos metafísicos, é apenas um produto da vaidade humana. A razão, pensa Montaigne, não pode alcançar certeza alguma, mas o homem tem de se acostumar a viver na incerteza, e suportá-la estoicamente.

O objetivo dos Ensaios era deixar com amigos e conhecidos um retrato mental dele próprio, inclusive com os seus defeitos, sem método de classificação dos assuntos. Ele dizia: “Não pinto o ser, pinto a passagem, não a passagem de uma idade a outra, de sete em sete anos, como diz o povo, mas dia a dia, minuto a minuto”. Partia de si mesmo, tentando uma generalização do ser humano. Aproveitava o ensejo para combater o egoísmo e o preconceito que grassava na sociedade.

As suas ideias eram fundamentadas nos grandes escritores do passado, principalmente Plutarco. Os pensadores estoicos influenciaram-no sobremaneira. As suas inspirações vinham deles. A sua tese educativa visava a formação do juízo (particular e moral) mais do que a do juízo científico. Para Montaigne, a filosofia é a arte de conhecer para aprender a “viver bem” e a “morrer bem”.

Alguns pensamentos extraídos dos Ensaios: “Duvidar, negar mesmo, não é deixar de aprender”; “Por diversos meios chega-se ao mesmo fim”; “As ações julgam-se pelas intenções”; “Nas terras ociosas, embora ricas e férteis, pululam as ervas selvagens e daninhas, e para aproveitá-las cumpre trabalhá-las e semeá-las a fim de que nos sejam úteis”; “Uma mesma linha de conduta pode levar a resultados diversos”; “O homem não cede a outrem a glória que conquistou”.

Segundo a crítica, Montaigne é um naturalista sem pretensão, que se compraz nas observações de cada dia. Longe de ser um estado doloroso da alma, a dúvida é, para ele, o seu estado ordinário, uma espécie de crepúsculo psicológico cheio de uma forma indecisa, e que gosta de prolongar porque se sente à vontade, independente e desligado. Quando suspendia o juízo não era para desanimar as boas vontades: reservava o seu juízo para momento mais propício, pois nada lhe custava ficar na incerteza.

Cada pessoa é única. Montaigne, por exemplo, foi o primeiro filósofo a inaugurar os ensaios, sem classificação alguma. A sua única preocupação era a de registrar a tensão formada em seu ser em seu pensamento.

 

02 julho 2008

Pascal e sua Obra, Os Pensamentos

Blaise Pascal, matemático, cristão e filósofo, nasceu em 1623, em Clermont-Ferrand, na França. Viveu apenas 39 anos. Escreveu várias obras científicas, tais como, o Ensaio sobre as Cônicas e o Tratado sobre o Vácuo (1651). Os Pensamentos, porém, é seu trabalho mais conhecido. Nesta obra, segue a mesma linha de raciocínio dos aforismos de Heráclito, ou seja, condensa as suas idéias em fórmulas curtas e fortes, deixando, ao leitor, a incumbência de desdobrá-las mais tarde.

Os Pensamentos, redigido após a sua morte por parentes e amigos, tem uma tese central, que é a proeminência da religião sobre a filosofia e a ciência. A intenção de Pascal era a de sensibilizar os incrédulos. Pascal tem que usar a razão e a argumentação, únicos instrumentos que seu interlocutor reconhece. Vislumbra o tema miséria e grandeza do homem e pensa essa contradição. A obra pode ser considerada, também, uma crítica ao racionalismo de Descartes. Nesse sentido, usando o solo da razão e da experiência para investigar a condição humana, diz: "O coração tem suas razões que a razão não conhece".

No tema da miséria e da grandeza do homem, ele exalta a sua crença no Deus católico. É a metáfora do homem decaído (o que está na miséria): o que se afastou de Deus. Nele vai imperar a fuga para o divertimento. Nesse caso, qualquer coisa o atrai, qualquer coisa, por mais insignificante que seja, o diverte. Isto acontece porque o ser humano não soube penetrar no âmago da religião. Uma vez compenetrado da sua importância perante o Criador do universo, todo o eixo de sua vida se modificará.

Deduz-se de os Pensamentos que há dois tipos de opiniões: a dos homens e a dos filósofos. A opinião "dos homens" (pessoas comuns): acreditam poder alcançar a felicidade conquistando algo (uma propriedade, uma vitória na guerra, um tipo conhecimento). A opinião dos filósofos: criticam as pessoas comuns, incapazes de ver que a felicidade não está nas coisas conquistadas, mas no interior do homem, no conhecimento que este tem de si mesmo. Para Pascal, tanto uns quantos os outros carecem de um conhecimento superior, isto é, aquele fornecido pela religião.

Para explicar que nem os homens comuns, nem os filósofos alcançam a felicidade, ele lança mão da "razão dos efeitos", extraída de seus estudos físicos e matemáticos. A idéia é simples: colocam-se objetos ou figuras dentro de um cone. Olhando-os horizontalmente, tem-se uma visão parcial (os objetos adquirem vários contornos); olhando-os de cima para baixo, tem-se uma visão mais acurada. Comparativamente, se olharmos a vida sob a inspiração divina, teremos uma visão mais ampla, do que simplesmente olhando-a do ponto de vista do homem comum ou mesmo do filósofo.

A crença religiosa de Pascal era tão firme, que o fez dizer que as suas descobertas geométricas nada significavam, porque elas não o ajudavam a salvar a sua alma.

Fonte de Consulta

BIRCHAL, Telma de Souza. Pascal e a Condição Humana. In: FIGUEIREDO, Vinicius (org.). Filósofos na Sala de Aula. São Paulo: Berlendis & Vertecchia, 2007, vol. 2.