Título: Lições de Estoicismo: O que os filósofos antigos têm a ensinar sobre a vida
Autor: John Sellars
Rio de Janeiro: Sextante, 2023.
E se alguém lhe dissesse que grande parte do sofrimento em sua vida se deve simplesmente à sua forma de encarar as situações? E se você descobrisse que a capacidade de evitar todas essas coisas está totalmente sob seu controle?
Sêneca é conhecido por seu papel como tutor do imperador Nero, Epicteto foi um escravizado que conquistou a liberdade e acabou por criar uma escola filosófica e Marco Aurélio foi imperador de Roma.
Zenão decidiu traçar uma carreira independente como professor e começou a lecionar no Stoa Poikilê ou "pórtico pintado", no centro de Atenas. Ele logo reuniu um grupo de seguidores, que passaram a ser conhecidos como estoicos — pessoas que se reuniam em Stoa. O que conhecemos hoje de seus pensamentos se baseia em citações e resumos de autores posteriores.
Já quanto aos nossos três estoicos romanos, temos vestígios literários substanciais. Acreditavam o que tinham para oferecer era uma terapia para a mente.
Epicteto significa, em grego, "adquirido".
Nos seus primeiros diálogos com Platão, Sócrates argumenta que a missão do filósofo é cuidar da alma das pessoas, tal como um médico cuida do corpo. Alma deve ser compreendida como mente, pensamentos e crenças, e não como algo imaterial. A condição da alma determina a qualidade de nossa vida. O dinheiro em si não é bom nem ruim. É o caráter de quem o possui que define se ele será bem ou mal utilizado.
O que isso nos revela? Que o verdadeiro valor — a fonte do que é bom ou mau — reside no caráter da pessoa que tem o dinheiro, não no dinheiro em si. Primeiro, cuidar do caráter; o dinheiro vem depois.
Para os estoicos, sucesso profissional, dinheiro e reputação são considerados "indiferentes". Um caráter excelente e virtuoso é bom de verdade; um caráter perverso, é mau; todas as outras coisas são indiferentes.
Na linguagem cotidiana, poderíamos dizer que tudo que nos beneficia é "bom", mas Zenão, seguindo Sócrates, quis reservar a palavra "bom" para um caráter excelente e virtuoso. "Indiferentes preferenciais".
Mas o que significa exatamente cuidar da alma? Quais são os requisitos para se ter um caráter excelente? Significa ser virtuoso. Significa, em especial, ser sábio, justo, corajoso e prudente — as quatro virtudes cardeais, segundo os estoicos.
O médico-filósofo é capaz de oferecer tratamentos que nos possibilitem voltar aos trilhos.
Que aspectos de sua vida você de fato é capaz de controlar? Doença? Acidente? Morte de familiar? Sucesso financeiro? No Manual de Epicteto há exposição daquilo que está ao nosso alcance — incluem nossos juízos, impulsos e desejos. Tudo o mais está, no fundo, fora do nosso controle.
Temos controle somente sobre certo conjunto de ações mentais. Só temos total controle sobre nossos juízos, isto é, sobre o que pensamos a respeito das coisas que nos acontecem. Apenas um caráter virtuoso é genuinamente bom. Se conseguirmos nos tornar mestres de nossos juízos, teremos
total controle de nossa vida.
Se seu bem-estar depende de um relacionamento romântico, uma ambição profissional, posses materiais, certa aparência física ou algo do tipo, isso quer dizer que você entregou sua felicidade aos caprichos de algo ou de outra pessoa.
Epicteto, em seu Manual, sugere que pensemos em nossa vida como se fossemos atores de um espetáculo. Não escolhemos o nosso papel, não cabe a nós decidir o que acontece e não temos controle sobre a duração da peça.
Lembremos: embora tenhamos controle sobre nossas ações, não temos como controlar suas consequências. Se vincularmos nossa felicidade à conquista de um resultado específico, corremos o risco de nos frustrarmos. Aceitar o que acontecer e lidar com isso, em vez de lutar contra a situação.
Aplicando as lições do estoicismo podemos alcançar o que Zenão chamou de “um fluxo tranquilo de vida”.
Tornar um hábito: de manhã, preparar mentalmente o dia; à noite, refletir sobre os atos praticados, tal qual fazia Santo Agostinho.
Um homem conta
a Epicteto que o irmão está irritado com ele e pergunta o que fazer a respeito
da situação. Resposta: “nada”. Em seguida, ensina-nos que o homem pode
controlar a sua reação à raiva do irmão. O problema imediato, portanto, não é
com o irmão, mas com o homem que foi se queixar.
Quando os antigos estoicos recomendavam que as pessoas evitassem emoções, estavam falando principalmente das negativas, como raiva, ressentimento, impaciência. Crisipo afirmava que as emoções têm o caráter de correr muito depressa. Depois de tomar certo impulso, você não tem como parar de repente.
Calígula, Cláudio e Nero tinham o poder de decidir sobre a vida e a morte de inúmeros indivíduos, sobretudo do próprio Sêneca. Conta-se que Calígula tinha inveja do saber de Sêneca. Em seu ensaio Sobre a ira, Sêneca compara emoções como raiva e inveja à loucura temporária.
A raiva, como todas as emoções, é resultado de um juízo que se origina na mente. Isso significa que é algo que podemos controlar ou pelo menos que podemos tentar evitar no futuro.
Segundo Sêneca, existem três etapas no processo: 1) reação natural fora de nosso controle; 2) um juízo, que é uma resposta à experiência e está sob nosso controle; 3) uma emoção, que uma vez desencadeada, está fora do nosso controle.
Lembre-se: não basta ser agredido ou insultado para que alguém seja prejudicado, é preciso que a pessoa acredite estar sendo prejudicada.
Se alguém nos fez uma crítica, paremos para avaliar se o que foi dito é verdadeiro ou falso. Se for verdadeiro, a pessoa apontou uma falta que podermos corrigir. Portanto, foi benéfica. Se for falso, a pessoa que o fez é a única prejudicada.
Para os estoicos romanos, a vida é repleta de adversidades, e uma das missões da filosofia é ajudar as pessoas pelos altos e baixos da existência. Durante o século I d.C., Sêneca teve de enfrentar a morte de seu filho, o exílio na Córsega por quase uma década, o resgate do exílio (mas apenas sob a condição de que assumisse o papel de tutor do jovem Nero), uma carreira como conselheiro de Nero (posição da qual não podia sair prontamente), a morte de um amigo próximo e, para completar o próprio suicídio forçado.
As adversidades mencionadas encontram-se em seu ensaio Sobre a providência divina, que escreveu quando tinha cerca de 40 anos, e Nero acabara de nascer. Este ensaio concentra-se no seguinte questionamento: por que as pessoas sofrem tantos infortúnios? Sêneca responde de vários pontos de vista. Primeiro, insiste que nada de ruim ocorre realmente, dado que todos os acontecimentos externos não são bons nem maus em sua essência.
Segundo ele, a pessoa boa enxerga todas as adversidades como um treinamento. Tal como o lutador, que prefere enfrentar adversários difíceis, as adversidades funcionam de maneira semelhante: nos permitem expor e treinar nossas virtudes para que possamos melhorar. Deus também envia os desafios mais difíceis apenas para os indivíduos mais capazes. Por outro lado, o excesso de boa sorte é, na verdade, prejudicial para nós.
Para Sêneca, “Vontade de Deus” refere-se ao princípio organizador e não como princípio de uma religião organizada.
Ao escrever para sua mãe, no exílio na Córsega, disse: “o infortúnio perene de fato traz uma bênção, a de acabar por fortalecer aqueles a quem aflige constantemente”.
Para consolar a mãe pela perda do filho, desenvolveu a ideia de que se deve refletir sobre coisas potencialmente ruins que podem ocorrer, de modo que se esteja bem preparado para lidar com elas caso aconteçam.
Sêneca diz que, diante de um infortúnio, é simplesmente ilógico pensar “nunca achei que isso fosse acontecer comigo”.
Em comparação
com a vida de Sêneca, a de Marco Aurélio foi relativamente tranquila. Tornou-se
imperador em 161, com apenas 40 anos de idade, permanecendo no posto até
morrer, em 180. Seu reinado é considerado como um dos melhores do Império
Romano, ainda que tenha passado grande parte em guerra nas fronteiras do norte.
Foi quase no fim da vida que começou a montar as suas meditações.
Suas Meditações teve a primeira impressão no final do século XVI. Nestas meditações, Marco Aurélio mostra um lado muito humano, lutando com as pressões da vida cotidiana, das responsabilidades do ambiente do trabalho e das reuniões sociais.
Um dos temas centrais que perpassa Meditações é o destino. Isso nos leva de volta à preocupação de Epicteto com o controle. Quando jovem, Marco Aurélio leu as Diatribes, cuja influência pode ser percebida em seus escritos.
Marco Aurélio observava a Terra de uma grande altura — como os astronautas fazem hoje — e perceber
como cada país é diminuto.
Sêneca apresenta a Natureza sob o controle de uma divindade paternalista. A visão estoica da Natureza tem muito em comum com a teoria científica do século XX, em que as coisas estão interligadas.
A Natureza estoica, concebida como um organismo inteligente, é regida de acordo com o destino. Por “destino” os estoicos queriam dizer simplesmente um encadeamento de causas. Para os estoicos como Marco Aurélio, aceitar a realidade do destino — da causalidade — é essencial. Nós somos colaboradores do destino e partes do mundo natural que ele governa.
Enquanto Sêneca enfatizava a ordem providencial intrínseca à Natureza, marco Aurélio se concentrava mais na inevitabilidade dos acontecimentos.
Nenhum de nós
sabe quando ou como vai morrer, mas sabemos que um dia tudo o que estamos
vivendo chegará ao fim. Isso levou Sêneca a refletir sobre o valor do tempo e a
melhor forma de usá-lo.
O problema é que desperdiçamos a maior parte do tempo.
Em seu ensaio Sobre a brevidade da vida, Sêneca diz que, para muitos, quando estamos realmente prontos para começar a viver, nossa vida já está quase no fim. Procrastinamos, investimos em coisas de pouco valor ou vagamos pela vida sem rumo, sem foco.
Como, de acordo com Sêneca, podemos assumir o controle de nossa vida e vivê-la ao máximo?
1) Parar de nos preocupar com o que os outros pensam. Nada de impressionar os outros, nada de buscar o apoio deste ou daquele.
2) Ter em mente o fato bruto de que vamos morrer. Por que adiar a vida até que a maior parte dela já tenha passado?
3) Saber no que vale a pena investir. Os poderosos e os ricos, depois de conquistarem tudo, ainda lhes
falta uma coisa: tempo. Tempo para si, para terem paz e tranquilidade, lazer e descanso.
A ideia de viver como se cada dia fosse o último não deve ser levado às últimas consequências. Mas serve simplesmente para nos lembrar que poderia ser.
Referindo a um ente querido, não diga “perdi algo”, mas “o devolvi”.
O objetivo de Epicteto com tudo isso é reduzir nossa ansiedade em relação à morte e acalmar nossa dor perante a perda de entes queridos.
Muito do que vimos até
agora foi autocentrado — egocêntrico e egoísta, um crítico poderia dizer. Não
somos, contudo, entidades individuais e isoladas; somos partes da Natureza.
Epicteto dá um bom exemplo da solidariedade. Um homem importante foi visitar sua escola em Nicópolis. Ele era magistrado e, portanto, supostamente tinha alguma noção dos deveres e responsabilidades que acompanham certos papeis. Conta que fugiu de sua família porque sua filha estava muito doente. Epicteto o censura: 1) obsessão egoísta com os próprios sentimentos enquanto menospreza os dos outros; 2) negligência de seu papel de pai.
Marco Aurélio disse que aprendera muito com Helvídio: “a concepção de uma comunidade baseada na igualdade e na liberdade de expressão para todos, e de uma monarquia preocupada principalmente em defender a liberdade do súdito”.
Ninguém consegue ser feliz quando vive isolado de outros seres humanos; isso simplesmente vai de encontro à nossa natureza como animais sociais.
Como Sêneca, Musônio sofreu nas mãos de vários imperadores, tendo sido exilado por Nero e Vespasiano em diferentes ocasiões.
Muitas ideias aqui
discutidas estão resumidas na carta que Sêneca enviou à sua mãe.
A Natureza quis que não fossem necessários grandes instrumentos para uma vida boa: todo indivíduo pode se fazer feliz. Os bens externos são triviais e não tem muita influência: a prosperidade não engrandece o sábio e a adversidade não o diminui. Pois ele sempre se esforçou para confiar o máximo possível em si e extrair de seu interior toda a alegria.
Refletir sobre as questões que os estoicos abordavam pode ser benéfico para todos nós, mas, como eles insistiram em ressaltar, o verdadeiro benefício só vem se incorporarmos essas ideias em nosso dia a dia. É aí que começa o trabalho mais difícil.

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