11 dezembro 2014

Mentalidade

Tese: Para se formar um caráter superior há necessidade de se desenvolver a mentalidade. 

Mentalidade. Estado de espírito, maneira de pensar, modo de julgar, qualidade mental de um certo indivíduo. Mentalidade superior é aquela que pensa naquilo que quer executar, sem dar atenção ao que as circunstâncias, o ambiente ou os companheiros podem sugerir-lhe. 

Questões: Como se apresenta o estado mental da humanidade? É possível desenvolver a mentalidade? Como? Será combatendo as trevas?

Lourenço Prado, em Forças Invisíveis, lembra-nos de alguns aspectos importantes sobre este tema. Ele diz:

Não podemos produzir luz agindo sobre as trevas, nem produzir a perfeição agindo sobre coisas que não trazem em si a possibilidade de perfeição.

Desenvolver é expressar aquilo que já existe no íntimo. Porém, se nada houvesse em nosso íntimo, por mais que nos esforcemos, nada conseguiríamos.

Não é possível iluminar um lugar escuro espancando as trevas.

O imperfeito tem falta de alguma coisa e é por isso que é imperfeito. Ora, o que falta deve ser fornecido por alguma outra fonte, antes de poder produzir-se a melhora ou o aperfeiçoamento esperado.

Ampliar as qualidades que já existem em nós e não combater o que é externo.

Enquanto pensamos em nossas imperfeições, estamos criando pensamentos imperfeitos, os quais só produzirão imperfeições em nossa vida.

Concentremos nossa atenção na Harmonia, e os desequilíbrios desaparecerão de nossa vida; cultivemos o Amor e receberemos amor dos que nos rodeiam.

Fonte de Consulta

PRADO, Lourenço (Rosabis Camaysar). Forças Invisíveis. São Paulo: Editora Francisco Valdomiro Lorenz (Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento), 2000. 

 

 

 

09 dezembro 2014

Fogo

O que é o fogo? A resposta não é muito fácil. O fenômeno da combustão (fogo) teria sido explicado pela observação dos fenômenos naturais - tempestades, fricção de ramos secos de madeira, erupções vulcânicas etc. Embora se diga que é uma explicação científica, parte-se muito mais de uma interpretação intuitiva e pessoal. Em se tratando dos gravetos de madeira, a fricção produz realmente o fogo?

Gaston Bachelard, em A Psicanálise do Fogo, defende a tese de que o fogo tem um sentido psicológico e, por isso, pode falar de psicanálise do fogo: começa dizendo que a fonte inicial do estudo do fogo é impura: "a evidência primeira não é uma verdade fundamental". Ele afirma que, ao tentarmos explicar o que é o fogo, caímos numa zona objetiva impura em que se misturam as intuições pessoais e as experiências científicas. O fogo tem um sentido social e um sentido natural. 

O sentido social do fogo é mais importante do que o sentido natural. Esta observação leva-nos ao complexo de Prometeu, semelhante ao complexo de Édipo, mas com enfoque no aspecto intelectual: a inteligência do filho quer ultrapassar a inteligência dos seus pais e dos seus mestres. O fogo está associado a uma interdição social, ou seja, como ele queima, a criança deve ficar longe dele. A criança, então, rouba o fósforo do seu pai e vai fazer uma experiência num lugar deserto e distante de sua casa. 

O fogo é um fenômeno que explica tudo. O que muda lentamente se explica pela vida; o que muda rapidamente se explica pelo fogo. Na mitologia, o fogo representa tanto o bem quanto o mal. Há mitos ligados ao temor pelo poder destruidor do fogo; há mitos também ligados à gratidão pelos seus benefícios, à sua pretensa virtude rejuvenescedora. É como se estivesse brilhando no Paraíso e abrasando no Inferno. Enaltece a criança que brinca ao lado da lareira, mas castiga a desobediência de se aproximar demasiadamente de suas chamas. 

O fogo, junto à lareira, assume aspectos filosóficos. O devaneio diante do fogo — reflexão sobre si mesmo — inspira ao ser vivente o desejo de mudança: crescer, melhorar, progredir, rejuvenescer. A destruição é criativa, ou seja, jogar o velho no lixo e abrir a mente para o novo, para a renovação. Bachelard pensa que esse devaneio dá origem ao complexo de Empédocles: "um verdadeiro complexo em que se unem o amor e o respeito ao fogo, o instinto de viver e o instinto de morrer". Nesse caso, o sonho é mais forte que a experiência. 

Saiamos da metáfora e caiamos na real. Não deixemos que as aparências tomem o verdadeiro valor das coisas. 

Fonte de Consulta

BACHELARD, Gaston. A Psicanálise do Fogo. Tradução Paulo Neves. São Paulo: Martins Fontes, 2008. (Tópicos)



26 novembro 2014

Cérebro: Fatos e Crenças

"A solução errada para o problema certo é anos-luz melhor do que a solução certa para o problema errado." (Russell Ackoff)

No livro O Novo Cérebro, o Dr. Nélson Spritzer diz que não vai tratar da autoajuda, mas da auto-propulsão, pois para ele não existe o acaso, mas a sincronicidade.

Começa afirmando que o nosso cérebro pode ser comparado ao funcionamento de um computador: os programas são crenças e sistemas lógicos gerados na mente. As crenças e os sistemas lógicos operam nosso hardware, o cérebro. 

O problema dos fatos e das crenças. 

Qual a diferença entre fatos e crenças? Fatos não se discute, se aceita. Quando você menciona somente os fatos, a possibilidade de aceitação é imediata. Em realidade, discutimos sobre crenças.

Fatos são como as coisas são e crenças são o que pensamos sobre os fatos. O que nos limita na vida, ou nos torna pessoas de sucesso, são nossas crenças sobre os fatos e não os fatos em si: os fatos são neutros. Não são bons nem ruins. O modo como cremos sobre eles faz toda a diferença. 

As crenças podem ser racionais e irracionais. 

Para ele, quem usa crenças irracionais exerce muito controle sobre nós. Observe os grandes ditadores:

Hitler difundia a crença da "superioridade da raça ariana", a crença do IIIº Reich, a crença dos "inimigos do povo" - os judeus.

Stalin enfatizava a crença da conspiração revisionista dos inimigos do regime.

Mao preconizava a sua Revolução Cultural.

Os grandes líderes, religiosos ou não, também lidavam com as crenças das pessoas: Jesus, Maomé, Moisés, Martin Luther King, Gandhi.

Acha que quando nos decidimos por algo, usamos primeiro a emoção e depois a razão para justificar. 

Sempre que aprendemos mais e melhores escolhas, o nosso cérebro tende a adotar aquela que for a melhor. 

Certa vez Thomas Edison testava um de várias centenas de filamentos metálicos para construir uma lâmpada incandescente. Um vizinho se aproximou e disse: "Que pena, Edison. Depois de tanto esforço, você não conseguiu nenhuma resultado". Claro que consegui! Aprendi várias maneiras de como não funciona, devo estar muito perto da maneira certa de fazê-la funcionar!"

O Dr. Nélson Spritzer é médico, Mestre em Cardiologia (UFGRS) e Doutor em Nefrologia (Escola Paulista de Medicina), com inúmeros trabalhos científicos apresentados e publicados no Brasil e no exterior, incluindo prêmios internacionais por pesquisas científicas originais na área da Cardiologia. 

"A mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer." (Mário Quintana)

"Nem sempre o simples é o melhor, mas sempre o melhor é simples." (Autor Desconhecido)

SPRITZER, Dr. Nélson. O Novo Cérebro: Como Criar Resultados Inteligentes. Porto Alegre: L&PM, 1995.

 

14 novembro 2014

Que é um Conceito

Conceito. É a apreensão ou representação intelectual e abstrato da quidade (essência) de um objeto. Concepção. Em sentido geral, é o conjunto de conceitos ou ideias abstratas organizado logicamente num corpo doutrinal. Exemplo: concepção de mundo, de vida, de cosmos. Em sentido restrito, é a operação mental onde se elaboram os conceitos. Pode-se dizer que, em regra geral, conceito é um particular, como um lápis e uma mesa, com a diferença de que ele é mental

O conceito opõe-se à percepção e à intuição. Limita-se a apreender a essência, sem nada afirmar ou negar. É a forma mais simples do pensamento. Contudo, não podemos esquecer da célebre frase de Kant: "A percepção é cega sem o conceito, enquanto o conceito é vazio sem a percepção". 

No estudo do conceito, devemos enfatizar a relação entre compreensão e extensão de um conceito. A compreensão é o conjunto de caracteres de um objeto. Extensão é o maior ou menor número de objeto a que o conceito pode ser aplicado. Daí o princípio: quanto maior a compreensão, menor é a extensão, e inversamente. Exemplificando: a compreensão do cão (animal domesticado) deve estar relacionada com a extensão do simples animal.

Os conceitos estão no centro da atividade cognitiva: a aprendizagem é uma aquisição de conceito; a crença é uma atitude cognitiva acerca de uma proposição; a inferência é uma aplicação de conceitos; o raciocínio é um correlacionamento de inferências. 

Os aspectos relevantes no estudo do conceito são: o invariante. O conceito é um universal que representa particulares. O critério. Para se poder julgar que uma coisa pertence à categoria, o conceito deve especificar uma regra que permita estabelecer sobre a inclusão da coisa na categoria. A aquisição e o formato. A abstração pode ser adquirida por diferentes tipos de representação. A organização. As coisas podem ser agrupadas em categorias e as categorias também podem ser agrupadas em categorias superiores.

Fonte de Consulta

Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia

HARDY-VALLÉE, Benoit. Que é um Conceito? Tradução de Marcos Bagno. São Paulo: Parábola, 2013.



24 setembro 2014

Determinismo e Fatalidade

Determinismo, destino, fatalidade e livre-arbítrio são termos que se complementam no exame de nossas ações. Dentre eles, a fatalidade é o mais enfático. Diz-se que é fatal ou sucedido ou a suceder-se, marcado pelo destino, portanto, do que, necessariamente, tem de acontecer, ou necessariamente aconteceu. Nesse caso, o sujeito não tem mais nada a fazer a não ser aguardar os acontecimentos.

Os gregos antigos acreditavam no poder absoluto das forças do universo. Embora não se sentissem satisfeitos com isso, achavam-se impotentes e deviam obedecê-las. Os pitagóricos, por exemplo, pressupunham o universo como um sistema fechado. Para desvendá-lo, precisavam relacionar as suas partes constituintes, o que seria feito pela decifração dos números. Lembremo-nos de que, para Aristóteles, o universo era governado pelo número.

determinismo pode ser visto como: a) doutrina ontológica — em que tudo ocorre segundo leis ou por desígnio; b) determinismo causal — em que todo o evento tem uma causa; c) determinismo genético — em que somos o que os nossos genomas prescrevem. Observe que essas teses são parcialmente verdades, pois há processos espontâneos, como a desintegração radioativa espontânea e a descarga neurônica. Quanto aos genomas, os fatores ambientais são tão importantes quanto os dons genéticos

Livre-Arbítrio — quer dizer o juízo livre, é a capacidade de escolha pela vontade humana entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, conscientemente conhecidos. Pode-se dizer que é a autonomia que Deus nos deu para errarmos. Qual a relação entre livre-arbítrio e fatalidade? Expliquemos com a seguinte situação: ao nascermos somos postos em determinada circunstância: por exemplo, entre os drogados. Isso é fatal, ou seja, tínhamos que nascer naquele lugar e com aquelas pessoas; o livre-arbítrio diz respeito a ceder ou resistir ao vício da droga.

Deus, em sua infinita bondade, criou as leis naturais. Por essa razão, diz-se que no momento em que quisermos refutar a verdade, seremos por ela refutados. Neste estudo do determinismo, principalmente o determinismo científico, devemos levar em conta o princípio da legalidade juntamente com o princípio do ex nihilo nihil fit.

Fonte de Consulta

BUNGE, M. Dicionário de Filosofia. Tradução de Gita K. Guinsburg. São Paulo: Perspectivas, 2002. (Coleção Big Bang)

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A fórmula do determinismo é causa aequat effectum, causa = efeito, ou efeito = causa, ou ainda: a soma dos antecedentes = consequente, ou consequente = soma dos antecedentes. Mas a causa e efeito sucedem no tempo, e eis aqui um elemento importante que modifica tudo: causa + tempo = efeito; ou soma dos antecedentes + tempo = consequente.

Já não podemos reverter a fórmula porque o tempo é irreversível, porque o tempo não é um elemento estático, transportável. Deste modo, não há semelhança qualitativa entre causa e efeito, mas apenas uma semelhança quantitativa. Ora, como a razão dos racionalistas prefere sempre a quantidade, e quer reduzir tudo a esta, julga que pode reduzir o efeito à causa, igualizando-as. Mas essa igualização é apenas abstrata porque, se examinarmos bem, também não procede, porque há mutação qualitativa. (SANTOS, M. F. dos. Dicionário de Filosofia e Ciências Culturais. 3. ed. São Paulo: Matese, 1965.)







 



17 setembro 2014

Atitude

Atitude é uma reação avaliativa quanto ao posicionamento do indivíduo diante de um objeto. É um dos conceitos básicos da Psicologia Social. Segundo Jean Meynard, “É uma disposição ou ainda uma preparação para agir de uma maneira de preferência a outra. As atitudes de um sujeito dependem da experiência que tem da situação à qual deve fazer face”. É a “Predisposição a reagir a um estímulo de maneira positiva ou negativa”.

O parecer de alguns pensadores sobre a atitude: Dewey, em Conduta e Natureza Humana, considera essa palavra um sinônimo de hábito e de disposição. Lewis, em Uma Análise do Conhecimento e Valor, diz que na atitude o que está presente é captado em seu significado prático e antecipador, como um indício daquilo que está além, no futuro. Stevenson, em Ética e Linguagem, chama de atitude o impulso para a ação que, não se sabe por que, é qualificada de "emotiva", mas acha difícil demais definir precisamente a atitude e, por isso, assume-a no significado mais genérico de disposição para a ação. 

Um estudo das atitudes inclui:

Características fundamentais: 1) intensidade – a mesma atitude favorável a um determinado objeto varia de intensidade, de indivíduo para indivíduo; 2) conteúdo cognitivo – pessoas com atitudes de rejeição a um determinado objeto podem ter conhecimentos distintos sobre o objeto; 3) Diferenciação – uma atitude frente a um objeto pode ser clara (ou nebulosa) para o seu possuidor; 4) Isolamento – uma atitude tomada pelo indivíduo pode estar conectada (ou isolada) das demais atitudes do sujeito. 

Fatores que atuam sobre o desenvolvimento das atitudes: 1) Determinantes culturais - a cultura marca os limites para a atitude se desenvolver, mas dentro desses limites há muito espaço para a diversidade individual. 2) Influência dos pais e dos familiares - contribuem com a orientação e o exemplo. 3) Personalidade - uma personalidade autoritária poderá descambar para as atitudes extremas. 

A mudança das atitudes pode ser feita: 1) Pela mudança de posição do indivíduo dentro do grupo. 2) Pela mudança da situação social do indivíduo. 3) Pelo maior contato com o objeto da atitude. 4) Pelo maior conhecimento do objeto através de informações de outros. 

A preservação das atitudes pode ser feita: 1) Afastamento - evitar toda a informação contrária à opinião já estabelecida, através do afastamento físico. 2) Seletividade da percepção - quando o afastamento não é possível, o indivíduo pode passar a só perceber a informação que confirma sua atitude prévia. 3) Reinterpretação dos dados - a informação será reinterpretada de modo a tornar-se favorável à atitude já estabelecida. 

Fonte de Consulta

ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2012.

ÁVILA, F. B. de S.J. Pequena Enciclopédia de Moral e Civismo. Rio de Janeiro: M.E.C., 1967.

Compilaçãohttps://sites.google.com/view/temas-diversos-compilacao/atitude-e-comportamento



15 setembro 2014

Jung e o Ocultismo

Carl Gustav Jung (1875-1961) era filho de um pastor rural suíço. No seu segundo período na Universidade descobriu um livro sobre Espiritismo, passando depois aos interesses ocultistas mais abrangentes. Três anos mais tarde, voltou ao tema “paranormal”, em virtude de duas explosões, aparentemente sem sentido, que ocorreram em sua casa, uma rachando um sólido tampo de mesa, e a outra quebrando a lâmina de uma faca de trinchar. 

Jung soube, mais tarde, que uns parentes haviam formado um círculo em torno de uma médium, de quinze anos. A partir daí, Jung começou a frequentar essas sessões, por um período de dois anos, cujo material recolhido serviu para sua tese de doutorado. 

Jung fora discípulo de Freud. Freud era relutante quanto ao sobrenatural, principalmente para evitar a fraude. Jung, por sua vez, começou as suas investigações da mente humana examinando uma suposta médium. Até o fim do século XIX, Freud manteve distância do ocultismo, e numa ocasião tentou fazer Jung prometer transformar sua teoria sexual das neuroses num inabalável baluarte "contra a lama negra do ocultismo". Em contrapartida, Jung o chamou de numenosum, uma categoria sagrada e absoluta. 

A experiência com a médium "Srta. S. W." concedeu a Jung os primeiros fundamentos da sua teoria de personalidades subsidiárias, estimulando-o ao estudo dos aspectos filosóficos do ocultismo. Ele não estava interessado no fenômeno em si, mas no conteúdo das comunicações, que dividiu em duas categorias: 1) romances; 2) elaboração de uma complexa cosmologia de tipo gnóstico. 

O sobrenatural foi uma preocupação constante de Jung, desde a infância até a idade adulta. 

Fonte de consulta

CAVENDISH, Ricardo (org.). Enciclopédia do Sobrenatural. Tradução de Alda Porto e Marcos Santarrita. Porto Alegre: L&PM, 1993.

 


05 agosto 2014

Origem dos Números

A origem dos números encontra-se no termo latino “calculus”, visto que os antigos usavam pedrinhas ou conchas para contar. Para manipular os números, havia a necessidade de manter uma forma tangível, que consistia em pedrinhas, nós amarrados em varetas ou talhos em bastões. O inconveniente, porém, era a necessidade de se ter espaços enormes para estocar grandes números.

A escolha de símbolos para representar os números dependeu das modalidades técnicas das escritas das várias civilizações. Dentre esses povos, merece destaque o modo romano de gravar inscrições lapidares: eles substituíram suas bases por letras, tais como V (cinco) e X (dez), fáceis de marcar com um buril nas pedras mais duras. Além disso, criaram arbitrariamente um modo de ler, pois o I antes de X, diminui e I depois de X aumenta, tendo-se, respectivamente, 9 e 11. 

Há inúmeras maneiras de ler os números: direita para esquerda, esquerda para direita, de cima para baixo, de baixo para cima. A ordenação lógica dos algarismos, contudo, conduziu à invenção pelos babilônios da numeração de posição. Convencionou-se que o mesmo sinal não teria o mesmo valor dependendo das diferentes posições que ocupasse no algarismo completo. Um três poderia ser lido como três, trinta ou trezentos, conforme estivesse situado na primeira, na segunda ou na terceira fileira.

Essa descoberta apresentava um inconveniente, ou seja, a de representar uma posição onde não houvesse um número para representar: como distinguir um trinta e dois de um trezentos e dois de um três mil e dois? A primeira ideia que os homens tiveram para resolver esse problema foi colocar um simples ponto toda vez que não houvesse um número a marcar. Mas os babilônios, inventores dessa prática, logo perceberam que haviam criado, ao mesmo tempo, um conceito inteiramente novo: haviam descoberto o zero.

Esse zero que empregamos todos os dias não representa o número, mas a sua ausência. 

Faltava apenas encontrar uma forma gráfica para os dez algarismos de base. Os Romanos meteram mãos à obra. Atribuíram à inicial de cada algarismo escrito em letras o valor desse algarismo. L para cinquenta, C para cem, D para quinhentos, M para mil. Acrescentando a eles o V para cinco e X para dez, conseguiam inscrever os maiores números com um repertório de apenas seis algarismos. 

Os nove números e sua ausência são de fato representados pelos dez algarismos pretensamente “arábico”: 0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9. Pedrinhas e quadros com bolinhas cederam lugar aos mais práticos ábacos e máquinas de calcular geométricas, mecânicas e depois eletrônicas.

Fonte de Consulta

FOSTER, Michaël. Os Números. Tradução de Marina Appenzeller. São Paulo: Martins Fontes, 1986. 


19 abril 2014

Paradoxo

Paradoxo vem do latim (paradoxum) e do grego (paradoxo). O prefixo “para” quer dizer contrário a, ou oposto de e o sufixo “doxa” quer dizer opinião. O paradoxo é uma proposição contrária à opinião comum. É o oposto do que alguém pensa ser a verdade. Representa, também, a ausência de nexo ou lógica. Declaração que se faz sobre as coisas que aparentemente implica alguma contradição, pois uma análise mais profunda faz desvanecê-la.

Segundo Platão, a opinião é faculdade própria, distinta da ciência, que nos torna capazes de “julgar sobre a aparência”. É a existência de algo intermediário entre ignorância e ciência. O que caracteriza o filósofo é o não ser “amigo da opinião”. Não é condenável ir contra a opinião, pois um paradoxo pode ser falso ou verdadeiro. Para Sócrates as opiniões devem ser destruídas, visto que o indivíduo, movido pela sensação, vai adquirindo conhecimentos falsos e incorporando muitos vícios ao seu patrimônio intelectual.

Entre os vários tipos de paradoxos, os mais frequentes são: paradoxo lógico. Exemplo: o paradoxo de Bureli-Forti – chamado do maior número ordinal; paradoxo semântico. Exemplo: paradoxo do mentiroso; paradoxo existencial. Encontra-se em autores de caráter religioso, como Santo Agostinho, Pascal, Kierkegaard e Unamuno. Não é anti-racional, mas pode ser pré-racional. (1)

Pesquisando sobre o termo “paradoxo”, deparamo-nos com diversas situações. O paradoxo da filosofia apriorística mostra que se a filosofia é amor à sabedoria, não podemos restringi-la. A exclusão a priori de algum tema mostra o preconceito da época. O paradoxo da fé em Kierkegaard mostra que na fé o máximo amor de si mesmo convive com o máximo temor de Deus. É um paradoxo, mas a fé é isso mesmo, um paradoxo. Sartre, ao afirmar que “o homem está condenado à liberdade” profere um paradoxo, pois como uma pessoa pode ter liberdade se está condenado a ela?

paradoxo em Frankenstein. A cinematografia faz de Frankenstein um ser com instinto de assassinar crianças, ações contrárias àquelas praticadas pelos seres humanos normais. No livro de Mary Shelley, ele é vegetariano, fala eloquentemente que quase convence o seu criador e o leitor de sua bondade intrínseca. O paradoxo está em ter certeza que conhecemos, mas raciocinamos com uma imagem falsa.

(1) ENCICLOPÉDIA LUSO-BRASILEIRA DE CULTURA. Lisboa: Verbo, [s. d. p.]

 



28 março 2014

Objetivo e Subjetivo

Objeto - do latim objectum, do verbo objicere, lançar ou pôr em frente, propor, expor, opor. Etimologicamente, objeto é o que está frente a, o que se opõe ao sujeito. Palavra de uso comum que assume sentidos muito precisos nas diversas disciplinas científicas e filosóficas. Palavra usada pelo vulgo e que se restringe em sentidos muito precisos nas diversas disciplinas científicas e filosóficas. 

Geralmente, o objeto opõe-se ao sujeito cognoscente. Objeto é o que não é sujeito: engloba tudo o que não é sujeito. A dificuldade surge quando os outros sujeitos são considerados objetos para o sujeito que eu sou. Além disso, usamos o termo objeto para nos referirmos aos animais e às coisas. Nesse caso, percebemos que a divisão sujeito-objeto é vaga e imprecisa. 

Para que o termo "objeto" signifique tudo, menos o sujeito individual, deveríamos nos valer da ontologia, da epistemologia e da teoria do conhecimento. A ontologia descreveria a teoria dos objetos, classificando-os segundo características gerais. A teoria do conhecimento e as epistemologias das diversas ciências da natureza e do homem descrevem as condições em que o objeto se constitui como objeto e o modo como se pode chegar ao conhecimento particular que cada ciência o considera. (1)

Objetividade é característica daquilo que existe Independentemente do pensamento (as Ideias platônicas, por exemplo). Opõe-se a subjetividade. A objetividade de um conhecimento se justifica pela universalidade, pela racionalidade e pela imparcialidade do sujeito cognoscente. Exige ainda a observação e experimentação que garantam a validade das operações.

Subjetivo é o que pertence a um sujeito. O sujeito - do francês sujet, súdito. Em metafísica, designa o ser ao qual se referem as transformações e os acidentes. O sujeito lógico – oposto ao predicado – é aquele do qual se afirma ou se nega algo numa proposição. Do ponto de vista da teoria do conhecimento, sujeito opõe-se ao objeto e representa o espírito cognoscente. O sujeito transcendental — oposto ao sujeito empírico — é em Kant o princípio que, jamais procedendo ele próprio de qualquer experiência, unifica a diversidade da experiência. (2)

Subjetivismo - qualquer tendência ou teoria que privilegie o subjetivo ao objetivo. Frequentemente, pejorativo, o termo pode ser aplicado a vários domínios: à metafísica, em que evoca o idealismo absoluto; à lógica, em que nega que a diferença entre o verdadeiro e o falso existe objetivamente; à moral, à estética e à psicologia. (2)

(1) ENCICLOPÉDIA LUSO-BRASILEIRA DE CULTURA. Lisboa: Verbo, [s. d. p.]

(2) DUROZOI, G. e ROUSSEL, A. Dicionário de Filosofia. Tradução de Marina Appenzeller. Campinas, SP: Papirus, 1993.

 



Niilismo

Niilismo – do latim nihil, nada, é o pensamento obcecado pelo nada, a doutrina da morte de Deus. Pode-se, também, dizer que é “a absolutização do nada”. No espírito do vulgo, o niilismo andou associado às ideias de assassínio e de revolução, pois os niilistas procuravam derrubar as instituições por meio da força. 

Górgias é apontado como o primeiro niilista da história ocidental. Dele vem a frase: “Nada existe; se alguma coisa existisse, não a poderíamos conhecer; e, se a conhecêssemos, não seria comunicável”. Além dele, podemos apontar outros pensadores: Fridegísio de Tours procurou provar que o nada possui algum ser – alguma substancialidade; Mestre Eckhart declara que Deus e o nada, “o anjo, a mosca e a alma” são a mesma coisa; Charles de Bovelles defende a “negação originária das criaturas e da matéria” que é o nada; Leonardo da Vinci anotou: “Entre as grandes coisas que estão abaixo de nós, o ser do nada é imensamente grande”? (1)

No século XIX, por volta de 1860-1870, o niilismo constitui uma corrente de pensamento professada pelos russos Dobroliubov, Tchernychewski e Pisarev. Esta corrente é caracterizada pelo pessimismo metafísico do prolongamento do positivismo de Comte, e, pelo ceticismo com relação aos valores tradicionais: morais, teológicos e estéticos. O princípio fundamental era o individualismo absoluto, a negação dos deveres impostos pela família, pelo Estado e pela religião. (1)

Nietzsche foi o expoente máximo do niilismo. Num fragmento redigido em seus últimos anos de lucidez, ele diz: Niilismo: falta-lhe a finalidade. Carece de resposta à pergunta “para quê?” Que significa o niilismo? Que os valores supremos se depreciaram (VIII, II, 12). Deduz-se que o niilismo é a falta de referências tradicionais, dos valores ideais para as respostas aos porquês da vida. A desvalorização dos valores supremos levaria o ser humano à perda dos seguintes princípios: a) Deus; b) fim último; c) ser; d) bem; e) verdade. Nessa linha de pensamento, lembremo-nos das obras 1984, de Orwell, O Mundo Novo, de Huxley e O Declínio do Homem, de Konrad Lorenz: todas elas mostram-nos a perda da liberdade humana, que se poderia sintetizar na seguinte frase: “Na convicção de lhe dar tudo, essa sociedade reduz o homem a nada e o atira ao abismo do niilismo”. (2)

Passemos do niilismo filosófico ao niilismo religioso. De acordo com as teses materialistas, o nada nos aguarda depois de nossa passagem por este mundo. O Espiritismo, porém, nos apresenta outra versão. De acordo com os seus postulados, percebemos que o Espírito é imortal e viveremos no além-túmulo, sujeitos à Lei do Progresso. O estado de felicidade ou de infelicidade dependerá do que fizemos de bom ou de ruim nesta vida. 

Reflitamos sobre o conteúdo filosófico do niilismo. Entretanto, não nos esqueçamos de analisá-lo sob a ótica do Espiritismo. 

(1) VOLPI, Franco. O Niilismo. Tradução de Rido Vannucchi. São Paulo: Loyola, 1999.

(2) REALE, Giovanni. O Saber dos Antigos: Terapia para os Dias Atuais. Tradução de Silvana Cobucci Leite. São Paulo: Loyola, 1999.

Áudio da Exposição "Niilismo e Espiritismo" em 12/04/2014