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15 setembro 2014

Jung e o Ocultismo

Carl Gustav Jung (1875-1961) era filho de um pastor rural suíço. No seu segundo período na Universidade descobriu um livro sobre Espiritismo, passando depois aos interesses ocultistas mais abrangentes. Três anos mais tarde, voltou ao tema “paranormal”, em virtude de duas explosões, aparentemente sem sentido, que ocorreram em sua casa, uma rachando um sólido tampo de mesa, e a outra quebrando a lâmina de uma faca de trinchar. 

Jung soube, mais tarde, que uns parentes haviam formado um círculo em torno de uma médium, de quinze anos. A partir daí, Jung começou a frequentar essas sessões, por um período de dois anos, cujo material recolhido serviu para sua tese de doutorado. 

Jung fora discípulo de Freud. Freud era relutante quanto ao sobrenatural, principalmente para evitar a fraude. Jung, por sua vez, começou as suas investigações da mente humana examinando uma suposta médium. Até o fim do século XIX, Freud manteve distância do ocultismo, e numa ocasião tentou fazer Jung prometer transformar sua teoria sexual das neuroses num inabalável baluarte "contra a lama negra do ocultismo". Em contrapartida, Jung o chamou de numenosum, uma categoria sagrada e absoluta. 

A experiência com a médium "Srta. S. W." concedeu a Jung os primeiros fundamentos da sua teoria de personalidades subsidiárias, estimulando-o ao estudo dos aspectos filosóficos do ocultismo. Ele não estava interessado no fenômeno em si, mas no conteúdo das comunicações, que dividiu em duas categorias: 1) romances; 2) elaboração de uma complexa cosmologia de tipo gnóstico. 

O sobrenatural foi uma preocupação constante de Jung, desde a infância até a idade adulta. 

Fonte de consulta

CAVENDISH, Ricardo (org.). Enciclopédia do Sobrenatural. Tradução de Alda Porto e Marcos Santarrita. Porto Alegre: L&PM, 1993.

 


22 dezembro 2013

Le Bon e a Psicologia das Multidões

"As multidões, pouco aptas ao raciocínio, mostram-se soberanas à ação." 

A multidão, em seu sentido comum, representa uma reunião de indivíduos quaisquer, independentemente de sua nacionalidade, sua profissão ou seu sexo. Psicologicamente, a multidão possui características distintas do indivíduo (isolado). "A personalidade consciente desaparece e forma a alma coletiva. A coletividade torna-se uma multidão psicológica. Ela forma um único ser e encontra-se submetida à lei da unidade mental das multidões".

A inconsciência e a irracionalidade estão na base de uma multidão. Geralmente, as pessoas em multidão são levadas pelo poder e contágio de um chefe, de um guru, de um líder religioso. Os tutelados ficam cegos diante da ordem do superior; apenas obedecem. Observe que individualmente não tomamos certas medidas, visto raciocinarmos e virmos que aquele ato não é correto. Em multidão, porém, falta-nos o senso crítico. Parece-nos que tudo é permitido, inclusive quebrar o bem público.  

Gustave Le Bon enfatiza o peso da raça na formação pensamento coletivo. Ele diz: "A organização de uma multidão forma-se sobre o fundo invariável e dominante da raça, sobrepõem-se algumas características novas e específicas que provocam a orientação de todos os sentimentos e pensamentos da coletividade numa direção idêntica". Por essa razão, pessoas letradas acabam tendo o mesmo comportamento do de outros integrantes da multidão. 

Le Bon aponta, pelo menos três causas, para diferenciar o indivíduo (só) de ele em grupo.  

1ª) O indivíduo na multidão adquire, exclusivamente por causa do número, um sentimento de poder invencível que lhe permite ceder a instintos que, sozinho, teria forçosamente refreado.

2ª) Contágio mental associado ao efeito hipnótico. Na multidão, todo sentimento, todo ato é contagioso, e contagioso no sentido de sacrificar o seu interesse pessoal ao interesse coletivo.

3ª) É a mais importante das causas, pois determina nos indivíduos na multidão características específicas às vezes muito opostas às do indivíduo isolado. 

Afirmação, repetição e contágio são palavras-chaves para direcionar uma multidão. A afirmação deve ser concisa, desprovida de provas e de demonstração. Pela repetição, a coisa afirmada chega a se estabelecer nos espíritos a ponto de se aceitar como uma verdade demonstrada. Depois de uma afirmação ser repetida há, ainda, a necessidade do contágio. "Nas multidões, as ideias, os sentimentos, as emoções, as crenças possuem um poder de contágio tão intenso quanto o dos micróbios". 

Fonte de Consulta

LE BON, Gustave. Psicologia das Multidões [obra de 1895]. Tradução de Mariana Sérvulo da Cunha. São Paulo: Martins Fontes, 2008. (Coleção Tópicos)

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Gustave Le Bon, médico e sociólogo, nasceu em Nogentle-Rotrou, França, em 1841. Estudou medicina na Universidade de Paris. Escreveu, entre outros livros, L'Homme et les Societés e Les Premières Civilisations. Faleceu em 1931. 

 


22 setembro 2010

Os Complexos Têm Cura?

“As moléstias da mente prejudicam os poderes do corpo”. Ovídio

Os complexos — de inferioridade, Frankenstein, Édipo etc. — incrustam-se em nosso psiquismo, porque não soubemos nos defender quando eles nos visitaram pela primeira vez.

O complexo é um sistema de ideias, sentimentos, recordações e impulsos inter-relacionados, carregados de emoção, que geralmente são reprimidos e que dão origem a um comportamento anormal ou patológico. Os complexos são mentais, e sendo mentais não podem ser curados por alguma injeção de soro ou pela ingestão de comprimidos ou pós. (1)

De acordo com Dodson, em O Universo do Poder Mental, os complexos têm cura. Há, neste livro, vários métodos e estímulos para a erradicação desse mal. O complexo é uma atitude mental assumida por nós mesmos. Nesse caso, podemos substituí-la por outra, ou seja, por ideias que enobreçam o esforço próprio, o caráter e a personalidade.

Para que possamos absorver o poder superior do cosmo, não devemos forçar para que alguma coisa aconteça; permitamos apenas que aconteça. Quando forçamos, estamos sendo influenciados por condições externas; deixando-as seguir o ritmo normal, elas são direcionadas para o rumo certo, rumo este que está de acordo com o poder divino.

Há muitas orientações sobre a condução do nosso pensamento

Quando estivermos cansados, não permitamos que o espírito assim se sinta. Pensemos que é uma coisa passageira e que isso não pode influenciar a quietude de nosso espírito imortal. A dor, o cansaço e o sofrimento são do corpo. O espírito está sempre vivo, desperto, ativo. Paulo, em suas prédicas, já nos dizia que é imperioso levantar as mãos cansadas e os joelhos desconjuntados e persistir no caminho da evolução espiritual.

Na mente cósmica não há dor ou sofrimento. Em vista disso, dizer para nós mesmos que estamos calmos, sossegados e descontraídos, porque o poder divino nos ilumina, é um excelente exercício. Acrescentemos: serei inspirado por essas falanges do espaço. Nada há a temer. O medo é apenas um preconceito dos nervos.

Estendamos esses pensamentos aos nossos vícios. Digamos: eu rejeito todo o pensamento que macule o meu corpo físico, tais como, o álcool e o fumo. O meu corpo, ligado ao infinito bem, não pode ansiar por coisas materiais que lhe possam fazer mal e prejudicar. O fumo aumenta a infelicidade por meios artificiais.

A mudança comportamental não é tarefa fácil. Contudo, qualquer esforço hoje pode render frutos dulcíssimos num futuro próximo.

(1) DODSON, Samuel. O Universo do Poder Mental. Tradução de Luzia Machado da Costa. Rio de Janeiro: Record, s.d.p., p. 103.

 

02 julho 2008

Razões do Inconsciente

A ideia diretriz do pensamento de Sigmund Freud (1856-1939) — o fundador da psicanálise — que passou a maior parte de sua vida em Viena, é que há algo de verdadeiramente profundo na atitude natural das pessoas a respeito de si mesmas e de seus atos. Para Freud, não há nada sem uma razão de ser: um gesto, uma palavra, uma recordação, um esquecimento. Todos esses fatos têm íntima relação com o inconsciente. Por isso, deteve os seus estudos nos sintomas neuróticos, nos atos falhos, nos sonhos e nos demais assuntos correlatos.

Os sonhos tiveram grande peso nas formulações teóricas de Freud acerca do inconsciente: eles representavam a realização de um desejo. Numa de suas Conferências de Introdução à Psicanálise, afirmou: "Eu lhes digo, com efeito, que é muito possível — mais do que isso, muito provável — que a pessoa sonha, apesar de tudo, saiba o que seu sonho significa, só que não sabe que sabe e, por isso, crê que não sabe". Há, portanto, a necessidade de criar um método — o método psicanalítico — para o acesso a essas informações. A seguir, utilizou exaustivamente as técnicas hipnóticas e a "regra da associação livre".

O inconsciente freudiano difere do inconsciente filosófico. Para a filosofia, a representação inconsciente seria uma representação que não representa, ou seja, que não torna algo presente para um sujeito como um aspecto da sua experiência daquilo que ele vive ou sente. Para Freud, esses processos psíquicos (desejos, ideias, intenções), mesmos ausentes da consciência, acabam, ainda assim, influenciando-a. Os filósofos não podiam compreender a sua teoria do inconsciente psíquico porque, para eles, o termo consciência é sinônimo de psíquico.

Franz Brentano, que foi professor de Freud na Universidade de Viena, define a representação do inconsciente como o fez a filosofia, tornando impossível haver representações inconscientes no domínio de nossa experiência, mesmo que elas existissem numerosas em nós; de outro modo, elas não seriam inconscientes. Há, ainda, outras refutações acerca do inconsciente psíquico de Freud. Uma delas refere-se à conceituação de que a consciência é apenas um acidente da representação, não seu atributo necessário e essencial do que seja o mundo espiritual e psíquico do ser humano.

A tese do inconsciente freudiano é a tese de que a pessoa vai passando por experiências. Essas experiências, uma vez registradas em nosso cérebro, nunca mais se perdem, pois elas ficam guardadas no inconsciente do sujeito. E, sempre que for solicitada, pode vir à tona por meio de uma lembrança. Por isso, procurou criar vários métodos de autoanálise, no sentido de extrair do indivíduo aqueles dados que estavam perdidos. Uma vez recuperados, poderiam servir de subsídios para a cura das diversas patologias da alma humana.

Antes de começarmos a discutir, anotemos os conceitos em questão, alertava-nos o filósofo Sócrates. A representação mental do inconsciente é um deles. Tenhamos em mente o significado filosófico e aquele apresentado por Freud.

Fonte de Consulta

SIMANKE, Richard Theisen. Freud ou as Razões do Inconsciente. In: FIGUEIREDO, Vinicius (org.). Filósofos na Sala de Aula. São Paulo: Berlendis & Vertecchia, 2007, vol. 2.

 

 

01 julho 2008

Medo e Motivação

"A esperança e o medo são projeções no futuro acerca de coisas que não controlamos."

A Psicologia tem catalogado muitas informações a respeito da conduta humana. A premissa básica de suas pesquisas refere-se a um estudo pormenorizado das escolhas feitas pelos indivíduos, quer estejam ou não sob o impulso do medo. Para corroborar algumas de suas hipóteses, os psicólogos valem-se dos reflexos condicionados observados nos animais, na esperança de que estudando os seus sentimentos de culpa, de ansiedade e de medo, possam tirar conclusões úteis à melhor compreensão dos seres humanos.

O medo, por exemplo, foi pesquisado entre os ratos. O experimento consistia em colocar ratos numa sala clara, aplicando-lhes um choque elétrico; depois, colocavam-nos numa sala escura, sem o referido estímulo. No primeiro momento, eles renegaram a sala branca e escolheram a escura. Depois de algum tempo, parece que não ligaram mais para o choque elétrico e voltaram para a sala branca. Conclusão: eles somatizaram o efeito inibidor da dor. O nó da questão está em transferir essas conclusões para aplicá-las no ser humano, que possui a linguagem e razão.

Na antiguidade, o medo não era tão intenso quanto nos dias que correm. Sócrates, Platão e Aristóteles, pensadores da Grécia Clássica, davam um outro colorido ao pensamento e à motivação humana. Eles referiam-se à própria vocação do ser humano. Afirmavam que cada indivíduo tinha uma missão e a ela se dedicava totalmente. As pessoas não ficavam perambulando de um lado para o outro, para definir o seu papel na vida: cada qual era o construtor do seu próprio destino e, por isso, não tinham medo.

Atualmente, somos obrigados a conviver com o medo e com a ansiedade. Como o tempo e o dinheiro nunca são suficientes, estamos sempre correndo para cá e para lá em busca da racionalidade e da produtividade, sem percebermos que quanto mais corremos, mais estamos sendo lançados na grande irracionalidade da vida. O produzir por produzir cria em nós muita ansiedade. Não paramos mais para observar as flores e a natureza. Estamos apenas preocupados em estarmos ocupados, presos a algum compromisso, seja de que espécie for.

O conflito entre medo e motivação deve ser resolvido pela ação da vontade. Muitas vezes somos bafejados por uma ideia brilhante, genial e inovadora. Contudo, logo a seguir vem o negativismo, principalmente porque damos mais importância à nossa fraqueza (humana) do que à fortaleza que vem de Deus. Mas, quando centralizamos os nossos desejos e as nossas forças nesse fim maior, que é atender à Vontade do Criador, a nossa mente fica povoada de pensamentos robustos e recobramos novamente o nosso vigor físico, intelectual e moral.

Se a nossa consciência nos indicar que o caminho que estivermos percorrendo é aquele que devíamos percorrer, prossigamos, pois recuar no momento do combate é perder todos os frutos da preparação anterior.

Fonte de Consulta

SAWREY, J. M. e TELFORD, C. W. Psicologia do Ajustamento. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Cultrix, 1974.