04 fevereiro 2026

Epistemologia: Curso de Atualização (Notas de Livro)

Título: Epistemologia: Curso de Atualização

Autor: Mario Bunge

Tradução: Cláudio Navarra

São Paulo: T. A. Queiroz Editora da Universidade de São Paulo, 1980

PREFÁCIO

A ciência converteu-se no eixo da cultura contemporânea. E, sendo o motor da tecnologia, a ciência acabou por controlar indiretamente a economia dos países desenvolvidos. Por conseguinte, quem quiser adquirir uma ideia adequada da sociedade moderna precisa estudar o mecanismo da produção científica, bem como a estrutura e o sentido de seus produtos.

A ciência é hoje em dia objeto de estudo de várias disciplinas, cuja união constitui a ciência das ciências. São elas a Epistemologia, ou Filosofia da Ciência, a História da Ciência, a Psicologia da Ciência, a Sociologia da Ciência, a Política da Ciência e talvez outras mais.

A ciência das ciências contribui em maior ou menor grau para a elaboração de políticas da ciência, ou seja, programas de desenvolvimento (ou de estagnação) da investigação científica e das relações desta com a pesquisa tecnológica. A política científica que venha a ser elaborada dependerá diretamente da Filosofia da ciência que inspire seus planejadores e decisores em matéria política. Uma filosofia idealista sugerirá como modelo da ciência a torre de marfim; uma filosofia empirista inspirará o fomento da pesquisa empírica sem orientação teórica; uma filosofia pragmatista inspirará desprezo pela investigação básica, e assim sucessivamente. Somente uma Epistemologia equilibrada poderá inspirar uma política equilibrada da ciência, uma política que fomente o desenvolvimento integral e ininterrupto tanto da investigação básica como da pesquisa aplicada. Daí a importância política, e não apenas cultural, da Epistemologia em nossos dias.

Este livro trata somente de uma das ciências da ciência, a Epistemologia, que é também a mais antiga de todas elas. Oferece, pois, uma visão parcial da ciência, que o leitor interessado em completar deverá juntar às imagens da ciência fornecidas pela História, pela Psicologia, pela Sociologia e pela Política da Ciência.

Este livro é um curso de atualização que versa problemas epistemológicos de atualidade. Nesse sentido, complementa o tratado sistemático La investigación científica (Ariel, Barcelona, 1969 e edições posteriores) do mesmo autor. Porém, ambos são de leitura independente.

As páginas que se seguem foram expostas em forma de cursos ou conferências, na Universidad Nacional Autónoma de México, na Universidad Autónoma Metropolitana e no Colegio Nacional, também da cidade do México, durante o ano acadêmico 1975-76. A julgar pelas extensas e apaixonadas discussões que se seguiram às exposições, elas estavam carregadas de dinamite intelectual. É meu desejo que algumas delas possam exasperar o leitor, motivando-o a empreender ou aprofundar investigações epistemológicas. Os melhores livros não são os que dão mais, porém os que exigem

Mario Bunge

I — INTRODUÇAO

CAPÍTULO 1 — QUE É, E PARA QUE SERVE A EPISTEMOLOGIA?

A Fernando Salmerón

Instituto de Investigaciones Filosóficas,

U.N.A.M., México, D.F.

1. A recente eclosão da Epistemologia

A Epistemologia, ou Filosofia da ciência, é o ramo da Filosofia que estuda a investigação científica e seu produto, o conhecimento científico. Mera folha da árvore da Filosofia meio século atrás, a Epistemologia é hoje um ramo importante dela.

Para comprovar a afirmação anterior basta atentar para o peso relativo das publicações e dos congressos neste campo. Enquanto há meio século não havia nenhuma revista especializada em Epistemologia, hoje existem pelo menos três de nível internacional Philosophy of Science, The British Journal for the Philosophy of Science e Synthese — assim como algumas publicações nacionais. Também existem coleções inteiras de livros dedicados a temas epistemológicos.

O número de cátedras de Epistemologia multiplicou-se (às vezes excessivamente) e são cada vez mais numerosas as universidades que possuem departamentos ou institutos de Epistemologia, às vezes juntamente com Lógica ou com História da ciência. Realizam-se numerosas reuniões nacionais e internacionais, em particular congressos internacionais quadrienais organizados pela International Union for the History and Philosophy of Science. Existem também diversas organizações nacionais de funcionamento regular, tais como a Philosophy of Science Association (U.S.A.), a British Society for the Philosophy of Science, a Canadian Society for the History and Philosophy of Science, e as novíssimas Asociación Mexicana de Epistemología, Asociación Venezolana de Epistemología e a Sociedad Colombiana de Epistemología, precedidas pela já extinta Agrupación Rioplatense de Lógica y Filosofía Científica e o Grupo Uruguayo de Lógica y Epistemología, também extinto.

CAPÍTULO 2 — QUE É, E QUAL A APLICAÇÃO DO MÉTODO CIENTÍFICO?

A Luís Villoro

Universidad Autónoma Metropolitana

México, D.F.

Ninguém mais duvida do êxito sensacional do método científico nas ciências naturais. Mas nem todos concordam com o que seja método científico. E nem todos acreditam que o método científico possa estender seu braço além do seu berço, a ciência da natureza.

Interessa, pois, examinar ambos os problemas, tanto mais que estão intimamente relacionados. Com efeito, se se concebe o método científico em sentido restrito, identificando-o com o método experimental, então seu alcance fica automática e radicalmente limitado. Mas, quando é concebido em sentido amplo seu domínio de aplicação é ampliado correspondentemente.

Convém examinar periodicamente a natureza e alcance do método científico, uma vez que ele vem variando no decurso de sua brevíssima história de três séculos e meio. O exame apresentado a seguir não é o primeiro e não será o último; existem problemas que se recolocam de quando em quando e, toda vez que isso ocorre, eles são resolvidos de maneira algo diferente. Este é um deles.

1. Das origens à atualidade

Um método é um procedimento regular, explícito e passível de ser repetido para conseguir-se alguma coisa, seja material ou conceitual. A ideia de método é antiga, a de método geral — aplicável a um vasto conjunto de operações — o é menos. Parece surgir, como muitas outras ideias de extrema generalidade, no período clássico grego. Recorde-se, em particular, o método de Arquimedes para calcular áreas de figuras planas com lados curvos.

II — FILOSOFIA DAS CIÊNCIAS FORMAIS

III — FILOSOFIA DA FÍSICA

IV — FILOSOFIA DA BIOLOGIA

V — FILOSOFIA DA PSICOLOGIA

VI — FILOSOFIA DA CIÊNCIAS SOCIAIS

VII — FILOSOFIA DA TECNOLOGIA

VIII — ENSINAMENTOS

 

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