“A filosofia é uma espécie de terra de ninguém, entre a Ciência e a Teologia, sujeita ao ataque de ambas.” — Bertrand Russell
Os princípios elementares da filosofia devem ser apreendidos de forma
progressiva ao longo do tempo: começando pelos pré-socráticos, passando pela
Idade Média com a Escolástica, até alcançar os racionalistas, os empiristas e
outros filósofos modernos, como o próprio Bertrand Russell.
O termo grego Agorazein, que não possui tradução direta para
outros idiomas, remete à ideia de “descer até a praça para ver o que estão
dizendo” — o que envolve conversar, fazer negócios ou rever amigos. Trata-se
também do ato de sair de casa sem um motivo particular: passear ao sol ou
simplesmente desacelerar a mente para aguçar o cérebro e os pensamentos que daí
advêm.
Sócrates é o exemplo clássico dessa atitude. Conta-se que ele saía
rotineiramente de casa para a praça pública (Ágora) com o intuito de
dialogar com as pessoas. Ao abordar especialistas em determinados assuntos,
aplicava o método da maiêutica — uma sequência de perguntas que trazia à tona
as contradições do interlocutor. Tudo isso ganhou força após seu amigo
Querefonte consultar o Oráculo de Delfos, que declarou Sócrates o homem mais
sábio de Atenas; surpreso, o filósofo decidiu testar a profecia nas ruas,
concluindo que sua sabedoria residia justamente em reconhecer a própria
ignorância.
Mas o que é, afinal, a filosofia? Ela atua como um campo intermediário
entre a ciência e a teologia. Enquanto a ciência investiga os fenômenos da
natureza com o recurso da razão, a religião busca algo que supere a capacidade
de conhecer através do intelecto e dos sentidos. É nesse espaço que entra a
filosofia, aproximando-se mais de uma ou de outra a depender do pensador —
oscilando entre o rigor dos racionalistas e a sensibilidade daqueles com um
certo pendor místico.
Convém frisar, contudo, que poucos se interessam profundamente por essa
busca. Por essa razão, frequentemente prevalece o senso comum de que a
filosofia carece de utilidade prática e de que os filósofos apenas divagam
sobre abstrações irrelevantes. Quando inquiridos sobre Platão, por exemplo, a
maioria se recorda imediatamente do “amor platônico”, interpretado de forma
simplificada como um afeto puramente transcendental.
Em vista disso, temos de voltar à praça pública — hoje expandida em uma
aldeia global — e resgatar o exemplo de Sócrates, para que possamos desenvolver
o nosso próprio pensamento e instigar a reflexão daqueles que entram em contato
conosco.
Fonte de
Consulta
CRESCENZO, Luciano de. História
da Filosofia Grega: Os Pré-Socráticos. Tradução de Mario Fondelli. Rio de
Janeiro: Rocco, 2005.
Nenhum comentário:
Postar um comentário